Areia
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Quer parar o tempo
Natural que seja assim
Ainda eu não te sei de cor
Tem tanto que eu não aprendi
[Janeiro, 2015]
Estou sentado confortavelmente em frente a uma peça de silhuetas de um casal se beijando. O curioso é que não é possível distinguir se é um homem e uma mulher se beijando, se são dois homens ou duas mulheres. O artista apenas deixou em aberto a interpretação do casal. As pinceladas são firmes e tenho a impressão de terem sido feitas de uma única vez.
Me encontro numa exposição de arte onde foram reunidos diversos artistas desconhecidos para poderem conhecer os holofotes, e é esta a peça que mais chama atenção no evento. Estou com o notebook aberto sendo invadido por toda a sensação que a peça me transmite, pronto para pôr em palavras o que vim procurar: inspiração.
— Você acha que eles estão se conhecendo ou se despedindo? — Levanto os olhos do meu notebook procurando a voz. Olho para o lado e reparo na loira sentada ao meu lado. E ela é linda.
— Creio que estão durante seu relacionamento, apenas o beijo rotineiro. —Respondo-a.
Seus olhos pousam nos meus com cautela e vejo o quão azuis eles são. Lindos, como ela. Todos na sala estão usando roupas finas e salto alto, não ela. Trajando um jeans justo, combinando com um tênis branco e uma blusa de botão também branca, parecia que não havia perdido qualquer tempo escolhendo a roupa. O cabelo loiro estava preso em um coque frouxo que permitia que alguns fios se soltassem e emoldurassem seu rosto.
— Um beijo rotineiro, hm. — A loira repetiu minha frase analisando a obra na sua frente. — Considera algo bom ou ruim?
— Bom, o que teria de ruim? — Respondo prontamente. Quero fixar meus olhos na obra ou apenas no meu notebook, porém não consigo. Não quero me permitir tirar os olhos dela, porque apenas olhá-la faz a inspiração dançar dentro de mim.
Ela sorri para mim, um sorriso de canto bem simples e depois torna a voltar a olhar a peça. Não é dito mais nada, apenas ficamos os dois sentados no banco enquanto o evento rola a nossa volta. Escrevo freneticamente a observando de tempos em tempos, e ela apenas permanece lá, admirando o trabalho.
— Você não parece interessado em comprar nada aqui. — Sua voz chega até mim novamente e eu levanto os olhos mais uma vez para lhe dar atenção.
— Gosto de ir em exposições para ver se alguma peça me passa inspiração para escrever. Se não faço isso, não tenho meu ganha pão. — A loira ergue a sobrancelha, parecendo curiosa.
— Então essa lhe deu inspiração?
— Definitivamente, o artista, Yamanaka, é tão abrangente que eu me sinto na obrigação de escrever algo para essa obra. — Respondo com firmeza.
— O artista. — A loira sorri como se o que eu falei houvesse um duplo sentido que apenas ela havia desvendado e havia achado graça.
— Senhorita Yamanaka. — Um homem alto e de terno se aproximou de nós e parou ao lado dela. — Estão esperando a senhorita para apresentá-la a algumas pessoas. Podemos ir?
— Claro. — Yamanaka se levanta com graça e segue o homem, não sem antes virar para trás e sorrir para mim como se estivesse revelando seu segredo. Fico a observando indo embora até sumir da minha vista, então torno a olhar para a sua obra de arte com ela ganhando novas cores ao meu olhar.
Quer parar o tempo?
Pra eu ver daqui
Teu mundo vir assanhar meu rio
Eu posso até te olhar sem ir
[Setembro, 2018]
Me encontro observando uma tela em branco, frustrada demais para poder passar qualquer coisa para a tela. Meu interior é de puro desespero e tristeza, refletindo sobre uma vida que já não mais reconheço como a minha.
Me levanto jogando o pincel para longe e decidindo que preciso de um ar fresco para poder espairecer. Visto um casaco para me proteger do vento e saio apenas com as chaves, o celular e um maço de cigarros na mão.
