Notas iniciais
Boa leitura. Se quiserem ver a versão acústica da Música Stay the night do Zedd com a Hayley.. foi a minha inspiração.

Estava deitada encarando o teto enquanto escutava sua respiração suave ao meu lado. Me virei e admirei o brilho da lua na pele pálida.

Encarei as costas nuas por um tempo e depois me levantei sem fazer barulho procurando as minhas roupas pelo quarto. Doía em mim fazer aquilo, mas era necessário.

Há um tempo nosso relacionamento não era o mesmo. Tinha deixado de ser um relacionamento normal, com encontros românticos, conversas civilizadas e coisas do tipo, que casais fazem. Agora só discutíamos, e sempre essas discussões acabavam em sexo e agíamos como se nada tivesse acontecido. Não havia conversa para dizer quem tinha razão na briga.

Mas eu sabia que isso estava errado, então decidi dar um tempo. Isso faria bem a nós duas.

Quando terminei de me vestir caminhei até a porta fazendo o quarto se iluminar com a luz do corredor.

– Então é assim que você vai me deixar? – um sussurro rouco ecoou pelo quarto escuro e isso me fez parar

– Sinto muito. Não estamos mais dando certo. – respondi engolindo o nó na minha garganta

Ela não se virou, conseguia ver apenas a silhueta de seu corpo. Não havia nada a dizer, eu já tinha tomado a minha decisão.

Saí fechando a porta atrás de mim. Segui pela casa tão conhecida tentando não fazer barulho para não chamar atenção da irmã dela. As duas dividiam o apartamento.

Saí do edifício e coloquei a mão na boca pra segurar o choro. Peguei meu celular e liguei para a única pessoa que eu confiava.

– Josh... – sussurrei já me despedaçando em lágrimas

Eu tinha estragado tudo.

– x-

Um mês tinha se passado. Convenhamos que foi o pior mês da minha vida. Estudávamos na mesma universidade. Ela fazia dsign gráfico enquanto eu cursava música. Duas disciplina completamente diferentes, mas mesmo assim vivíamos nos esbarrando pelos corredores.

Julie tentava parecer forte, mas eu a conhecia o bastante para saber que aquilo a matava também. Quem a visse, com os cabelos loiros sempre bem arrumados, o par de olhos verdes mais bonitos de toda universidade, com o estilo despojado até diria que estava tudo normal. Tirando o fato de ela não carregar aquele sorriso contagiante e nem o brilho no olhar.

Alguns alunos perguntavam por que não andávamos mais juntas, eu sempre arrumava um jeito de desviar a resposta. Na verdade nem eu sabia qual era.

– Terra chamando Mia. – Joshua murmurou rindo e se sentou ao meu lado

Era o intervalo de aulas e eu estava sentada no pátio dedilhando o meu violão como costume. Josh era o meu melhor amigo desde... Desde sempre. Nossos pais eram amigos e consequentemente esse laço passou para nós dois também, inseparáveis desde o nascimento.

Poderia considerá-lo um rapaz bonito se eu não jogasse no outro time. Era branco, mas um pouco mais bronzeado que eu. Olhos completamente negros e cabelos também. Este era um pouco mais comprido do que o normal, deixando o seu olho esquerdo quase coberto pela franja. Tinha o mesmo estilo que eu, que variava entre o punk e o alternativo. Éramos parecidos não só no estilo, mas também fisicamente, mesma cor de cabelo e olhos, algumas pessoas até acham que somos irmãos. Apesar de amar música Josh cursava literatura.

– Você a encontrou? – perguntei e ele entendeu o que eu quis dizer

– Está na biblioteca. Depois de eu insistir muito a bibliotecária me informou que ela está atrás de livros sobre fotografia. – disse e me ofereceu a lata de refrigerante que estava tomando e aceitei

– Como ela está?

– Mantive distância, mas está do mesmo jeito. Você sabe, desde... – ele deixou a frase morrer e assenti

Mesmo depois de eu ter “terminado” o nosso relacionamento e após todas a brigas que tivemos antes disso eu amava Julie. Me preocupava com ela, mas não queria demonstrar isso pois meu orgulho falava mais alto. Então eu colocava Josh como seu guarda costas. Julie não era burra, acho que já deve ter notado seu perseguidor.

