Arcanum

6 O Príncipe


O Leste de Zaratharn ainda dormia.


A névoa mágica pairava sobre os bosques suspensos, tingindo os galhos com um brilho pálido e sereno, como se o mundo inteiro estivesse contido num transe de harmonia. As pétalas da flor-da-lua fechavam-se lentamente, devolvendo o céu ao primeiro lilás do amanhecer.


Alstroemeria Hallot acordou com os olhos já abertos, levemente arregalados.


Não fora um pesadelo — ele aprendera a diferenciar esses desde cedo. Não havia monstros, nem gritos, nem asas sendo arrancadas. Mas havia uma voz.


"Se você está recebendo esta visão, é porque foi escolhido pelo próprio Arcanum. Seu destino foi decidido. A existência está em perigo, e seu papel será crucial para salvá-la. Venham para o Litoral Sul de Eldorwyn. O tempo é curto!"


Estava deitado de lado, como sempre fazia quando queria sentir menos o peso da asa quebrada. O travesseiro de linho encantado não ajudava, nem o cobertor bordado por sua mãe, tão pouco o silêncio espesso da mansão real. Nada abafava aquela voz. Nem mesmo ele.


Ele fechou os olhos de novo, desta vez por vontade própria. As palavras da noite passada ecoavam em seu peito como uma batida descompassada.


Ele inspirou profundamente, e ao expirar, ativou a fagulha adormecida de sua magia espiritual. Sentiu o familiar frio percorrer-lhe a nuca. A mente, mesmo frágil, sabia o caminho. O mundo desapareceu ao redor, restando apenas a lembrança do sonho, como se sua memória fosse agora um lago calmo, e sua consciência, uma pedra arremessada.


Fragmentos surgiram com rostos desfocados. No centro havia um homem de manto azul, cabelos prateados, longos, com uma voz que ecoava como trovão, segurando um cajado de madeira de orvalho e com olhos brilhantes como estrelas.


Alstroemeria sussurrou sem se dar conta:


— Merlin…


Ele se sentou na cama com um sobressalto. O nome parecia emoldurado em ouro, como uma pintura ancestral ressuscitada.


"Merlin…?! O Mago Supremo?!?"


Seu coração disparou. A boca seca. Os pensamentos se atropelavam.


Claro que conhecia Merlin. Todo mundo conhecia Merlin. Ele estava em praticamente todos os livros de história mágica que Alstro já lera — e não eram poucos. Antes de sua queda na Ordem dos Magos, antes de sumir quase que absolutamente da atenção da mídia de Eldorwyn, e consequentemente do resto das nações, Merlin já fora um aliado das fadas. Um dos únicos humanos que não tentara colonizar, explorar, ou corromper suas terras. Ele ajudara a erguer a redoma que protegia o Leste de Zaratharn há séculos. Trazia conhecimento, e em troca, recebia confiança.


A principal defesa criada pelas fadas, os Homens Folhas, era fruto da contribuição de Merlin. Guardiões feitos a partir de magia rúnica e da vegetação, os quais são chamados de "Homens Folha”, uma cópia da fisiologia humana usando apenas de galhos, fungos, rochas, raízes e flores, os quais fazem a escolta das fadas como seus protetores leais, tal qual sendo os guardas dos arredores de vilarejos e a principal unidade de combate usada contra feras mágicas selvagens que viessem a se tornar uma ameaça.


Sabendo disso agora, a mente de Alstro ficava ainda mais confusa sobre o que fazer.


— Ele… ele esteve aqui — murmurou, incrédulo. — Ele ajudou a manter a redoma de pé. Minha mãe falava dele... quando eu era criança.


O reconhecimento da identidade do homem no sonho não trouxe alívio. Pelo contrário: agora a situação tinha peso e responsabilidade.


Alstro levantou-se devagar, indo até a janela de seu quarto, onde a redoma mágica reluzia no horizonte como um segundo céu. O mundo além dela parecia distante demais. Barulhento. Cheio de gente que não respeitaria suas dores, suas cicatrizes, nem a fragilidade oculta sob sua voz doce.


Ele passou as mãos pela franja e mordeu o lábio.