Durante minha caminhada passo numa cafeteria apenas para comprar um café expresso forte para me esquentar e caminho até uma ponte que sei que fica próxima a um parque. Chego na ponte e apoio o copo de café enquanto acendo o cigarro, esperando que a minha frustração finalmente seja levada embora. Apenas fico observando as pessoas indo e vindo na noite. Há crianças, velhos e alguns casais.
— Não me lembrava que você fumava. — Fico sobressaltada e olho para trás apenas para ver aqueles olhos verdes que há pelo menos um ano e meio eu já não mais os via. E ele continua lindo, como sempre. Os cabelos vermelhos e chamativos contrastando com a pele clara, no lugar das roupas casuais que vestia agora se encontrava um terno.
— Boa noite, Gaara. — O respondo voltando a me virar para a paisagem do parque.
— Fico imaginando porque você está aqui sozinha. — Gaara se coloca ao meu lado com as mãos no bolso da calça que evidentemente são caras.
— Você não tem alguma história para escrever, não? — Resmungo.
— Você sabe que não escrevo mais. — O olho pelo canto dos olhos e vejo que ele está passível como sempre. Como sempre não, como na maior parte do tempo.
— Uma dama não pode sair sozinha para espairecer? — Me viro na sua direção jogando no chão o cigarro que já não está mais me satisfazendo. Dou um gole no café enquanto o observo não deixando passar qualquer reação.
— Onde ele está? — Ah, então finalmente ele soube. Minha desgraça.
— Foi embora como o covarde que é. — Vejo que Gaara trinca o maxilar com raiva e tento não lhe dar razão para tal, mas infelizmente não consigo. Também estou transbordando de raiva.
Tudo no seu tempo
Tão veloz por dentro
Em mim passa devagar
A me acertar
[Abril, 2015]
—” Eu era como o pássaro que me ensinaram a ser: livre e sem lugar pra voltar. E você era aquele céu por onde eu voava nas suas costas: nunca foi minha gaiola, como os amores por aí. Éramos livres. Sempre fomos. Nosso amor era a liberdade e era assim que o espalhávamos pelo mundo a fora, mostrando que nem sempre precisa ter raízes para se prender.” — Sou pego desprevenido quando uma voz, que eu achava que com o passar dos meses houvesse esquecido, chega até mim. Eu me encontrava escondido na livraria, esperando um momento a sós para poder admirar meu trabalho. Finalmente havia lançado um livro com uma coleção de contos e, incrivelmente, havia cativado as pessoas com eles.
Me viro tranquilamente sabendo quem estava me esperando e lá estava ela, com o livro em mãos, apoiada casualmente numa estante próxima. Seu cabelo estava preso novamente, como no dia em que nos conhecemos, porém hoje ela trajava um vestido leve com uma jaqueta por cima.
— “Que ser do céu, que ser do mundo, que ser do vento também fazia parte do amor que havia por aí, e esse era o nosso. Nós éramos leves, só fluíamos sem seguir uma regra. Só acontecia. Éramos brisas que se transformavam em tempestade.” — A loira completa e levanta os olhos do livro para mim. Olhos que refletiam o céu. — Eu esperava que fosse você o famoso escritor de contos.
— Está surpresa com eles? — Me aproximo dela apenas para me encostar a estante oposta em que ela se encontra.
— Fico tentando imaginar se algum deles foram escritos naquele dia. — Yamanaka sorri para mim e vira o livro na minha direção. — Me daria um autógrafo, Gaara?
Meu nome sendo pronunciado por ela soa melodioso e eu sei que naquele momento me sinto impedido de nega-la qualquer coisa.
— Dedico a quem? — Indago pegando o livro de suas mãos e começando a escrever uma dedicatória, esperando ansioso o momento em que definitivamente saberei seu nome. Naquele dia na exposição, todas as obras dela haviam sido vendidas e ela apenas assinava seu nome como Yamanaka, nunca o nome completo.
— Ino, quero este dedicado a mim. — Sorrio com a sua espontaneidade e termino de assinar, lhe entregando o livro em seguida. Quando ela pega o livro, eu não o solto deixando-o como uma ponte entre nós. — Eu te procurei naquele dia.