– Acha que se eu falasse com ela... Ela me perdoaria? – perguntei e Josh revirou os olhos

– Aquela garota te amava. E ainda te ama. Você que é cabeça dura demais pra ver isso.

– Amar não é a questão. Sei como ela pensa e tenho medo de que ela não me perdoe.

– Isso você nunca vai saber se não correr atrás, Mia. – ele disse me encarando e desviei o olhar

Josh só queria me ver bem, e sabia que isso só era possível com Julie comigo. Não podia seguir os conselhos dele.

– Vou para a minha sala. – murmurei me levantando

– Devolva meu refrigerante. – ele riu e devolvi a lata para ele

Coloquei o violão na minha case que estava encostada na parede e depois passei a alça dela pelo meu ombro.

Quando ia tomar meu caminho Josh me chamou.

– O que? – perguntei me virando para encara-lo mais uma vez

– Fale com ela hoje, Mia. – suspirei e encarei o chão parecendo completamente interessada nos meus tênis – Por favor Mia, não aguento mais te ver assim, mana.

Sorri, o modo carinhoso dele comigo era a coisa que eu mais amava. Mais do que um amigo, um irmão.

– Até o final da aula eu penso sobre isso, está bem?

Foi o suficiente, Josh abriu um sorriso parecendo satisfeito.

– Vou pra minha sala. – murmurei e ele assentiu, mas permaneceu sentado

Caminhei por entre os corredores, subi a escada em direção a minha sala. Completamente perdida em pensamentos.

No fundo eu sabia que Josh tinha razão, eu precisava me acertar com Julie, colocar as coisas nos eixos.

Mas tinha receio, pois não queria que nosso relacionamento fosse igual ao que estava sendo. Estava farta de implicâncias, brigas e provocações sem motivos por parte dela.

Era uma facada no meu coração todas as vezes que tive que ser grossa com ela, pois sabia que aquilo a magoava.

Me isolei no fundo da sala e pensei no que o Josh tinha dito. Se eu não arriscasse nunca iria saber o resultado. Era o mesmo que compor uma música, se eu não a escrevesse, nunca saberia se era boa.

Então ali eu decidi que iria atrás de Julie.

–x-

– Anda Josh. – reclamei enquanto ele me seguia pelos corredores abarrotados de alunos desesperados para ir embora

– Mia, você esperou um mês pra decidir isso, não pode esperar mais alguns segundos?

– Não. Já esperei tempo demais. – murmurei enquanto tomava o caminho em direção da sala de design gráfico

Alguns alunos saíam dela, mas me precipitei sobre a porta mesmo assim, adentrando a sala com Josh ao meu encalço.

Não vi Julie em lugar algum, mas avistei seus amigos organizando os materiais no fundo da sala e fui até eles.

– Julie já foi embora? – Josh fez a pergunta por mim e os três nos encararam surpresos

Téss, uma garota ruiva, mas que sempre escondia os cabelos por baixo de uma bandana me lançou um olhar intrigado. Thomas, um garoto alto com a pele mais morena pareceu interessado na nossa chegada repentina. E Aaron, um garoto baixo com traços asiáticos lançou um olhar curioso para nós.

– Ela já foi. – Thomas respondeu

– Por quê? – foi a vez de Téss falar, ela pareceu me fuzilar com o olhar

Ela e Julie eram muito amigas, e com certeza ela que tinha a apoiado, então deve ter pego um pouco de raiva pra mim.

– Mia quer falar com ela. – Josh deu de ombros – Ela foi pra casa?

– O que você quer com ela? Fazê-la sofrer ainda mais?

– Téss! – o asiático a repreendeu – Não sabemos, ela foi embora mais cedo.

– Como assim? – perguntei, Julie nunca matava aula sem motivo

– Ela saiu logo no início da ultima aula, ela deve ter ido pra casa sim. – Thomas respondeu

– Vamos Mia. Obrigado. – Josh agradeceu

– Obrigada. – me dirigi aos rapazes e encarei Téss

– Só toma cuidado com o que vai falar... Só quero vê-la bem. – a ruiva disse abaixando a guarda

– Tudo bem, te entendo, também me odiaria se estivesse no seu lugar. – respondi virando de costas

– Eu não te odeio, Mia. – me virei e sorri

– Obrigada.

