Ardente Fogo: Revelações
2 Capítulo 1 - O aluno novo
Era um comum na vida de David. Ele estava sentado em sua cama perdido em pensamentos. Nada mudava em sua rotina e isso o perturbava de várias formas.
David mora em uma cidade pequena e isolada chamada Alium. A cidade era realmente muito pequena e por isso nada de muito interessante acontecia. David se sentia muito solitário. Seus pais haviam morrido. Seu único familiar era seu irmão Trevor.
Antigamente Trevor e David eram muito próximos, porém, após a morte de sua mãe, os dois se afastaram de forma perturbadora.
Trevor era o irmão mais velho e ficou responsável por cuidar de seu irmão mais novo, porém, as coisas nunca mais foram a mesma sem a mãe por perto.
David e Trevor se isolaram do mundo. Os poucos amigos que tinham foram pouco a pouco s afastando. Eles faziam o necessário como estudar, trabalhar e coisas do tipo, mas acabaram adquirindo uma pequena dificuldade em se relacionar com outras pessoas. Aquela era uma forma de proteção, pois parecia que sempre que alguém entrava em suas vidas, algo ruim acontecia e tudo desmoronava.
David despertou de seus pensamentos ao ouvir uma leve batida na porta de seu quarto.
— David? – chamou Trevor — Está tudo bem?
— Está sim. – respondeu David com um olhar distante. — Aconteceu alguma coisa?
— Não. Vim apenas ver se estava tudo bem — Disse Trevor com tristeza na voz. Ver seu irmão mais novo se afastando cada vez mais era difícil — Você vai para a escola hoje? Está chovendo bastante.
Trevor possuía olhos verdes e longos cabelos pretos, era magro e moreno, enquanto David era bem diferente. Ele tinha intensos olhos violeta, cabelos ruivos e uma pele incrivelmente branca, como se nunca tivesse tomado sol, características que herdará de seu pai.
— Vou sim, hoje tenho algumas provas importantes – falou David sem muito entusiasmo.
— Ok. Hoje estou de folga. Bom, vou tomar um banho e preparar algo para comer. Tenha uma boa prova! Te espero para o jantar.
— Ok, até depois – David se despediu e novamente olhou para a chuva, tentando criar coragem para sair de casa.
Por fim, resolveu levantar e caminhou até o banheiro para realizar sua higiene matinal.
Após tomar um banho demorado, David se sentiu mais disposto. Vestiu uma calça preta, uma camisa azul escura e foi caminhando a caminho da escola.
Alium era uma cidade bem pequena, composta de uma grande área de vegetação(próximo à casa de David), uma estrada longa que ia até o centro da cidade e envolta desse centro ficavam os bairros residenciais.
David andou atentamente durante todo o caminho até chegar ao centro da cidade, aonde ficava a escola municipal. Todos da cidade estudavam na mesma escola, pois a população era bem pequena e não havia necessidade de mais de uma escola. Ele decidiu parar em uma lanchonete próxima à escola para tomar café, pois demorou muito no banho e acabou saindo de casa sem comer nada.
Ele entrou na lanchonete e logo sentou-se em uma pequena mesa nos fundos. Logo uma garçonete se aproximou para atende-lo.
— Olá, eu me chamo Fernanda, o que você vai querer? – Perguntou educada.
— Hum, só uma xicara de café mesmo – Pediu David meio distraído.
Fernanda se afastou para ir buscar o café, deixando David na mesa perdido em pensamentos.
Após tomar seu café, ele se levantou e foi em direção à escola, afinal, já estava atrasado.
David odiava a escola. Na verdade, a única coisa que o fazia ir para as aulas era a vontade de terminar os estudos o mais rápido possível para poder seguir seu sonho, que era viajar pelo mundo conhecendo cada pedacinho existente.
Durante os intervalos ele costuma ir até a biblioteca para ler um bom livro. Depois que sua mãe morreu encontrou nos livros um refúgio, uma forma de se desligar da realidade. O que mais gostava na leitura era a capacidade que tinha de entrar em cada estória que lia, vivendo a vida daqueles personagens, seus medos e suas aventuras. Poderia passar horas, dias seguidos lendo sem parar, pois aquele era seu porto seguro.