— Saí cedo, já havia achado o que fui procurar.
— Hoje eu também achei. — Tento conter meu sorriso. Lá estava ela, sempre com uma resposta pronta para retrucar qualquer coisa que eu lhe dissesse.
—” E aqui estamos eu e você (não nós), seguindo para um futuro que não nos pertence. Você está feliz?” — Ino recita mais um dos meus contos e se endireita segurando com mais firmeza o livro. —” Porque daqui onde estou eu me sinto feliz.”
A única coisa que me permito fazer então é admirá-la enquanto ela me olha de volta sorrindo pra mim da mesma forma que eu sorrio pra ela.
Feito areia êa—ah
Feito areia êa—ah
Em mim
[Setembro, 2018]
— Então, Deidara realmente conseguiu roubar todo o seu dinheiro das obras que foram vendidas. — A voz de Gaara soa grave e contida, eu sei que ele está sentindo raiva, é quase palpável. — Devo admitir que você tem um irmão bem lixo.
— Nada que eu não saiba. — Estou encostada na ponte e ele está ao meu lado. É reconfortante tê-lo por perto mais uma vez, porém a circunstância ofusca esse fato.
— Como você vai fazer agora? — Gaara desencosta da ponte e anda de um lado a outro na minha frente. Eu acho graça do seu nervosismo e rio mesmo assim, sei que ele ficará bravo. — Não tem graça, Ino!
— Tem sim. — Eu começo a gargalhar e ele para o seu caminhar apenas para ficar me observando. Vejo que ele está sendo contagiado pela minha risada e logo somos dois idiotas rindo no meio da noite.
Uma lágrima escapa dos meus olhos seguida de outras, até que as gargalhadas somem e no lugar delas apenas há o soluço do choro. Gaara para na minha frente, me escondendo de possíveis olhares curiosos e eu pela primeira vez depois de cinco meses me permito chorar pela perda. Não era exatamente a perda do dinheiro, mas havia sido um dinheiro que eu havia conquistado pintando minhas emoções, emoções que tocaram pessoas que se sentiram tão bem com as minhas peças que as compraram.
Respiro fundo e limpo as minhas lágrimas, me sentindo bem pela primeira vez com toda aquela situação.
— Eu não estou em apuros, Gaara, se é por isso que você veio. — Sei que assim que saiu nos jornais sobre o assalto que sofri pelo meu próprio irmão, sabia que Gaara apareceria. Na verdade, tentei abafar ao máximo toda aquela situação, tanto que consegui escondê-la da imprensa por cinco meses até não ter mais controle sobre o caos. — Deidara não sabia que eu havia assinado um contrato como ilustradora.
— E esperamos que ele não saiba. Você precisa se mudar, Ino. Troque tudo o que ele pode ter acesso. — Eu concordei com um aceno esperando que o assunto desse por encerrado. Na verdade, Gaara não poderia saber, mas eu já havia feito tudo isso, inclusive já havia arranjado um novo lugar para que eu pudesse me mudar.
Deidara havia me humilhado quando me roubou. E não somente me humilhado, como também humilhou nossos pais, aquilo era o que mais me fazia transbordar em raiva.
Tenho fragmentos
De uma vida com você
E tantos intervalos só
De longe, mas querendo crer
[Agosto, 2015]
Meus encontros com Ino eram sempre espontâneos, nada programado. Mandávamos uma mensagem um para outro quando batia a vontade de se vê, então onde estivéssemos, nós nos encontrávamos. Fomos a museus, exposições, peças e shows. Às vezes, nós apenas nos limitávamos as nossas casas onde trocávamos títulos de livros que deveríamos ler.
Eu gostava disso, de não haver um peso nessa relação. Nós apenas curtíamos estar perto um do outro. Hoje, inclusive, Ino havia me chamado para conhecer seu ateliê que ficava no andar de cima da sua casa. Eu tentava não ficar ansioso com isso, era algo incrivelmente íntimo para um artista.
— Você não pode falar nada da bagunça, ou sobre sujeira. — Ino recitava suas regras conforme subíamos as escadas até o ateliê. — De jeito nenhum pode falar dos potes espalhados.
