Arcanum
3 O Código Industrial
As badaladas do majestoso Big Bang ecoavam pelo salão de gala, suas engrenagens gigantescas girando com precisão por dentro do massivo relógio.
Brindes eram erguidos, vozes se misturavam em conversas animadas, e a música fluía em perfeita harmonia com o tilintar de taças e o rodopiar de vestidos luxuosos.
Clara Gildspring, no entanto, não estava totalmente presente naquele momento.
Desde que Adam saíra repentinamente, sentindo-se enjoado, um incômodo crescente se instalara em sua mente. Ele havia deixado a festa rumo ao banheiro masculino já fazia vários minutos, e algo dentro dela sussurrava que aquilo não era normal.
Decidiu esperar um pouco mais, mantendo um olho fixo na porta por onde ele havia passado. Mas o tempo continuava a correr, e ele não voltava.
"Não é como se ele fosse do tipo que se prolonga em situações assim", pensou Clara, franzindo levemente a testa.
Respirando fundo, tomou a decisão de ir até lá.
Deslizou silenciosamente pelo salão, desviando-se dos convidados sem chamar atenção, até alcançar a entrada do banheiro masculino.
Parou em frente à porta e ergueu a mão hesitante, batendo algumas vezes.
— Adam? Está tudo bem aí dentro?
Nenhuma resposta.
Clara mordeu o lábio, os dedos tamborilando contra a madeira. Tentou ouvir algo além do ruído abafado da festa ao fundo, mas tudo que encontrou foi silêncio.
"Ele teria saído por outra porta? Mas... não há outra porta."
Bateu novamente, dessa vez com mais força.
— Adam?
O silêncio permaneceu, e a inquietação dentro dela se transformou em um nó apertado. Ela olhou ao redor, verificando se alguém a observava, então respirou fundo e empurrou a porta.
O ambiente era limpo e organizado, como se ninguém tivesse passado por ali. As pias de metal brilhavam sob a luz suave das lâmpadas de vapor, e o som distante da festa contrastava com a estranha quietude daquele lugar. Caminhou lentamente até os cubículos, empurrando um por um.
Nada.
Nenhuma janela, nenhuma passagem secreta. Nenhum sinal de Adam.
Seu estômago se revirou.
"Isso não faz sentido."
Seus olhos varreram o banheiro mais uma vez, agora analisando cada detalhe com precisão cirúrgica. O espelho não estava embaçado, indicando que ninguém estivera ali tempo o suficiente para o vapor de uma possível crise de enjoo se formar. Não havia pegadas úmidas, não havia toalhas de papel amassadas no chão. Nada indicava que Adam sequer entrara ali.
Seu coração começou a bater mais rápido.
Saiu do banheiro quase correndo, desviando dos convidados que passavam. Seus olhos se fixaram na guarnição dos Vigias posicionada na entrada do salão. Não hesitou antes de se dirigir ao capitão da equipe de segurança, sua postura mudando drasticamente.
O disfarce da jovem desajeitada e ingênua desapareceu, dando lugar à investigadora meticulosa que ela realmente era.
— Capitão — chamou, sua voz firme, mas discreta o suficiente para não alarmar os convidados desnecessariamente.
O homem, um veterano de postura rígida e olhar experiente, virou-se para encará-la.
— Srta. Gildspring? O que houve?
— Adam Altharion desapareceu.
As palavras pairaram no ar por um instante. O capitão franziu a testa.
— Desapareceu? O que quer dizer com isso?
— Ele saiu para o banheiro há vários minutos e não voltou. Acabei de verificar lá dentro. Não há ninguém. Nenhuma saída, nenhuma pista de que ele sequer esteve lá.
O capitão a encarou, analisando seu tom e sua expressão. Então assentiu e se virou para seus homens.
— Todos em alerta! Vasculhem o salão e o primeiro andar do Big Bang. Ninguém entra ou sai sem a devida verificação.
O comando foi recebido instantaneamente, e a movimentação na segurança chamou atenção. Em meio aos convidados, algumas expressões curiosas e sussurros começaram a se espalhar.
Foi nesse momento que Clara avistou os pais de Adam.
