Notas iniciais
Aqui está, beijos e boa leitura :*

Fleur Delacour olhou seu próprio reflexo no espelho.

Aquela blusa vinho caía-lhe muito bem. Deixava seus ombros, com sardas cor de caramelo, nus, cobertos apenas por mechas loiras levemente onduladas. Espirrou um pouco de perfume em seu pescoço de cisne com clavícula muito aparente e respirou fundo, preparando-se para a noite que estava por vir.

—Estou prronta, Gui. — Saiu para a sala. O ruivo estava no sofá bege, aguardando um tanto impaciente.

—Bem, finalmente. — Ele sorriu. Assim que ele se virou, Fleur tomou discretamente mais um gole de sua taça de vinho. Vestiu um casaco e deu o braço para seu marido, para então aparatarem.

Assim que chegaram, começaram a escutar a barulheira do estádio. Encontraram o resto da família Weasley logo depois, esperando em uma tenda para entrar na tão aguardada copa de quadribol, pós-guerra do mundo mágico. Talvez aquilo representasse uma grande vitória contra o lorde das trevas e o reerguer da comunidade bruxa, mas o máximo que Fleur conseguia fazer era esconder sua expressão de frustração por Gui ter cancelado o jantar do segundo aniversário de casamento, tão meticulosamente planejado por ela, para assistir ao jogo.

No entanto, ela não era do tipo que discutia, sem ter certeza de que seria útil. Preferiu guardar a frustração e sorrir amigavelmente para o resto da família de seu marido, que era a sua agora. Era isso que sua mãe lhe teria dito pra fazer.

Todos estavam lá. Até mesmo Hermione Granger e Harry Potter, que estavam namorando um dos Weasley, cada. Foi o consolo de Fleur saber que, além de Gina que não ia com a sua cara e sra. Weasley, haveria mais alguém para ela conversar, considerando que os rapazes estavam demasiados concentrados no jogo.

Ali foi a primeira vez.

Fleur cumprimentou Hermione, sorridente. As duas ficaram conversando praticamente a partida inteira, descobrindo que, surpreendentemente tinham muitas coisas em comum, não se importando muito para o jogo. Falaram sobre cinema, música, e até mesmo, seus respectivos amantes, que estavam animados na arquibancada cantando o hino da irlanda.

Assim que a partida acabou, todos desceram das arquibancadas, alegres demais pela cerveja. Gui se apoiava nela, comentando sobre as jogadas que ela sequer prestara atenção. Fleur sorria, tentando acompanhar a discussão acalorada sobre os times. Hermione puxou-a de lado e se despediu, com um beijo na bochecha, alegando que precisava levar Rony para casa, pois o ruivo tinha acabado de comprar uma briga com a torcida do time oposto. Logo depois Fleur também foi embora, se despedindo dos Weasley com um sorriso.

Assim que chegou em casa, Gui se trocou e se jogou na cama com ela, dando-lhe alguns beijos brincalhões no pescoço. Logo adormeceu, cansado tanto pelo jogo quanto pelo álcool. Fleur levantou-se da cama e foi até a varanda, tirando um maço de cigarros do fundo da bolsa. Acendeu-o e o tragou, soltando a fumaça em direção à praia. Feliz aniversário de casamento, pensou.

* * *

A segunda vez foi um ano depois.

Fleur, depois de ter a noite salva pelas conversas com Hermione, começou a se corresponder com a morena. Não tinha mais ninguém com quem conversar além o marido e de sua família, e acabou tendo discussões divertidas ao longo de um ano de cartas com a amiga. Elas trocavam reclamações da casa ou dos empregos, compartilhavam situações engraçadas e sonhos. Ambas tinham descoberto outra coisa em comum: uma de suas metas, era ter conhecido o mundo antes dos trinta anos.

Tudo corria tediosamente bem, até aquela noite chuvosa de novembro. Gui tivera que ficar até mais tarde no trabalho, por alguma razão que não pôde explicar à sua esposa. Fleur simplesmente colocou um de seus discos favoritos pra tocar e sentou-se no sofá, bebericando uma taça de vinho e fumando um cigarro.

Alguém bateu a porta. Sobressaltada, a loira olhou pelo olho mágico e se surpreendeu. Abriu a porta para Hermione, toda molhada de chuva e com os olhos vermelhos. Antes de lhe perguntar o que houve, a morena sentou-se no sofá, tomando a taça de vinho de Fleur para si.

