Arctan Saga
13 Quebra de realidade.
Sirulian parecia inquieto.
Desde que a Cédula saiu em missão ele não fazia outra coisa se não correr por aí treinando. Ele andava pela cidade fazendo pequenas missões fáceis enquanto, com explosões, se movia rapidamente de um lugar para o outro, usando propulsões com suas mãos. Ele ajudou uma velhinha a atravessar a rua, ajudou um homem com a construção de um pequeno galinheiro, fez uma escultura de pedra usando seu fogo para uma festa que aconteceria há algumas semanas em um salão famoso da cidade. Era sempre missões pequenas de ranque C para baixo. Ele terminava uma e corria para o mural. Ele estava pegando outra missão quando Darukian o chamou.
— Ei garoto! O que está fazendo?!
— Missões! — Ele falava com um ritmo acelerado e inquieto, pulando e se mexendo agitado.
— Vai com calma! Você só tá pegando as missões mais fáceis...
— É porque eu não quero estar ocupado quando eles chegarem!
— Fala da Cédula?
— Sim!
— Ei... se é assim, por que tá fazendo tantas missões?
— Porque eu não aguento ficar parado esperando eles!
— Você está sendo contraditório...
Yasmin encarava ele com desdém, enquanto tomava um suco tranquilamente no balcão. O salão cheio e barulhento não incomodava tanto quanto Sirulian, que parecia uma fera selvagem recém capturada.
— Vocês dois tem a mesma idade, não é? — Darukian dirigia-se a Yasmin, em um volume mais discreto.
— Acho que ele é mais velho que eu alguns meses...
— Não parece...
— Verdade...
Sirulian se aproxima com outro papel.
— Não, chega, você já fez missões demais. Se continuar assim não vai deixar nada para os novatos!
Ele começa a balançar as mãos e a pular no próprio lugar.
— Já tem quase um mês que eles saíram! — Gritava o garoto.
— É normal. Essa missão que eles foram é algo importante.
— Sirulian, se for pensar bem, quando a gente chegou eles ficaram muito mais tempo fora, lembra?
O garoto colocou a mão sob o queixo e ficou pensativo, enquanto ainda pulava frenético.
— Verdade, mas a gente não conhecia eles ainda.
— Garoto, você tá me estressando... — Darukian se aproximou dele e segurou seus ombros, fazendo-o parar de pular.
— Se senta aqui e se comporte. Vou te dar uma bebida de graça se fizer isso.
Sirulian o obedece e se senta ao lado de Yasmin, com um rosto cansado e decepcionado. Ele se debruçou no balcão e ficou olhando para Yasmin, com um rosto entediado.
— Qual o problema?
— É que... você não está com saudades deles?
— Claro que estou. Mas eu sei que eles não iam querer que nós dois ficássemos vivendo para eles.
— Não é isso... — Sirulian se endireita e olha para o copo que Darukian acabara de pôr no balcão. — não é que eu esteja vivendo como se eles fossem a única coisa da minha vida... é que...
Yasmin, que antes não parecia muito atenta ao garoto, agora o olhava com o rabo de olho.
— Eu perdi meus pais muito cedo. Eu vivi com um tio por muito tempo fora do clã. — Ele olhou para Yasmin enquanto tomava um gole do suco, então continuou. — Você escolheu sair do seu clã. Meus pais e meu tio foram expulsos.
— Expulsos?
— Sim..., mas mesmo assim eu fui criado dentro dos costumes do clã pelos três. Acho que eles queriam que eu voltasse para lá algum dia..., mas deixando isso de lado, meu tio morreu há alguns anos...
— Ah... eu... sinto muito.
— Eu fiquei por muito tempo tentando achar uma forma de preencher esse vazio no meu peito, mas... não achava nada que pudesse fazer isso... até que eu conheci a Cédula. Bom, você sabe, também sente isso.
— Sim...
— Eu tenho aprendido bastante com eles. Principalmente com o James. E não falo só por que ele está me treinando, eu também tenho ele como um pai...
— Eu te entendo...