— Eu não posso... — murmurou. — Eu não posso sair. Eu… Eu mal consigo encarar minha mãe sem fingir que estou melhor. Como posso encarar uma guerra, ou seja lá o que for isso? Eu mal sobrevivi à última batalha da minha vida…


A ideia de cruzar os limites da redoma o enjoava.


Sair do Leste significava não poder voltar sem permissão. E mesmo que a obtivesse, os Homens-Folhas sempre olhariam para ele com aquele olhar de quem sabe, e jamais o deixariam chegar sequer a sair na varanda sem o vigiar de perto. As fadas como um todo iriam começar a falar entre si, comentando a respeito de como viram o príncipe da raça falhar, cair, fugir, amar errado, e voltar para o ponto de partida sem nenhuma conquista.


Mais que isso: e se as visões voltassem? Se tivesse que experienciar toda aquela agonia de novo? Essa incerteza lhe trazia medo. E esse medo era principalmente voltado a ter que ver o rosto de Jim nos seus pesadelos, lhe atormentado, tornando-o um prisioneiro mentalmente, como se não fosse suficiente já estar nesse estado fisicamente. A possibilidade de um dia acabar caindo nas garras dele, se ele voltasse para terminar o que começou, era desesperadora para si.


— Eu não sou especial. Eu sou só uma... — ele engasgou com a palavra — …uma sombra do que fui…


Mas a imagem de Merlin se recusava a desaparecer. A voz dele — grave e firme — instintivamente, como por uma influência superior, desafiava as suas dúvidas com uma determinação que Alstro pensava já não ter mais.


Por quê? Por que agora? Por que ele? O que o Arcanum, a fonte de vida de toda a magia, iria querer com um príncipe falho e tolo como si…?


Alstro olhou para as luvas que usava, e depois para sua mão escondida sob o tecido. Estava tremendo de nervosismo.


Talvez existisse um motivo. Talvez Merlin tivesse vindo novamente ao Leste porque sabia de sua dor. Talvez visse em Alstroemeria o que ele mesmo não via mais.


Não um príncipe, não uma vidente. Mas alguém que conhecia o fundo do poço, e ainda assim escolhia viver. Ele não conseguia entender tudo, mas sentia: a decisão já tinha sido tomada antes mesmo de se questionar.


Alstroemeria deu meia-volta, caminhou até sua cômoda, e retirou de dentro um pequeno colar de cristal — presente de infância de sua mãe. Apertou-o na palma da mão e, sem pensar muito, jogou-o dentro da bolsa de viagem que não usava havia anos, tendo que a estapear de leve para retirar sua poeira superficial.


Talvez não houvesse volta. Mas também havia a chance de que houvesse algo além da dor esperando por si, uma oportunidade de substituir seus erros por um único e grande acerto que o fizesse se ver como mais do que um fracasso. Naquele momento, toda a sua esperança e vigor se apoiaram nisso.


Ele então dirigiu-se até a porta. Com a ponta de uma agulha de costura que escondia sob a manga, ele forçou o fecho da maçaneta de bronze — prática que aprendera por necessidade, não por rebeldia. Quando a trava cedeu com um clique seco, o jovem príncipe soltou um suspiro trêmulo. Estava livre da torre, pelo menos da maçaneta dela.


A varanda era inútil para si. Suas asas — quebradas, frágeis, penduradas como lembranças condenadas — não suportariam um voo até o pátio, a torre era alta demais. Desde o dia em que Jim arrancara o seu direito de voar com a mesma facilidade com que arrancava desculpas da boca, sabia que usaria seus pés por um longo tempo.


Então, foi pelos corredores. Descalço, com o passo leve como a brisa, Alstro esgueirava-se pelos tapetes bordados de estrelas, encostando-se às paredes, atrás de colunas e tapeçarias, desviando de empregados que, apesar da reverência, haviam recebido ordens diretas: não o deixem sair. Era por amor — ou medo. Mas aquilo ainda era uma prisão.


Ele quase tropeçou ao virar um canto muito rápido e se escondeu atrás de uma cortina pesada quando uma criada cruzou o salão carregando uma bandeja de tâmaras frescas. Seu coração disparava como se estivesse fugindo do castelo inteiro, e talvez estivesse mesmo.


Quando finalmente alcançou a escadaria de mármore que levava à entrada principal, achou que enfim teria um momento para respirar. Mas o som de vozes abafadas o congelou.


