Arena Mortal
13 Capítulo 12 - Perdas
Notas iniciais
A morte não é bonita.
Perder pessoas sempre é algo traumático. A dor, o desespero e a tristeza são marcantes. Ainda que seja alguém com a qual você não tenha lá grande afeto é difícil.
Era também uma constatação de que você pode lutar contra tudo, vencer tudo, mas contra a morte não há nada que se possa fazer, apenas aceitar.
No fim, todas as mortes tinham algo em comum. Poderiam ter mil pessoas para se despedir daquele que se foi, ou apenas um, a dor e a tristeza sempre estaria presente, era a mesma. Independente da forma que a pessoa morreu, quem fica sofre.
Mortes sempre me lembrariam de Lizzie, seu velório solitário, o enterro praticamente sem ninguém. Eu tinha sido a criança que enterrou sua mãe sozinho. Teve lágrimas, dor, soluços, gritos de desespero. Assim como em todos os outros.
Já o funeral da Senhora Swan havia sido completamente o oposto do simples e vazio de Lizzie. Renée recebeu diversas homenagens, diversas coroas de flores, anúncios em rádios, televisão, e tudo mais. Diversas pessoas vieram, grandes empresários, políticos. Renée, afinal, era a herdeira de uma grande marca farmacêutica, uma que a cada dia ficava mais famosa, seja por suas vendas e descobertas, seja no submundo como forma de lavar dinheiro e fachada pro tráfico de drogas e armas.
Teve tristeza, mas era uma tristeza forçada. Bella era uma das únicas pessoas que realmente sentia pela perda de sua mãe, assim como Sue que amparava a menina.
Os demais tinham apenas um pesar pela perda da Swan, ou uma falsa tristeza como a de Charlie que a cada instante parecia mais enfadado.
Mortes me cercavam, eu estava fadado a lidar com ela, mesmo que odiasse.
Após a morte da Senhora Swan Charlie passou a me usar cada vez mais como seu capanga, assim como a Trevor.
Ele também vivia ali, era filho de Sue, apesar de que a mãe o colocava pra estudar em uma escola normal com outras crianças e tentava ao máximo deixar ele longe de Charlie, o que nem sempre era fácil de se conseguir.
Sem a esposa, Charlie se achou dono de tudo e de todos, e assim passou a usar duas crianças como armas.
Era um fim de tarde como outro qualquer, eu estava numa quadra e Trevor em outra, ambos estávamos vendendo drogas. Dessa vez não tinha supervisão. Era perigoso, eu sabia, tanto pela polícia aparecer, como algum rival de Charlie.
Eu sabia que tinha que voltar pra mansão antes de escurecer, estava esperando Trevor que estava enrolando.
Passado mais quinze minutos fui atrás dele, três quadras adiante de onde passei metade do dia. Tinha uma cacofonia de pessoas, gritos, alguém caído no chão.
— Eu te falei pra me passar tudo, seu merdinha!
Era alguém querendo drogas. Me aproximei devagar, vendo Trevor caído, rosto com sangue, assim como o cara que gritava. O nariz dele estava torto e sangrando.
— Não tem nada aqui, somente balas. – Trevor mentiu, protegendo a mercadoria de Charlie.
— Seu fodido mentiroso, eu quero a cocaína! – Ele estava descontrolado, em abstinência.
Eu continuava me aproximando devagar, vendo por qual ângulo eu conseguiria chegar mais rápido e eficaz. Eu olhei pra Trevor, que naquele instante me viu ali. Seus olhos se voltaram pro drogado, um brilho chamou minha atenção. Ele estava armado.
Me vi desesperado e congelado no lugar. Não foi mais que cinco segundos o tempo que tive pra pensar, quando dei o primeiro passo em direção a ele, o estampido do tiro soou alto.
Eu não vi o cara se mover. Mas ali estava Trevor. Morto.
Um tiro no meio da testa. O sangue escorria. Sua vida se esvaía. Seus olhos antes alegres, outrora temerosos, agora nada mais eram que vazios.
Eu nunca tinha visto alguém morrer. Lizzie eu demorei pra ir até a sala. Mas Trevor morreu diante dos meus olhos, sem que eu pudesse fazer nada, sem que eu sequer me movesse.
