Arcanum

9 Os Escolhidos


O som seco e ritmado de aço golpeando o vento preenchia a névoa espessa da costa. Cada impacto fazia os músculos de Adam Altharion estremecerem sob a pressão, seu enorme martelo deixando rastros circulares na areia úmida da praia. Estava descalço. O sal da água, misturado ao suor que escorria por seu corpo coberto de cicatrizes, escorria por entre os músculos de seu dorso, formando pequenas trilhas que evaporavam no calor da manhã abafada.




Era o terceiro dia seguido desde o feitiço de Merlin, e ele não havia parado um momento sequer.




O martelo era uma extensão de seu próprio ser agora. Ele o girava com precisão animalesca, como um predador testando suas garras. Os passos marcados na areia formavam um círculo perfeito em torno de si, seus movimentos repetidos como uma dança brutal — uma rotina criada para se lembrar de como matar com força, de como esmagar seus oponentes com toda a fúria que esteve contendo desde o momento em que veio parar naquela praia.




Na torre acima da enseada, Merlin o observava.




O vapor subia delicadamente de seu chá recém-preparado. Ele segurava a caneca de porcelana com cuidado, seu olhar fixo na figura de Adam abaixo. Era impressionante. O jovem inventor, que um dia se vestia com ternos perfeitamente passados e falava com palavras medidas em tom diplomático, agora parecia um bárbaro nascido para a guerra. Estava mais alto, mais bruto, mais denso, tal qual um viking vindo de Stormgard, e ainda assim, os olhos continham um silêncio que incomodava até mesmo o mago mais velho de todos os tempos.




Merlin suspirou e girou os dedos sobre a superfície de sua bebida, murmurando um encantamento de detecção. Um arrepio percorreu sua espinha assim que sentiu a vibração no tecido do plano espiritual.




Quatro presenças distintas.




Seus olhos se arregalaram por trás dos óculos mágicos. Quase deixou o bule cair, mas em um giro ágil do cajado, o pegou antes de atingir o chão e o colocou com cuidado sobre o suporte ao lado da janela. Pegou o chapéu azul, ajeitou as mangas do manto e pegou duas xícaras — uma para si, outra para Adam. Afinal, notícias importantes mereciam ser acompanhadas com chá.




Desceu as escadas da torre como se fosse jovem novamente, o coração batendo como tambores.




Adam girou o cabo do martelo com firmeza, músculos latejando, até que a voz apreensiva e meio eufórica de Merlin o interrompeu.




— Eles estão chegando!




Adam girou sobre os calcanhares, suor escorrendo do queixo, com o martelo ainda apoiado no ombro.




— Eles quem?




Merlin, já com o chapéu levemente inclinado e as canecas de chá fumegante em mãos, com um sorriso radiante.




— Os escolhidos pelo Arcanum! Eles estão entre nós agora!




Adam franziu o cenho, respirando fundo e limpando a mão na calça antes de a usar para sombrear os olhos da luz difusa. Olhou em volta.




— Não vejo ninguém além de nós dois… e neblina. Muita neblina.




Merlin soltou uma risadinha, aproximando-se do rapaz e colocando a mão em seu ombro largo como se ele ainda fosse o jovem idealista de antes, sustentando as duas canecas com uma mão.




— Não com os olhos, meu caro… mas com o coração. — Seus dedos tremularam no ar, apontando para o mar aberto. — Ali.




As ondas pequenas lambiam a costa quando, como um fantasma se revelando na bruma, uma silhueta começou a surgir.




Um navio de madeira, com detalhes entalhados em espirais naturais e sustentado por um leme polido, avançava com calma. No leme, um fada, de expressão paciente e corpo leve como folhas. Era ninguém mais, ninguém menos, do que Porto. E bem na proa, com mãos unidas como quem reza em silêncio, olhos arregalados pela tensão, estava Alstroemeria Hallot, com as asas bem coladas às costas, ansioso.




Poucos segundos depois, um ruído diferente cortou o ar. Mais à direita, algo muito mais veloz: uma lancha furtiva, cheia de arranhões metálicos, avançava. Através da névoa, os olhos amarelos e a expressão fechada de Astrid surgiam. Seu pequeno escudeiro A.G.U.A. se mantinha em modo de segurança no ombro da dona, enquanto a jovem ciborgue pilotava como se aquilo fosse a coisa mais fácil do mundo.




E então, pelo lado oposto do litoral, algo mais rústico, mais sombrio: um barco motorizado escuro, já com sinais de uso pesado. O motor rugia como um animal ferido, mas ainda assim seguia firme. Nele, encapuzado, com os cabelos longos presos e os seis olhos vermelhos brilhando mesmo na bruma, estava Koryu Nephthys.




Merlin quase deixou o chá cair de novo.




— Pelo cosmos... são eles! São realmente eles!




Adam permaneceu ao lado do mago, encarando as embarcações que se aproximavam por diferentes direções, como se convergissem em uma mesma linha do destino. Ele ainda mantinha uma expressão de dúvida genuína.




— Só… Quatro? — perguntou, confuso. — Achei que fossem mais.




Merlin apenas sorriu, com os olhos úmidos de uma expectativa finalmente concretizada.




— Quatro é o que basta. Se foi o Arcanum quem os escolheu, não devemos questionar que são perfeitos para a missão.




