Arco-íris
2 Parte Dois . E o anjo me ensina a colorir
Notas iniciais
Boa leitura! :3
Eu sou o verde da grama, que se inclina para trás, debaixo dos seus pés, e sou o azul na vista do beco de trás, onde o horizonte e os telhados se encontram. Se você me cortar, penso que sangrarei as cores das estrelas da tarde. Você pode ir aonde quiser, porque eu estarei lá, onde você estiver.
The Technicolor Phase, Owl City.
Amarelo para seu cabelo. Violeta para seus olhos. Azul para o céu que se abre sobre sua cabeça. Rosa-claro para sua pele saudável. Branco para os dentes que mostra ao sorrir. Vermelho para a coloração de suas bochechas. Cinza para o mundo ao meu redor.
Hakuren me ensinou as cores, porque ele as emanava em minha direção. Ele era mais vivo que o mundo inteiro a rodear-me. Fazia meu coração saltar e emocionar-se como nunca antes. Prendi-me a ele, minhas pupilas dilatadas a permitir o brilho de Hakuren penetrar-me profundamente. Era tão belo quanto lhe era possível ser; era tão contente quanto lhe era possível ser; era tão contrário a mim quanto lhe era possível ser. Engoli em seco e estiquei-lhe a mão.
- Teito Klein, prazer.
- Hakuren Oak – ele disse. – O prazer é todo meu.
Então, ele apertou minha mão com a sua. Lembrei-me, instantaneamente, daquela minha parte que impedia meu corpo de afogar-se em felicidade. Imaginei que seria como Mikage, que eu sentiria meu coração rejeitar aquela alegria transmitida por Hakuren. No entanto, de alguma forma, o calor que ele emitia através de sua mão pareceu machucar aquela minha parte, quase destruí-la. Puxei minha mão, ligeiramente assustado.
Hakuren franziu o cenho, mas não se importou tanto, voltando-se para Mikage logo em seguida.
- Então, por que nos trouxe aqui? – indagou.
- Pensei que íamos ao cinema – comentei.
Um sorriso sem graça desenhou-se nos lábios de Mikage, enquanto ele afastava-se lentamente e pedia desculpas várias vezes seguidas.
- Desculpe, caras, é que eu estou meio ocupado agora... Queria mais que vocês se conhecessem mesmo.
Virei-me para Hakuren, que voltou seus olhos violeta para mim. Ele sorriu; voltei-me para Mikage. A expressão no rosto deste não era mais aquele sorriso amarelo, mas um semblante terno, amável, adorável, gentil. Entendi o que ele havia feito: Mikage sabia que não estava conseguindo me tirar daquele mundo acinzentado e pensou que seu primo pudesse me ajudar.
Mikage era, certamente, um dos melhores amigos que qualquer pessoa poderia ter.
- Hakuren – olhei em seus orbes roxos -, quer ir à soverteria? Tem uma ali na esquina.
Hakuren sorriu, concordou e me seguiu, enquanto eu o guiava pelas ruas cinza que ganhavam um tom de vida a cada passada do garoto. Mikage seguiu na direção oposta, ainda com um sorriso estampado em seus lábios.
Aquela tarde, eu passei com Hakuren, observando cada uma das cores que ele me ensinava indiretamente. O sorvete dele era marrom, de chocolate; o meu, verde, de pistache. A camisa que ele vestia era laranja-clara, com pequenos detalhes amarelos, e a calça, jeans escuro.
Parecia um recorte da realidade. Parecia que Hakuren fora retirado de um mundo feito de arco-íris e colado em um filme em preto e branco. Era engraçado, de alguma forma. Hakuren era algo a parte do mundo, pois ainda alimentava todos aqueles sonhos e esperanças que foram tiradas de mim quando entrei naquela escola.
Hakuren era diferente de mim. Extremamente diferente.