— Eu prometo. — Coloco a mão direita no coração e levanto a esquerda como se estivesse fazendo um juramento, ação que lhe arrancou um riso. Esse era o meu momento favorito, quando eu conseguia fazê-la sorrir.
Ao abrir a porta do ateliê a primeira coisa que eu vi foi luz, muita luz. Havia uma parede inteira que era apenas composta por janelas para iluminar bem todo o ambiente. Ino havia falado sobre bagunça, pincéis, potes, mas eu não via nada daquilo.
Uma parede comportava todos os seus quadros de diversos tamanhos, um mais bonito que o outro, um mais antigo que o outro. A outra extremidade parecia ser onde ela guardava todo o seu material artístico e no centro era onde eu sabia com certeza que a mágica acontecia. Era lá que ela pintava.
— Você está pintando algo? — Indago no momento em que vejo uma tela pronta no centro e quando dou a volta, vejo que está em branco.
— Na verdade, eu deixei esse preparado pensando que talvez você me deixasse te pintar. — Ino nunca parecia que estava me pedindo permissão para algo, mesmo que o teor da frase em si desse a entender que sim.
— A vontade. — Levanto os braços fingindo rendição. Ino me deixa posicionado do jeito que ela acha melhor. Estou sentado de costas para as janelas, olhando fixo para ela porque foi a forma que me pediu para ficar, porém, sei que mesmo sem o pedido eu não conseguiria não ficar a admirando conforme passava o lápis com leveza na tela.
A hora se adiantou e nós não a vimos passar, somente quando alguém abriu a porta e Ino se sobressaltou que o encanto foi perdido. O homem que adentrou era loiro e possuía os mesmos olhos que Ino, definitivamente eram parentes.
— O que é isso, Ino? — Ele resmungou. — Sabe que não deve trazer ninguém aqui. E se ele a roubar?
— Para de graça, Dei. Eu o conheço. — A loira revirou os olhos e se levantou da cadeira.
— Você sabe que artistas menores perderam suas obras assim. — o homem parece exaltado e eu me levanto quando noto isso. Por algum motivo, não sinto confiança nele.
— Saía daqui e daqui a pouco a gente conversa sobre isso. — Ino o empurrou porta a fora e a fecha assim que ele passa. — Me desculpa, Gaara, mas creio que a pintura fica pra próxima hora. Assim que eu a terminar eu te mostro, mas por enquanto, eu preciso conversar com o meu irmão sobre bons modos.
Eu apenas concordei porque Ino parecia agitada e impaciente para resolver a situação constrangedora que havia se formado.
Tudo no seu tempo
Tão veloz por dentro
Em mim passa devagar
A me acertar
[Setembro, 2018]
— E como está a empresa do seu pai? — Indago assim que vejo que estamos confortáveis na minha sala. Vejo que Gaara reparou na tela em branco, porém não lhe dou oportunidade de perguntar sobre. Eu soube por Temari que Gaara havia cedido e passou a trabalhar com o pai.
— Não estou mais com ele. — Gaara fala isso me olhando nos olhos, vejo que ele estava ansioso para me contar sobre. — Na verdade, faz um ano que eu trabalho numa editora de livros.
— Está mais próximo do que gosta, então. — Sorrio para ele. O ruivo parece mais relaxado agora que não estamos mais na rua, e isso me deixa relaxada. — As voltas que o mundo dá, não é mesmo?
— É mesmo. Em pensar que o meu pai havia me comprado com um futuro que me foi tirado imediatamente. — O homem diz isso com pesar e é algo que me chama a atenção.
— O que?
— Ah, eu nunca havia tido a oportunidade de lhe perguntar ou se quer falar sobre isso, mas eu só havia concordado em trabalhar com o meu pai porque ele te descobriu. Ele sempre soube que eu escrevia, mas seus esforços para minar minha arte não foram válidos, até ele saber que você existia. — Gaara apoia os braços nas pernas e naquele momento ele parece mais cansado do que nunca. Finalmente ele estava deixando um peso ir.
— Você sumiu por que seu pai te ameaçou? — Pergunto tentando não ficar com raiva.