A neblina começava a dissipar com a chegada dos primeiros raios do sol, pintando o céu com tons opacos de âmbar. As ondas batiam de leve contra a areia da costa, quando a primeira embarcação a alcançar a margem foi uma lancha de metal escuro, que avançou até encalhar direto na praia com um ronco metálico. Areia voou em todas as direções com o impacto.




Merlin imediatamente recuou dois passos, içando a túnica longa para evitar o contato com a areia úmida.




— Eu recém lavei isto… — murmurou, franzindo o nariz enquanto se escondia atrás da imensa silhueta de Adam, que levantava um braço musculoso para proteger os olhos dos grãos dispersos.




De cima da lancha, Astrid desceu com movimentos automáticos e precisos. Seu corpo de ligas metálicas se ajustou com um leve sibilo hidráulico a cada passo. A.G.U.A., seu pequeno escudeiro, girava suas patinhas como rotores, realizando uma varredura da área em tempo real, projetando alertas discretos em sua interface óptica.




— Solo detectado: orgânico. Densidade: segura. Temperatura: suportável. — relatou a voz metálica e gentil do escudeiro, enquanto subia até o ombro de Astrid.




Logo em seguida, a embarcação seguinte se aproximou do lado oposto. Era o navio de madeira de Porto, que chacoalhava sutilmente enquanto tocava a linha das águas. O fada largou o leme com um suspiro teatral, prendendo-o com uma corda improvisada antes de atirar a âncora no mar com força surpreendente para seu porte relativamente magro.




— Vai lá, princeso. Segura isso. — disse ele, empurrando Alstroemeria contra o leme.




— O quê?! Mas eu nem sei pilotar isso! — rebateu o jovem fada, mas Porto já estava retirando uma pesada tábua de madeira, posicionando-a com um estalo firme que conectou o navio à areia. A vibração fez o casco tremer, e Alstro agarrar o leme como se sua vida dependesse disso.




Porto se virou para ele com um sorriso sarcástico.




— Pronto. Chegamos. Agora: dá o fora, se escafede, desaparece, some, desce do navio, e vai viver essa tua vidinha longe de mim.




Alstro piscou.




— Mas… e se meu cabelo estiver bagunçado? E se ele me julgar?!




— O quê, vai chorar? Anda, anda! — disse Porto, empurrando o jovem em direção à prancha com um remo descartável do convés.




Enquanto isso, do lado da lancha de Astrid, a pequena embarcação de Koryu atracava, com este por retirar o capuz de forma lenta, revelando os longos cabelos presos. Ele não disse nada ao desembarcar. Apenas passou por Astrid em silêncio, trocando um olhar breve com ela e com o escudeiro caranguejo, até parar diante de Merlin e Adam.




Merlin o observou com atenção. Adam, em contrapartida, mantinha os braços cruzados, a expressão desconfiada — como se pudesse cheirar a bagagem emocional vindo de Koryu a metros de distância. E o fato de ser claramente um Nocthyriano não ajudava nem um pouco.




Finalmente, Alstroemeria desceu, ou melhor, foi gentilmente empurrado por Porto até o fim da prancha. O príncipe das fadas tremia levemente, carregando uma expressão de pânico disfarçado de compostura.




Ele se posicionou atrás de Porto, espiando por cima do ombro do fada mais alto.




— E se ele não gostar do meu cabelo???




— Espera aí! — disse Porto. — Você tá me usando de escudo?!




— Você tem ideia de quem tá ali na frente?!




Porto revirou os olhos e cruzou os braços.




— Bom, se vou ter que te navegar até mesmo em terra firme… Exijo um aumento no pagamento.




Merlin sorria levemente com a cena.




— É um prazer conhecê-los, a todos vocês. — disse, abrindo os braços de forma calorosa. — Sejam bem-vindos. O Arcanum os aguardava.




Adam apenas observava, olhos atentos, sem dizer uma única palavra.




O grupo estava reunido, ainda em uma espécie de círculo desconfortável e descompassado na areia fria da praia. As ondas quebravam suavemente mais atrás, como se o mundo ao redor quisesse manter silêncio diante da cena que se desenrolava.




Merlin avançou um passo à frente, seu cajado afundando levemente na areia úmida.




— Talvez nem todos saibam quem eu sou, então… permitam-me apresentar-...




— Merlin Ambrosius! Último sobrevivente da Ordem dos Magos, ex-diretor da Academia Arcana, autor de pelo menos 150 livros históricos sobre magia fundamental e arcana, e o principal responsável pela manutenção da redoma de Zaratharn por mais de 3 séculos consecutivos! — disparou Alstroemeria, com os olhos arregalados e faiscando um brilho de emoção quase infantil.




O silêncio caiu de repente.




Astrid piscou. Koryu levantou uma sobrancelha. Até Adam, que parecia permanentemente preso à carranca, arqueou levemente as sobrancelhas em confusão.




Porto, ao lado de Alstro, girou lentamente a cabeça em direção ao jovem fada, com um olhar de completo espanto.




— … Você decorou isso de algum livro?




Alstro se encolheu como um filhote de coelho assustado, deslizando de volta atrás de Porto e cobrindo parcialmente o rosto com as mãos.




— Eu... li muito quando era criança, ok?




Porto, agora escancaradamente embasbacado, olhou de Merlin para Alstro, e depois para Merlin de novo.




— Então... pera lá. — engoliu seco. — O senhor é o Merlin? Tipo, o... O Merlin?