Ainda tinha dias que eu fechava meus olhos e via o jovem garoto morrer. Via sangue em minha mãos, ainda que aquela morte não fosse minha culpa. Não daquela vez.
Assim era a morte, fria silenciosa, trágica.
***
Acordei com Isabella nos meus braços, aquilo já era extremamente comum entre nós, entretanto, cada dia eu me sentia o homem mais sortudo do mundo por tê-la, mas o mais infeliz por nossas circunstâncias. Eu queria tanto que tudo se resolvesse, mas não sabia como.
Eu sabia que existia certa covardia em mim. O grande Tiger fugindo de algo, mas é que eu havia sido o Tiger por tanto tempo que não sabia ser mais nada. Não era fácil, fora as condições financeiras, eu nunca haveria de conseguir pagar uma faculdade de medicina, nem todos os gastos com os quais Bella estava acostumada.
Tudo rondava minha mente enquanto a bela morena se remexia, sinalizando que estava prestes a acordar.
Era uma manhã tipicamente fria de março, com nada de muito especial, mas havia uma aura negra ao redor, que sufocava tudo. Eram meus medos e minhas inseguranças.
— Bom dia, amor. – Sussurrei pra mulher nos meus braços que acabava de abrir seus olhos.
— Bom dia! – Ela respondeu, se espreguiçando e roçando no meu membro, que acabava de responder.
Ela riu se esfregando mais em mim. Rosnei rolando por cima dela, me esfregando descaradamente contra sua boceta apertada.
— Sinto muito, gatinho, mas hoje não dá tempo. – Ela falou com pesar, ainda se esfregando de volta contra mim.
— Dá sim. Uma rapidinha no banheiro. – Mordisquei seu pescoço, tentando persuadir a morena.
— Bem rapidinha? – Ela perguntou enquanto arfava.
— Bem rapidinha, Bella.
Aproveitando a deixa, afastei sua calcinha, penetrando-a com meus dedos.
— Rapidinha, Edward, nada de preliminares. – Bella ralhou.
Resmungando baixinho, tirei meus dedos de dentro dela, logo substituindo por meu membro.
Gemi ao me colocar lá, meu local preferido no mundo todo.
— Eu podia passar o dia aqui dentro que não ia enjoar. – Bella riu se movendo contra mim.
Aumentei o ritmo, com uma mão acariciando seu clitóris. Eu não ia durar muito, nem ela. Já podia sentir suas paredes me apertando.
Abri os olhos e apreciei a imagem dela chegando ao êxtase. Bella tinha os lábios entreabertos, os olhos fechados, o rosto tinha algumas marcas de sono. Seus cabelos estavam bagunçados, espalhados pelo travesseiro, a pele branca estava avermelhada pelos arranhões da minha barba, os seios empinados em minha direção, se oferendo pra mim. Era a mais pura imagem do erotismo.
Me afundei nela mais uma vez, sentindo seu aperto firme em volta de mim, então os tremores que indicavam que Bella gozava, o gemido alto, mascarado pela mordida no meu ombro.
Gozei forte, logo após ela, induzido pelo prazer dela.
— Eu disse que dava uma rapidinha. – Falei, beijando-a nos lábios enquanto saía de dentro dela.
— Idiota. – Bella riu e foi pro banheiro se arrumar pra aula.
Preparei nosso café rapidamente, e assim que ela saiu do banheiro eu entrei.
Uma rotina havia se estabelecido. Bella dormia em meu apartamento quase todos os dias, eram raros os dias que ela dormia em sua própria casa. Charlie pouco se importava com onde a filha estava, desde que aparecesse quando esse ordenasse.
Do apartamento Bella ia pra aula, da aula pra Rosalie e de volta pra cá, sempre com Emmett por perto.
E eu ia atrás dos problemas de Charlie, drogas, armas, e pessoas.
O movimento de Charlie no submundo andava parado, ele andava preocupado com as eleições, com a campanha que faria, deixando tudo meio de lado por ora.
Me despedi de Bella, saindo antes da mesma e seguindo pra Diamonds, tinha algumas armas lá que deveriam ser despachadas para o depósito.
Alice estava ali, sentada, como a rainha da noite.
Sentei ao lado dela sem que chamasse sua atenção. Passados vários minutos em silêncio ela enfim falou.
