Areias da Memória
1 Essa era a minha vida, até...
Notas iniciais
Boa leitura!
- E é com satisfação que lhes apresento o nosso novo gerente. Parabéns Augusto.
Em uma das salas daquele escritório, um rapaz usando terno preto tem um bóton colocado no mesmo enquanto recebe uma salva de palmas de alguns funcionários ali presentes.
- Quando você vê alguém sendo promovido, da uma baita inveja. Porém eu estava feliz pelo Augusto. Ele entrou sem experiência nenhuma, mas eu lhe ensinei o que precisava saber. Ele mesmo dizia que devia a vida dele á mim. Agora ele virou meu chefe. Acho que as coisas vão começar a melhorar.
Alguns meses depois...
- Eu pedi essa bosta de relatório há dois dias! Por que não ficou pronto? — Augusto esbravejava.
- O servidor estava com problemas e os dados-
- Você é o técnico, não é? Você deveria consertar essas porcarias para que coisas assim não aconteçam.
- Eu mandei um e-mail pedindo peças para corrigir o problema, mas você não me retornou.
- Então a culpa é minha?
A bronca era direcionada para um homem moreno e cabelo raspado que usava um uniforme azul escrito "sistemas" nas costas.
- Direcionar os próprios erros nos outros. É. Esse é o tipo de "chefe" que o Augusto se tornou. Um grande idiota.
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Vemos o moreno digitando vários códigos em um computador com uma grande habilidade.
- Não tive a chance de me apresentar. Eu sou Mauro. Tenho 32 anos e trabalho de Analista de Sistemas nessa empresa há 9 anos. Sou casado e não tenho filhos. Acredito que assim é melhor, pois minhas condições atuais não suportariam uma criança.
- Já terminou? Eu tenho um relatório para finalizar ainda hoje.
- Essa é Anita. Uma moça de pouca índole e nada competente. Mas ela tem boa aparência e já transou com metade da empresa. Devo dizer que ela sabe usar bem as armas que tem.
- Acabei. — se levanta da cadeira e se retira — Pare de acessar sites desconhecidos e isso não acontecerá novamente.
- O que disse?
- Eu disse que se precisar pode me chamar.
- Espero não precisar.
- Ela me despreza por que eu a dispensei há algum temo. Embora minha esposa Lucia não mereça minha confiança, ainda estamos juntos e respeito muito isso.
O relógio aponta 18h00min: hora de ir embora. Mauro junta suas ferramentas, as coloca em uma maleta e se prepara para ir embora.
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O caminho de volta é cercado de correria e empurrões no ônibus. Mauro desce do veículo e segue até o mercado mais próximo.
- Sou casado há 7 anos. Não me lembro muito bem como nos conhecemos, mas acabamos gostando um do outro e decidimos morar juntos. Como eu me arrependo disso.
Mauro tira uma moeda do bolso enquanto escolhe uma garrafa de vinho e começa a lixar a unha do polegar na parte áspera da moeda, deixando a área da unha lisa. Chegando ao caixa ele entrega a garrafa para o funcionário que registra a mesma.
- Algo mais, senhor?
- Um maço de cigarros, por favor.
- Deu treze reais.
Ele abre a carteira e retira duas notas: uma de dez e outra de dois reais. As entrega para o atendente e, após uma ultima olhada, entrega também a moeda.
- "Conheça quem está ao seu lado". Eu vivia repetindo isso e me casei em menos de 4 meses após conhecer a moça. Uma baita idiotice.
Ele paga os itens e se retira do comércio. Andando mais algumas quadras, ele vira uma esquina e se esconde atrás de um poste.
- Aquele cara outra vez. Todos os dias trazendo a Lucia. Ela diz que ele não cobra nada e economiza as passagens, o que é bom. Só não creio que ele não queira nada em troca. Os homens SEMPRE querem algo em troca das mulheres.
A silhueta de Lucia aparece no vidro do carro. Ela se esgueira para dar um beijo no motorista. Aparentemente foi na bochecha, mas foi o bastante para Mauro se alterar.
- Não sinto mais aquela atração pela Lucia, mas tenho o maior respeito por ela. Se eu vier a me envolver com alguém eu espero estar separado dela. Espero que ela também pense dessa maneira, pois o respeito deve ser mutuo.