Merlin, sempre gentil, fez uma pequena reverência com a cabeça, o tom de voz sereno.




— O próprio. Embora eu não tenha esse "o" maiúsculo todo. Só Merlin, por favor.




Porto soltou um palavrão abafado, curvando levemente os joelhos e gesticulando como se estivesse prestes a se ajoelhar, mas foi detido com um levantar de mão de Merlin.




— Não é necessário, de verdade. Humildade é uma virtude pela qual prezo muito. — disse o mago, sorrindo brevemente.




Koryu, no entanto, não hesitou. Dando um passo à frente, ele cravou a ponta de sua imensa katana de carne na areia com força e se ajoelhou sobre um dos joelhos. Seus cabelos longos balançaram levemente com o vento, e seus seis olhos se fecharam em respeito.




— Que meu sangue maldito e minha sombra corrompida sirvam à sua causa, Mestre Merlin. Eu, Koryu Nephthys, estou à disposição.




O silêncio recaiu novamente por alguns instantes, agora com um toque mais solene. Merlin observou a postura de Koryu por alguns segundos, depois assentiu.




— Agradeço sua dedicação, Koryu. Mas saiba: aqui, vocês estão todos em pé de igualdade. Ajoelhar-se não é necessário. — disse ele, gentilmente.




Koryu, contudo, permaneceu firme na posição por mais alguns segundos antes de se erguer sem uma palavra, sacudindo a areia da lâmina e embainhando a katana em silêncio.




Astrid, por outro lado, estava completamente imóvel desde o início do discurso. Seu olho direito emitiu um sutil brilho azul enquanto o sistema de varredura digital escaneava Merlin da cabeça aos pés.




— Consulta cruzada em andamento… — murmurou A.G.U.A., sobre seu ombro.




Na tela interna de sua visão, dezenas de linhas de dados corriam freneticamente.




Resultado: Nenhum registro de ID encontrado nos arquivos de Neonith. Nenhuma correspondência nos bancos de dados oficiais, nem nos subterrâneos. Nenhum traço de dados. Nenhuma digital. Nenhuma evidência de existência.


Mas ainda assim, ele estava no seu sonho.



— Inconclusivo. — murmurou Astrid para si mesma. — Mas não dá pra negar que é o mesmo velho do sonho. — Ela então o observou com mais atenção, mesmo sem qualquer dado confirmando sua identidade, Merlin irradiava uma aura estranha, quase vibrante — Astrid. Este é meu assistente técnico, A.G.U.A.. — ela disse de forma direta, como se estivesse acostumada a dar relatórios para conselhos de guerra.



Sua voz era firme, mecânica em cadência, mas com uma ponta de humanidade forçada nos olhos. Ela bateu levemente com a unha metálica no pequeno caranguejo que repousava em seu ombro.




A.G.U.A. emitiu um leve "click" robótico em saudação, erguendo uma de suas patas com um bipe amistoso. Sua casca metálica azulada e olhos em forma de LEDs pulsavam com atividade. O caranguejo então deu um pulinho para a frente, caindo na mão estendida de Merlin.




— Oh, céus… — murmurou Merlin, os olhos brilhando. — Que fofura!




O velho mago o girou gentilmente, observando cada detalhe do pequeno autômato como quem olha uma obra-prima. A.G.U.A. andou de um lado ao outro da mão de Merlin, antes de escalar com agilidade para seu ombro e dançar. Sim, dançar.




Ele moveu as patinhas de um lado ao outro em pequenos passinhos alternados que pareciam uma coreografia robótica ensaiada.




Adam observava em silêncio, cruzando os braços enquanto inclinava levemente a cabeça para o lado. Seu olhar demonstrava uma curiosidade inesperada, quase infantil, mas ele nada dizia. Era a primeira vez que via algo tão avançado, nem os engenheiros de Cinderhelm tinham chegado tão longe com autômatos.




Alstro, por sua vez, arregalou ainda mais os olhos. Suas asas chegaram a vibrar levemente nas costas, e ele juntou as mãos debaixo do queixo, visivelmente encantado.




— Ai, meu coração…! — sussurrou, com olhinhos marejados de emoção. — É tão… pequeno e perfeito…!




Porto olhou para ele de lado, franzindo o cenho.




— Vai comprar um desses ou roubar o dela?




— Porto, isso não se consegue nem com o tesouro inteiro do Leste de Zaratharn… — respondeu Alstro, quase hipnotizado.




— Roubar então. Entendi.




Merlin, rindo baixo, acariciou A.G.U.A. com a ponta do dedo e então o devolveu ao ombro de Astrid com a mesma gentileza com que se manuseia uma relíquia de cristal.




— Você cuida bem dele, é notório. Ohoho.




Adam, que ainda estava parado como um pilar no fundo da cena, limpou a garganta com uma tosse baixa, claramente impaciente.




Todos voltaram a encarar o mago. Merlin endireitou a postura, tirando o chapéu com uma breve reverência, e então deu alguns passos à frente, plantando seu cajado na areia.




— Sim. O motivo de vocês estarem aqui. — sua voz agora soava mais grave, mais imbuída de peso e intenção. — Não foi um sonho qualquer que os trouxe. Não foi acaso. Foi o Arcanum, a essência mágica de tudo o que compõe Runeforge, que os escolheu. — Ele fez uma pausa, olhando nos olhos de cada um. — A existência, como conhecemos, está ameaçada. E vocês são talvez a única esperança que resta para garantir que todas as nações sobrevivam ao o que está por vir.