— Sabe, eu sempre tive essa droga de sexto sentido, de que algo ruim vai acontecer, essas merdas assim. – Ela riu com escárnio.
— Foi assim que aconteceu depois do atentado, eu tive essa intuição, e te liguei, você estava em perigo. E agora de novo, então cuidado, Tiger.
Engoli em seco.
— Vou me cuidar. – Engoli em seco. – E vou cuidar pra que nada aconteça com Bella.
— Bom.
Alice voltou a ficar em silêncio. Fiquei mais um tempo ao seu lado, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo.
Pouco depois fui cuidar dos meus afazeres, com Harlan ao lado cuidei pra que as caixas com armas fossem despachadas, limpando a fachada de boate tranquila pela qual a Diamonds passava.
Eu ainda iria na Arena aquele dia, verificar como andavam as drogas armazenadas no local.
Antes de ir passei por Alice, que continuava no mesmo local, como um mau agouro.
— Como está a Sue? Tem tempo que não passo pela mansão.
Seu olhar enfim se voltou pra mim, com um sorriso leve Alice respondeu.
— Anda bem, resmungando que não tem mais ninguém na mansão. – Sorri pra Alice. – Ela está feliz por vocês. Você sabe, depois de tanta tragédia um pouco de luz.
— Vou passar em breve pra vê-la. – Prometi.
Conviver com Bella havia mudado muitas coisas em mim. Estava aprendendo a demonstrar mais como me sentia com aqueles ao meu redor. Ainda não eram todos que caíam em minhas graças, mas aqueles que caíam, bem, estavam descobrindo um novo lado meu que eu sequer havia conhecido.
— Você tem falado com Hannah? – Alice questionou.
Não. Eu não havia falado com Hannah por algum tempo. Parecia que eu estava lidando com tanta coisa ao mesmo tempo que Hannah havia ficado um pouco de lado.
— Não. Mas vou mudar isso. Irei falar com ela hoje.
— Ela tem um novo cara, não me diz quem é. Mas disse que ele vai tirar ela dessa vida. – Alice não me olhou enquanto falava.
Tanto eu quanto ela sabíamos que mais de noventa e cinco por cento dos homens que prometiam tirar prostitutas da vida que levavam mentiam.
— Eu vou falar com ela. – Prometi mais uma vez.
Eu devia a Hannah, por todo o tempo em que ela me apoiou na escuridão. Devia pelo que sentia por ela, pelo respeito, pelo carinho, pela amizade.
Alice me olhou mais uma vez, pegando sua bolsa e indo em direção à saída.
— Ela vai ouvir você.
***
Havia sido um dia fodidamente cansativo. Cheguei em casa Bella já dormia. Sua rotina era extremamente puxada, ainda assim Bella fazia tanto por mim apenas por estar ali.
Após o banho me deitei, puxando ela pros meus braços.
Havia feito tanto aquele dia, mas ainda assim não havia conseguido brecha pra ver Sue ou falar com Hannah.
Adormeci rapidamente, com cheiros de morangos e uma sensação de paz.
***
Acordei e Bella já havia saído. Uma mensagem me dizia que ela tinha ido pra aula com Rose.
Saí pra cobrar alguns devedores de Charlie.
Nada muito grave, apenas minha presença. Sem violência ou grave ameaça. Entretanto era tudo que tinha pra fazer naquele dia.
Após a cobrança e a promessa de pagamento para a próxima semana saí pra mansão Swan. Eu devia uma visita à velha senhora.
Depois de ter visto Trevor morrer sempre tive um sentimento de culpa para com Sue. Talvez por isso nossa relação tenha sido tão estranha nos últimos anos, talvez por isso seu distanciamento. Ou apenas o fato de que eu tenha afastado todas as pessoas que estavam à minha volta.
— Olá, Sue. – Cumprimentei a senhora que cantarolava baixinho.
— Diabos, Tiger, você quer me matar! – Ela falou exasperada.
Sorri culpado.
— Desculpe.
— A menina Isabella não está em casa. Ela mal fica em casa. – Ela resmungou a última parte baixinho.
— Eu sei. Na verdade vim almoçar com você. – Senti minhas orelhas esquentando.