Lorde Caelan e Lady Adalyn estavam entretidos em uma conversa com outra família nobre, mas os olhos afiados da mulher não deixaram passar a movimentação incomum. Sua expressão se fechou em um misto de irritação e preocupação.
— O que está acontecendo? — indagou Lady Adalyn, sua voz carregada de descontentamento.
Clara respirou fundo, recuperando sua máscara de persona ingênua antes de se aproximar. Ainda assim, sua resposta foi honesta.
— Adam desapareceu, Lady Adalyn. Ele foi ao banheiro e... sumiu.
A taça de champanhe na mão da nobre tremeu levemente antes de ser colocada sobre a mesa mais próxima.
Lorde Caelan permaneceu em silêncio por um momento, seu olhar frio analisando a situação. Então, com um gesto severo, ordenou:
— Coloquem mais patrulhas. Quero cada corredor, cada andar do Big Bang sendo verificado imediatamente.
A ordem reverberou pelo salão, e a música cessou. Os murmúrios se tornaram mais intensos, enquanto os convidados olhavam ao redor, confusos e preocupados. O baile que antes era uma celebração ao talento de Adam agora se tornava um cenário de investigação.
[.]
Do lado de fora, a multidão começava a se formar. Repórteres empunhavam câmeras de flash movidas a vapor, capturando imagens dos convidados que deixavam o evento sob escolta dos Vigias. Perguntas eram disparadas sem trégua.
— Lorde Ashworth! O que está acontecendo no Big Bang? Houve um atentado?
— Senhorita Vayne, há rumores de que Adam Altharion foi sequestrado! Você viu algo suspeito?
As respostas variavam entre negações perplexas e sussurros ansiosos. As autoridades, por sua vez, mantinham uma abordagem metódica, registrando cada detalhe possível.
Do lado de dentro, os Vigias trabalhavam rápido. O salão de gala, que antes resplandecia com o brilho do sucesso e da grandiosidade, agora era um campo de buscas minucioso. Mesas foram afastadas pelos próprios funcionários do local, criando um espaço amplo para que cada canto pudesse ser analisado sem obstruções. Tochas elétricas eram usadas para iluminar possíveis pontos de interesse, enquanto os investigadores examinavam pegadas no carpete e quaisquer sinais de movimentação incomum.
Perto da entrada, Clara mantinha-se em silêncio enquanto Lady Adalyn desabava em uma crise de nervos.
— Como você pôde simplesmente perder meu filho de vista?! — Sua voz estava carregada de fúria e desespero.
Clara sustentou o olhar da mulher sem demonstrar emoção alguma.
— Eu fiquei com Adam durante toda a noite — disse, mantendo a calma. — Ele entrou no banheiro, e eu fiquei observando a porta. Ele nunca saiu.
Lady Adalyn passou as mãos pelos cabelos loiros impecavelmente arrumados, seu rosto belamente maquiado começando a perder a compostura. Seus olhos se arregalaram.
— Se ele não saiu… então como pode não estar lá?! Isso não faz sentido!
Clara cruzou os braços, ciente de que qualquer coisa que dissesse naquele momento apenas serviria como combustível para a paranoia crescente da mulher.
— E se… e se ele foi sequestrado por algum meio sobrenatural? — Lady Adalyn engasgou nas palavras, como se a ideia fosse absurda demais para ser dita em voz alta, mas ao mesmo tempo, impossível de ignorar. — Magia! Eu sabia que deveria ter contratado seguranças magos particulares!
Lorde Caelan, que até então observava em silêncio, soltou um suspiro cansado e pousou uma mão firme sobre o ombro da esposa.
— Adalyn, mantenha a compostura. Perdermos a calma não nos ajudará a encontrá-lo.
A mulher se virou para ele, o olhar incendiado.
— Não há espaço para calma! — Ela praticamente cuspiu as palavras. — Nosso filho acabou de alcançar o ápice de sua carreira! O Núcleo Arcanum é a maior honra da família Altharion em décadas, e agora… agora esse desastre pode nos custar a porta de oportunidade no Conselho das Máquinas!
Clara rolou os olhos discretamente, garantindo que o casal não estivesse olhando para ela.