Lucia sai do carro e entra na casa enquanto o carro se afasta e segue seu caminho. Pouco tempo se passa e vemos Mauro adentrar a casa e escutar o barulho do chuveiro.
- LUCIA?!
- Tô no banho, amor! — grita do cômodo — Como foi no trabalho?
Mauro deixa uma sacola sobre um criado mudo ao lado da porta, caminha pelo corredor de sua casa e segue até o banheiro. A casa era bem simples e apertada. Poucos móveis, poucos adornos e algumas partes necessitando de acabamento.
- Bom. — se apoia na porta do banheiro — O mesmo de sempre. E você?
- Nossa! Meu dia foi tão estressante. Tive um problema com uma cliente que...
- Reclamando outra vez. Todos os dias ela encontra algo para reclamar naquele emprego. Se estressa, as vezes chora, mas não sai de lá. — olha as roupas dela no cesto, pega a camisa branca e a cheira — Não gosto de agir assim, mas se a lanchonete que ela trabalha não começou a servir cerveja, e permitir que ela beba em serviço, acho que precisarei de explicações.
- Chegou um pacote pra você.
- Pacote?
- Alguém chamado Jackson te mandou. Esta na sua mesa. Chegou logo depois que você saiu.
- Charles Jackson Souza é um amigo de infância muito querido. — solta a peça de roupa e sai do cômodo — Sempre saíamos para muitos lugares, mas ele se mudou para a Europa há 12 anos. — pega as sacolas ao lado da porta e segue para a sala — Ficamos restritos apenas aos e-mails e de repente ele não enviou mais nada. Ele entrar em contato com isso é bem estranho.
Mauro chega na sala e vê o pacote sobre a mesa, como Lucia havia dito. Um pacote marrom com vários adesivos e selos aparentando ter passado por muitos países. Ele se senta numa cadeira perto da mesa, tira uma garrafa de vinho, um maço de cigarros e a nota fiscal das sacolas e observa o pacote recebido. Adesivos e selos de vários lugares do planeta. O bilhete preso ao lado lhe chama a atenção devido às letras C e S abreviadas.
- C. Jack S. Imagino quantas pessoas entenderam essa referência. — abre o pacote com a ajuda de um lápis, retira um montante de isopor e chega ao item — Só pode ser brincadeira.
Um jarro de vidro transparente com uma tampa grande, que lembrava uma rolha. Em seu conteúdo via-se uma branca e simples… areia.
- Se for uma brincadeira, acho que ele foi longe demais pra isso.
- Você trouxe vinho! — Lucia chega envolta de sua toalha.
- Trouxe seus cigarros, também.
- Obrigada — diz beijando-o na nuca.
- Baixinha, pele branca, longos cabelos pretos e olhos castanhos. Eu tinha que admitir: Lucia era um pedacinho de mau caminho.
- É um vicio horrível, mas eu não vivo sem isso.
- E eu continuo dizendo que você viverá mais sem ele.
- O que é isso? — muda de assunto ao olhar o pote nas mãos de Mauro — Areia?
- É. Areia — colocando o pote sobre a mesa.
- Quem é esse Jack afinal e por que mandaria algo assim?
- Um amigo de infância. Há um bom tempo não nos falamos e de repente ele me manda isso.
- Veio mais alguma coisa?
- Parece que não. — responde revirando a caixa — Só esse jarro de… areia.
- Que esquisito.
- Mas tem um lado bom. — olha Lucia com um sorriso besta no rosto — Agora eu posso dizer que tenho um jarro de areia!
- Hãn?
- Nada não. — abraça a baixinha — Que tal sairmos amanhã e aproveitarmos a sua folga?
- Não vai dar. — mexe no cabelo — Eu vendi minha folga pra ganhar um dinheiro a mais, então...
- Ok. E que tal agora?
- Agora? AH!
Se levanta, pega Lucia pela cintura, a ergue e a gira no ar. Termina deitando-a no sofá, ficando por cima dela e retirando parte de sua toalha.
- Vamos dar uma saída. Coloca aquele vestido que fica lindo em você e vamos pra um restaurante.
- Não podemos gastar, esqueceu? Temos contas pra pagar.
- Então que tal nós três? — explora o corpo dela com uma das mãos.
- Três?
- Você, eu e essa garrafa de vinho. Podemos fazer algo interessante juntos. — começa a beija-la no pescoço — Faz um tempinho que não brincamos.