— Não Ino, eu fui embora porque meu pai te ameaçou. — Ele crava seus olhos nos meus e posso sentir sua frustração me atravessando. — Ameaçou acabar com o que você estava construindo, toda a sua história, suas obras, seus compradores, tudo.
— Eventualmente essa ameaça acabou acontecendo, não é mesmo. — Me seguro para não rir de como a situação que Gaara tentou evitar havia dado uma volta e mesmo assim acabou se concretizando, apesar de ter não sido feita pelo mesmo homem.
— De nada. — O ruivo resmungou de mau humor e aquilo fez com que eu risse e chamasse a sua atenção.
— Serei eternamente grata por você ter tentando defender o meu trabalho. —Enquanto digo a frase seguro sua mão e não quebro o contato visual. Era como se Gaara nunca houvesse se afastado, nunca houvesse me deixado. Parecia que não havia aquela coluna vazia na minha vida que ele deixou quando sumiu. Simplesmente com ele ali nós dois parecíamos ser a coisa certa. Se encaixava.
Feito areia êa—ah
Feito areia êa—ah
Em mim
[Fevereiro, 2016]
O celular da Ino não parava de apitar um minuto sequer, toda hora havia alguma ligação ou alguma mensagem de texto que ela resolveu que não era importante atender, então apenas silenciou o celular.
— É o meu irmão. — Ino evidentemente não estava satisfeita com essa perseguição ainda mais com uma exposição somente sua chegando.
— Meus irmãos também me tiram do sério. Não assim, claro. — Tento amenizar o clima tentando que ela se distraia.
— Jura? Temari é tão simpática. — Ino comenta apoiando o rosto na mão e o braço na mesa. Quando apresentei minha irmã para Ino quando fomos num bar, as duas se deram bem logo de cara e isso levando em consideração que a minha irmã não se dava bem com absolutamente ninguém. — Eu tenho um amigo que talvez sua irmã fosse gostar.
— Ah não, nada de ser casamenteira por aqui. — Eu resmungo e ela sorri pra mim.
— Que casamenteira o que. São apenas alguns amassos, que mal tem? — Ino pisca pra mim e eu me controlo para não ficar em graça.
— Enfim, mesmo você se dando bem com ela, ela gosta de pegar no meu pé assim como o Kankuro que não pode ver uma oportunidade para implicar sobre como eu ganho a vida. — Não faço ideia porque resolvi puxar um assunto que me deixa mais frustrado do que relaxado.
— Você tem escrito mais? — A loira pula o assunto e sei que faz isso para me distrair.
— Quase completando um manuscrito. — Me controlo para não mostrar a ela, quero que seja uma surpresa. — Creio que até o fim do mês eu apresente para a editora.
— Isso é incrível! — Ino dá um mini pulo na cadeira o que balança a mesa quase derrubando nosso café da manhã. Nós rimos da situação e ela segura a minha mão por cima da mesa. — Você é incrível.
E lá está meu sorriso, um sorriso que aparentemente eu só guardo para ela. Pego sua mão e a levo até meus lábios e lhe deposito um beijo nas costas da mão. Ino me observa com atenção como se estivesse gravando meus movimentos.
Então, o meu telefone toca.
— Alô. — Ino solta a minha mão e resolve tomar seu café enquanto eu atendo o celular.
— Ela é realmente bonita, Gaara. — Reconheço a voz do meu pai imediatamente. Eu tento não mudar meu jeito para que a loira não perceba que estou tenso com a ligação. — Ino Yamanaka, artista. Terá uma exposição no dia 03 de março. Incrível.
— Obrigado. — O respondo.
— Fiquei imaginando se você não reconsiderou minha oferta de ficar na empresa. — E aquele era o meu pai. Se não conseguia o que queria, ele dava um jeito de conseguir. — Antes que me responda, leve em consideração o árduo trabalho dessa artista que você encontrou.
Fico observando Ino enquanto ela toma o seu café e dá uma garfada na panqueca que está na sua frente. Ino que daqui eu posso ver tem tinta no cabelo e ela não reparou, vejo que seus ombros estão cansados de trabalhar nas pinturas que estava finalizando para a exposição e vejo como ela está satisfeita com toda a situação que envolve seu trabalho.