"Claro que é isso que importa", pensou, seu desdém bem contido sob sua fachada de seriedade. "Não que o filho deles tenha desaparecido, mas que a reputação da família esteja em jogo."
Respirou fundo, voltando sua atenção para os Vigias que continuavam a revistar cada centímetro do salão.
A multidão de repórteres e curiosos crescia cada vez mais. A mídia do dia seguinte seria insanamente sensacionalista, com certeza.
Foi então que uma presença imponente rompeu a barreira da multidão como uma lâmina atravessando tecido.
— Saiam da frente — disse uma voz fria e cortante, sem espaço para objeções.
A multidão abriu caminho quase por instinto, e por entre os rostos curiosos surgiu a figura da Comandante Helena Draeven, líder suprema da Guarda de Ferro e responsável direta por todas as operações da força policial de Cinderhelm.
Draeven caminhava com determinação, sua longa capa preta de tecido reforçado esvoaçando às suas costas. Seu uniforme impecável, repleto de insígnias douradas da Guarda, destacava-se mesmo na penumbra. Ao seu lado, dois dos melhores agentes da divisão dos Vigias a acompanhavam, ambos de expressão séria, preparados para qualquer ordem que viesse da comandante.
Os repórteres tentaram se aproximar novamente, mas um único olhar de Draeven os fez hesitar.
— Já avisei. Fora do caminho. Agora.
A multidão se dispersou parcialmente, mas os flashes e murmúrios persistiam. Helena ignorou, focada apenas no que realmente importava.
Ao cruzar as portas do Big Bang, foi recebida pelo capitão da guarnição encarregada da investigação, que rapidamente bateu continência.
— Comandante Draeven! — Ele se colocou à disposição de imediato. — A equipe já está varrendo o prédio, sem sinais de Adam Altharion até agora. Todos os convidados estão sendo entrevistados, mas ninguém relatou nada suspeito sobre o senhor Altharion além da senhorita Gildspring, que foi a última a vê-lo antes de desaparecer.
Helena assentiu, absorvendo as informações sem expressar emoção alguma.
— Leve-me até a família Altharion e a testemunha — ordenou, seguindo em frente sem esperar resposta.
O capitão rapidamente a guiou pelo salão de gala, onde os móveis revirados e os olhares aflitos dos convidados deixavam claro que aquela noite festiva havia se transformado em um verdadeiro pesadelo.
Ao avistar Lady Adalyn e Lorde Caelan, Draeven os reconheceu de imediato. No entanto, seu olhar desviou brevemente para Clara Gildspring, e o lampejo de reconhecimento em seus olhos durou apenas uma fração de segundo.
Sua infiltrada.
Mas Draeven não deu nenhum indício de que a conhecia além do que constava oficialmente. Para todos os presentes, Clara era apenas uma civil no meio da confusão.
Lady Adalyn foi a primeira a falar, a voz trêmula e carregada de exasperação:
— Comandante, faça algo! Meu filho pode estar em perigo neste exato momento!
Lorde Caelan, ao seu lado, manteve um tom mais controlado, mas não menos intenso:
— Estamos dispostos a financiar qualquer custo que ajude na investigação, se necessário.
Helena apenas ergueu uma sobrancelha, impassível.
— Isso não será necessário. — Sua voz era firme, mas sem qualquer traço de arrogância. Apenas uma certeza absoluta em suas próprias palavras. — Já acionei os Escoteiros. Eles estão cercando a região num raio de 15 quilômetros.
Lady Adalyn pareceu hesitar, e Lorde Caelan inclinou levemente a cabeça.
— Isso significa que…? — ele começou.
— Se Adam Altharion foi sequestrado por meios convencionais, é matematicamente impossível que tenham conseguido sair desse perímetro antes que nossas tropas fechassem a rota. Se ele foi levado, ele ainda está aqui.
O silêncio preencheu o ambiente por um momento. Clara, que observava tudo com atenção, sentiu um certo alívio ao ver a competência com que Draeven lidava com a situação. A comandante podia ser dura e impiedosa, mas nunca deixava um caso sem solução.
Helena então voltou sua atenção para Clara, analisando-a por um instante antes de falar.
— Quem foi a última pessoa a ver Adam Altharion?