Merlin caminhou até o lado de Adam, pousando uma mão sobre o ombro do jovem de olhos endurecidos. Com um tom grave e solene, como um arauto prestes a contar uma profecia esquecida, ele falou:




— Este é Adam Altharion. Talvez já tenham ouvido o nome, talvez não. Eu mesmo não o conhecia até três dias atrás. Mas este rapaz é um inventor genial, e sobrevivente de um mundo que não existe mais. — Ele pausou. — Adam… veio do futuro.




Um silêncio instantâneo caiu sobre o grupo.




Koryu arregalou todos os olhos discretamente. Porto simplesmente soltou um “quê?” sem nem perceber. Alstro prendeu a respiração por um breve momento, embasbacado. E mesmo Astrid, normalmente inexpressiva, arqueou uma sobrancelha.




— Viagem no tempo… — ela começou, cruzando os braços. — É fisicamente impossível. Não com as leis que conhecemos. Os paradoxos, a conservação de energia, o colapso quântico… Isso não faz sentido. Nem em Neonith conseguimos fazer simulações que cheguem perto disso sem falhas.




Mas antes que Adam pudesse responder, Alstro respirou fundo, a voz vacilando:




— … Mas é verdade. — Todos viraram-se para o príncipe das fadas, que agora encarava Adam com olhos reluzentes de lembrança e medo. — Eu… Eu vi ele nos meus sonhos. Não com o que Merlin nos mostrou. Os anteriores... Antes da convocação…




Merlin pareceu levemente surpreso.




— Eu vi… — continuou Alstro, os dedos trêmulos sobre o peito. — Vi você, Adam. No meio de um campo repleto de esqueletos, gritando. Você tinha um martelo… esse mesmo martelo — apontou para o artefato ao lado de Adam — … e estava correndo pra cima de uma coisa gigantesca que emitia vários raios, que estava… estava distorcendo tudo ao redor... Eu achei que era só um pesadelo, algo do meu estresse. Mas agora… Agora não há como negar. Era você. Eu sei que era você!




Porto deu um pulo.




— Desde quando você vê o futuro, moleque?! — exclamou, virando Alstro como se procurasse algum botão escondido. — Você nunca disse que era esse tipo de fada!




— Desde que nasci, na verdade… — respondeu Alstro, encolhendo os ombros, ainda abalado. — Eu só… não costumo falar disso.




Merlin assentiu lentamente.




— Clarividência nata… raríssima. A manifestação precoce dos dons espirituais. O Arcanum definitivamente escolheu certo. Como se chama, meu jovem?




— A-Ah-...! E-E-Eu, e-erm… D-Digo… E-Eu me chamo-...!




— Alstroemeria é o nome desse porrinha aí. — Porto disse, indicando-o com o polegar de forma despreocupada.




— EI! Quem te deu o direito de se referir a mim dessa forma indecente?! — Alstro diria, vermelho de vergonha, antes de lhe dar um soco firme no braço.




Adam, por sua vez, deu um passo à frente, sua presença forte imediatamente interrompendo o possível conflito físico entre as duas partes, e atraindo a atenção dos demais.




Sua voz era profunda, um contraste brutal com a juventude de seu rosto castigado.




— O nome dele era Adrian Paxton. Humano. Neonithiano. — O olhar dele se fixou em Astrid, que imediatamente processou o nome como uma IA diante de uma nova diretiva. — Era apenas um teórico. Um analista do Núcleo Arcanum… até que roubou a criação. A minha criação. Ele fundiu o Núcleo com uma máquina de sua autoria, o Núcleo Neural Arcaico, alimentada pelas Runas Ancestrais de cada nação. Ele tentou se tornar um com o Arcanum… Unir mente, corpo e essência ao poder que sustenta a realidade. Quis se tornar, segundo o que ele mesmo dizia: “Deus”.




Koryu estreitou os olhos, murmurando mil e uma maldições contidas com puro desdém.




Adam inspirou, o punho se fechando.




— Eu o impedi. No último segundo antes da fusão completa, meu martelo atingiu a fonte. O impacto destruiu a máquina… e tudo ao redor dela. — Ele apontou para o martelo ao seu lado. Sua superfície parecia pulsar com algo vivo, uma mistura de matéria e energia, de cor totalmente esbranquiçada, um núcleo alienígena à realidade. — É por isso que ele é assim. Foi contaminado. Como eu. Tudo foi consumido… menos nós dois. Adrian escapou. E o Arcanum me trouxe de volta.




Porto ergueu ambas as mãos no ar, os olhos quase saltando do rosto bronzeado de tanto nervosismo.




— Espera, Espera, ESPERA! — ele gritou, olhando de Adam para Merlin, depois para o martelo e de volta para Adam. — Vocês tão querendo me dizer que o mundo, o mundo mesmo, vai acabar por causa de uma máquina?! A porra de uma máquina?!




Adam soltou um suspiro e cruzou os braços sobre o peito nu, ainda suado do treinamento.




— Basicamente. — Sua voz era seca como papel velho. — E temos no máximo um ano para impedir isso. Precisamos alcançar Adrian antes que ele colete todas as Runas Ancestrais… e, pior, antes que ele finalize a junção de ambas as máquinas.




Koryu deu um passo à frente, os pés afundando ligeiramente na areia úmida.




— E como, exatamente, vamos detê-lo? — Sua voz vinha grave, densa.




