Areia & Estrelas
1 Capitulo Único
O sol de Alabasta queimava com a mesma intensidade de sempre — abrasador, implacável, dourado como as areias infinitas do deserto que rodeavam o palácio real. O tempo passara, mas para Vivi, parecia que aquele calor trazia consigo os ecos de risadas antigas e promessas não ditas.
A multidão se amontoava diante dos portões do palácio. Havia bandeiras erguidas, dançarinas celebrando com fitas azuis ao vento, e uma ansiedade que pairava no ar como eletricidade antes de uma tempestade de areia.
Vivi observava tudo da sacada mais alta da torre central. Os dedos apertavam a grade de ferro forjado, e seu coração batia como os tambores cerimoniais abaixo. Anos haviam se passado desde a última vez que o vira... E agora, ele voltava.
Monkey D. Luffy.
O homem que se tornara o Rei dos Piratas.
Ela engoliu em seco. "O mesmo sorriso de sempre?", se perguntava. "Ou terei que aprender a amar um estranho?"
— Princesa — chamou Pell atrás dela, num tom respeitoso, mas preocupado. — Eles estão chegando.
Ela não respondeu. Apenas assentiu, mas não saiu dali. Seu peito doía — uma dor estranha, doce e cruel ao mesmo tempo. Porque ela sabia que não era só Alabasta que seria visitada naquela tarde... era o passado também.
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O navio do Rei dos Piratas era uma visão quase mítica. O Thousand Sunny agora ostentava velas bordadas com detalhes em ouro, e um mastro novo com um brasão personalizado — o chapéu de palha cercado por estrelas. Mas Luffy, ele... ele continuava o mesmo.
— OLHA, ALABASTAAA!! — gritou, pulando no convés com o mesmo entusiasmo de um menino vendo o mar pela primeira vez. — TÔ COM FOMEEE!!
— Você acabou de comer sete pedaços de carne de elefante-marinho — comentou Zoro, revirando os olhos.
— Isso foi há quinze minutos! — respondeu ele, já esticando os braços na direção da praia.
Robin sorriu para Nami, que apenas balançou a cabeça, acostumada demais para se irritar.
Mas Law, agora parte da tripulação honorária — embora com uma cabine distante e uma cara ainda mais distante — observava Luffy com um olhar clínico.
— Ele tá mais inquieto do que o normal. Isso não é só fome — murmurou para si mesmo, antes de seguir para seu cantinho, fingindo que não se importava com o reencontro.
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Quando os portões se abriram, Luffy foi o primeiro a atravessá-los, sem cerimônia, sem hesitar. Os guardas se assustaram, os nobres recuaram... mas Vivi ficou ali, no topo da escadaria de mármore branco.
Os olhos dele a encontraram. Como se fossem atraídos.
Vivi sentiu o ar abandonar seus pulmões.
Luffy sorriu.
Não o sorriso de sempre. Não aquele aberto, escancarado, de "eu tô feliz e dane-se o mundo". Era um sorriso mais contido... quase hesitante. Um que dizia: "Eu te conheço. Eu lembro de você. E senti sua falta."
Ela desceu os degraus devagar. O vestido azul balançava com o vento quente, e os véus dourados pendendo do cinto faziam som de sinos suaves. A cada passo, sentia o coração acelerar, e as lembranças voltarem. Ele a carregando nos ombros, rindo ao lado dela, protegendo seu povo...
Mas acima de tudo, aquele momento no deserto.
Quando ele estendeu o braço, fechou o punho e mostrou o símbolo da promessa.
A cruz no braço.
A lealdade eterna.
— Oi, Vivi — disse ele, com simplicidade.
Ela parou a poucos passos dele. O coração aos pulos, o rosto erguido como a princesa que era, mas os olhos... ah, os olhos dela estavam mais frágeis do que nunca.
— Você voltou — murmurou, como se não acreditasse.
— É... — coçou a nuca. — Eu prometi, lembra?
Silêncio. E então, ela sorriu. Um sorriso cheio de saudade, de dor, de carinho. Um sorriso que dizia: "Esperei por você."
E ele sorriu de volta. Porque ele... ele não sabia nomear o que sentia. Mas doía. Doía de um jeito bom. E quando olhava pra ela, tudo dentro dele parecia querer correr, gritar, voar.