Os corredores estavam menos abarrotados então eu e Josh pudemos apertar o passo.

– Está caindo um temporal. – ele murmurou – Não vou deixar você ir de moto.

– Mas e Julie?

– Eu te deixo na casa dela. Amanhã te dou carona e você pega sua moto na volta. – ele respondeu, já havia traçado um plano na mente então tive que concordar

Fomos para o estacionamento e não nos molhamos muito até o carro, pois este estava parado próxima a entrada principal da Universidade.

Josh dirigiu a camionete em direção da casa de Julie, já estava noite e a chuva só aumentava. Seguimos por uma rua de mão única, eu encarava os postes de luz perdidos no meio da tempestade.

Parado ao lado de um desses postes numa entrada de carros de uma loja de conveniência fechada estava um carro conhecido. Uma garota fazia sinal para os motoristas da rua, mas ninguém parava.

Quando estávamos há uns duzentos metros eu percebi quem era aquela garota.

– Para o carro! – gritei e Josh o jogou no acostamento para ninguém bater na nossa traseira

– Você está doida, garota? – ele gritou comigo, mas surpreso do que irritado

– É ela. – respondi enquanto me afobava em tirar o cinto

– Ela quem?

– Julie. A garota fazendo sinal.

– Por que ela está na chuva?

– Deve ter tido um problema com o carro né gênio. – respondi colocando meu celular no bolso interno da minha jaqueta de couro

– Não vou deixar você ir nessa chuva. – ele segurou meu pulso

– Joshua! Você mesmo queria que eu fizesse as pazes com ela, essa é a chance que eu tenho, agora por favor me solta porque eu tenho que ir ajudar a minha namorada. – sussurrei e ele me soltou

– Traga ela aqui, eu levo vocês em casa.

– Ela não vai deixar o carro dela no meio da rua, conheço a minha garota. Vai embora Josh, apenas leve meu violão e minha mochila para a aula amanhã. – ele assentiu relutante

– Qualquer coisa me ligue. – pediu e assenti

– Valeu mano. – me despedi com um beijo na bochecha dele, coloquei o capuz da minha jaqueta e saí no temporal

A chuva gelada me fez tremer, mas não desisti. Caminhei até a garota e o carro.

– Problemas com o carro, senhorita? – perguntei e ela arquejou

– Mia?!

– Sim. – dei uma risada rouca e virei para trás a tempo de ver Josh arrancando com a camionete – O que aconteceu com o carro?

Perguntei tentando ignorar a expressão de surpresa dela, que estava completamente encharcada.

– Parou do nada. Eu o arrastei até aqui, não conheço nenhum mecânico, minha irmã ingrata não atende o telefone, meus amigos disseram que estão ilhados na universidade e nenhum taxista quer buscar uma garota perdida nesse temporal. E agora estou aqui, desabafando com a garota que eu amo e que não olha na minha cara há um mês. – essa ultima parte foi apenas um sussurro

Não demonstrei nenhuma reação aquilo e Julie riu da própria infelicidade.

– Vamos arrastar o carro até aquele toldo. – apontei o toldo da loja de conveniência e ela assentiu

Arrastamos ele o deixando seguro da chuva e deixamos a parte de motor virada em direção do poste par apode ilumina-lo.

– Desde quando entende de carros? – Julie perguntou enquanto abraçava o próprio corpo encharcado

– Mais do que você eu entendo. – ri – Não precisa de nenhum mecânico aqui.

– Por quê?

– O carro parou de funcionar porque o radiador está completamente seco. – respondi rindo

– É sério? – ela perguntou se aproximando e meu corpo se arrepiou com aquela distância

– Sim. E água é o que mais temos aqui. – murmurei apontando a chuva

– Acho que tenho uma garrafa cheia dentro do carro. – ela sussurrou e foi até a porta do motorista

Trouxe uma garrafa de água mineral e coloquei o conteúdo no radiador.

