Are you afraid?
1 À luz de velas
Notas iniciais
Espero que gostem e-e
Era uma noite mais escura do que o usual, não apenas pela falta de energia elétrica. A lua nova era como uma sombra vagando pelo céu noturno, e as estrelas não preenchiam a noite brilhando como em outras ocasiões; pareciam escondidas.
Nessa noite, á luz de velas, estávamos as duas, sozinhas em casa. Minha amiga Mei e eu, na casa dela, esperando seus pais retornarem de viagem, o que aconteceria pouco antes de amanhecer. A queda de energia nos deixara com poucas opções de atividades interessantes para fazer. Estávamos sentadas em seu quarto, conversando sobre assuntos banais, enquanto pensávamos em algo.
Subitamente, Mei se levantou e olhou para mim.
- Você tem medo de falar com espíritos, Dawn?
Assim que ouvi a palavra ‘espíritos’ sair de sua boca, entendi exatamente onde aquela conversa chegaria. Um copo. Depois das histórias sobre esse jogo que eu ouvira, a ultima coisa que eu gostaria de fazer é jogar numa noite sem energia elétrica, sozinha em casa com uma menina tão nova quanto eu.
- Hm, um pouco. – dei de ombros – Mas Mei, se eu bem te conheço, sei exatamente o que tem em mente... não é uma boa ideia.
- Ah, vamos, por que não? – ela insistiu, com um tom decepcionado.
- Não é uma boa ideia mexer com essas coisas. – afirmei.
- Você realmente acredita que algo vai acontecer? – ela disse, levantando uma sobrancelha.
- Sei lá – fingi descaso, mas na verdade estava começando a ficar com medo por dentro, só de imaginar – Mas é melhor não arriscar.
Ela bufou e sentou-se novamente na cama.
- Você é muito medrosa! – reclamou, cruzando os braços.
Ficamos sentadas em silencio por alguns minutos, nossas mentes sugerindo ideias a si mesmas e as rejeitando logo em seguida. Parecia que não acabaria nunca. Então Mei se levantou novamente.
- Preciso ir ao banheiro.
Fomos as duas até o banheiro, eu para segurar a grande vela que estávamos usando para iluminar onde quer que íamos. Fiquei parada na porta segurando a vela enquanto ela usava o banheiro. Acendi outra vela que estava no banheiro e deixei a que eu segurava na sala, o cômodo mais próximo. Enquanto Mei lavava suas mãos, eu a esperava, ainda na porta do banheiro. A chama da vela no lugar tremulava lentamente e criava sombras que pareciam dançar no chão e nas paredes; era ao mesmo tempo engraçado e muito sinistro. Esforcei-me para me concentrar no ‘engraçado’.
Então, Mei encarou o espelho e seu rosto assumiu uma expressão de nova ideia. Conhecendo-a como eu conhecia, tive a certeza que era uma ideia muito ruim, antes mesmo dela abrir a boca. Mas quando ela o fez, percebi que eu estava errada.
Era bem pior que ruim.
- Bloody Mary – ela disse, em voz baixa.
- Mei, o que está fazendo? – coloquei a mão em seu ombro, com uma expressão de “por favor, pare”.
- Não fique com medo de tudo, Dawn – ela disse.
- Sério, Mei.
- Bloody Mary.
- Mei!
- Bloody Mary. – o volume de sua voz aumentava um pouco a cada vez que ela falava. A cada vez que chamava o nome. – Bloody Mary.
- Pelo amor, não brinque com essas coisas – senti minhas mãos começando a tremer.
- Bloody Mary.
Eu comecei a dar um e outro passo para trás, lentamente. Eu era sim, muito medrosa. Mas não havia garantia alguma do que poderia acontecer após ela chamar o nome as treze vezes. E eu não queria saber o que aconteceria.
- Dawn, isso é só uma lenda – ela disse, vendo que eu começava a me distanciar – Bloody Mary.
- Toda lenda tem um fundo de verdade, Mei... – fui me afastando, contando mentalmente quantas vezes ela já o havia dito. Ela precisava parar.
- Bloody Mary.
- Mei, por favor, vamos fazer outra coisa, sério – implorei – Até dar uma volta na vizinhança. Jogar ovos na janela de alguém. Tocar a campainha e sair correndo. Mas por favor, pare de chamá-la.
- Bloody Mary. – ela disse em alto e bom tom. Seu rosto não exibia medo algum, mas eu podia ver que ela tremia fracamente.
- Por que você está fazendo isso? Mei, o que você pretende com isso? – nesse momento eu já tremia violentamente, afastada do banheiro.
- Porque eu não tenho medo! Todos sempre acharam que sou medrosa, mas eu não sou! – ela respondeu, num tom entre o normal e um grito. – Bloody Mary.
- Mei, mas eu sei que você é corajosa. Você não precisa provar isso! – eu disse, com um tom de súplica na voz.
- Bloody Mary. – ela chamou, mais alto. Sua expressão estava estranha, quase como se não soubesse mais o que estava fazendo. Se é que em algum momento ela teve essa noção.
Consciente de que não poderia mais impedi-la, eu continuava me afastando devagar.
- Bloody Mary.
Tudo parecia cada vez mais escuro, como se a chama das velas enfraquecesse de súbito.
- Bloody Mary.
Minhas mãos estavam frias como gelo, um nó se formara em minha garganta. Afastada do banheiro, eu apenas via o vulto de Mei com a vela ao seu lado. Numa reação inconsciente, me vi começando a correr para a porta da frente antes mesmo de ouvir sua voz, pela ultima vez chamando.
- Bloody Mary.
Assim que abri a porta de entrada, um grito estridente me paralisou. Depois, tudo ficou silencioso. Fiquei alguns segundos quieta; até o som de minha respiração parecia um silêncio. Então ouvi o som de passos se aproximando devagar, vindo do banheiro. Um vulto de menina.
- Mei?
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