Na segunda-feira, seu nome surgiu em meu celular e sua voz ecoou pelo meu ouvido, chamando-me para o cinema. Eu fui e assistimos a um filme cinza em minha visão, mas colorido aos olhos brilhantes e esperançosos de Hakuren. Na terça-feira, eu surgi na casa de Mikage para jogar videogame o dia inteiro com eles. Quem diria que os botões do controle eram coloridos, e não cinza-médio, cinza-claro, cinza-escuro e cinza puro. Na quarta-feira, a loja de roupas ganhou vida, pois Hakuren disse que precisava comprar blusas. Na quinta-feira, ganhei um apelido que me penetrou o peito e fez meu coração derreter como nunca antes.
- Ora, Teitei, só porque é baixinho e ágil, acha que pode ganhar da gente em corridas! – Hakuren disse enquanto se preparava para uma corrida pelo bairro contra mim.
Na sexta-feira, Mikage teve que sair, e Hakuren surgiu em frente à minha casa. Apressei-me a abrir a porta e deixar que ele passasse, observando a casa do meu pai com olhos sonhadores.
- Meu quarto fica no andar de cima – disse, e ele me seguiu escada acima.
Um fato importante em meu quarto é que eu sabia que havia cores nele, em algum lugar. Mas não me lembrava de nenhuma delas. Às vezes, uma memória vaga invadia meu cérebro, inundando-o de informações antigas e desgastadas. Porém isso só me causa uma dor de cabeça intensa. Acostumei-me com o cinza-claro que pintava minhas paredes e surpreendi-me quando Hakuren comentou:
- Sempre achei que verde combinava com você.
Voltei-me para ele, com o cenho ligeiramente franzido, perguntando-me onde estava o verde naquele lugar. A mão de Hakuren estava contra uma das paredes, e eu pude ver, afinal, a cor dela.
Verde-claro.
- Seus olhos são tão bonitos que eu tenho que admitir que realmente pensei que sua casa fosse verde – ele riu. – Que idiotice, não?
- Não – eu respondi, assustado pela minha própria voz. – Obrigado, Haku.
Ele sentou-se sobre minha cama, e eu encostei-me à cabeceira, encarando seu perfil colorido. Os olhos violeta dele me encararam, e uma expressão séria marcava seu rosto belíssimo.
- Teitei – chamou-me, sua voz grave reverberando em meu ouvido deliciosamente -, você tem sonhos para o futuro?
Sua segunda frase me fez murchar. Deixei que um suspiro pesado deixasse meus lábios e coloquei minha cabeça contra os braços, que, por sua vez, apoiavam-se em meus joelhos dobrados. Respirei fundo. Foram aqueles olhos violeta e brilhantes de Hakuren que me fizeram ter certo receio de falar que meus sonhos foram apagados de mim. Então, respondi com uma pergunta:
- Você tem, Haku?
- Sim – mais uma vez, sua voz penetrou fundo meu corpo, como se quisesse prender-se eternamente no meu cérebro e não ser apenas uma vaga lembrança. – Estou mais próximo dele a cada dia. E, para realizar meu sonho, Teitei, que estou te perguntando: você tem sonhos para o futuro?
Levantei minha cabeça. Hakuren já estava de pé, ao lado da cama, mirando-me com seu olhar roxo ligeiramente marcado por preocupação. Neguei com a cabeça. Vi Hakuren suspirar e, então, apontar para minha escrivaninha.
- De que cor é aquele livro?
Voltei meus olhos ao exemplar que eu estava lendo na noite anterior.
- Cinza, mas a história é interessante.
- Seu ventilador de teto?
- Cinza também, branco no meio por causa da luz.
- A colcha da cama?
- Hã, cinza-escuro.
Ele sentou-se ao meu lado, e vi que a colcha era, na verdade, azul-escura. Voltei a apoiar minha cabeça nos braços, suspirando de novo.
- Meu sonho é ajudar as pessoas – Hakuren disse. – Quero salvar as pessoas não apenas na minha profissão, mas durante minha vida. Por isso quero ajudar você.
- Mikage pediu sua ajuda para me animar? – minha voz saiu abafada, já que estava com a cabeça sobre meus braços.
- Sim. Aceitei e não me arrependo, porque conheci você.