- Não dá. — segura o rosto dele com ambas as mãos – Eu… tô naqueles dias.
Se levanta, pega uma toalha que está sobre uma cadeira e vai pro banheiro.
- Me desculpa tá? — Lucia se estressa — Não é fácil ser mulher. Queria que você sangrasse todos os meses, daí você...
- Fato: quando se vive com alguém durante muito tempo, você descobre tiques, manias, costumes… coisas que talvez essa pessoa não queira que você saiba. No caso dela é a mexida no cabelo. Sempre que ela faz isso é por que ela está mentindo. Em certos momentos um simples "não" já seria melhor do que mentir.
Tira as roupas e as joga no cesto. Liga o chuveiro e começa o banho.
- Admito que temos contas pra pagar, mas a maioria delas são de investimentos que ela fez sem me consultar e que deram errado. Agora eu pago por isso também. Se me pedirem para resumir essa relação em uma palavra, seria "fracasso". Eu não sei por que ainda tento algo com ela. Vou falar com ela amanhã e terminar. Será melhor para ambos se cada um seguir com sua própria vida.
Desliga o chuveiro, enrola-se na toalha e segue para o quarto. Novamente passa pela sala e encara o presente enviado pelo amigo. Se senta na cadeira, pega o pote e o abre. A areia era muito branca e muito fina. Mauro pega uma quantia com a mão direita e a faz escorrer por entre os dedos, fazendo-a voltar ao pote. Sua textura lembrava pó, mas ela não deixava vestígios nas mãos.
- O que quer que eu faça com isso, meu caro Jack? Uma ampulheta?
Pegando mais um punhado de areia e deixando-a cair de volta ao pote, Mauro sente como se tivesse visto algo na areia. Pegando mais um montante de areia, ele se aproxima e a deixa cair para o pote lentamente.
- Mas o que é...
- Mauro?
O susto ao ter seu ombro tocado e ver Lucia, vestindo uma curta camisola rosa e um shortinho preto, ao seu lado foi tanto que Mauro derruba a areia de sua mão sobre a mesa e no maço de cigarros.
- Porra, Lucia! — coloca as mãos na testa — Não me assusta assim!
- Eu não te assustei! — a pequena responde ofegante — O seu susto me assustou também.
- Precisa de alguma coisa?
- Ver se você já vem deitar. Não tô me sentindo segura em ficar sozinha.
- Ta com medinho é? — Mauro brinca e faz uma expressão sarcástica.
- Não é medo! Só estou preocupada. Senti algo ruim hoje cedo e isso me assustou um pouco.
- Você geralmente fuma pra controlar isso. Pega aqui os seus cigarros e-
Olha para a mesa, mas vê apenas a areia que havia caído.
- Você pegou os cigarros?
- Hum?
- Como assim "hum"? O maço de cigarros que eu te trouxe. Você pegou? Tava aqui em cima.
- Do que você tá falando?
- Eu fui no mercado e trouxe o vinho e cigarros.
- Você só trouxe o vinho.
- O que?
- É. Eu fiquei meio chateada quando você me disse que tinha esquecido e tal, mas- HEY!
O espanto de Lucia foi devido ela ter seus braços segurados por Mauro.
- Se isso for brincadeira não tem graça nenhuma! — olhando-a nos olhos.
- Que brincadeira, Mauro? — se debate — Você ta me machucando!
- Eu te trouxe um maço de cigarros. Você me beijou na nuca e disse que não vivia sem eles. Me confirma isso!
- Da mesma maneira que sei quando Lucia está mentindo, é impressionante como aquela tremida na sobrancelha direita define que ela diz a verdade — solta os braços dela e volta a se sentar meio desorientado.
- Não sei o que houve, mas acho que você deve ter trabalhado demais. — o envolve no pescoço com os braços — Deixa isso aí e vem pra cama.
- Talvez… você tenha razão. — a acaricia nas mãos — Me desculpe.
- Não foi nada. — o puxa levemente — Vem pra cama.
Mauro coça a cabeça, se levanta e segue a pequena.
- Pode ser cansaço ou qualquer outra coisa. Eu só espero que isso passe pela manhã. De repente dormir passou a ser o que eu mais quero nesse momento.
Notas finais
A opinião de vocês é muito importante e faz com que eu me esforce mais (ou menos) nas minhas fics.
Aguardo reviews!
Até mais!
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