Aretha e a criança de Atena
1 Capítulo 1
Já era madrugada quando tudo aconteceu. Aretha, depois de muito observar a menina de cachos dourados, adormeceu. Do alto da árvore que ficava de frente para a casa branca ela repousava. Era apenas um cochilo, mas algo profundo. Sonhava com um vasto campo florido e um nascer do sol livre de nuvens. Voava com borboletas e corria com cavalos — aquilo era o paraíso. Até que o fogo começou. As flores começaram a queimar, as borboletas voaram para longe e os cavalos relincharam de medo. Foi tudo tão rápido e inexplicável. Aretha apenas se viu cercada por chamas azuis-alaranjadas enquanto ouvia alguém gritar seu nome. Tentava voar, mas suas asas a traiam. Tentava usar sua rajada de ar para tentar afastar o fogo, mas não tinha mais forças. Caiu ajoelhada nas poucas gramas verdes que restavam e ouviu seu nome ser chamado mais uma vez. Mais alto. Com urgência. Não conseguiu distinguir de quem era a voz, mas vinha de um lugar afastado e clamava por ajuda. Aretha então olhou para o céu, pediu ajuda aos deuses e acordou.
Demorou um pouco para entender o que estava acontecendo e, se não fosse pelo brilho do fogo, esse tempo se prolongaria ainda mais. Quando olhou em direção à luz escarlate seu coração doeu. Sem nem perceber, ela fez suas asas voarem em direção à casa branca onde tudo era fogo e o ar não era mais respirável. Seus olhos desesperados procuraram por uma cabeça loira e, quando encontraram, não permitiram ao coração relaxar. A criança que Aretha tanto observou estava caída e suja de cinzas. Aretha se agitou, pegou a menina nos braços e olhou ao redor; mais uma vez ela se viu cercada por fogo. Fechou os olhos com força, forçou-se a pensar em uma solução e, mais rápida que uma flecha acertando um alvo, segurou a criança mais forte e voou em direção ao fogo.
Aretha chegou ao lado de fora com algumas de suas penas queimando, mas a criança estava segura e isso era tudo o que importava. Agora ela só precisava de um tempo para entender o que deveria fazer com a menina desmaiada em seus braços. O mais óbvio no momento, claro, era ir para a floresta. Os bombeiros estavam chegando e não era uma boa ideia uma mulher com asas entregar a menina ferida à eles. E ir para a floresta foi exatamente o que Aretha fez.
— Certo, agora está tudo bem. — Aretha disse à menina quando a colocou encostada numa árvore.
— Ora, por que não me surpreendo? — Uma voz soou atrás de Aretha.
Aretha se virou e, no momento que viu uma cauda de serpente, abaixou o olhar.
— Vamos, dê-me a criança. — A voz de mulher ordenou.
— Por que eu deveria?
— Ah, criança, eu já matei algumas das suas e acho que você não gostaria de ser a próxima.
— Que engraçado, eu poderia dizer o mesmo.
— Jura? — A mulher disse, sínica. — Isso é realmente engraçado. Ouvir que alguém como você foi capaz de matar uma das minhas. — Uma risada desdenhosa ecoou pela floresta. — Ande, criança, passe-me a garota.
Aretha sussurrou um "nunca", o que fez a mulher-serpente grunhir. Aretha então fez suas asas virarem ouro e, ainda com o olhar direcionado ao chão, atacou. A mulher-cobra recuou e investiu, mas Aretha voou e desviou do golpe.
— Pobre alma. Não pode fugir para sempre.
— Por que sempre rouba as minhas falas?
— Olhe para mim se deseja ter uma luta decente. — A serpente avançou e tentou um golpe com a cauda, mas Aretha estava alto demais para ser alcançada.
— É claro, por que não. — Aretha olhou para a cara da mulher que estava a sua frente e sorriu ao ver as serpentes na cabeça dela se agitarem.
— Mas o que....? — A górgona, espantada, olhou para Aretha. Por que diabos ela não havia virado pedra? Não teve tempo para pensar, apenas para desviar de mais um golpe.