Adam não hesitou.




— Ele começou em Cinderhelm, em busca do Núcleo Arcanum. Sem ele, a máquina que ele quer criar vai se tornar instável. — Ele olhou para os demais. — Sem minha tecnologia como base, Adrian corre o risco de causar uma reação termonuclear antes de concluir a fusão.




Alstro arregalou os olhos com a menção.




— Reação o quê?




Antes que Adam respondesse, Astrid já estava ativando o projetor ocular de seu implante, explicando com a frieza de quem descreve a mecânica de um parafuso:




— Uma explosão em cadeia, essencialmente. Liberação de energia instável a nível atômico. Tudo em um raio de milhares de quilômetros, civilizações inteiras, seria vaporizado em segundos.




Alstro olhou para ela, pálido.




— Ah… céus.




Porto segurou a cabeça com as duas mãos, andando de um lado para o outro.




— Eu… eu só fui pago pra trazer esse moleque pra cá! — Ele apontou para Alstro. — Não me inscrevi pra salvar o universo de um apocalipse, porra!




Merlin, calmo como sempre, falou em seguida:




— Você pode ir, Porto. Não é um dos escolhidos. Seu papel termina aqui… se assim desejar.




O silêncio que seguiu foi profundo. O som das ondas ao longe era a única coisa viva entre eles.




Porto hesitou. Mordeu o lábio. Olhou para Alstro. Depois para Astrid, depois para Koryu — que sinceramente lhe dava arrepio na espinha pela sua aparência exótica. E então para Adam.




— E se esses quatro aí falharem? — Porto perguntou, baixinho. — E se não conseguirem? E se o cara, esse… Adrian, sei lá, conseguir fazer o que quer?!




Alstro, com coragem que até ele não sabia que tinha, ergueu a voz:




— É por isso mesmo que você tem que vir com a gente! — Ele deu um passo à frente, abrindo as asas num gesto instintivo, mas apenas uma delas o fazendo por completo, já a outra fraquejando antes de voltar para a posição original de repouso. — Você é um navegador experiente! E a gente vai precisar de um! Com certeza vamos ter de cruzar as águas novamente uma hora ou outra, e duvido que você esteja aqui sem um propósito.




Porto engoliu em seco. Uma parte de si ainda queria correr. Mas a outra, bom, a outra estava refletindo a respeito das quatro pessoas que ele nunca teria imaginado ver reunidas.




Um espadachim. Um clarividente. Uma ciborgue. E um viajante do tempo.




Em situação normal, o mínimo que faria sob tais circunstâncias seria se embriagar até desmaiar e acordar no dia seguinte com a certeza de que foi tudo um mero delírio.




Mas essa não era uma dessas vezes.




— Tsc… Isso vai custar muito mais do que só um saquinho miserável de ouro.




Alstro sorriu imediatamente.




— Fechado!




— Que “fechado” que nada! — disse Porto, cruzando os braços e lançando um olhar quase acusatório para o príncipe das fadas. — Você tá literalmente incapacitado de entrar no seu reino, quem dirá abrir os cofres da família pra me garantir qualquer coisa!




Alstro pareceu se encolher novamente, suas asas abaixando em constrangimento, enquanto Porto bufava, prestes a virar as costas.




Mas então, Adam interveio.




— Eu pago. — Sua voz foi firme, determinada. — Quando isso tudo acabar, você terá seu pagamento. Com juros, se for o que quiser.




Porto arqueou uma sobrancelha, encarando-o.




— Olha, grandão. Sem querer ofender, mas já o fazendo, você parece ter mais pelos no corpo do que ouro.




Adam não respondeu. Só o encarou, com a fúria silenciosa de quem já tinha perdido tudo uma vez. Isso foi o suficiente para Porto baixar um pouco a bola.




— Certo, supondo que eu aceite esse acordo suicida... vocês acham mesmo que meu navio de madeira vai aguentar atravessar mar aberto além do Cruzamento King-Queen? — Ele abriu os braços. — Só um navio cinderhelmiano conseguiria aguentar esse tranco! E obviamente eu não tenho um desses estacionado aqui.




Antes que pudesse terminar a frase, um estrondo cortou o ar.




O rugido de um apito marítimo tão potente que fez os pássaros voarem em debandada da floresta costeira.




A neblina finalmente se dissipava, revelando uma silhueta titânica: uma embarcação de aço negro, com chaminés expelindo vapor e a bandeira de Cinderhelm balançando ferozmente na proa.




O navio ancorou com estrondo, seu peso fazendo o mar recuar em ondas violentas. A parte inferior frontal se abriu como uma mandíbula mecânica, revelando uma longa passarela hidráulica que desceu até a areia com força, levantando uma nuvem que atingiu o grupo como uma rajada. Todos viraram o rosto, protegendo os olhos com os braços ou capas.




Quando o vapor e a poeira se assentaram, uma figura desceu da embarcação: um elfo de feições suaves, cabelos longos azulados amarrados em um rabo de cavalo elegante, vestes nobres de viagem, com o emblema da família Carbone marcado no peitoral e ombreiras de couro.




Estava sozinho. Não havia tripulação alguma com ele. Apenas seus passos calmos, que ecoavam metalicamente pela passarela até ele tocar a areia da praia com elegância — e um visível cuidado para não escorregar pela poça d’água que se formara na base da rampa.