—Rony. — Explicou ela. — Brigamos feio. Desculpe… Eu não sabia pra onde ir.

Fleur sentou-se ao lado dela, abraçando-a enquanto ela contava o resto da história. Aparentemente, o ruivo brigara com ela por ciúmes, coisa que já tinha acontecido antes. Hermione resolveu dar um basta e saiu da casa em que compartilhavam. Voltaria lá no dia seguinte para pegar suas coisas.

—Eu não sei se estou fazendo a coisa certa. — A morena enterrou o rosto nas mãos.

—Sabe, — Fleur lhe encarou. — Quando eu tinha 11 anos de idade, minha mãe me disse para arrumar um marido, ou eu ia ficar solitária.

—E você arrumou. — Hermione observou.

—E estou mais solitária que antes. -Falou ela. — Não devemos depender de ninguém para ser feliz. Tire esse tempo para fazer qualquer coisa que você quiser, Herrmione.

Hermione secou as lágrimas. Fleur a deixou ficar pelo resto da noite e as duas madrugaram no sofá, conversando e bebendo ao som de beatles.

Quando já era de manhã, Hermione deu um abraço apertado em Fleur, agradecendo por tudo. Com os olhos marejados novamente, foi embora. Logo depois, Gui apareceu.

—Onde você estava? — Perguntou ela. Ele murmurou algo sobre “festa no escritório” e foi se deitar, mencionando o que queria para o almoço. Fleur, novamente, engoliu o que queria dizer e foi, afinal, preparar a comida.

* * *

A terceira vez que Fleur a viu, foi três meses depois.

Depois de ter se ajeitar em um apartamento no centro de Londres, Hermione a convidou para um jantar lá. Tinha definitivamente largado o ruivo que namorara e agora vivia sozinha, com a independência que sempre quis.

Assim que chegou, Fleur a abraçou com força. O episódio da noite chuvosa e as coisas que ocorreram depois disso as tinham tornado muito próximas uma da outra. No meio da refeição, Fleur lhe resolveu lhe contar um segredo.

—Tenho juntado um dinheiro. — falou. — Vou seguir meu próprio conselho. Vou deixar Gui e fazer o que quero.

Hermione quase engasgou com o suco.

—Por que? O que aconteceu?

Fleur lhe deu um sorriso, decepcionado mas não surpreso.

—Ele está me traindo. — Respondeu ela. Tinha ido ao trabalho do marido dias antes para uma surpresa e o pegara na sala com uma mulher de cabelos negros e lisos, desconhecida a ela, agarrando o pescoço dele. Ele tinha as mãos levantando a saia dela.

Hermione levantou-se da mesa e foi ao lado dela, segurando suas mãos, preocupada.

—Não o culpo. — Fleur explicou. — Eu não fui feita pra isso. Pra ficar em casa o dia inteiro, esperando-o chegar para ter de fato algo pra fazer. Pra ter filhos e vê-los crescer, e envelhecer com a sensação de não ter vivido nada. Sendo vistada uma vez por mês pelos meus netos.

Hermione ficou em silêncio por um momento.

—O que você vai fazer agora, então?

Fleur fixou os olhos azuis nos castanhos dela, cheios de preocupação.

—Eu vou fazer o que sempre quis. Vou viajar o mundo. -Falou, sorrindo. — E quero que você venha comigo, Herrmione.

A morena encarou-a, surpresa por alguns instantes. Pensou que não havia nada com que se preocupar, ninguém para deixar pra trás. Assentiu com a cabeça.

—Você vai comigo? Sério? — Fleur levantou-se da cadeira e abraçou a amiga, erguendo-a no ar. — Bem, vá arrumar as malas, então!

—Já vamos agora? — Hermione perguntou, abobalhada.

—Assim que saí, deixei um bilhete em cima da mesa de Gui. — Explicou. E então, com os olhos brilhando, sussurrou: — Estou me sentindo tão livrre!

Hermione correu para o quarto para arrumar as coisas. Fleur sentou-se na mesa, esperando pacientemente, ajeitando de vez em quando o vestido de seda clara. Olhou para o copo de vinho cheio em cima da mesa, mas não o pegou.