Clara endireitou a postura e respondeu sem hesitação:
— Eu.
— Ótimo. Quero você na delegacia dentro de meia hora para um relatório completo do ocorrido.
Clara apenas assentiu. Sabia que essa ordem significava mais do que um simples depoimento formal. Draeven queria suas percepções sobre aquilo, e talvez até informações que Clara ainda não tivesse reunido completamente.
Por fim, Draeven se voltou novamente para o capitão da guarnição.
— Disperse a multidão do lado de fora. Quanto mais tempo ficarem ali, mais vão interferir com a investigação. Não quero repórteres contaminando a cena do desaparecimento com suas teorias ridículas.
O capitão não questionou.
— Sim, senhora!
Draeven deu um último olhar ao salão do Big Bang e inspirou fundo.
A partir daquele momento, o relógio estava marcando cada mínimo minuto muito mais alto do que de costume.
[.]
A sala de interrogatório era fria, iluminada apenas pelas lâmpadas de vapor que crepitavam levemente acima da mesa de metal reforçado. O cheiro de óleo velho, ferrugem e sangue pairava no ar, misturando-se à atmosfera tensa que preenchia o ambiente.
No centro da sala, amarrado a uma cadeira de aço, estava o membro capturado dos Ponteiros. O implante metálico em sua mandíbula estava rachado, rangendo levemente toda vez que ele respirava de forma ofegante, cuspindo saliva e óleo escuro de suas gengivas sintéticas. Seus braços mecânicos, agora danificados, tremiam involuntariamente, os fios expostos faiscando sob a luz bruxuleante.
À sua frente, imóvel como uma estátua esculpida em granito, Comandante Draeven observava a cena com olhos de aço. Dois de seus agentes estavam suados, as juntas de suas luvas ensanguentadas, enquanto recuperavam o fôlego da sessão intensa de espancamento.
Draeven levantou a mão.
O silêncio na sala foi imediato.
Ela avançou um passo, inclinando-se levemente para encarar o prisioneiro de perto, sua expressão impassível. Sua voz, firme e cortante como lâmina, quebrou o silêncio denso da sala.
— Vou perguntar uma última vez. — Sua voz não demonstrava emoção alguma. Apenas cansaço e tédio. — Onde está Adam Altharion? Para onde o levaram?
O ciborgue respirou fundo, tentando se manter consciente. Suas pálpebras tremiam enquanto ele encarava Draeven com uma expressão de desespero misturado com indignação.
— Já disse que não sei! — cuspiu, seu tom vacilante. — O Big Ben nunca nos deu ordens para sequestrar ninguém da alta sociedade. Isso seria suicídio!
Draeven permaneceu em silêncio por um instante, apenas encarando o criminoso como se tentasse enxergar através de sua alma.
Então, ergueu a mão novamente.
Os agentes voltaram a atacar.
Os punhos cerrados encontraram carne e ferro. O som de ossos trincando misturou-se ao baque metálico dos golpes contra os implantes, enquanto o prisioneiro se contorcia, tossindo uma mistura de sangue e fluido de manutenção.
Três minutos depois, Draeven ergueu a mão mais uma vez.
— Chega.
Os agentes recuaram de imediato, limpando o suor das testas. O prisioneiro balançava a cabeça, seus olhos semiabertos e sua mandíbula metálica estalando involuntariamente a cada movimento.
A comandante permaneceu parada, observando-o como se estivesse diante de um experimento fracassado.
Com um movimento lento e calculado, ela ativou a lâmina retrátil de sua braçadeira. O metal afiado deslizou para fora com um chiado ameaçador, refletindo o brilho fraco das lâmpadas.
— Já estou farta de perder tempo com lixo degenerado como você — disse, o tom de sua voz tão afiado quanto a lâmina. — Sabe quantas vezes eu já ouvi essa história? Que não sabem de nada? Que não têm envolvimento? E sabe quantas vezes era mentira?
O ciborgue engoliu em seco, seus olhos tremendo.
— Eu não estou mentindo! — suplicou, sua voz saindo fraca. — Eu juro pelo coração de cobre do Big Ben, nós não temos nada a ver com isso!