Não havia muito eu era temido, agora eu parecia um garoto assustado.
Sue conteve o sorriso, mas demandou animada.
— Sente, garoto, vou ver o que posso fazer.
Nenhum de nós era muito de conversar, então ficamos em silêncio, enquanto ela andava de um lado pra outro com precisão.
Eu apenas olhava.
— Como estão as coisas, Tiger? – Ela enfim perguntou.
— Estão bem. – Disse, dando de ombro.
— Menino, as coisas não podem ficar assim pra sempre. – Sue disse, olhando ao redor.
— Eu sei. Vou dar um jeito. – Prometi.
Eu só não sabia como dar um jeito.
Bella era importante pra Sue também. Depois da morte do filho, e depois que Renée se foi, ela quem cuidou de Bella.
— Tem algo cheirando muito bem! – Ouvi Bella exclamar chegando na cozinha.
Me surpreendi com sua presença. Assim como a de Emmett.
— Oh, oi. – Ela disse timidamente.
Sorri de volta.
— Oi.
— Hey, Tiger, que tal ver uns jogos hoje? – Emmett perguntou, enquanto batia em minha mão estilo um high five.
— Claro! Mais tarde compro algumas cervejas e petisco. Você manda mensagem pro Carlisle.
Ele assentiu se sentando perto de mim, junto a Bella.
Nossos olhares se cruzavam a todo instante, fazendo a velha senhora bufar.
— Achei que estaria na aula, gatinha. – Sussurrei.
— Tive aula vaga e resolvi vir almoçar com Sue. – Ela respondeu.
Sorri pra nossa sintonia em virmos no mesmo dia.
O almoço correu tranquilo. Meio silencioso, mas nada que fosse incômodo.
A comida estava tão boa, que estava cogitando mentalmente levar Sue pro apartamento conosco.
Ri comigo mesmo do pensamento bobo.
Após nos despedirmos de Sue, Emmett e eu combinamos de nos encontrar na Arena, e de lá irmos pro apartamento após ele deixar Bella na faculdade.
Sem poder me aproximar ou beijar minha namorada apenas acenei com a cabeça e pisquei pra ela.
***
Estacionei lá dentro. Tinha mais três carros naquela parte, um dos quais eu não conhecia, e poucas pessoas tinham acesso àquela área. Peguei a arma há muito esquecida de dentro do porta luvas e saí.
Adentrei o lugar com a mesma cautela de sempre. Tudo parecia no mesmo lugar, mas era um grande galpão, com muitas caixas, e ainda tinha a parte da Arena que era escondida.
Um frio desceu pela minha espinha, como um mau pressentimento. Roguei pra que fosse algo sem fundamento. Mas no meu âmago, algo já me dizia que o que eu viria a encontrar dentro da Arena mudaria tudo.
Meu instinto me dizia que havia algo errado e ele nunca havia falhado antes.
Fui olhando cada compartimento com calma, no depósito tinha quatro funcionários de Charlie que se assustaram comigo ali.
— Tem mais alguém aqui? – Perguntei pra um dos homens.
— A prostituta. Hannah, acho que é esse o nome dela.
Hannah estava ali, era a oportunidade que eu precisava pra falar com ela.
Segui rumo a Arena, a arma ainda empunhada.
Gritos.
— Sua puta idiota! – O som da porta batendo e um homem saindo de lá me sobressaltou.
Ele me cumprimentou com um aceno de reconhecimento.
Eu queria parar ele e o confrontar, mas Hannah era prioridade.
Seu rosto que não me era desconhecido ficou gravado na minha memória, eu resolveria com ele depois.
Entrei pela mesma porta que ele saiu, vendo Hannah caída, uma mochila jogada no chão perto dela.
Me aproximei o mais rápido que pude vendo sangue. Hannah tinha a respiração pesada e uma expressão de dor. Ela tinha alguns ferimentos no rosto, como se houvesse apanhado.
Uma faca ainda cravada em sua barriga era o ferimento que me preocupava.
Ela abriu os olhos escuros e sorriu.
— Hey, Tiger. – Lágrimas brotaram e começaram a rolar por suas bochechas machucadas.
— Oi, Hannah. – Engoli o nó na minha garganta. – Vai ficar tudo bem.