Do outro lado do pilar que servia de esconderijo, estavam eles. Seus pais.


A Rainha Margareth e o Rei Richard conversavam em tom baixo, mas não o suficiente para escapar de seus ouvidos afiados. Ele se encolheu ainda mais, sem querer ouvir, mas ainda assim o fazendo.


— Ele não está melhorando, Richard, — sussurrou sua mãe, e seu tom tinha um tremor que Alstro não ouvia há anos, passando as mãos por seus longos cabelos negros — As asas… não reagem. Ele não come direito. Nem sorri mais. E os curandeiros dizem que os feitiços não funcionam da forma como deveriam… — Ela engoliu seco. — Talvez ele não volte mais a ser quem era…


— Você sabe o quanto nossa raça é sensível quando se trata das asas, — o pai respondeu com calma, ainda que seus olhos castanhos refletissem o mesmo nível de tristeza da esposa — Demora. É natural. O trauma não foi pequeno.


— Mas ele não vai melhorar assim! — disse Margareth com a voz embargada. — Jim ainda está solto! Ele pode voltar, pode levá-lo… de novo. Eu… eu não suportaria perder Alstro outra vez. Eu não sobreviveria.


Houve um momento de silêncio, e Alstro fechou os olhos com força, engolindo a vontade de gritar.


Richard suspirou com suavidade.


— Nós vamos encontrá-lo. Vamos fazer aquele bastardo pagar por tudo. Mas… Margareth… nós esquecemos. Nos últimos dias, esquecemos de tratá-lo como o que ele é: nosso filho. Não um prisioneiro. Apenas… Alstro. Nosso Alstro.


Ele quase soltou um soluço. Apertou a boca com ambas as mãos, os ombros tremendo em silêncio. Uma parte dele queria se levantar, correr até eles, pedir desculpas — por ter sumido, por ter amado errado, por ter voltado quebrado, e principalmente por estar querendo tomar uma atitude tão impulsiva quanto sair do único lugar que poderia lhe proteger completamente.


Mas ele sabia que essa parte só queria uma coisa: voltar para o conforto da dor conhecida.


Quando os passos deles se afastaram em direção ao salão de jantar, Alstro saiu de seu esconderijo. Com as mãos ainda trêmulas, desceu cada degrau como se pisasse em cordas bambas. E ali estava a porta principal. Nunca a viu tão intimidante quanto naquele momento.


— É só madeira… só madeira… — sussurrou para si mesmo, como se pudesse enganar o coração.


Ele ficou parado ali por longos segundos.


Poderia voltar. Dizer que foi um impulso. Que a noite tinha mexido com seus pensamentos. Que a voz no sonho era apenas uma memória de infância confusa, ou uma forma de lidar com o estresse pós-traumático. Levaria um minuto para subir de volta para sua torre, fechar a porta e continuar fingindo que estava tudo bem. Era tudo questão de se trancar mais uma vez e esperar mais uma década para ter coragem de tentar viver de novo.


É, ele poderia. Com certeza. Mas não era isso que queria, nem de longe. Não mais.


Alstroemeria girou a maçaneta. A porta rangeu lentamente. A brisa fria da manhã do bosque balançou seus cabelos de leve. E ele sentiu algo que não sentia há muito, muito tempo: liberdade.


Ele não fechou a porta atrás de si, porque deixá-la aberta era a prova de que não estava fugindo — estava partindo. E eventualmente, retornaria.


[.]


O vale que se estendia diante de Alstroemeria era de uma beleza silenciosa. Colinas aveludadas dançavam com a brisa suave, cobertas por mantos de flores azuladas que se curvavam sob o peso do orvalho. As árvores balançavam como se cochichassem entre si. Ao longe, o sol nascia com timidez por trás das nuvens, lançando sombras compridas que o guiavam em direção ao Oeste — e ao litoral.


Cada passo doía. Não por cansaço, mas por medo e por saudade. Mas ele continuava.


Com o capuz puxado sobre os cabelos escuros e as mãos enluvadas segurando firme uma sacola de couro com poucos pertences, Alstro chegou a um pequeno vilarejo escondido entre as encostas. Era formado por casas em formato de flores-gigantes, com portas ovais e chaminés feitas de fungos bioluminescentes. Um lugar modesto, calmo. Um lugar seguro — ou pelo menos, que parecia ser.


