Are You Falling?
11 Capítulo 11 - Iludida
Eu estava cortando tomates quando senti Beck me abraçar por trás.
- Estou tirando sua concentração? — Sussurrou em meu ouvido.
Cortei o tomate novamente.
- Não, pode continuar.
Beck beijou meu ombro e foi subindo em direção ao meu pescoço.
- E agora?
- Beck... — minha voz falhou. Ter Beck tão perto fazia meu cérebro parar de funcionar.
- Precisamos conversar.
Beck se afastou de mim e senti meu sangue gelar. "Precisamos conversar" isso não é bom, nenhum pouco bom.
- Estou ouvindo.
- Você se lembra que anjos caídos tem alguns poderes, não lembra? — Concordei com a cabeça, Beck continuou. — Como manipular mentes, fazer as pessoas verem coisas que não existem...
- Seja direto Beck — eu duvidava muito de que aquela conversa fosse nos levar a um final feliz.
- Belle, preciso que seja compreensível. Eu não imaginava que você fosse entender toda essa história de anjo e sabia que você ia ficar histérica...
- Você manipulou minha mente? — Senti minha voz se elevar.
- Estive manipulando você para que entendesse, acho que já está na hora de parar.
Fechei os olhos e senti um peso invisível sair da minha mente. Beck realmente estava me manipulando, agora eu sentia isso. De repente me dei conta de que Beck era um anjo, podia me manipular, violentar, matar, pra ser mais óbvia. Encarei Beck, eu estava pasma, queria lhe dizer mil palavras mas nada saia da minha boca.
- Anjo — ele segurou meu rosto — não vou deixar nada acontecer com você.
Beck me beijou com tanta intensidade que por um momento realmente achei que tudo estava bem. Retribui o beijo e o abracei forte.
- Vire-se — minha voz não passava de um sussurro.
Beck obedeceu e virou-se. Levantei sua blusa e pude ver suas cicatrizes. Dois traços em forma de um V de cabeça para baixo, pareciam realmente profundas. Toquei levemente e me senti sugada pela escuridão. Eu me lembrava daquela história: quem toca em uma cicatriz de um anjo caído entra em suas memórias. A escuridão me entorpeceu. Me senti nauseada e tudo ao meu redor parecia girar. Abri os olhos. Eu estava deitada em um gramado, não reconheci o lugar logo de primeira. Ouvi risos e passos, levantei-me e deixei minha audição me guiar. Eu conhecia aquelas vozes mas não consegui distinguir quem eram. Me aproximei na ponta do pé e vi Taylor perto de uma piscina. Aquela não era uma memória de Beck, era uma memória minha. Mas eu havia tocado suas cicatrizes, o que eu estava fazendo ali? Escutei uma risada e reconheci a outra voz. Era a minha voz. Eu estava na lembrança do dia em que o Taylor terminou comigo. Estávamos tomando Coca cola e trocando uns beijos na parte de trás de sua casa. De repente a "eu" da memória se levantou e entrou na casa. Beck saiu de trás de uns arbustos e foi falar com Taylor.
- Esse é seu plano? Fazê-la se apaixonar e depois entregá-la a mim? — Beck estava com a voz sombria, seu rosto demonstrava frieza.
- O seu trabalho é mata-la, não expor sua opinião.
- Não entende. Você está brincando com o que ela sente. Não pode simplesmente dizer a ela que seu destino é a morte.
- Escute aqui, anjo caído — Taylor avançou um passo na direção de Beck — nunca pedi para ser um nefilim, nunca pedi para o seu inimigo ter que invadir meu corpo em todo Cheshvan; assim como ela nunca pediu para ser filha de um anjo. Fizemos um acordo. Você me entrega seu inimigo e eu te torno humano. A unica forma é se você sacrificar a garota. Não vai demorar muito tempo para os outros anjos caídos descobrirem sobre a existência dela, você sabe disso. Ela é um problema para os dois mundos, pode tornar qualquer um humano, seja nefilim, anjo caído, arcanjo ou anjo vingador, não importa. Se você quer ser humano, mate-a. Ela não significa nada para você.
Beck respirou fundo e fechou os olhos.
- Quero renovar o acordo — olhou fixamente para Taylor. — Deixe-a. Termine com ela essa noite e não a faça sofrer. Eu irei apagar suas memória e a matarei quando estiver pronto. Assim que o sacrifício estiver concluído eu lhe darei a recompensa.
- Espero que esteja certo, caído. Ou juro que irei encontrar um jeito de fazer você sentir dor. Vá, esconda-se, ela está voltando.
Beck virou-se e saiu de perto da casa. Senti a náusea me invadir de novo. Logo senti Beck puxando minha mão, eu estava na realidade.
- O que você viu? — Beck me agarrou pelos ombros. — Belle, o que você viu?
- Todo esse tempo, você estava tentando me matar? — Eu me sentia transtornada e tonta, tive que me apoiar no balcão para não cair. — Você e o Taylor...?
Beck cruzou os braços.
- Sim, o plano realmente era te matar.
- O que está esperando? — Peguei a faca no balcão e coloquei na sua mão. — Corte meu pescoço, me asfixie até que eu fique inconsciente. Anda Beck. Vingue-se do seu inimigo, se torne humano e dê a Taylor o que ele tanto quer.
Beck segurou meus pulsos e manteve meu rosto próximo ao seu. Tentei me afastar, mas Beck era mais forte do que eu.