O silêncio na sala pesou.
Draeven manteve o olhar fixo no prisioneiro por vários segundos. Então, com um gesto lento e meticuloso, recolheu a lâmina de volta à sua braçadeira. O metal deslizou para dentro com um clique seco.
— Levem ele para a enfermaria. Depois, para a cela. — Sua voz era neutra. Sem raiva, sem frustração. Apenas um veredito final.
Os agentes imediatamente ergueram o criminoso pelos braços e o arrastaram para fora da sala. Ele ainda murmurava algo incoerente, mas Draeven já não estava mais ouvindo.
Quando a porta se fechou, um silêncio desconfortável tomou conta do ambiente.
Draeven suspirou pesadamente, passando as mãos pelos cabelos e se deixando cair em uma das cadeiras de metal.
Um de seus subordinados, um investigador de meia-idade chamado Tenente Varkas, a observava com cautela.
— Comandante… está tudo bem?
Draeven soltou um suspiro longo e cansado, fitando um ponto fixo no chão.
— Esse caso está se tornando mais complicado do que imaginei. — Sua voz estava mais baixa agora, um reflexo da frustração crescente. — Nada do que perseguimos até agora surtiu resultado.
Varkas cruzou os braços, analisando a situação.
— Os Ponteiros são os únicos em Cinderhelm com o conhecimento mágico necessário para realizar um sequestro sem deixar rastros. Se não foram eles, então quem foi?
Draeven balançou a cabeça, visivelmente insatisfeita.
— Exatamente. Eu já resolvi incontáveis casos de desaparecimento causados por esses ratos. E desde que aprenderam a se esconder no Distrito das Sucatas, eles não ousam sair de lá. Se não foram eles, então estamos olhando para o problema errado.
Varkas hesitou por um instante, então pigarreou.
— Os investigadores forenses terminaram a varredura mágica no local do desaparecimento — informou.
Draeven ergueu os olhos para ele, interessada.
— E o que encontraram?
Varkas ajeitou os papéis em suas mãos, consultando as anotações.
— Havia uma frequência de energia mística no local. Fraca, mas presente.
Draeven ficou em silêncio por um instante.
— Isso significa…?
— Que realmente houve uma disrupção mágica. Provavelmente um teleporte. Mas o fluxo da energia é indetectável. Nenhuma trilha para seguirmos.
Draeven apertou os lábios, sentindo a frustração crescer novamente.
— Então Adam não foi levado pelos Ponteiros.
— Exato. Ele se teleportou. Ou alguém o fez.
Draeven recostou-se na cadeira, fechando os olhos por um breve momento.
— A questão agora não é como ele sumiu — murmurou — A questão é: pra onde?
[.]
A Sala Oval, no topo do Big Bang, estava iluminada pelo brilho pálido das lâmpadas a éter e pelas chamas tremeluzentes das fornalhas de vapor embutidas nas colunas metálicas que sustentavam o teto abobadado.
As engrenagens giravam suavemente no grande painel central da sala, ajustando os sistemas do relógio mestre enquanto os Barões da Indústria e os membros do Conselho das Máquinas tomavam seus assentos ao redor da imensa mesa de mogno negro, adornada com emblemas das maiores casas industriais de Cinderhelm.
O clima era carregado de tensão. O murmúrio das vozes aumentava conforme mais líderes chegavam, cada um carregando consigo uma pilha de documentos, contratos e projeções econômicas. A pauta da reunião era óbvia: o que fazer agora que Adam Altharion estava desaparecido?
Lorde Edmund Griswold, um dos industriais mais poderosos do ramo bélico, foi o primeiro a se pronunciar, suas rugas acentuadas pela frustração.
— Vamos cortar as formalidades. O Núcleo Arcanum precisa ser produzido imediatamente. Já foram reservados milhões de créditos industriais para sua implementação. Meus engenheiros estão prontos, minhas fábricas estão prontas. A única coisa que nos impede de avançar é essa espera desnecessária.
Dama Iphigenia Duskbane, chefe da guilda de engenharia arcano-mecânica, cruzou os braços, impaciente.