— Eu estou bem, Tiger.
— O inferno que está, Hannah! – Gritei.
— Você sempre se preocupou demais. – Ela revirou os olhos.
Olhei pra faca e o ferimento que não parava de sangrar.
— Preciso levar você pra um hospital. Você precisa de ajuda.
Minhas mãos tremiam. Saquei o celular, mas não conseguia digitar nada.
— Inferno. – Praguejei.
Hannah riu, o movimento fez seu corpo sacudir e sair mais sangue. Ela gemeu de dor.
— Não se mova, porra! Vou chamar ajuda!
Lágrimas começaram a escorrer por meus olhos e não conseguia usar o caralho do celular.
Hannah levantou o braço, sua expressão de dor aumentando.
— Shi, Tiger, está tudo bem.
Sua mão puxou a minha que estava com o celular.
— Não, não está tudo bem! Tem gente lá atrás, eu vou pedir ajuda!
Sua mão segurou a minha com mais força.
— Não me deixa sozinha. Só por favor não me deixa sozinha. – Suas lágrimas ficaram mais grossas. – Eu nunca pude escolher nada, mas dessa vez me deixa escolher e fica comigo!
Hannah não fechou os olhos, ela me olhava, sentindo a vida esvair de seu corpo. E eu não conseguia fazer nada, eu não conseguia negar seu pedido!
Ela sabia que iria morrer.
— Desculpe, Tiger, não pude cumprir com o que prometi.
Ela chorou mais.
Me afastei rapidamente pegando roupas de dentro da mochila e colocando sob o ferimento de forma leve pra estancar o sangramento. Eu queria tirar a faca, mas não sabia se podia.
— Eu te amei, Tiger. Eu nunca quis que você fosse meu. – Ela riu em meio à dor. – Mas eu certamente queria que você fosse feliz.
— Eu também te amei, Hannah. – Eu chorei baixinho.
Sua pequena mão ainda estava na minha. Eu me abaixei e beijei sua testa.
— Eu queria que você tivesse tido uma vida melhor que essa. Porra, Hannah, como isso foi acontecer!?
— E aí está o motivo de eu ter te amado. Você protege quem você ama, Tiger. – Ela respirou com dificuldade mais uma vez.
O desespero foi tomando conta.
— Droga, eu preciso, eu preciso! Você precisa ir pra um hospital!
Mas eu era um fodido fracasso que não conseguia ligar pra uma ambulância.
Ouvi um barulho atrás de mim. Emmett entrava ali, vendo a situação correu pro nosso lado.
— O que diabos aconteceu aqui!?
— Ambulância, rápido! – Hannah tinha os olhos fechados.
Vi Emmett discando o número da emergência. Do momento que a encontrei caída ali, foi a primeira vez que tive esperança.
— Vai ficar tudo bem, Hannah! Eu prometo que vai ficar tudo bem! – Prometi, segurando sua mão com mais força.
— Ele tinha dito que me amava, Edward. – Era uma das raras vezes que ela usava meu nome verdadeiro. – Ele tinha prometido me tirar daqui, dessa vida.
Hannah chorava baixinho. Me cortava o coração ver a mulher altiva e feroz daquele jeito. Tudo que ela queria era ser amada, cuidada, protegida.
— Ele vai pagar, Hannah! Juro que ele vai pagar!
— Não. Não quero isso. – Ela respirou devagar mais uma vez. – Quero que você dê o fora daqui com Isabella. Não quero que o mesmo ocorra com vocês.
Sua respiração estava cada vez mais fraca.
— Agente McCarty. Preciso de uma ambulância.
Virei o rosto para Emmett que me olhava culpado.
Ignorei a dor da traição, no fundo eu sempre soube que ele escondia algo, e me concentrei em Hannah.
Ela me olhava. Ela tinha parado de chorar. Como em tudo na vida, Hannah estava aceitando a situação com coragem.
— Eu falhei com você! Eu não te protegi!
— Você não falhou. Você me protegeu e cuidou de mim até o fim. Mas tem coisas que não dá pra serem salvas nesse mundo, Tiger.
Sua voz estava firme, mas sua mão estava fraca. Tão fraca. Não tinha mais aperto. Encarei seu rosto. Olhos abertos. Sem vida. Sem respiração.