* * *

Depois da terceira, Fleur parou de contar as vezes.

Elas estavam juntas todos os dias. Dividiam os quartos do hotel e saíam à noite juntas. Passaram meses viajando na Rússia, depois na Índia e Japão, e agora estavam em nova yorque, já há dez dias.

Nessa vez especifica, seja qual for, aconteceu algo diferente.

Estavam juntas num pub, pouco iluminado. Riam dos americanos, com seus narizes empinados e modos rudes, e cantavam junto as músicas que conheciam. Ambas já tinha tido uma considerada dose de álcool, mas elas não se importavam, pois se sentiam seguras uma na presença da outra. Era como se conhecessem desde a infância.

Uma música começou a tocar na Jukebox e Fleur se aprumou na cadeira. Pousou sua mão sobre a de Hermione.

—There is a light that never goes out. — Gritou acima do som, puxando a morena para dançar consigo. Hermione foi, sem receios.

As duas dançavam muito perto uma da outra, já que a pista estava cheia. Hermione divertia-se com as luzes rodando e a melodia alegre. Os olhos azuis de Fleur se destacavam na luz roxa, e seus cabelos pareciam cor-de-rosa. A música foi ficando mais lenta, até parar, e nessa hora Fleur a segurou pela mão, para voltarem à mesa. Num ímpeto, a morena a puxou para perto, encostando seus lábios no dela, com um leve grito de contentamento das pessoas em volta.

Assim que se afastaram, Hermione arregalou os olhos.

—Oh, Merlin. Desculpe, eu não quis…

Fleur, depois de uma ligeira surpresa, sorriu com seus dentes perfeitamente brancos e bochechas coradas. Sem dizer nada, aproximou-se da morena, desta vez ela puxando-a e não pela mão, sim pela cintura. Durante o beijo, suas mãos percorreram-lhe as costas delicadamente, até se agarrarem aos seus cabelos cacheados castanhos. Hermione sentia os cabelos longos e ondulados dela roçarem-lhe levemente as bochechas.

Assim que se afastaram, nenhuma das duas soube o que dizer.

—Bem, — Fleur começou. — Vamos voltar para a mesa?

De fato, todos à volta delas na pista de dança as encaravam. Hermione sentiu-se subitamente muito vermelha, enquanto caminhavam de volta para a mesa, escondida em um dos cantos do bar. Continuaram a conversar, não como estavam antes, mas também não sentiam um clima tenso. Uma hora Fleur apoiara a mão em cima do assento, e Hermione tomou a liberdade de segurá-la junto à sua. A loira não pareceu achar ruim.

Horas depois, resolveram voltar para o hotel. Subiram no elevador, planejando o que fariam no dia seguinte. Assim que Fleur abriu a porta do quarto, foi largando suas coisas pelo caminho até deitar-se na cama. Hermione fez o mesmo, e ambas trocaram de roupa para poderem dormir. Já tinham se trocado uma em frente a outra milhares de vezes, mas nessa, Hermione sentia vontade de virar-se e olhá-la.

Deitou-se na cama, a cabeça ainda afetada pelo Álcool e sentiu seu mundo girar. Assim que apagaram as luzes, as duas ficaram em silêncio, mas Hermione, principalmente, estava tendo dificuldade em dormir.

No meio da madrugada, lhe ocorreram pensamentos malucos que a fariam corar pela manhã. Começou a perceber que sempre tinha achado os olhos azuis de Fleur maravilhosos, e seu sorriso lhe deixava um pouco tonta. O jeito que ela andara sempre parecera confiante demais comparado ao dela, sempre com a cabeça erguida e os cabelos loiros batendo na cintura, com o quadril levemente balançando. Foi pensando nisso que a morena se levantou da cama e foi até a outra, onde Fleur estava deitada com uma máscara de seda tapando seus olhos para dormir.

Com a ponta dos dedos, Hermione delicadamente levantou a máscara, e em vez de encontrá-los fechados, os olhos da loira estavam abertos as pálpebras relaxadas e um sorriso divertido tomando seus lábios. Fleur apoiou-se num cotovelo, o lençol de seda delineando sua cintura fina e os quadris.