Adam congelou no mesmo instante. Seus olhos arregalaram como se tivesse visto um fantasma.




— Não pode ser…




Seu martelo caiu da mão como um pedaço de chumbo, enterrando-se na areia atrás de si. Sem dizer uma palavra, Adam passou pelo grupo em passos largos, com os olhos fixos em Alexandros, como se o próprio tempo tivesse dado um nó.




Koryu observava em silêncio, desconfiado. Astrid ativou os sensores visuais com um clique, escaneando o recém-chegado. Alstro arregalava os olhos e sussurrava para Porto:




— Ele é lindo…!




— … Quais as chances de isso acontecer justamente agora? — Porto murmurou de volta, indignado, ainda que perplexo.




Merlin, por sua vez, apenas sorriu.




— Ohoho. Parece que me precipitei em concluir que estavam todos já reunidos. — gargalhou brevemente, alisando sua longa barba.




Koryu olhou para ele, um tanto curioso.




— Ele também é um escolhido, Mestre Merlin?




— Oh, sim sim. Não há dúvidas. Consigo sentir a energia arcana dele de longe, mas estava achando que era apenas um sentimento de euforia por ter todos vocês aqui reunidos. — assentiu em concordância — Inclusive, não precisa se referir a mim como “Mestre”, sabe? — disse, meio sem jeito, com um sorriso de canto.




Alexandros caminhou pelas areias molhadas, os passos ritmados ecoando suavemente com o tilintar leve de seu sobretudo naval.




Seu olhar estava fixo adiante, mais especificamente, em Merlin Ambrosius. Os olhos azulados do elfo se arregalaram com intensidade, sua boca entreaberta e um sorriso trêmulo se formando lentamente no canto dos lábios.




— Pelos deuses... — murmurou, quase sem voz. — É ele... É mesmo ele…!




A realização parecia pulsar em sua pele como eletricidade estática. O elfo parecia um menino diante de seu maior herói, o ídolo inalcançável finalmente tangível. Seus olhos brilhavam, e ele quase esqueceu de respirar.




Mas então, uma voz o puxou bruscamente de volta à realidade:




— Alexandros...?




Ele parou.




Seu olhar se deslocou, hesitante, em direção à voz.




Ali, alguns metros à frente, estava um homem alto, de aparência selvagem e imponente. Cabelos escuros, barba espessa, o corpo completamente nu da cintura para cima, suado, musculoso ao extremo, com uma postura firme como uma muralha viva.




Alexandros ruborizou de imediato.




Seu olhar caiu instintivamente para o abdômen esculpido de Adam, as gotas de suor escorrendo em contraste com os músculos expostos. O rubor em seu rosto foi quase instantâneo, e impossível de disfarçar.




— E-Eu... — Ele pigarreou, tentando não parecer pego de surpresa. — Como sabe meu nome…? — havia um certo receio em sua voz.




Alguém de Eldorwyn conhecendo seu nome? A última vez que isso aconteceu, foi seguido de insultos, boicotes e uma passagem só de ida para a prisão.




Mas a resposta veio como um raio que rompeu a tormenta.




— Sou eu… Adam.




Alexandros franziu o cenho, olhos estreitando com confusão. Observou-o mais atentamente.




A barba, o porte, e principalmente, o corpo.




Não havia nada ali que o lembrasse do garoto prodígio de Cinderhelm, o inventor revolucionário, o diplomata bem-vestido de fala afiada dos Altharion.




Mas então, ele viu os olhos, e aquilo bastou.




O tempo parou para o elfo.




Ele enxergou a imagem de Adam Altharion como era naquele dia glamouroso no Big Bang, diante do Conselho das Máquinas. Com uma túnica de gola alta, as mangas impecavelmente engomadas, segurando um orbe perfeitamente polido de cristal mágico, dando início ao projeto que era razão do tormento da EosMist atualmente.




E ali estava ele agora — descalço, com areia até os tornozelos, vivo, suado, e mais forte do que jamais fora. Vivo.




— … A-Adam...?! — A palavra saiu como um sussurro, trêmula.




O coração de Alexandros afundou no estômago. Ele engoliu em seco.




— V-Você… Você está vivo…!




Adam sorriu de canto dos lábios, arqueando uma sobrancelha.




— E por acaso houve velório meu pra isso já não ser de conhecimento geral?




Alexandros cambaleou meio passo para trás, completamente atônito. Seus pensamentos se embaralhavam — choque, alívio, alegria, incredulidade.




O mundo pareceu se reduzir à figura diante de si.




Com um passo quase vacilante, ele se aproximou ainda mais. Seus olhos vasculhavam cada traço daquele rosto masculino e viril, cada cicatriz sutil, cada fio de cabelo. Estava em choque.




E então, num gesto tão instintivo quanto desesperado, levantou ambas as mãos e segurou o rosto de Adam.




Seus dedos deslizaram pela barba densa e cheia, subiram pelas laterais do rosto, enroscaram-se nos cabelos úmidos. Sentiu a textura da pele, o calor do corpo, a solidez inegável.




Era real.




Adam era real.




Alexandros ofegou, como se tivesse prendido a respiração até ali. Seus olhos tremiam, lacrimejantes, e então ele recuou um pouco, cobrindo a boca com ambas as mãos, um gesto misto de incredulidade e contenção emocional. As lágrimas não vieram, mas estavam na beira.