A sineta da lojinha de artigos marítimos tilintou quando ele empurrou a porta de madeira envelhecida.


— Bom dia, querido… — disse o ancião atrás do balcão, uma fada de asas curtas e um sorriso amigável, limpando um mapa com mãos enrugadas.


— Preciso de um mapa marítimo. Um… confiável. — Alstro falou em tom contido, puxando de dentro da sacola uma moeda de ouro reluzente.


O velho arregalou os olhos.


— Isso é muito mais do que o necessário, senhorita. — disse ele, hesitando.


— Fique com o troco. — Alstro deslizou a moeda no balcão com um gesto breve, evitando contato visual. — E obrigado.


O velho, tocado pelo gesto, levou os dedos ao coração.


— Que o vento proteja seu caminho, criança. — murmurou em tom ritualístico.


Alstro fez um breve aceno com a cabeça e se retirou.


Mas mal a porta se fechou atrás dele, o velho já corria desajeitadamente até os fundos da loja. Minutos depois, três fadas patrulheiras estavam sendo alertadas. E nenhuma delas parecia acreditar de início quando o velho afirmou que se tratava do príncipe.


— Ele estava indo para o Oeste. Com um mapa marítimo! Sozinho…!


— O príncipe?! — uma das fadas arregalou os olhos. — Você tem certeza?


— Posso não enxergar tão bem quanto antes, mas jamais esqueceria aquele rosto. E só ele não se importaria de eu chamá-lo por ambos os gêneros. Tenho certeza!


As patrulheiras se entreolharam e desapareceram entre as folhas, voando em direção à redoma. Seus guardiões — os Homens-Folhas — já seriam alertados pelo sussurro das raízes.


Alstroemeria subia a encosta de uma montanha estreita agora, os pés afundando na lama, as mãos escorregando nas pedras cobertas de musgo. A brisa ali era mais cortante, e o céu ganhava tons acinzentados. Suas asas, frágeis e inúteis, batiam inutilmente nas costas, arranhando a pele toda vez que um galho ousava roçar contra elas.


— Só mais um pouco… só mais um pouco…


Ele falou para si mesmo como quem repete uma canção de ninar. Seus dedos estavam arranhados, os joelhos doíam, e um filete de sangue escorria da canela onde se cortara ao escalar um trecho particularmente íngreme.


Mas, ao alcançar o topo — finalmente —, tudo emudeceu.


À sua frente, estendia-se o horizonte. Lá embaixo, ondulando como um domo etéreo, estava a borda da redoma. Azul-prateada, como um céu artificial. Era linda, inegavelmente. E por toda a sua vida, disseram ser inalcançável.


Mas ele não ia recuar agora.


Alstro começou a descer do outro lado com o mesmo cuidado de antes, usando raízes grossas como apoios e galhos como corrimão improvisado. Cada passo o levava mais perto da liberdade — e de algo ainda indefinido dentro de si.


Quando enfim chegou à base da montanha, o ar mudou.


E então, eles surgiram. De dentro do matagal rasteiro, figuras ergueram-se como árvores com vida própria — Homens-Folhas, com braços feitos de trepadeiras grossas, olhos brilhando com seiva dourada, e torsos de madeira entrelaçada. Atrás deles, três fadas flutuavam com os palmos das mãos abertos, carregados com suas respectivas magias, as expressões tensas.


— Alto aí! — bradou uma das fadas, com pura autoridade. — Identifique-se.


Alstro congelou. O capuz ainda ocultava parcialmente seu rosto, mas não havia como esconder completamente a aura real que o cercava.


Os olhos da líder da patrulha se arregalaram.


— Por tudo o que é mais sagrado… É o… é mesmo o príncipe?


Os Homens-Folhas inclinaram as cabeças em respeito. Um deles ajoelhou com um estalo de galhos.


— Alstroemeria Hallot? — a fada perguntou, perplexa. — O que está fazendo aqui, tão perto da redoma? Sozinho?


O silêncio pairou por um momento. E então, Alstro levantou o capuz. Seus olhos estavam molhados, mas firmes.


— Eu preciso sair.