Então, levantei meus olhos mais uma vez. Hakuren parecia chamar meus orbes em sua direção, o que me assustava. Ele estava sentado de frente para mim, com um sorriso gentil em seu rosto. Tentei entender o que aquela frase poderia significar pela expressão em seu rosto, mas não conseguia desambiguá-la. Então, apenas comentei:
- A colcha é azul-escura.
Os olhos violeta de Hakuren se arregalaram em surpresa.
- Você consegue ver as cores? – indagou com um sorriso. – Como?
- Quando você está por perto – antes de terminar a frase, senti minhas bochechas esquentarem. Então, joguei minha cabeça sobre os braços mais uma vez -, o mundo se colore por um instante.
Não conseguia ver as ações que Hakuren fez em seguida, mas sentia o colchão remexer-se aos seus movimentos. Senti-o aproximar-se de mim e colocar a mão em minha cabeça, remexendo nos cabelos.
- Seus cabelos são castanhos e bem escuros; seus olhos são verdes e lindos; sua camisa é avermelhada; e eu quero que saiba que eu não vou desgrudar de você até que saiba que o mundo é, de fato, colorido.
Levantei meus olhos para ele mais uma vez, esperando ver seu sorriso. Mas, assim que o fiz, Hakuren aproximou-se demais e beijou-me os lábios, surpreendendo-me, fazendo meu coração dar saltos.
Eu ansiava por aquilo inconscientemente.
- Teitei, posso ensinar você a colorir o mundo? – perguntou quando se separou de mim, e eu apenas concordei com a cabeça, com um leve sorriso no rosto, um leve brilho no olhar, um leve tom de verde na parede mais distante de Hakuren.
Talvez eu ainda tivesse realmente chances de acreditar naquela esperança distante, naquele mundo futuro, naqueles planos para dez anos à frente. Talvez eu não pudesse acreditar que tudo já estava terminado antes mesmo de começar. Por que me privar da felicidade por culpa de crianças de 12 anos? Por que esquecer o que é alegrar-se por causa de um divórcio? Tenho certeza de que até mesmo meus pais já superaram tudo.
Deixei que Hakuren me envolvesse em seus braços e repetisse que queria me ajudar. Deixei que ele beijasse o topo da minha cabeça e acarinhasse meus fios escuros. Deixei que ele dissesse que o céu estava pintado de azul-claro, que minha mochila tinha detalhes laranja, que o sol brilhava amarelo no céu. Porque eu queria que meu anjo em ensinasse aquelas cores mais uma vez, como se eu fosse um bebê.
Seu bebê.
- Haku – chamei-o. – Talvez eu tenha um plano para o futuro.
Afastei-me ligeiramente dele apenas para mostrar-lhe o maior sorriso que pude dar-lhe.
- Você me ajudou, Haku, porque esbanja felicidade, e eu quero ajudá-lo também – disse. – Posso ficar ao seu lado? Posso fazer o possível para salvar as pessoas como você me salvou?
Ele sorriu. Sorriu com amor, gentileza e felicidade pura.
- Seria um prazer tê-lo ao meu lado, Teitei.
Então, ele me envolveu mais uma vez, emanou sua felicidade para meu coração e sussurrou que o futuro seria, também, colorido.
Dizem que a alegria e a positividade são contagiantes. Se alguém sorrir ao seu lado, seu coração, de alguma forma, sente-se melhor, bate com mais calma, fica mais leve. Dizem que uma carga grande de felicidade combate a tristeza e a dissolve, retirando toda ou a maior parte dela. Fora exatamente isso que Hakuren fizera comigo, porque ele tem um sonho belíssimo à sua espera em um futuro não muito distante, e eu quero estar ao seu lado apoiando-o, incentivando-o. Eu também quero que meu anjo consiga ter um futuro brilhante e quero construir o meu ao lado dele.
Porque foi meu anjo quem me ensinou a colorir o mundo e me salvou daquele monótono cinza.
Notas finais
Até a próxima!
Takoyaki.
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