Quando abaixou as mãos, as perguntas jorraram como uma enchente:




— O que aconteceu com você?! Como sobreviveu? Por que estava sumido? Por que está assim?! O que é esse cabelo? Esse corpo? Quem te levou do baile? Você foi raptado? Você fugiu?! Seus pais sabem que você tá aqui? Por que ninguém nunca disse nada? Você... Você-...?




— Alexandros. — Adam ergueu uma mão, sem tocá-lo, apenas sinalizando calma com o tom sereno da voz. — Respira.




O elfo arfava. Seus ombros tremiam. Ele obedeceu, quase sem querer, como se aquela voz tivesse um poder natural sobre ele. O silêncio entre eles era denso, carregado de tudo o que nunca foi dito.




Lá atrás, Porto cruzou os braços com uma sobrancelha arqueada.




— Alguém aí conhece aquela subespécie de moça ali?




Astrid, analisando a cena, respondeu sem desviar os olhos:




— Tecnicamente falando, minha base de dados não identifica ninguém que não seja registrado em Neonith. Passo.




— Um homem que conhece o outro por nome e toca seu rosto sem cerimônia? — murmurou Koryu, os braços cruzados. — Definitivamente se conhecem de Cinderhelm.




Alstro, com os olhos brilhando de emoção, murmurou encantado:




— Isso é tão romântico...




Porto fez uma careta de imediato.




— Blargh... Você me fez imaginar coisas dignas de náuseas com isso.




— Então talvez esteja na hora de todos tomarem um bom chá — interveio Merlin, com o mesmo tom bondoso de sempre, abrindo os braços como se estivesse reunindo patinhos dispersos. — Venham. Todos vocês. Temos muito o que conversar, e planejar, antes de mais nada. — dizia, ajustando o chapéu com a ponta do cajado, já se virando em direção da escadaria de pedra que levava até a parte superior do monte costeiro em que se situava a sua torre. — Espero que estejam com fome, pois tenho uns petiscos ótimos no meu estoque que peguei recentemente em Midland, ohoho. — riu de forma breve e marota, subindo os degrais.




Koryu foi o primeiro a lhe seguir, seus múltiplos olhos carregados de respeito. Logo depois, Astrid caminhou em silêncio, com A.G.U.A. subindo novamente para seu ombro.




Alstro ainda hesitou, fazendo um gesto para Porto ir primeiro. O navegador soltou um suspiro longo e seguiu, murmurando algo sobre estar “velho demais” pra isso.




Alexandros ainda olhava para Adam, mas agora com um sorriso trêmulo no rosto. Adam retribuiu o olhar com um aceno sutil da cabeça. Sem palavras.




E então, os dois caminharam juntos.


[.]


Uma hora depois.


O aroma suave de chá de flor de névoa pairava no ar, mesclado com o cheiro doce dos biscoitos arcanos recém-assados. A mesa redonda da torre estava bem abastecida com frutas encantadas, pequenos sanduíches flutuantes e cubos de queijo que se cortavam sozinhos a cada garfada.



Porto, o primeiro a dizer que “comia pouco”, estava reclinado na cadeira, com a barriga levemente estufada e um copo de suco fluorescente em mãos, satisfeito como nunca.



Alstro se limitava a picar pedacinhos de fruta no prato com elegância, Astrid comia de forma metódica e discreta, internamente processando o material orgânico como combustível sintético, e Koryu pouco tocava a comida, preferindo manter os olhos nos arredores e os ouvidos na conversa.



Adam e Alexandros estavam lado a lado — o primeiro terminando uma longa explicação que havia prendido a atenção de todos ali: sua súbita transformação em pura energia dentro do banheiro do baile de celebração, e seu despertar misterioso na praia, onde Merlin o encontrara e acolhera.



Adam soltou um leve suspiro, apoiando o cotovelo na mesa e olhando diretamente para Alexandros.



— E, pra ser sincero... eu não esperava te ver aqui. Não mesmo.



Alexandros, que segurava uma xícara com as duas mãos, arqueou as sobrancelhas.



— Você? — Um riso contido escapou de seus lábios. — Você é quem eu achei que nunca mais veria! Cinderhelm entrou em colapso depois que sumiu daquele jeito!



Adam ficou mais sério, o rosto se firmando.



— Como assim?


Alexandros olhou em volta. Os olhares dos demais se voltaram para ele. Ele hesitou por um instante, mas então Adam o encarou e disse com firmeza:



— Pode falar. Todos aqui precisam estar na mesma página.



Com um leve morder de lábio, Alexandros pousou a xícara na mesa.



— O seu desaparecimento foi tratado como uma morte.



O silêncio caiu como uma pedra.



— O Conselho das Máquinas arquivou o caso — continuou ele. — A Comandante Draeven quase declarou guerra aos Ponteiros achando que tinham te sequestrado. Mas por ordem superior... tudo foi abafado.



Adam se endireitou. A tensão em seus músculos era visível.



— E o Núcleo Arcanum?



— Revogado. — A voz de Alexandros falhou por um segundo. — Tiraram seu nome do projeto. Repassaram os direitos para seus pais. Lorde Caelan e Lady Adalyn.



Adam levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando atrás de si.



— O quê?! — Sua voz ecoou na sala. — Eles fizeram o quê?



Alexandros tentou amenizar o impacto, mas não havia como suavizar traição.



— Foi ela... — disse, baixo. — Sua mãe. Ela... ela pressionou o Conselho. Incentivou que o projeto fosse repassado ao nome da família. Caelan só acatou. Adalyn já estava arquitetando aquilo... antes mesmo do baile.