Hannah tinha ido.
— Não! Hannah, não! Acorda, porra! Fala comigo! Não dorme. Não agora, Hannah.
Comecei a sacudir o corpo sem vida. Implorando a Deus que ela acordasse, que ela vivesse.
— Por favor, Hannah, eu vou cuidar de você. Vou tirar você desse caralho de vida. Hannah! – Chorei.
Desabei sob seu peito chorando.
Doía, doía pra caralho.
Eu estava acostumado a lidar com a morte. Morte de pessoas estranhas. Mas não de pessoas que eu amava. Eu não sabia lidar com aquele tipo de dor.
— Hannah, por favor! – Implorei mais uma vez.
Não houve resposta. Eu havia falhado com ela. Mas eu mataria o culpado.
Levantei do chão evitando olhar o corpo no chão. Olhei minhas mãos manchadas de sangue. Seu sangue. A bile veio com força mas me recusei a ceder. Olhei Emmett uma última vez e fui em direção à saída.
— Caralho, Edward, onde você pensa que vai? – Emmett gritou, vindo em minha direção.
— Matar o desgraçado que fez isso! – Gritei com ódio.
— Não! – Ele gritou de volta me segurando. – Você vai estragar tudo se fizer isso.
Eu ri.
— Eu não sou o policial bonzinho, agente McCarty, eu sou o fodido bandido.
— Edward, espera, por favor!
— Não, porra! Ele matou ela!
— Desculpe, Edward, mas não posso deixar você ir. – Seu olhar era triste, mas determinado.
— Foda-se você!
Me virei e fui em direção à saída.
— Bella está vindo pra cá. – Sua fala me congelou. – Eu avisei do ocorrido e ela está vindo pra cá.
Eu não podia deixar Bella chegar aqui, não com a morte pairando no ar, não com a sede de sangue na qual eu me encontrava.
— Você não tinha a porra do direito! – Rugi de volta.
— Era a única forma de te parar. – Ele me encarou. – Existem outras formas de se proteger aqueles que amamos, Edward.
Sirenes foram ouvidas. A ambulância tinha chegado, mas era tarde demais. Não tinha quem eles salvarem, só um corpo sem vida jogado no chão.
Caí de joelhos no chão e chorei.
Senti braços ao meu redor, me aquecendo. Não havia mais lágrimas pra chorar, eu estava sentado esperando pra falar com policiais. O circo estava armado.
Eu havia visto o assassino, o segurança do filho do Deputado. Um assassinato ocorrido dentro da Arena, local onde havia drogas e armas. Liam havia sido avisado, estava pra chegar.
— Edward. – Bella chamou baixinho.
Era minha vez de falar. Falei tudo o que podia, mantendo a fachada de sempre, mas delatando o assassino, foda-se ele. Ele havia matado Hannah.
Emmett estava lá como policial, um fodido policial, Bella olhava pra ele desconfiada, e de longe, Rosalie sequer dirigia seu olhar pra ele.
Eu vi a máscara de policial, fria e impenetrável, mas vi também por dentro do agente, vi que era difícil pra ele.
Minhas mãos ainda tinham sangue. O sangue de Hannah. Hannah estava morta. No chão, apenas um pano preto impedindo a visão de seu corpo sem vida.
Alice chegou nesse momento. Olhando toda a cena. O cadáver.
Vi sua fachada se quebrar e as lágrimas brotarem. Alice se aproximou e se jogou em meus braços chorando. A amparei, engolindo o choro que queria me tomar novamente.
Não era comum vê-la chorar, mas assim como eu, Alice havia deixado algumas pessoas entrarem em seu coração. Hannah era uma delas.
Consolei Alice da melhor forma que pude, levando em consideração que também estava destruído, destruído e com sede de vingança.
Com a chegada de Liam vi Emmett ficar tenso, vi sua postura de segurança voltar, não de policial, ele ainda queria manter a farsa.
Vi seu olhar implorando pra que colaborássemos.
Assenti, por ora iria colaborar.
***
Não sabia como havia chego em casa. Não sabia o que tinha falado, quem tinha dirigido, só me dei conta do lugar que estava quando Bella tirou minha blusa.
Seus olhos estavam vermelhos, ela também havia chorado.