- Você vai ficar quieta e só vai me ouvir — a voz de Beck deixava claro o que ele queria dizer: ou eu ficava quieta, ou ele iria me calar. — Eu realmente planejei matar você. Parei o tempo para ti aquele dia e planejei desviar seu carro para que acontecesse um acidente. Fiz você se sentir cansada e planejei te matar enquanto dormia. Te levei para o mar e planejei te afogar. — Segurou meus pulsos com apenas uma mão e manteve a outra no meu rosto. — Mas cometi um enorme erro. — Beijou minha testa, soltou meu braços. — Eu me apaixonei por você.
Aproveitei que Beck tinha me soltado e corri o máximo que pudia. Estava morando naquele apartamento a poucos meses mas sabia aonde me esconder. Subi as escadas e entrei na terceira porta à esquerda do corredor. Naquele quarto tinha a entrada para o sótão. Abri a porta e me lancei escuridão a dentro. Beck não me acharia lá, não importa o quanto procurasse. Desabei no chão e abracei meus joelhos, senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Tudo era uma mentira. Beck, Taylor. Um era anjo caído e outro um nefilim. Os dois pensavam em me matar. Me odiei por um minuto, por ser tão boba e por confiar em todos.
Fiquei algumas horas no sótão e só sai de lá quando não escutava nenhum barulho no apartamento. Peguei um bastão de beisebol e fui de cômodo em cômodo para procurar Beck. Achei meu celular na cozinha e vi 15 chamas perdidas da Fernanda. Pra variar. Disquei seu número e esperei que atendesse.
- Bells! Fiquei feio louca te ligando e você só me retorna às duas da manhã?
Duas da manhã. Beck e eu começamos a conversar às seis da tarde. Eu tinha passado muito tempo no sótão.
- Oi Fer, desculpa. Por que foi dormir cedo?
- Minha linda, caso você não se lembre, nosso curso começa amanhã. E eu já estou bastante encrencada por ter atropelado o filho do organizador do curso. Fato que obviamente não aconteceria se a minha melhor amiga estivesse comigo.
Droga! Eu tinha esquecido do curso. Há dois meses eu e Fernanda planejamos entrar num curso de biologia, as aulas seriam no período da manhã e eu estava esperando que demorassem mais tempo para chegar.
- Posso dormir na sua casa? — Tentei não demonstrar desespero.
- Claro Bells. Meu irmão irritante foi em uma festa da universidade e vai dormir por lá. Eu vou dormir no quarto dele, então você só entra e vem direto pro meu quarto. Foi na faculdade hoje?
- Ah, eu sai da faculdade. Vou tentar medicina no próximo vestibular.
- Seremos duas então, mas estou pensando em cursar engenharia. Podemos decidir isso depois. A chave vai estar dentro do chapéu do anão bonitinho, pode entrar tranquilo. E traga roupa.
- Obrigada Fer. — Desliguei o celular e fui fazer minha pequena "mala".
Sai do apartamento o mais rápido que pude, e, pra variar, derrubei todos os meus livros quando fui fechar a porta. Me abaixei e percebi que eu não tinha mais a pena de Beck no pulso. Como pude reagir com aquilo com tanta tranquilidade? Tudo bem que Beck estava manipulando minha mente, mas desde quando é normal ter tatuagens repentinas? Passei a mão no pescoço e com o máximo de força que tive, arranquei o colar que Beck havia deixado em meu carro e deixei-o jogado na frente de minha casa. Peguei os livros e segui em frente, sentindo que deixava uma parte de mim para trás.
Estacionei o carro na frente da casa de Fernanda. A casa era como ela: fofa, desajeitada e super bagunçada. Não era muito grande mas era cansativa de se explorar. Tinha um formato esquisito e uma pintura inusitada. A casa foi totalmente planejada pela Fernanda. Era de madeira e parecia muito com a casa do Carl Fredricksen do filme UP! — Altas Aventuras, só que era menos colorida e maior, muito maior. Tinha um conjunto de sete anões no jardim e o preferido de Fernanda era o "guardião da chave", como ela costumava dizer. Entrei e fui diretamente para seu quarto, me joguei em sua cama, mas para minha surpresa, demorei para dormir. Fiquei fitando o teto do quarto da Fer enquanto esperava o sono chegar. Logo desisti e me sentei. Fernanda amava coisas fofas, logo seu quarto era um paraíso da fofura: paredes brancas com papel de parede de cupcakes e sorvetes, a cama era rosa com vários adesivos colados, tinha um mural de fotos com recadinhos de "eu amo você!" e "você é um ótimo amigo!", seu guarda roupa era branco com rabiscos pretos que a própria Fernanda fez nos seus momentos de revolta e o teto nem havia como descrever; era algo parecido com madeiras rosas com várias estrelas, luas, planetas e pássaros pendurados com barbante colorido. Era totalmente diferente do meu quarto: tinha um estilo vintage, paredes brancas com o desenho do simbolo do Rolling Stones, tinha filtro dos sonhos em todas as partes, uma mesa verde musgo, um guarda roupa branco, a cama King Size com lençóis de meus desenhos favoritos — bob esponja, ben 10, x-men, tom e jerry e etc. Olhei no relógio e vi que eram três horas. Eu precisava dormir. Me deitei novamente e me desliguei do mundo.
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