David nasceu nos Estados unidos, mas após a morte de seu pai, sua mãe, Alícia, não conseguiu continuar vivendo lá e decidiu recomeçar longe de tudo que era conhecido... Longe dos olhares de pena que todos lhe davam. Por muito tempo ele não conseguiu entender o porquê de sua mãe deixar tudo para trás, pois isso o privou de conhecer mais sobre seu pai e sua família. Por esse motivo sempre se sentiu traído, como se sua mãe estivesse escondendo algo vital para a sua vida.
Alícia sempre foi muito fechada sobre o passado. Nunca revelou nada, apenas dizia que não era preciso se importar com o que havia acontecido, pois agora eles tinham uma nova vida. Mas após a morte dela, David finalmente entendeu o porquê de sua mãe ter deixado tudo para trás. Era doloroso viver cercado de lembranças boas quando não se tinha mais a pessoa com quem construíram essas recordações, por isso elas se tornavam dolorosas, pois não era mais possível fazer novas lembranças com a pessoa que se foi.
Após um longo período sentado em frente à escola, por fim ele se levantou e começou a caminhar em direção ao enorme corredor de salas. Ao chegar em sua sala de aula, David ficou um tempo na porta, observando as grandes fileiras de mesas repletas de alunos que conversavam animadamente.
"Que saco! Odeio esse lugar!"— pensou David.
Após alguns minutos, finalmente ele entrou e caminhou até o fundo da sala, para se sentar na última mesa a fim de não ser notado e nem incomodado, porém, paralisou por um segundo ao olhar para um desconhecido sentado na mesa antes da sua.
David encarou grandes olhos cor de fogo com puro fascínio e só depois de alguns segundos é que se recompôs e se sentou, pegando um livro para ler, sem dar muita atenção para o garoto sentado à sua frente.
O desconhecido tinha cabelos castanho-avermelhados que caíam em uma grande franja cobrindo parte de seu rosto. Era alto, magro e assim como David, branco como papel.
Pouco tempo depois, David percebeu que o desconhecido o encarava com um largo sorriso no rosto, o tipo de sorriso capaz de iluminar até as almas mais obscuras.
"Ótimo! Agora ele não para de me olhar. Pelo jeito não terei paz hoje..."— pensou David levemente irritado, levantando o olhar para encarar aqueles olhos que eram vermelhos como o fogo.
Imediatamente David se sentiu estranho. Uma sensação nova que nunca havia sentido antes... Era como se existisse um fio invisível que conectasse os dois, fazendo-o se sentir tão próximo e ao mesmo tempo tão distante dele.
— Oi, sou o Chris – disse o desconhecido ainda encarando David e sorrindo.
Algo nele chamava a atenção de David, que não conseguia desviar o olhar. Um sentimento de curiosidade e fascínio crescia cada vez mais, deixando-o quase sem ar. Inicialmente tentou ignorá-lo, quebrando o contato visual entre eles, mas isso fez com que Chris alargasse ainda mais o sorriso.
— Você por acaso é mudo ou apenas antissocial? Saiba que eu não mordo, só se me pedir – Chris o olhou com malícia.
David levantou mais uma vez o olhar e começou a encarar novamente o desconhecido. Uma súbita onda de raiva o fez se esquecer de tudo que havia sentido antes e em resposta fuzilou Chris com fúria.
— Minha Nossa! Será que eu posso ler em paz? Eu não sou mudo, apenas não estou a fim de falar com você. Agora me deixa em paz! – respondeu David ainda irritado e voltou a ler seu livro.
As palavras do ruivo acertaram Chris como se fossem facas afiadas cortando seu corpo. Ele não conseguiu evitar se sentir decepcionado.
— Ok ok, eu estava apenas querendo puxar assunto. Como você deve ter reparado, sou novo aqui e não seria nada ruim ter alguém para conversar – sussurrou Chris com uma súbita expressão triste.
Nesse momento David sentiu novamente a conexão. Não entendeu o porquê de sentir aquela vontade de conversar com Chris, de conhecê-lo melhor! Após a morte de sua mãe, havia se isolado de tudo e de todos, falando apenas o necessário para sobreviver. Ele simplesmente não sentia vontade de conversar ou de estar cercado de pessoas barulhentas que lhe tiravam a concentração. Por isso não estava entendendo por que, de repente, começou a sentir essa necessidade de comunicação e de contato.