Adam ficou paralisado. O mundo pareceu girar de lado. Seu olhar caiu, perdido em algum ponto distante da sala.



Traição. Era isso que sentia.



Ele passou as mãos pela barba, os olhos ficando vermelhos. Não havia lágrimas. Só raiva profunda e incredulidade.



— Eu confiei neles… — sussurrou. — Eu sempre lutei para ser o maior exemplo para os dois! Eu dediquei anos da minha vida buscando por reconhecimento e orgulho por parte de ambos! Me chamavam de visionário, me diziam que... que era o futuro da Casa Altharion!



Alstro, silencioso até então, deixou a fruta cair do garfo.



— Adam...



Adam não respondeu. Apenas se afastou da mesa, indo até uma das janelas da torre, fitando o oceano ao longe. Seu punho se fechou, batendo contra a parede de rocha ao lado da janela, fazendo-a tremer e criando uma rachadura mediana na superfície, deixando pedaços caírem aos seus pés.



— Eles me esqueceram em troca de reputação…




Koryu cruzou os braços, fechando os seus olhos, reclinando-se em sua cadeira, franzindo levemente o cenho. Seu silêncio já falava por si só a respeito daquilo.



Porto bebeu mais um gole, tenso agora.



Astrid, com os olhos ligeiramente baixos, sussurrou:



— Parece que as políticas de Neonith não são tão diferentes do lado de fora.



Adam então se virou lentamente para o grupo, o semblante carregado.



— Isso é ruim. Muito ruim. — Sua voz era firme, porém carregada de preocupação. — Pior do que eu poderia imaginar.



Todos se calaram, atentos.



— Se os meus pais se apossaram do projeto... então a produção em massa do Núcleo Arcanum já começou. E isso só significa uma coisa: Adrian vai ter a maior facilidade do mundo em pôr as mãos em uma das máquinas.



Adam andava devagar pela sala agora, os dedos tamborilando no cabo do martelo em sua mão.


— É a oportunidade perfeita pra ele. O primeiro lugar em que ele apareceu na linha do tempo original foi exatamente Cinderhelm. Ele vai matar dois coelhos com uma cajadada só... o Núcleo... e a Runa.


Koryu levantou-se de sua cadeira, um som surdo de madeira raspando contra o piso de rocha ecoando pelo recinto.



— Então devemos agir imediatamente.



Merlin levantou a mão, pedindo calma.



— Não tão rápido, jovem Nephthys. — Seus olhos brilharam com serenidade. — Há muito em jogo, mas também precisamos pensar com clareza mesmo diante do caos.



Ele se dirigiu a Adam diretamente.



— Dois dias atrás, você me disse que Adrian levaria uma semana para alcançar Cinderhelm, correto?


Adam assentiu.



— Já se passaram três — disse Merlin, erguendo o indicador. — Isso nos dá, com segurança, quatro dias de vantagem.



Porto assobiou baixo, recostado na cadeira.



— Com aquela belezinha que o elfo trouxe — disse, indicando Alexandros com o polegar. — Eu te garanto que dois dias no mar e estamos lá. Ainda mais comigo no leme! Nenhuma corrente vai nos atrasar.



Astrid se manifestou com um tom mais técnico.



— O navio tem suprimentos suficientes para a travessia?



Alexandros, mais contido agora, respondeu com firmeza.



— Sim. Foi equipado para mais de dez membros de tripulação. Para nós, é mais do que suficiente.



Alstro bateu palmas, um tanto nervoso, tentando soar otimista:



— Então... temos o navio, temos suprimentos, temos a rota... Está tudo pronto, não? — Seus olhos se voltaram para Merlin, com uma mistura de admiração e expectativa. — O senhor… vai vir conosco?



Merlin abaixou levemente a cabeça, com um sorriso amargo.



— Infelizmente, não. Se Adrian pretende reunir as Runas Ancestrais, então a Runa de Eldorwyn está em risco. Preciso ir até a Academia Arcana, encontrar velhos aliados... e comunicar a Coroa de Midland. Eles precisam estar preparados se o pior acontecer.



Koryu cerrou os punhos, mas assentiu.



Alstro murchou um pouco, parecendo uma planta perdendo a luz. Ele estava ansioso com a possibilidade de protagonizar uma aventura em companhia de um ícone como Merlin.



Merlin então completou:



— Não se preocupem comigo, irei reencontrar todos vocês na hora certa. — ele disse, com fala mansa e tranquila, ajustando melhor seu chapéu de mago. — Mas enquanto isso, conto com vocês para garantir que Runeforge prevaleça a esse tempo de crise. Tenho fé em cada um dos que estão aqui agora.



Adam olhou para Merlin, assentindo em concordância lentamente, e depois virando-se para o grupo, os olhos percorrendo um por um.



Astrid, fria e precisa como sempre, fitou-o por um instante, gravando-o em seu banco de dados como a figura de autoridade de liderança em comparação aos demais.



— Então, Altharion. Quais são as ordens?



Os demais então também centraram a atenção exclusivamente em Adam, apreensivos por sua resposta, atentos.



Ele então respirou fundo, pegando o cabo de seu martelo e o firmando no chão com um som metálico pesado.


— Estejam prontos até daqui trinta minutos. Nós vamos para Cinderhelm.

Notas finais
<3