As duas crianças permaneceram ali por um tempo. Eles conversavam e se distraiam. Foi quando Yasmin viu o mestre descendo as escadas. Ele tinha um semblante sério no rosto, ele parecia preocupado.
O mestre Darwin era alguém calmo e, embora não fosse um fã de sorrir, ele também nunca ficava com um rosto fechado. Tinham pessoas na guilda que nunca viram ele com um rosto caído. Ele sempre estava com um rosto neutro, mas que demonstrava calma e tranquilidade.
Mas aquele não era o caso.
Ele parecia realmente sério e inquieto. Ele atravessou o salão e foi em direção a biblioteca. Depois de um tempo Yasmin o viu novamente, subindo para o segundo andar. O coração de Yasmin pareceu ficar inquieto, e ela não sabia o porquê.
Mestre Darwin finalmente se posicionou sobre o parapeito acima do balcão de Darukian. Ele sempre ia para lá quando tinha um pronunciamento importante a fazer. Ele vislumbrou o salão cheio e hesitou. Foi então que ele decidiu se pronunciar. Ele limpou a garganta, que chamou atenção das pessoas ali.
— Quero que todos prestem bastante atenção.
Todos olharam para o mestre, e mesmo aqueles que sorriam ficaram sérios.
Um silêncio perturbador invadiu o salão.
Yasmin e Sirulian se levantaram do balcão e foram para o meio do salão, para poderem ver o mestre direito. Quando o mestre viu os dois ele hesitou, mas, desviando o olhar, ele continuou.
— Há vários meses atrás, vocês devem ter percebido, monstros começaram a aparecer de forma estranha por Arctan. Principalmente espécies de lobos, aranhas e alguns morcegos. O conselho magico achou estranho e decidiu investigar. Eles contataram várias guildas para fazer uma análise da situação e começaram a dividir missões para identificar o problema. Nós fomos uma das guildas escolhidas.
Darukian ficou surpreso e saiu do balcão também. Ele ficou ao lado das duas crianças e olhou sério e indignado para o pai, em seu rosto ele estava claramente surpreso por ouvir o pai pronunciar tudo aquilo. Mas permaneceu em silêncio, enquanto o mestre o encarava de volta.
— Nos foi dito para manter essa informação em sigilo até que o problema fosse resolvido... então apenas contamos para alguns guerreiros. Em especial, na nossa guilda, apenas a classe SS sabia dessa informação. — Ele fez uma pausa e respirou fundo. — Pois bem... depois de algum tempo, a nossa “Cédula Vermelha” descobriu uma pista, não vou entrar em detalhes, mas eles conseguiram achar uma forma de acabar com isso de uma vez por todas. Era disso que se tratava a missão em que eles foram há um mês. Era uma missão que envolveria todas as guildas responsáveis. E eu estou aqui para informar que a missão foi bem-sucedida. O que estou dizendo é que o que nós chamamos de “Crise Canina” finalmente acabou.
E mesmo depois de dizer isso, ninguém comemorou. O mestre parecia abatido, e todos na guilda sabiam que aquilo significava algo.
— Bom... a fonte foi destruída, mas ainda existem monstros espalhados por aí, então conto com todos para fazerem missões de caça e destruição do restante dessas criaturas. Conto com vocês.
— E qual é a parte que o senhor não está nos contando, pai?
O mestre hesitou. Em meio a um longo suspiro ele abaixou o rosto.
— Nós... tivemos algumas baixas...
Mais uma longa pausa.
— Diga logo, velhote! — A voz que dissera isso pertencia a Jotiel, que parecia inquieto e sério. Muito mais sério do que ele já esteve em todo o tempo dele na guilda.
— A Cédula Vermelha caiu em missão.
Todos se espantaram ao ouvir isso.
— Valquíria e Mandrágora estão gravemente feridas. Elas estão sendo cuidadas no hospital da Guilda Faren, que é a guilda mais próxima do local.
— Enquanto ao James?! — Gritou Sirulian, que olhava inquieto para o mestre.
— O Dragão vermelho... ele... está morto.