Nami, lá atrás, deu um empurrão discreto em Usopp.
— Olha só esses dois... é agora que começa.
Zoro bufou. — Já demorou tempo demais.
***
O céu de Alabasta estava pintado de laranja quando Vivi conduziu Luffy até um dos jardins internos do palácio. Era um lugar escondido, silencioso, onde o barulho do mundo parecia se calar para ouvir apenas os suspiros da areia e o som das estrelas nascendo.
— Eu costumava vir aqui quando era pequena — ela disse, com um sorriso tímido, os dedos deslizando pela borda de uma fonte de pedra. — Sonhava com liberdade. Em fugir com um grupo de piratas malucos e mudar o mundo.
Luffy riu baixo, aquele riso meio rouco, meio distraído.
— Você já mudou o mundo, Vivi.
Ela desviou o olhar.
Ele estava diferente. Mais maduro, mais... homem. Mas havia uma faísca intacta nele. A mesma que fez seu coração acelerar quando ele a chamou pelo nome pela primeira vez, anos atrás.
— E você virou o Rei dos Piratas... — Ela o olhou de canto. — Deve ter vivido muitas aventuras.
Ele deu de ombros, meio desconfortável. — É, algumas.
— E... algumas com mulheres?
Luffy franziu o cenho, surpreso. — Hã? Por que tá perguntando isso?
— Ah, não sei — ela disse casualmente, cruzando os braços. — A Robin comentou que em Sabaody uma sirena tentou te beijar. E a Nami riu de uma tal de "Rainha das Flores de Primavera" em Tequila Wolf que queria casar contigo.
Luffy ficou vermelho. Muito vermelho.
— N-Não foi nada demais! Eu não entendi o que ela queria até o Sanji gritar "recusa antes que seja preso por bigamia interdimensional", sei lá o que isso significa...
Vivi arqueou a sobrancelha, fingindo indiferença. — Hm. Interessante. Então você anda atraente agora.
Ele arregalou os olhos. — Você tá com ciúmes?!
— N-não! — Ela virou o rosto rápido. — Só estou curiosa sobre as aventuras diplomáticas do rei dos piratas, só isso.
Ele se aproximou, estreitando os olhos. — Tá com ciúmes.
— Cala a boca, Luffy.
— Você tá, sim — ele disse, agora sorrindo de canto, malandro. — Heh... é engraçado.
Ela cruzou os braços com força, o rosto corado até as orelhas.
Mas então ele devolveu:
— E você? Me falaram que o rei Nefertari tentou arrumar pretendentes pra você. Quase casou, né?
Ela congelou.
— Isso... não era pra você saber.
— Eu sei — ele disse, e a voz soou diferente. Mais baixa. Tensa. — Mas eu soube. Que teve um cara de alguma ilha rica. E outro príncipe, né? E um tal de Karven que te mandava cartas cheias de poesia.
Ela suspirou, um pouco irritada.
— Nenhum deles era você, Luffy.
Silêncio.
O tipo de silêncio que parece gritar.
Os olhos dele encontraram os dela, e havia algo novo ali. Uma emoção crua, intensa... quase dolorosa.
— Por que não escolheu um deles?
Ela se aproximou. Um passo. Depois outro.
— Porque eu nunca quis outro — ela murmurou. — E porque eu sabia que, em algum lugar, você ainda tava lá fora. Vivendo. Vencendo. Mas... meu coração sempre esteve aqui. Esperando.
Ele engoliu em seco.
Os dedos dele tremeram ao se fecharem ao lado do corpo.
— Eu... também. Não entendi isso por muito tempo. Eu só achava que sentia falta de você porque você era legal. Ou forte. Ou... sei lá. Mas quando eu virei Rei dos Piratas, eu percebi que tinha tudo. Menos uma coisa.
Ela mordeu o lábio.
— O quê?
Ele se aproximou mais um passo, o rosto a centímetros do dela. O calor de Alabasta não era nada perto do calor daquele momento.
— Você.
As palavras vieram num sussurro. E Vivi... Vivi perdeu o ar.
O tempo parou ali, naquela confissão sutil, naquele olhar que falava de batalhas travadas dentro de corações que nunca souberam se expressar com palavras.