Bella terminou de me despir ainda sem dizer nada, me guiou no espaço apertado pra dentro do box, ligou o chuveiro e se afastou.
Deixei-a ir. Eu precisava daquele tempo. Entrei embaixo da água quente, vendo o sangue sendo lavado da minha mão, sentindo a dor tomar conta.
Eu não lembrava que doía tanto.
Era uma dor que sufocava, que tomava conta de tudo, que fazia perder o ar.
Deixei as lágrimas saírem junto com o sangue, deixei a dor tomar conta naquele instante, depois eu reassumiria o controle, depois eu fingiria que a morte de Hannah não tinha aberto uma ferida em meu peito.
Depois de um longo tempo saí do banho, me vesti. Olhei pela pequena janela e não vi nada.
Senti mais do que vi.
— Vou tomar um banho. – Assenti sem me virar.
Ouvi o som do chuveiro, senti o cheiro de morangos no quarto enquanto ela se trocava, mas continuei sem me virar.
— Você quer que eu vá? – Ela perguntou baixinho.
Era uma pergunta tola. Tudo que eu menos queria era ficar longe de Bella.
— Fica. – Pedi com a voz rouca pela falta de uso.
Me virei pra Bella. Olhando-a de verdade desde que tudo aconteceu.
Me aproximei e a abracei. Me confortando em seu cheiro, com seu calor, com seu amor. O nó na garganta se apertou novamente.
Eu tinha virado a porra de um maricas que só sabia chorar. Se os caras que me temiam me vissem agora, ririam de mim.
— Shi. Tá tudo bem, amor. Vai ficar tudo bem. A dor vai passar.
— Bella sussurrava baixinho enquanto acariciava meu cabelo.
— Ela morreu, Bella. Ela não vai mais voltar. – Lamentei em seus braços deixando de chorar.
Bella me levou pra cama, nos deitando de frente um pro outro.
— Eu sei que dói, amor, e vai doer por um tempo. Mas o tempo vai amenizar, sabe? Vai fazer doer menos.
— Ela não tinha ninguém. – Olhei naqueles olhos profundos.
— Você está enganado. Ela tinha você. E tinha a Alice. Vocês eram sua família.
Abracei Bella mais forte. Amando ainda mais aquela mulher.
Adormeci com suas carícias em meus cabelos, ouvindo-a cantarolar baixinho.
***
O silêncio da sala era horrível. O apartamento pequeno parecia sufocante. A gravata do terno preto parecia me estrangular. Respirei fundo e olhei todos os presentes.
Alice tinha tomado conta de tudo, tentado contato com os pais de Hannah, que se recusaram vir. Alegavam que a filha havia morrido quando fugiu de casa. Seu olhar era firme, mesmo triste.
Bella estava calma, tinha um olhar triste. Mas era minha paz.
Rosalie estava ali também. Seu olhar devastado se devia a outro fator também presente: Emmett.
Emmett estava ali, ainda como segurança da Bella. Cada vez que ele abria a boca Rosalie bufava ou revirava os olhos.
Tive vontade de rir mas me contive.
— Está quase na hora. – Alice falou.
— Antes de irmos eu gostaria de falar com você, Rose. – Emmett pediu.
— Ah, agora você quer falar? – Ela retrucou. – Você teve todas as fodidas chances do mundo e simplesmente só agora quer falar?! – Ela disse, cutucando o peito do enorme homem.
— Como diabos você queria que eu falasse, Rose?! Oi, eu sou um policial e estou aqui investigando os crimes do pai da Bella! – Ele retrucou no mesmo tom. – As coisas saíram do controle, porra! Quando eu vi eu já estava apaixonado, quando vi eu só queria você, Rose.
Ele tentou a tocar, ela se afastou.
— Tarde demais, Emmett. Agora não dá mais tempo. – Ela respirou fundo. – Nós, o que tivemos, bem, acabou. Termine sua investigação e saia de nossas vidas, isso se não te denunciarmos antes.
Rosalie era durona, mas o olhar quebrado de Emmett me fez sentir pesar.
Tudo estava malditamente complicado, com o esquema de Charlie sendo entregue, eu também cairia, isso causava medo em Bella, eu podia ver pelo modo como ela agora se portava perto do policial.