Os olhos da menina com asas estavam totalmente brancos e exalando um ar de loucura mas… Isso seria o suficiente para combater o poder de uma górgona?
— Vejo que Atena a preparou bem — A cauda arrastava pelo chão a medida que ela falava. — Para ser capaz de me olhar nos olhos… Por que você seria tão especial? — Mais uma investida novamente evitada.
— Vá embora. — Aretha foi para o chão quando percebeu que a górgona se aproximava aos poucos da criança desmaiada.
— Sinto muito, mas não posso ir sem a criança. — A ponta da cauda saltou na direção de Aretha que, dessa vez, desviou por pouco.. — Você deveria saber.
— E você deveria ir embora antes que eu faça algo que você não goste. — Aretha abriu as asas douradas e mostrou que não desistiria em hipótese alguma.
— Ora essa, você realmente acredita que pode me derrotar, não é? — As cobras na cabeça da mulher sibilaram. — Ouça, filhote de Atena, eu não sou como a outra que você encontrou. Eu tenho muitas de você na minha lista de derrotadas e acredite, não há chances de você me enfrentar sem entrar para ela. — A mulher se colocou em posição de combate.
— É isso o que vamos ver. — Aretha pegou a menina loira nos colos e voou para o céu. Procurou um lugar onde pudesse deixá-la e, quando avistou um baobá gigante, deixou a menina lá e voltou para a batalha..
A górgona tentava rastejar pelo tronco da árvore para alcançar o topo, mas Aretha foi rápida e, com suas penas transformadas em ouro, acertou a serpente e a fez cair. Um corte havia sido feito na cauda da besta.
A górgona tentou atacar a menina que ainda estava com os olhos totalmente brancos, mas não conseguiu. Não seria fácil lutar contra alguém que tem a vantagem do voo. Todas as outras que foram mortas morreram petrificadas, mas a de agora claramente não poderia ter o mesmo fim.
— Está pronta para desistir? — Aretha caçoou.
— Você é bem ousada, garota. Não é como as outras. — A górgona deu um sorriso sarcástico e mostrou as presas. — Será mais prazeroso te matar e exibir suas asas como troféu. — Enlaçou a cauda nas pernas de Aretha e a jogou no chão.
Aretha sentiu o baque e gemeu de dor. Suas asas não sofreram, mas suas pernas estavam raladas e sangravam um pouco. Com esforço, conseguiu se levantar antes que a mulher-cobra chegasse. Levantou vôo e bateu as asas o mais forte que conseguiu, fazendo a górgona voar longe e bater numa árvore. O tronco quebrou e algumas partes dele perfuraram as costas da mulher.
— Talvez eu use sua cabeça como troféu. — Aretha riu e foi em direção à árvore quebrada.
— Você realmente é melhor do que as outras. — A górgona não largou o sorriso de desprezo, mesmo com todo o sangue que escorria pela sua boca.
— Seu dia de azar então. — Aretha ficou cara a cara com a mulher e sorriu. — Eu disse para ir embora enquanto ainda era tempo.
A górgona riu e, mesmo com poucas forças, tentou atacar novamente. Aretha apenas recuou e a atacou com as asas douradas.
— Eu nunca vou entender o porquê de todo esse ódio. — Sibilou e olhou para a mulher caída no chão;
Aretha suspirou. A cabeça infestada de cobras estava separada do corpo perfurado por madeira. Não havia mais o que fazer, a luta acabara. Voou então para onde havia deixado a criança de olhos cinza e, na hora que a pegou, a viu tossir e abrir um pouco os olhos, mesmo que os tenha fechado logo depois. A moça com asas se sentiu aliviada. Ajoelhou-se e apoiou a cabeça da menina em seu colo. Já estava amanhecendo, não demoraria muito para que os primeiros raios de sol surgissem e impedissem que ela voasse com a criança até o acampamento.
— Acho que ficaremos um tempo aqui, ein? — Disse para ninguém e encostou a cabeça em um galho. — Por favor, minha senhora, permita que tudo dê certo.
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