— Me encontre em casa, às 20h. — Meu pai finaliza a ligação e desliga na minha cara. Eu ainda fico com o telefone próximo ao ouvido enquanto todas as ações de Ino são captadas por mim. Finalmente me rendo a sua mania de parecer gravar o momento na memória e faço o mesmo.
Corta essa distância
Se agarra nesse vento e vem
Me abraçar
Dá pra juntar tudo
Espera o tempo certo e vem
Não deixa passar
[Setembro, 2018]
— Aquele quadro. É o que eu estou pensando que é? — Gaara interrompe a conversa de repente reparando num quadro que está encostado num canto escuro da parede. Ele se levanta com cautela e se aproxima do quadro, porém antes o ruivo se vira pra mim como se esperasse uma permissão.
— É o que você está pensando que é. — O respondo. Gaara toca no quadro com cuidado e o levanta para poder ver melhor a pintura, e então ele se depara com ele mesmo. A pintura que eu nunca o mostrei, mas que havia terminado no mesmo dia. — Ele estava na exposição. Muitas pessoas quiseram comprar.
— Por que você não vendeu? — Gaara parecia estar admirado com o meu trabalho, e sinceramente aquele havia sido um dos melhores que eu havia feito. As cores, o reflexo, a luz e principalmente a captura do momento certo dos olhos de Gaara, tão expressivos naquele instante.
— É um trabalho que somente te pertence. — O ruivo vira a pintura de forma que do sofá dá para vê-la perfeitamente. Ele volta a se sentar do meu lado e lá nós ficamos observando meu trabalho. — Pensei em te enviar mil vezes, e mil vezes eu desisti.
— Por que?
— Como eu poderia perder essa sua cara quando visse o seu retrato? — Vejo Gaara ficando um pouco envergonhado e eu o empurro de leve com o ombro. — Não precisa ficar sem graça.
— Eu senti a sua falta. — Ele fala de repente e aquilo me desconcerta. — Eu entendia o motivo de eu ter me afastado, mas depois quando eu finalmente consegui me livrar do meu pai, em parte porque a empresa faliu pela corrupção que encontraram, mas em parte também por finalmente ter cortado todos os laços, eu não consegui voltar para você. Eu estava envergonhado.
— Envergonhado por que? — Franzo o cenho sem entender o motivo e o homem pega minhas mãos e as beija antes de continuar a falar.
— Envergonhado por não ter continuado meu trabalho e isso me impedia de voltar para você, me impedia de lhe dizer o que eu fiz. Por isso eu só queria voltar somente quando estivesse voltado a escrever, porém o seu irmão adiantou o processo. — Eu respiro fundo tentando saber de onde aquele homem havia saído. Definitivamente ele não era de verdade.
— Eu também senti a sua falta, Gaara. — Ele levanta os olhos que até então estavam pregados nas nossas mãos. — Todos os dias. Você sumiu antes da exposição, só me mandou um manuscrito e depois só sabia de você pelos noticiários. Eu queria ir até você, só não sabia se devia.
— Creio eu que a vida se encarregou de nos trazer ao momento certo. — Gaara me encara com uma intensidade quase palpável e a única coisa que me permito fazer é o beijar. Ao tocar seus lábios sinto meu corpo se arrepiar por completo e me transbordo em saudades.
E assim
Enquanto der, enquanto quer
E assim
[Fevereiro, 2016]
Estou em casa fingindo que eu não existo esperando que meu pai tenha pelo menos a decência de me deixar em paz levando em consideração que eu havia concordado com a sua proposta.
A campainha toca e eu me levanto com raiva abrindo a porta de forma abrupta apenas para me deparar com Ino.
— Eu tentei te avisar que estava vindo, mas seu celular está dando como desligado. — A loira aponta para o telefone em suas mãos.