Rosalie saiu com Bella e Alice, me deixando com Emmett.
— Situação difícil, amigo. – Eu disse.
Sim, eu ainda o considerava um amigo. Ele mentiu, mas eu seria idiota se não dissesse que não sabia que ele escondia algo. Ele se identificou como agente tentando salvar Hannah, colocando toda a operação em risco. Eu sempre seria grato.
— Muito difícil. – Ele coçou a cabeça e suspirou frustrado. – Depois, preciso falar com você depois, agora vamos.
***
Entrar naquela igreja era meio cômico, Hannah não era muito religiosa, bem ao contrário disso. Ela odiaria tudo aquilo.
Só havíamos nós ali.
As únicas pessoas que se dispuseram a se despedir da prostituta assassinada.
O amargor tomou conta de mim.
Bella estava ao lado de Alice, prestando apoio a mesma, que deixava algumas lágrimas escaparem.
— Eu sinto muito, Edward. É sempre difícil perder quem amamos. – Rosalie falou ao meu lado, ignorando as palavras do reverendo, sobre morte, vida, ressurreição e o longo caminho, a passagem.
Minha mente não se fixava em nada, apenas no caixão marrom lá na frente.
Joguei meu braço no ombro da loira e me deixei apoiar em uma amiga, em meio a dor da despedida.
O reverendo veio desejar os pêsames a nós e liberar o corpo pro enterro, era a parte final, a última despedida.
***
O cemitério estava vazio, tinha poucos transeuntes, poucas pessoas visitando seus familiares e amigos já falecidos. De longe avistei mais uma família enterrando algum ente querido.
E ali estávamos nós.
Não havia o que falar. Não erámos os mais falantes.
Aos poucos os homens foram descendo o caixão. Alice era a mais próxima de mim. Segurei sua mão e apertei firme. O choro da morena começou a ficar mais alto, induzindo o meu próprio.
Lágrimas brotavam dos meus olhos e escorriam livremente pelo meus rosto.
Os joelhos de Alice fraquejaram, fazendo-a cair de joelhos no chão, me ajoelhei ao seu lado e abracei-a. Tentando levar o mínimo de conforto a seu coração.
Alice chorava alto, soluçando e se agarrava em mim.
— Ela foi a única que entendeu de verdade o que era ser eu. – Chorou em meus braços. – Ela não me julgava pelos meus atos, ela entendia, Tiger!
— Ela também me entendia. Ela sabia como era ser eu. – Respondi resoluto. – Ela vai estar melhor do lado de lá, Alice, aqui ela nunca teve escolha. Lá a vida dela vai ser mais branda. De lá, ela vai olhar por nós que ficamos aqui. – Beijei sua testa e sequei suas lágrimas.
— Você acha? – Alice também não era de muita fé, não depois da vida que levou.
— Tenho certeza. – Respondi convicto.
Ao menos eu tinha de acreditar naquilo, que existia um lugar melhor do que o que vivíamos.
Devagar nos levantamos. Algumas lágrimas ainda rolavam entre mim e Alice.
O caixão já se encontrava no fundo.
Seriam as últimas despedidas, as últimas palavras.
Peguei a rosa que Bella segurava, assim como os demais. Cada um sussurrando sua própria despedida pra Hannah.
— Você foi a irmã que nunca tive, Hannah foi minha melhor amiga, minha companheira, minha cúmplice. – Alice soltou a rosa na cova, juntamente com algumas lágrimas. – Espero que aí do outro lado você encontre o amor que tanto procurava. Amo você, Hannah.
Eu fui o último, olhei a rosa como se fosse os olhos de Hannah.
— Você se foi, Hannah, mas deixou um vazio profundo aqui. Dói pra caralho, mais que apanhar na Arena. – Dei um sorriso. – Vou sentir muito a sua falta. Falta dos seus conselhos perversos, da sua determinação, da sua coragem, Hannah. Você me ensinou coisas demais. – Uma lágrima mais escorreu em meu rosto. – Prometo que vou tentar ser melhor, Hannah, que vou tentar mudar as coisas. Que vou mudar minha vida.
Beijei a rosa, e deixei cair.
Esse havia sido meu adeus pra mulher que havia sido minha amante, minha companheira e amiga.
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