O coração de Sirulian gelou ao ouvir. Ele não podia acreditar. Seu semblante caiu e parecia que o mundo a sua volta desaparecera. O garoto ficou ali, parado, olhando para o nada.
— Darukian.
— Senhor?
— Cuide da guilda. Eu vou para Fahrenheit pedir uma transferência para as garotas. Nossas instalações não são tão grandes quanto as deles, mas sei que nosso hospital pode dar conta. E o ar de casa vai fazer bem para elas.
— Sim, mestre. — Darukian parecia sério, mas tentou manter um ar de profissionalismo.
O mestre se virou para ir para seu escritório, em meio ao silêncio do salão.
— Mestre Darwin!
O homem parou e olhou para baixo, de onde a voz vinha. Era Yasmin quem gritara. A garota encarava Darwin com lagrimas nos olhos, mas seu olhar era firme.
— Eu quero ir com o senhor.
— Não posso permitir.
— Por favor.
— Talvez não seja bom para vocês verem elas naquele estado...
— Mestre... eu te imploro, me deixe ir junto. Elas vão precisar de um rosto amigável por perto.
O mestre parecia cético quanto a ideia. Ele olhou para o garoto ao lado de Yasmin, que permanecia de cabeça baixa.
— Se a Yasmin for, eu também quero ir...
Em meio a um suspiro o mestre se virou.
— Eu sei da relação de vocês dois com a Cédula... seria injustiça dizer não... se apressem e arrumem-se. Saímos daqui a uma hora.
Darukian fechou seus olhos e ficou inquieto. Ele se virou em direção ao balcão e praguejou.
Yasmin segurou o braço de Sirulian e o puxou para perto.
— Ei... precisamos ser fortes.
— Eu sei..., mas ter que passar por isso de novo...
Yasmin o abraça.
Os três partem em direção a Fahrenheit. Eles usam o Warp para ir diretamente para a Guilda. Assim que chegam se deparam com a enorme instalação dos Faren.
A guilda Faren, localizada no país da água, era conhecida por suas incríveis instalações médicas, e seus guerreiros de classe SS chamados de dupla imortal. Diziam que os dois não eram humanos e tinham uma capacidade regenerativa fora do comum. Juntando ao fato de que os dois eram especialistas e magias de cura ficava óbvio o porquê de a guilda ter as instalações, e o porquê de eles terem esse nome.
O local estava cheio e movimentado. Assim que chegaram, Yasmin e Sirulian viram várias pessoas diferentes, com roupas diferentes e raças diferentes. Eram cada um de um lugar diferente. O lugar parecia movimentado, com pessoas indo e vindo apressadas para todos os lados.
O salão principal em si era enorme, possuía algumas mesas de madeira espalhadas pelo lugar de forma simétrica. O teto era sustentado por duas fileiras de colunas de mármore e as paredes pareciam ser feitas de uma pedra que Yasmin nunca vira antes, ela era branca e emitia um brilho especial.
Assim que viram eles saindo do Warp, um homem loiro vestido de azul com detalhes em amarelo se aproximou. Ele chegou-se à Darwin com um meio sorriso. O rosto dele era familiar para Yasmin, e a mesma o reconheceu na hora.
— Que bom que veio, Darwin.
— Onde elas estão?
— No primeiro quarto. Eu vou levá-lo até lá. — O homem abaixa sua visão e vê a garota, tendo um espanto ao fazê-lo. — Ei... você, eu te conheço... Yasmin, não é isso?
— Sim, eu me lembro do senhor também, senhor Visque.
— Nossa, como você cresceu. Mas o que faz aqui?
— Eu faço parte da LionHeart agora.
— Ah, sim, estou vendo. — Ele tentava manter o bom humor, embora estivesse visivelmente se saindo mal. — Bem, se puderem me acompanhar...
Eles se dirigem para um corredor. O lugar era imenso, e o corredor possuía várias portas. Visque parou na frente da primeira e colocou as mãos sobre a maçaneta.
— Antes de entrarmos, quero que saibam... elas não estão muito bem... vocês podem se surpreender com o que vão ver...