—Não consegue dormir, Herrmione? — Perguntou num sussurro. A morena simplesmente enfiou-se debaixo do lençol, deitada frente a frente com ela. Adorava o jeito como ela pronunciava seu nome, arrastando o “R”.

A loira foi se aproximando lentamente dela, até encostar os lábios em seu pescoço. A morena soltou um perceptível suspiro, que fez a loira rir.

Ali ficaram e ali acordaram, juntas, na manhã seguinte. Acabaram por fazer nada do que tinham programado no elevador.

* * *

Estavam na austrália. Um ano tinha se passado, e lá fora o sol raiava e Fleur olhava a vista para o mar de seu hotel. Tomava uma xícara de chá, e vestia apenas a roupa íntima de baixo, despreocupada com qualquer vizinho inexistente que pudesse vê-la pela janela. Hermione estava na cama, deitada de lado, observando a loira sem esta perceber.

—Fleur. — Chamou. A loira virou-se, colocando a xícara na mesa e caminhando para a cama. Sentou-se ao lado da morena. — Tenho uma coisa pra te perguntar.

—Diga. — murmurou ela, displicente. Hermione respirou fundo, antes de proferir a frase.

—Você quer ser minha? Só minha, quero dizer?

Os olhos de Fleur ficaram desfocados, de repente. Ela se levantou da cama e voltou a janela, mesmo Hermione tentando segurá-la pela mão.

—Eu já lhe disse. — Murmurou ela, abraçando o próprio corpo. — Descobri, da pior maneira… Não fui feita pra isso.

—Você não pode tentar de novo?- Hermione sentou-se, cobrindo-se com o lençol. — Nem comigo?

A loira não lhe disse nada. Sequer se virou.

Hermione levantou-se da cama e começou a arrumar suas coisas. Fleur virou-se, com os olhos assustados.

—Por favor, não vá. — Pediu. Hermione enfiou as roupas na mala e vestiu uma calça e uma blusa, colocando uma sapatilha nos pés. -Herrmione.

—Eu não.. Não consigo lidar com a sua inconstância. — Explicou ela, com uma expressão fechada. -Eu não fui feita pra isso. Desculpe.

Ela deixou o quarto. Fleur sentou-se na cama, com lágrimas escorrendo pela bochecha.

Aquela parecia ter sido a última vez.

* * *

Hermione nunca mais ouviu falar dela. Gui correu e perguntou-a um monte de coisas sobre a sua esposa desaparecida assim que ela voltou, mas Hermione simplesmente lhe respondia que ele não conseguira fazer sua parte num casamento. Rony a procurou, quando soube que ela voltara, dizendo que estava mudado e que queria uma segunda chance. Hermione pensou muito e cedeu, sem se arrepender, pois de fato, ela ter desaparecido por dois anos, o fizera ser diferente. Passou-se muito tempo e eles tiveram filhos, todos lindos e inteligentes, iguais à mãe.

Quando Hermione envelheceu e seus filhos já tinham saído da escola, ela resolveu lecionar em Hogwarts. Encontrou lá a paixão de lidar com crianças e descobrir entre elas mentes brilhantes. Nas férias, Rony sugeriu que viajassem para Portugal, pois Hugo estava vivendo lá e eles queriam visitá-lo a tempos. Hermione aceitou.

Caminhando pelas ruas de Lisboa, passaram em frente a um café. Sentada, de frente pra rua, estava ela.

Pedia algo ao garçom. Os óculos escuros estavam em cima da mesa. Os cabelos agora estavam curtos, na altura dos ombros, e ela tinha rugas em volta dos olhos azuis, brilhantes como sempre foram. Ela estava sozinha.

Assim que se viram, as duas trocaram um demorado olhar. Subitamente, Fleur ergueu a mão e acenou, com um sorriso. Hermione correspondeu. Rony lhe perguntou o que era, mas ela rapidamente começou a falar de outra coisa, evitando que o ruivo visse a ex esposa sumida do irmão. Quando estavam virando a esquina, Hermione virou-se uma última vez, e a viu saindo do café, com um copo de papel numa mão e uma mala na outra. Subitamente, aparatou.

Sempre inconstante.

Notas finais
GOSTARAM? ODIARAM? REVIEEEEEWS, POR FAVOR
como disse, estou pensando em escrever uma long e queria ver se vocês irão gostar uhauha
Beijos,
Blue cupcake.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!