— Mas… Vossa Alteza, a redoma-...


— Eu sei. — Alstro ergueu um pouco a voz, depois a suavizou. — Mas… há algo lá fora que me chama. Algo maior do que… do que isso tudo. Eu não sei se voltarei. Mas preciso ir. Por favor… me deixem passar.


A patrulheira hesitou. O olhar dela se cruzou com o dos Homens-Folhas.


— Vossa Alteza… — disse uma das fadas, pousando suavemente no chão diante de Alstroemeria, com o rosto marcado por surpresa e preocupação. — O Rei e a Rainha sabem que você está aqui?


Alstro não respondeu. Seu olhar desviou-se para o chão coberto de folhas molhadas. As palavras estavam todas presas na garganta, emboladas junto com o nó que parecia crescer em seu estômago. Ele não precisava dizer nada.


O silêncio falou por ele.


— Então é como temíamos… — murmurou a segunda fada, com as sobrancelhas franzidas.


A terceira, mais jovem, ainda parecia estar tentando acreditar no que via. — Mas... você... não pode sair, Vossa Graça. Não sem uma autorização real. É uma violação do Código de Proteção do Leste. Se cruzar a redoma sem permissão… não conseguirá voltar.


— Iremos escoltá-lo de volta ao castelo — disse a primeira, mais firme. — Onde estará seguro. Seus pais certamente ficarão aliviados.


"Seguro", pensou Alstro. Palavra maldita.


Seguro como uma flor enfeitada num vaso de vidro, intocável. Seguro como o cativeiro em que viveu nos últimos anos. Seguro como o silêncio sufocante das paredes da torre. Seguro como a prisão dourada que quase matou quem ele era.


Voltar significava apagar o pouco de luz que ainda restava em sua alma.


— Claro… — murmurou ele, com um suspiro derrotado, erguendo lentamente as mãos enluvadas em um gesto de rendição.


As fadas relaxaram, trocando olhares entre si. A tensão começou a esvair-se do ar. A líder acenou levemente para os Homens-Folhas, e os gigantes de galhos e trepadeiras assentiram, afundando-se de volta na vegetação, tornando-se novamente parte da paisagem como sentinelas dormentes.


Alstro deu alguns passos ao lado das fadas, caminhando de volta pela trilha estreita em meio às árvores cobertas de musgo. A floresta parecia apertar ao redor, como se as raízes estivessem tentando segurá-lo ali também.


Mas então, ele parou.


— Vossa Graç—? — começou uma das fadas, mas foi tarde demais.


Num único movimento fluido, Alstroemeria arrancou as luvas. As três fadas não tiveram tempo de reagir. Com os dedos nus, Alstro tocou brevemente os ombros de cada uma.


Eco do Amanhã!


Imediatamente, as três caíram de joelhos com os olhos arregalados, os corpos tremendo com visões intensas e fragmentadas de uma semana de seus próprios futuros. Tudo em flashes, como se uma centena de sentimentos tivesse atravessado o peito delas ao mesmo tempo.


Uma gritou. Outra caiu com as mãos na cabeça. A terceira ficou apenas imóvel, os olhos vazios como vidro.


Era só um segundo. Mas um segundo o suficiente.


— Me perdoem… — sussurrou Alstro com sinceridade dolorosa. — Mas eu não posso voltar.


E então ele correu. Correu com tudo o que tinha, sentindo o vento chicotear seu rosto, os ramos arranharem seus braços, os galhos puxarem suas roupas como se a floresta em si tentasse impedi-lo. As árvores se desfocavam, os pés afundavam na lama, os pulmões queimavam — mas ele não parava.


Atrás dele, a voz das fadas ecoava como trovões. Não com raiva, mas desespero e preocupação por sua segurança.


— Ele está fugindo!


— Chamem os Homens-Folhas!


A terra estremeceu levemente conforme os guardiões mágicos despertavam de novo, seus passos pesados sacudindo os arbustos.


Mas Alstro não olhou para trás. Na linha tênue entre medo e liberdade, ele era agora só vento. E a redoma se aproximava, centímetro por centímetro. Ele sabia que poderia perder tudo. Mas perder a si mesmo, de novo, era uma dor que não estava mais disposto a suportar.