Darwin suspira. Ele olha para os garotos, mas eles pareciam sérios e determinados.
— Tudo bem... nós conseguimos estabilizar a condição delas e, embora já estejam fora de perigo, elas precisam ficar aqui por um tempo. Assim que estiverem melhor prometo mexer alguns pauzinhos para poder transferi-las para sua guilda.
— Obrigado.
Visque gira a maçaneta e abre a porta. O quarto era basicamente um quarto de hospital. Paredes brancas, duas camas, uma cortina ao lado das camas, que estava aberta. As duas camas estavam paralelas uma a outra. A enorme janela deixava a luz entrar e iluminar o quarto branco. Os bipes constante dos aparelhos eram o único som que podiam ouvir.
Yasmin pôs-se a chorar ao ver as duas mulheres sobre a cama. Ela colocou as duas mãos sobre a boca, enquanto suas lagrimas desciam.
Mandrágora estava com uma faixa sobre a testa, uma máscara de oxigênio sobre sua boca e nariz, e ligada a diversos aparelhos. Ela parecia dormir profundamente.
Mas quem mais chamou a atenção dos três foi Valquíria.
Ela estava com a parte direita do rosto enfaixado, uma máscara sobre seu nariz e boca e muito mais aparelhos ligados a ela. O que mais chamou a atenção de Yasmin, porém, foi o fato de que ela não estava mais inteira. Abaixo de seu ombro direito, um pouco abaixo da axila, uma faixa cobria o lugar onde deveria estar o braço dela.
— Como aconteceu? — Perguntou Darwin, quebrando o silêncio.
— Foi durante o ataque final. Os três lutaram bravamente. Estávamos presos em uma sequência de cavernas. As nossas tropas estavam em desvantagem, mas graças a eles nós conseguimos nos manter por um bom tempo. James foi na frente abrindo caminho para nós. Mandrágora e Valquíria davam suporte a ele, enquanto ele abria o caminho com os punhos. Estávamos todos cansados, mas ao ver aquela cena não conseguimos deixar de nos encher de esperança. Os três atacaram com tudo, mas acabaram presos em um duto da caverna. Quando conseguimos alcançá-los já era tarde... Valquíria ainda estava acordada quando achamos as duas. Ela nos disse que James havia se sacrificado para salvá-las. Val perdeu o braço, Mandrágora fora atingida no estomago abrindo um buraco que a atravessou... e James...
— Ele salvou as duas... — disse Sirulian, interrompendo Visque.
— Sim...
— Tem uma previsão para quando vamos poder levá-las para casa?
— Dentro de alguns dias, talvez. É apenas para garantir se o caso delas não vai piorar. Mas acredito que deva estar tudo bem. A dupla imortal fez um bom trabalho ajudando-as.
Yasmin se aproxima das camas, ficando ao meio das duas, ela toca as mulheres com lagrimas nos olhos. Sirulian se aproxima e coloca a mão sobre o ombro da garota.
— Eles são crianças fortes. — Diz Darwin para si mesmo.
— Bom, vou deixá-los a sós. Se quiser falar com o mestre Guilgar ele está em seu escritório, acredito que saiba onde é.
— Sei sim, obrigado.
— Daqui há alguns dias vou precisar voltar ao concelho para escrever um relatório.
Visque se vai. O mestre se aproxima das crianças e coloca as mãos sobre seus ombros.
— Vai ficar tudo bem. Elas são fortes.
— Sim...
— Mas, e quanto a vocês dois?
Eles permaneceram em silêncio.
— Sirulian, quer conversar?
O garoto balança a cabeça, negativamente.
— Tudo bem. Sei que é difícil, mas vocês dois precisam ser fortes. Sei que as coisas podem parecer nebulosas agora, mas prometo que tudo vai passar.
Durante o restante da semana as duas crianças não saíram do quarto, eles permaneceram ao lado das duas até elas poderem ser transferidas.
Aquela foi uma longa semana para todos da guilda LionHeart.
Em especial para as duas crianças.
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