Isso era algo que nunca havia sentido e que não fazia sentido nenhum.
Ficou perdido em pensamentos e logo Chris se virou para frente, desistindo de conversar com ele e no mesmo instante David se sentiu vazio, como se algo tivesse sido arrancado de seu corpo. Ansiou sentir novamente aquela inexplicável conexão com Chris, mas era orgulhoso demais para chamá-lo.
Enquanto lia seu livro, o tempo foi passando e logo o sinal para o intervalo tocou. David fez o que sempre fazia, caminhou até a biblioteca e sentou-se em uma mesa isolada para continuar sua leitura.
Antes do fim do intervalo, David já havia acabado de ler o livro e sentiu-se vazio novamente. Essa era uma sensação conhecida, sempre que ele começava a ler um livro, se sentia parte da estória, como se fosse um dos personagens, e quando a estória acabava, era como se ele ficasse novamente perdido na vida.
Como o sinal para retornar à sala de aula já havia tocado, ele se levantou e caminhou desanimado até a sala e decidiu por fim começar a prestar atenção no que o professor falava.
Nesse ritmo, o período de aula se encerrou e David ouviu o tão esperado sinal que o libertaria de seu inferno diário. Levantou-se e caminhou com passos lentos até a porta, mas parou por um momento e observou em silêncio quando Chris fez o mesmo... Foi quando sua defesa caiu e ele foi até o aluno novo.
— Oi, eu sou David. Desculpe-me por antes, eu estava meio nervoso e tentando ler. Não sou muito de conversar – falou David meio desajeitado para o outro rapaz, que sorriu em resposta.
— Ah, tudo bem! Sobre o que você estava lendo tão concentrado? – perguntou Chris, enquanto caminhava ao lado de David até o estacionamento. O sorriso não deixava seus lábios, pois estava visivelmente interessado no ruivo explosivo, que agora estava bem ao seu lado. Era como se pudesse ler a alma daquele garoto e o que via era uma enorme dor, provavelmente resultado de algo em seu passado.
Chris se sentia solidário com aquele sentimento, pois entendia muito bem o que era aquilo. David parecia ser um garoto inocente, mas ao mesmo tempo não tão inocente assim, por mais ilógico que esse pensamento fosse.
Ao chegar ao carro, David e Chris continuaram o assunto com interesse.
— Ah, sim! E de onde você veio? Digo, de que cidade? – questionou David com um olhar curioso.
— Paris. Eu nasci nos Estados unidos, mas me mudei para Paris quando tinha cinco anos e vivi lá até os meus 17 anos.– respondeu Chris rindo baixinho — A propósito, quantos anos você tem?
— Sério? Eu também nasci nos Estados unidos – falou David com um tom de indiferença. Mesmo não demonstrando o quanto estava empolgado, ele se sentia cada vez mais conectado a Chris e isso era, de certa forma, assustador. Nunca havia conhecido ninguém que também fosse de seu país natal, o que tornava tudo mais empolgante — Tenho 17.
— E por que veio morar aqui nesse fim do mundo? – indagou Chris com curiosidade.
David ficou pensativo. Deveria revelar algo tão íntimo?
— Eu... preciso ir. Hã... Nós conversamos melhor na segunda. Até logo! – disse David se afastando do desconhecido.
Ele rapidamente chegou até a enorme avenida principal e começou a longa caminhada para casa. Mais uma vez ele ficou perdido em pensamentos. Não percebeu quanto tempo se passou, mas logo chegou na entrada de casa e percebeu algo estranho. Havia um veículo preto desconhecido parado na garagem. Intrigado, andou até a porta e parou, ouvindo duas vozes masculinas discutindo e reconheceu uma delas de imediato. Era de seu irmão Trevor.
Após um momento parado na entrada de casa tentando ouvir a discussão, David decidiu entrar para descobrir o que estava acontecendo.
— O que está acontecendo? – indagou David de olhos arregalados assim que entrou na casa.
—--- Continua..
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