O ar crepitou. O tempo pareceu partir-se ao meio. Com um último impulso, chegando perto o suficiente da borda, Alstroemeria se lançou contra a redoma mágica. Ele gritou ao atravessar, o corpo arrastado por pura adrenalina.


Um dos Homens-Folhas quase o segurou pela cintura, mas agarrou apenas o capuz de seu manto, que se rasgou com um som seco.


E então, ele atravessou.


Seu corpo despencou do outro lado, rolando por uma ladeira curta até se esparramar no cascalho úmido e salgado do litoral. Tossindo, ofegante, com o rosto sujo de terra e suor, Alstro se ergueu aos poucos, sentindo cada músculo tremer de cansaço.


Do outro lado da redoma, as fadas chegaram instantes depois, voando agitadas, e os Homens-Folhas recuaram, detendo-se.


— Alstroemeria! — gritou uma das fadas, a voz distorcida pela barreira mágica, como se falasse debaixo d’água. — Você ainda pode voltar! Por favor! O Rei e a Rainha ficarão arrasados!


Ele se virou, encarando os olhos marejados delas do outro lado. Suas silhuetas brilhavam contra a redoma mágica como fantasmas presos no passado. Mas ele não respondeu. Apenas ergueu os olhos para o horizonte e deu as costas.


Os pés afundavam no cascalho, a maresia o envolvia com sal e vento. Ele tirou o mapa da cintura, desenrolando-o com mãos trêmulas. Ali, entre linhas tortas e marcações rudimentares, estava um círculo vermelho: o suposto porto escondido, o único acesso à travessia marítima do Oeste.


Mas tudo o que via era mar, pedras e areia.


— Ótimo — sussurrou, o sarcasmo escapando junto com a frustração. — Saio do maior berço mágico do mundo para pedras… Eu realmente sou um idiota…


Foi então que ouviu um assobio. Fino, longo, proposital.


Seus olhos buscaram a origem. Acima de uma formação rochosa costeira, meio escondida atrás de um bloco de pedra coberto de algas, um homem pequeno estava sentado sobre uma canoa afundada, como se ela fosse um trono de maré baixa.


Era uma fada. Ou ao menos parecia um. Sem asas, pele bronzeada pelo sol, cabelo escuro e desgrenhado até os ombros, preso com corda náutica. Usava um colete rasgado sobre a camisa de linho manchada, calças arregaçadas e um dos pés descalço. Uma garrafa vazia repousava ao seu lado. E no colo, uma pequena faca com que descascava algo — talvez um nabo marinho.


— Você está mais perdido do que um cego em um torneio de tiro ao alvo, né? — disse o homem, sorrindo. — Procurando o “porto”?


Alstro franziu a testa, ainda tentando entender.


— Sim. Quer dizer... eu acho. Segundo o mapa, deveria haver uma estrutura aqui, um cais ou algo do tipo.


O homem gargalhou, jogando a cabeça para trás com gosto.


— Estrutura? Estrutura é coisa de burguês. Você está olhando pra ele, frufruzinho. Eu sou o Porto.


Alstro piscou.


— ...Você é o quê?


— Porto. Nome. E ofício, se quiser ser poético. Sou pra onde todo idiota que quer fugir da redoma vem rastejar. Ou ser salvo. Depende da sua fé.


Alstro ainda o encarava, incrédulo.


— Você está dizendo que é uma pessoa. E não um lugar.


— Você aprende rápido. Tá vendo? Nem todo príncipe mimado é burro. — Ele apontou o cabo da faca como se estivesse admirando Alstro. — Você é um príncipe, né?


— Como você sabia...?


— Não sei. Chutei só por causa das roupas finas. — Porto deu de ombros, voltando a descascar o que quer que fosse. — Mas agora sei que acertei. Obrigado por confirmar.


Alstro bufou, exasperado, e olhou em volta.


— Você é bem indelicado.


— Sou um indelicado com um barco, frufruzinho. — Porto apontou com o queixo para um grande barco escondido mais adiante, entre dois pilares de pedra enormes, coberto por uma lona camuflada. — E, se quiser mesmo sair desse conto de fadas, vai precisar de mim. Ou vai nadar com os tubarões até o próximo cais militar, que só fica lá em Cinderhelm, com 3 dias de distância. Sua escolha.