— A bateria dele acabou e eu esqueci de colocar pra carregar. — Jogo a pequena mentira. Eu havia desligado o celular apenas para não ser incomodado pelo meu pai. Observo o momento em que ela coloca uma mexa do cabelo atrás da orelha, depois sobre como fica jogando o peso do corpo de um pé para o outro. Estou gravando seus momentos em mim.
— Você está bem? — Ino franze o cenho preocupada e naquele momento eu sinto que vou lhe contar tudo. Sinto que terei que dizer que não posso vê-la, que não posso deixar que meu pai a alcance. Invés disso, coloco minhas mãos no seu rosto e me aproximo devagar esperando que ela me afaste, ato que não acontece.
A beijo com calma esperando saborear cada momento em que me permito beijá-la. Passo a mão pelos seus cabelos longos e loiros e sinto que estão presos por uma xuxinha que eu solto para poder ver seu rosto sendo emoldurado pelos fios dourados.
Nos afastamos um pouco apenas para podermos olhar nos olhos um do outro, apenas para absorver esse momento que será único. Ino coloca suas mãos em volta do meu pescoço e se aproxima de mim, está pronta para me beijar mais uma vez.
— Você demorou muito pra isso. — Ela sussurra antes de iniciar mais um beijo. A puxo para perto pela cintura e caminho com ela pra dentro da casa, batendo a porta em seguida.
A beijo com mais avidez esperando poder gravar pra sempre esse momento, esperando nunca o esquecer. Ino passa a mão pela barra da minha camisa pronta para tirá-la e eu permito, deixando que ela me observe com atenção. Ela me presenteia com um sorriso novo, um sorriso com malícia.
Somente com isso, com um sorriso, ela me deixa louco. A puxo para perto novamente tomando seus lábios e a ergo do chão fazendo com que prenda suas pernas em torno da minha cintura e caminho com ela até meu quarto.
Ao chegar, a deposito na cama com gentileza e me afasto um pouco apenas para poder abrir o zíper do seu casaco e o tirar, seguido da blusa e após isso o sutiã. O peito de Ino sobe e desce com a sua respiração pesada, sua pele alva chama minha atenção e passo a beijar seu pescoço alternando entre mordiscadas.
Feito areia êa—ah
Feito areia êa—ah
Em mim
[Setembro, 2018]
Gaara é gentil conforme eu me lembro da nossa primeira vez. Beija meu pescoço, meus ombros, meu colo até chegar aos meus seios. Seu olhar está carregado de desejo e amor, e neste momento eu não consigo me lembrar de qualquer pessoa além dele que alguma vez houvesse me olhado dessa forma.
Passo as mãos pelo seu cabelo e puxo seu rosto de volta para um beijo, tomando seus lábios pra mim. Nos beijamos com ferocidade e sinto que as mãos dele estão explorando meu corpo, reconhecendo cada canto dele.
Meu corpo chama pelo dele, assim como o meu coração deseja o dele. A ausência que se instalou durante esse um ano e meio parece ser nada perante a saudade que sinto dele. Eu não havia me permitido pensar sobre isso, sobre toda a falta que Gaara me fez, sobre como não havia ninguém que me fizesse transbordar como ele faz.
Sussurro seu nome na noite e controlo meu anseio de dizer o quanto o amo porque isso havia sido algo que eu havia guardado para lhe dizer depois, um depois que que demorou muito para chegar.
Gaara me completa e me preenche, e a noite passa em um piscar de olhos onde havia somente nossos corpos, nossos sussurros e gemidos. Quando o sol está nascendo, nos encontramos deitados de frente um para o outro. O ruivo passeia as mãos pelas minhas costas fazendo com que arrepios passem por mim.
— ” Eu reconheço o amor e um dia ele também me reconhecerá. Seja por minha loucura, medo, angústia ou gargalhada. Um dia o amor virá e eu estou esperando por ele.” — Recito um dos seus contos do manuscrito que ele apenas entregou a mim antes de sumir.
— “Eu estou fazendo coisas pensando que amanhã eu não vou estar aqui. E se eu não estiver, saiba que eu também amo você.” — Gaara sussurra de volta pra mim. Este era o último verso do último conto no manuscrito. Foi sua despedida pra mim, mas neste momento é o seu olá.
Fale com o autor