— E quem exatamente assinaria os contratos, Lorde Griswold? O senhor está ciente de que o desaparecimento de Adam Altharion automaticamente coloca o projeto em estado de suspensão de acordo com o código industrial e as leis do consentimento ético da constituição de Cinderhelm?
Ela deslizou um pergaminho lacrado pela Insígnia da Lei sobre a mesa.
— Sem o consentimento do inventor, a comercialização da máquina é ilegal. Não podemos violar os direitos industriais.
Vários membros do conselho assentiram, enquanto alguns dos barões bufavam em frustração.
— Não podemos simplesmente ficar de braços cruzados! — Lorde Luther Blackwell, patriarca da dinastia Blackwell, exclamou. — A imprensa já está farejando este projeto como cães sarnentos atrás de um osso. Eldorwyn está de olho nos cristais que abastecem a tecnologia, e se não formos rápidos, outras nações tomarão a dianteira e faremos papel de tolos!
— Isso sem falar nos impactos militares — acrescentou Barão Darius Fletchwood, da manufatura de armamentos. — Com o Núcleo Arcanum, poderemos fabricar armas mágicas de alto desempenho sem risco de explosões catastróficas. Imaginem o avanço em nossa infantaria! Poderemos reforçar as guarnições da Guarda de Ferro com armas encantadas, melhorar os autômatos de guerra e expandir nosso controle sobre as rotas marítimas sem que ninguém ouse nos desafiar.
— E qual a solução proposta? — questionou Dama Octavia Braxley, uma das líderes mais influentes do conselho.
Um silêncio pairou por um instante, até que Lorde Claudius Ravenshade, um dos industriais mais velhos e experientes, bateu os dedos metálicos sobre a mesa e respondeu calmamente:
— Lady Adalyn e Lorde Caelan Altharion.
Os olhares se voltaram para ele.
— Eles são os mais antigos atualmente vivos da linhagem Altharion, e já possuem participação financeira de longa data com o conselho. Se assinarem os contratos, o problema da autorização deixa de existir.
Dama Duskbane explodiu em risadas céticas.
— Isso é um absurdo! Querem entregar um dos maiores avanços tecnológicos das últimas décadas para dois aristocratas esnobes, cuja única preocupação é a aparência da família na mídia?!
— Eles são confiáveis! — retrucou Blackwell. — E, francamente, não vejo outra solução mais viável e rápida.
As discussões começaram a tomar um tom cada vez mais acalorado.
— Isso é ridículo! Vocês querem quebrar um princípio fundamental da indústria por ganância!
— Ganância? Estamos falando de uma oportunidade única! Cinderhelm finalmente terá influência fixa e permanente em Eldorwyn, e não apenas acordos comerciais momentâneos!
— E quanto a Midland? Se aceitarem essa integração, ganharemos não só acesso a mais recursos, mas influência geopolítica em um dos pontos mais estratégicos do continente!
— E tudo isso vai por água abaixo se ficarmos sentados esperando Altharion reaparecer!
O volume das vozes aumentava conforme os argumentos colidiam. Algumas vozes defendiam que o respeito às leis industriais devia prevalecer, enquanto outras afirmavam que Cinderhelm não podia se dar ao luxo de hesitar em um momento tão crucial.
As portas mecânicas da Sala Oval se abriram com um ruído estrondoso de engrenagens girando, atraindo imediatamente a atenção dos membros do Conselho das Máquinas e dos Barões da Indústria.
No limiar da entrada, Lady Adalyn e Lorde Caelan Altharion adentraram com passos firmes, suas presenças carregadas de autoridade e um certo ar de indignação contida. Eles haviam sido informados da reunião às pressas e vieram o mais rápido possível.
Lorde Luther Blackwell, que há momentos discutia avidamente a liberação da produção do Núcleo Arcanum, abriu os braços em um gesto caloroso, exibindo um sorriso calculado ao casal.
— Lady Adalyn, Lorde Caelan! Que bom que puderam comparecer. — Sua voz era um tom abaixo da formalidade habitual, quase sedutora em sua persuasão. — Imagino que tenham sido informados de que esta reunião é de suma importância para o legado de sua família. Estamos aqui para garantir que o sonho de Adam não se perca nas engrenagens da burocracia.
