Fabi me fez passar por algumas crises de identidade.

A primeira foi eu perceber que gostava de garotas também. Sempre guardei em uma caixa fechada com 70 (7 é pouco) chaves minha atração por mulheres. Por toda minha adolescência

Quando me apaixonei por Fabi ela tinha outro nome e pronome.

Por vários meses no meu terceiro ano meu coração disparava quando me aproximava dela e de alguma forma quis mentir para mim mesma (nenhuma novidade aqui) quando ela se revelou trans que todos esses sentimentos românticos haviam se dissipado no ar.

Mas é claro que eles voltaram chacoalhando tudo o que eu tinha como base. Passamos um ano praticamente sendo amigas virtuais depois dessa revelação (nem posso dizer "bombástica", pois muitas coisas fizeram sentido), pois me mudei para outro estado para faculdade. Nesse meio tempo claro que tentei (e achei que havia conseguido) me convencer que não sentia nada mais que amizade por ela. "Eu sou hétero e ela uma garota, é lógico que eu não gosto dela desse jeito" dizia como um mantra toda vez que meu coração ameaçava bater mais rápido do que o estritamente necessário quando recebia uma mensagem dela.

E o que aconteceu? Depois de um ano de negação (vamos fingir que foi "só" isso), Fabi passara no vestibular no mesmo campus que eu. A solução mais óbvia foi dividirmos a kitnet que eu já ocupava sozinha.

E o que aconteceu? Bem, a cada segundo que passava ao lado dela (algo, convenhamos, bem fácil quando se divide um quarto) eu mais desejava proximidade, como se nada fosse o bastante. O que aconteceu é que eu sonhava acordada com a personificação de um sonho dormindo na cama ao lado.

Pensei muitas vezes que estava confundindo tudo, que de certa forma ainda via Fabi com um gênero que nunca foi o dela e que eu não gostava de garotas. Entretanto em meio a guerra civil atualmente quase eterna em meu cérebro, conseguia admitir que ouvir qualquer pessoa ignorando sua identidade me fazia ferver de raiva e que eu não conseguia nem fazendo um grande esforço vê-la como algo que não a mulher que ela é. Além disso, se eu estiver sendo muito sincera comigo mesma (uma raridade), Fabi não foi a primeira mulher que me admirei não platonicamente. Não foi algo que surgiu do nada e Fabi estava longe de ser uma exceção.

E o que aconteceu? Depois de um ano ela decidiu mudar de curso, de cidade e voltei a morar sozinha em minha kitnet.

O que acontece é que após tanto tão juntas, é sufocante a ausência.