— Por que você está aqui? — perguntou Alstro, abaixando o mapa. — E por que... está me ajudando?


Porto não respondeu de imediato. Seus olhos mudaram por um segundo, quase nostálgicos.


— Porque às vezes, frufruzinho... a gente não precisa de uma razão pra querer sair. Só precisa de coragem pra não voltar.


Alstro ficou em silêncio por um instante, olhando para o mar. Depois, deu um passo mais perto da canoa.


— … O que quer em troca?


— Depende. Você é só mais um idiota querendo fugir? Ou é um idiota com dinheiro?


Alstro tirou uma pequena bolsa de moedas douradas.


Porto assoviou.


— Idiota com dinheiro, então. Perfeito. Vamos te levar pra bem longe daqui. Só não garanto que volte.


Em questão de poucos minutos, Porto já tinha preparado tudo.


A embarcação de madeira rangia com o peso da maresia acumulada e o tempo maltratado. Velas remendadas se erguiam sob o esforço dos cabos puxados por Porto, que, de maneira surpreendentemente eficiente, ajustava tudo com a destreza de um velho lobo-do-mar. Ele agarrou o mapa antigo das mãos de Alstroemeria, analisou por breves segundos e soltou um assovio.


— Sabe quantos anos tem esse mapa? — disse, e antes que Alstro pudesse responder, o homem já o amassava com um gesto teatral. — Duzentos. Bonito como relíquia. Inútil para navegação.


Jogou o mapa para trás do barco, onde o vento tratou de levá-lo para longe, como se nunca tivesse existido.


Alstro, ainda de pé, olhava fixamente para trás. Para a redoma. Aquele véu de proteção mágica cintilava ao longe, como uma miragem fluída cobrindo toda a borda do continente. O lar que agora parecia tão distante quanto um sonho mal lembrado. Seus olhos estavam presos naquela linha luminosa que dividia dois mundos. Pensava em sua mãe. Em seu pai. No momento em que descobrissem. Em como as fadas explicariam sua fuga. Em como ele partira à força.


Sentia o peito apertar com a culpa.


— Se quiser nadar de volta, ainda dá tempo — disse Porto, sem se virar, a mão firme no timão. — As águas estão calmas hoje.


Alstro piscou devagar.


— Não… — respondeu, baixo. — Já é tarde demais.


Sem dizer mais nada, ele se sentou no convés, cruzando os braços sobre os joelhos, sentindo o vento bater em seu rosto, leve, mas cortante como lâmina. A embarcação já se afastava, traçando um arco sutil pelas correntes que vinham do Sul.


— Um príncipe, hein? — disse Porto, agora mais curioso do que provocador. — Fugindo de um palácio, cruzando redomas mágicas, com asas quebradas e cara de quem nunca encostou num remo. — Ele lançou um olhar por cima do ombro. — O que, exatamente, você está tentando encontrar fora do Leste? Porque, ó... se fosse eu, estaria vivendo do bom e do melhor sem culpa nenhuma.


Alstro ergueu os olhos, firmes agora.


— Uma missão. Algo maior que eu. Maior que qualquer coisa que já vi.


— Missão? — Porto arqueou uma sobrancelha. — Que tipo de missão leva um príncipe de saia a atravessar o mar com um pescador aposentado e uma jangada colada com fé?


Alstro hesitou. Mas apenas por um instante.


— Algo... que vai salvar o mundo — respondeu, por fim. — Ou, pelo menos, tentar.


Porto fitou-o por alguns segundos. Seu olhar ficou sério, ponderado, como se tentasse avaliar se aquele garoto estava falando a verdade… ou se apenas havia ficado tempo demais trancado em uma torre.


— Tá bom. — Deu de ombros. — Contanto que você não vomite no meu barco, pode ser até um profeta encarnado.


O silêncio voltou entre eles, preenchido apenas pelo barulho ritmado das ondas batendo no casco e o leve ranger da madeira.


— Porto — disse Alstro de repente. — Havia mesmo um porto ali? Uma estrutura, quero dizer.


Porto soltou uma risada nasalada, depois assentiu devagar.