– Da próxima vez lembre-se de verificar o motor mais frequentemente. – disse e dei um sorriso torto, sabia que era golpe baixo com ela, era o sorriso favorito dela

– Vou tentar. – ela disse e sorriu também – Vem, precisamos trocar essas roupas ou vamos pegar uma gripe enorme.

– Eu vou ligar para o Josh vir me...

– Eu te levo. Acho que lá no apartamento eu tenho roupas suas, você pode se trocar lá.

Internamente eu estava dando pulos de felicidade, mas por fora mantive a postura indiferente.

– Por mim está bem. – respondi dando um meio sorriso

– x-

– Tome banho no meu banheiro. – ela disse abrindo a porta do apartamento – Eu vou no banheiro do quarto da minha irmã.

– Julie, com quem você está... – a voz da irmã dela soou da cozinha e parou ao me ver – Oi Mia.

– Oi Sarah. – a cumprimentei e senti o olhar dela avaliando eu e Julie

– Por que não atendeu o celular? – Julie resmungou indo em direção do corredor e a segui

– Bateria fraca baby. — mais velha respondeu.

– Depois quero ter uma conversa séria contigo. – Julie gritou para ela, já estávamos em frente a porta do quarto

Julie fez uma careta que eu achei fofa e depois corou. Não entendi o motivo, mas então ela abriu a porta do quarto.

– Eu vou procurar suas roupas. – ela disse envergonhada e eu quase caí para trás quando entrei no quarto

Uma das paredes, na qual a escrivaninha dela estava encostada estava repleta de fotos e desenhos que ela fez de nós, letras de músicas que gostávamos e muito mais. E quando eu digo repleta é tipo, do chão ao teto. Não tinha aquilo enquanto estávamos juntas

Não contive um sorriso e me segurei para não soltar uma risada. Julie me entregou um moletom e uma calça que eram meus. Ela evitou me encarar e murmurou algo que não consegui entender.

Fui para o banheiro no quarto dela agora cem por cento confiante de que ela me queria de volta. Me despi me livrando da roupa gelada e molhada e entrei no box do banheiro. Deixando que a água quente levasse qualquer vestígio da tempestade.

Fiquei um bom tempo pensando no que diria a ela, mas não conseguir formular nada direito. Decidi agir por extinto e saí do box me enxugando com uma toalha que tinha ali.

Vesti minha roupa e penteei o meu cabelo com a escova dela.

– Boa sorte, Mia. – disse pra mim mesma enquanto me encarava no espelho

Saí do banheiro silenciosamente. Ela estava sentada no meio da cama com os cabelos molhados e olhar vazio. Encarava nossas fotos na parede. Um aperto tomou conta do meu coração, eu tinha dado esse tempo. Eu fiz aquilo com ela.

– Julie... Obrigada pelas roupas. – ela pareceu sair do transe e deu um sorriso triste

– São suas.

Um silêncio constrangedor se instalou sobre nós. Não consegui encara-la e resolvi analisar as fotos na parede.

– Por que... Por quê? – ela sussurrou, e sua voz falhou

Não queria encará-la. Não agora que sabia que ela estava prestes a desabar.

– Mia... Olha pra mim...

Ela pediu e viu que eu também havia deixado algumas lágrimas escorrerem.

De repente senti o seu corpo contra meu, e a envolvi num abraço. Ela soluçou contra o meu pescoço.

– Julie... A Julie. Eu te amo. – disse e ela foi relaxando naquele abraço, e eu também

Afastei seu rosto do meu pescoço e a beijei.

O melhor beijo da minha vida. Provei aqueles lábios doces e a língua dela invadiu a minha boca, deixando o beijo mais desesperado ainda. Um mês foi tempo demais para nós duas.

– Me perdoa. Fique comigo. Fique comigo pelo menos essa noite. – ela pediu e acariciei

– Meu anjo. Ah Julie, me desculpa.

– Não se culpe, por favor. – ela pediu me abraçando pela cintura – Só fique aqui comigo essa noite.

– Não. – respondi e ela arregalou os olhos tentando se afastar mas não permiti – Essa e todas as noites que você queira. Pelo resto de nossas vidas.

Ela abriu um sorriso mais perfeito que já havia visto. E me puxou para mais um beijo.

Notas finais
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