— Então... por que não faz nada a respeito? — ela provocou, voz trêmula, desafiadora.
Luffy a olhou com aquele olhar determinado de quem enfrenta um almirante. E então...
Ele se inclinou.
Encostou a testa na dela.
Respirou fundo.
— Porque quando eu fizer... não vai ter volta.
Ela fechou os olhos. Sorriu. E respondeu:
— Então me mostra o caminho.
E ali, em meio às areias silenciosas e às estrelas que os observavam como velhas cúmplices, o Rei dos Piratas encontrou o que nenhum mapa jamais mostrou: o lar que o coração dele sempre buscou.
***
Meses haviam se passado desde a visita de Luffy a Alabasta. Mas para Vivi, tudo ainda parecia um sonho — um sonho bom, vívido, com gosto de liberdade e cheiro de mar.
A decisão não foi simples.
Ela era princesa. Tinha deveres. Tinha um povo.
Mas também tinha um coração.
E ele gritava por algo maior que fronteiras. Algo que ela adiava há anos: ser feliz.
E naquele último dia, diante do trono de seu pai e das paredes que guardaram seus sacrifícios silenciosos, ela fez sua escolha.
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— Tem certeza disso? — perguntou Cobra, o rei, com a voz cansada, mas os olhos cheios de compreensão.
Vivi assentiu, firme.
— Alabasta está em paz. Tenho feito tudo o que pude pelo meu povo. Agora... quero viver. Quero sentir o vento do mar, as estrelas de ilhas desconhecidas, e... estar ao lado dele.
Cobra suspirou. E sorriu.
— Então vá. Com orgulho. E quando olhar para o céu... lembre-se de que sua terra sempre te seguirá com os olhos.
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O Thousand Sunny balançava suavemente nas águas tranquilas do entardecer. Vivi estava no convés, observando o mar, os cabelos presos num coque solto, algumas fitas azuis dançando ao vento. Ela usava roupas mais simples agora — práticas, leves, com aquele toque de realeza que ela nem precisava se esforçar pra carregar.
Luffy se aproximou por trás e jogou um pano nos ombros dela.
— Tá ventando. Vai gripar, princesa.
— Você se importa agora?
— Eu sou o rei dos piratas, não posso deixar minha rainha doente — ele disse com aquele sorriso desajeitado, mas sincero, que fazia tudo dentro dela se acalmar.
Ela virou de frente pra ele.
— Então é isso mesmo?
— Isso o quê?
— Eu sou sua rainha?
Luffy coçou a nuca. — Não sei como essas coisas funcionam. Mas se significa que você vai ficar comigo, lutar comigo, rir comigo... então, é. Certeza.
Ela sorriu. E, sem pensar, o puxou pela camisa e colou os lábios nos dele.
Foi rápido. Suave. Um beijo como uma promessa antiga finalmente cumprida.
Luffy arregalou os olhos no começo. Depois fechou devagar. E respondeu o beijo com aquele calor que ele mesmo não sabia que existia dentro de si.
— Isso é melhor do que carne — ele murmurou, quando ela se afastou.
Ela riu.
— Uau. Essa foi sua melhor declaração até agora.
— Ué, eu sou honesto!
Ela se encostou nele, o queixo no ombro dele, os braços em volta da cintura.
— E eu amo isso em você.
Ele ficou vermelho. Todo. Até a orelha.
— Você disse "amo".
— Disse.
— Tipo... me ama?
Ela assentiu, sem vergonha.
Ele ficou em silêncio por um tempo. Depois a abraçou forte, apertado, como se ela pudesse sumir se ele soltasse.
— Também te amo, Vivi. Mesmo sem entender direito como isso funciona... eu sei que é com você.
Ela fechou os olhos, sentindo o coração bater no mesmo ritmo do dele.
Longe, o mar se estendia até o infinito.
Mas agora, o mundo todo cabia ali — nos braços de Luffy, nas risadas da tripulação ao fundo, e no futuro que eles escolheram dividir.
Entre areias e estrelas, nasceu o que nem mesmo os mapas ousavam prever.
O amor do rei.
E da mulher que, sem precisar de título algum, sempre foi rainha no coração dele.
Fim.
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