— Tinha sim. Um cais bem bonito, cheio de mastros e bandeiras. As fadas começaram a pirar com esse negócio de navegação… — Fez um gesto amplo com a mão. — Gente demais tentando virar aventureira de uma hora pra outra. Só que ninguém sabia merda nenhuma. E o mar não perdoa. Criaturas, tempestades, piratas… Você sabe como essas histórias terminam.


Alstro abaixou o olhar.


— E então o destruíram.


— Isso. Pra impedir que se jogassem pro desconhecido. Melhor morrer do lado de dentro, rodeado de flores e regras, do que morrer como comida de peixe. Além disso, era a única saída sem ser o Norte. E ninguém é louco de ir pra lá. — Ele ergueu um cantil de água e bebeu um gole. — Foi aí que eu apareci.


— Você? — Alstro o observou com mais atenção. — Mas… você não é de Zaratharn.


— Claro que não. Sou de Cinderhelm. Sempre fui. Vim pra esse lado por negócios. Mariscos, peixes, alguns trabalhos de navegação. — Ele piscou. — E porque, tecnicamente, fadas não têm autoridade sobre mim fora da redoma. Nem pro bem, nem pro mal. Então eu fiquei. Vez ou outra, aparece um ou outro desiludido querendo ir embora. E adivinha só? Eles me pagam bem.


Alstro manteve o olhar sobre ele por um tempo, antes de fechar os olhos e inspirar fundo.


O mar resplandecia sob o céu cinzento, com as ondas quebrando em suaves ondulações contra o casco gasto do barco. O cheiro de sal e madeira molhada preenchia o ar, e o horizonte parecia cada vez mais vasto conforme a embarcação se afastava da costa de Zaratharn.


Alstroemeria, ainda sentado no convés, observava o vaivém lento das velas e a figura de Porto à frente do timão. O homem parecia completamente em paz ali — os cabelos desgrenhados ao vento, o corpo magro porém resistente, os olhos voltados para um ponto invisível além da linha do mundo.


Mas havia algo que Alstro não conseguia ignorar.


As costas de Porto. Mais precisamente, a ausência de algo nelas. O tecido da camisa gasta moldava-se bem ao corpo, mas ali, onde asas deveriam nascer, não havia nada. Nenhuma protuberância, nenhuma rachadura ou cicatriz visível. Apenas vazio.


Alstro hesitou, suas mãos inquietas sobre os joelhos. Seu olhar se demorou por mais um tempo. Então, sem levantar a voz, perguntou com a mesma delicadeza que usaria para regar uma flor.


— Se não se importa que eu pergunte… — a voz saiu baixa, quase levada pelo vento. — Suas asas… O que aconteceu?


O homem não respondeu de imediato. Os dedos no timão ficaram tensos. Um silêncio longo se estendeu entre os dois, apenas cortado pelo lamento das cordas e o ranger da madeira. A brisa pareceu perder o ritmo por um instante.


Finalmente, Porto soltou um suspiro pesado. Não olhou para trás. Mas sua voz veio firme, embargada por algo velho e enterrado.


— E pra onde, exatamente, eu tô te levando mesmo?


Alstro piscou, confuso com a súbita mudança de assunto, mas respondeu com honestidade.


— Para o litoral sul de Eldorwyn. — Ele hesitou, antes de concluir: — É lá onde minha missão vai começar, até onde eu sei...


Porto se manteve em silêncio por mais um instante, e Alstro, quase pensou que ele não responderia. Mas então o ouviu murmurar, quase como se estivesse conversando com o próprio mar:


— Eldorwyn… claro que é lá. — Sua mão afrouxou no timão e ele se virou por meio segundo, apenas o suficiente para que Alstro visse um esboço de sorriso triste. — Vai levar dois dias. Talvez mais, se o vento mudar. — Então, voltou-se para frente. — Você devia descansar, pequeno príncipe. A jornada vai ser longa… e ainda mais pesada quando chegar lá.


Alstro olhou para a água, e depois para o céu. Assim, fechou os olhos e respirou fundo.


Ele ainda não sabia o que o aguardava em Eldorwyn, ou por que Merlin o havia escolhido. Mas agora, ele não estava mais preso. E em algum lugar, entre o passado e o amanhã, ele esperava que, talvez, estivesse finalmente dando um passo certo na direção de um propósito digno.


Mesmo que suas asas ainda doessem profundamente.

Notas finais
<3