Lorde Caelan, no entanto, não comprou o discurso. Sua expressão era sombria, carregada de desgosto pelo fato de que, enquanto seu filho estava desaparecido, o conselho estava mais preocupado em discutir a invenção do que em encontrá-lo.
— Como podem estar falando sobre a máquina enquanto meu filho pode estar em perigo neste exato momento? — Seu tom era frio, cortante como lâmina afiada. — Isso é um ultraje! Em vez de deliberarem sobre contratos, deviam estar mobilizando todos os recursos possíveis para auxiliar a Guarda de Ferro na busca por Adam!
O clima na sala pesou. Alguns membros do Conselho evitaram o olhar do casal, enquanto outros permaneceram impassíveis, já esperando esse tipo de reação.
Blackwell tentou intervir, mantendo sua compostura.
— Lorde Caelan, entenda que a situação de Adam é uma tragédia, mas os investimentos no Núcleo Arcanum já foram feitos. Precisamos considerar o impacto disso em Cinderhelm e além. Suspender esse projeto agora seria—
— Seria completamente fora das normas institucionais! — Dama Iphigenia Duskbane cortou Blackwell sem hesitação, sua voz carregada de irritação. — Eu compartilho da indignação de Lorde Caelan! Esta reunião não deveria nem estar acontecendo!
Ela deslizou um pergaminho sobre a mesa.
— O Código Industrial é claro. Sem a autorização do inventor, não podemos avançar. Devemos encerrar esta sessão imediatamente, por respeito não apenas aos Altharion, mas também às leis vigentes de nossa nação!
Um burburinho começou a surgir na sala. Alguns membros assentiam, concordando com a argumentação de Dama Iphigenia, enquanto outros, como Blackwell e Lorde Griswold, já preparavam uma refutação.
Porém, antes que qualquer votação pudesse ser organizada, uma voz suave mas firmemente controlada preencheu a sala.
Lady Adalyn Altharion ergueu-se, endireitando sua postura e lançando um olhar calculado a todos os presentes.
— Não vejo motivo para encerrar esta reunião.
O silêncio foi instantâneo.
Dama Iphigenia abriu a boca para retrucar, mas Adalyn ergueu uma mão, impondo sua presença com graciosidade aristocrática.
— Senhores, entendam… meu amado filho Adam dedicou anos de sua vida ao Núcleo Arcanum. Ele trabalhou incansavelmente, movido pelo desejo de trazer um futuro grandioso para Cinderhelm, para nossa economia, para nossas forças armadas.
Ela deu um passo à frente, seus olhos brilhando com emoção contida.
— Todos vocês viram o brilho nos olhos dele ao apresentar seu invento! Todos sabem o quanto ele estava orgulhoso e quão revolucionária essa tecnologia é. E vocês… gentilmente investiram nesse sonho.
Ela pousou as mãos sobre a mesa de mogno negro, inclinando-se levemente, como se estivesse confidenciando um segredo importante.
— Eu garanto a todos que a última coisa que Adam gostaria seria vê-los paralisados por um dilema burocrático. A última coisa que ele desejaria seria colocar Cinderhelm em risco de uma nova crise!
Um silêncio reverente tomou a sala. Muitos membros assentiram discretamente, reconhecendo a lógica no discurso.
Dama Duskbane se ergueu bruscamente.
— Isso é um absurdo! — protestou, batendo os nós dos dedos sobre a mesa. — A lei diz claramente que o inventor deve conceder a autorização! Vocês estão tentando roubar a invenção de Adam Altharion!
Blackwell, que havia escutado a argumentação de Adalyn com satisfação, se inclinou para frente, um meio sorriso no rosto.
— Tecnicamente, minha cara Duskbane, não estamos violando lei alguma. — Ele ergueu um pergaminho aberto e apontou para uma cláusula específica do código industrial, que poucos, exceto um oportunista nato como tal, ainda se recordava da existência. — Nos casos em que um inventor falece, ou está sob suspeita de falecimento mediante desaparecimento, antes da oficialização de um projeto, os direitos do maquinário podem ser transferidos para seus representantes diretos, caso a maioria do Conselho aprove a moção.
O rosto de Dama Duskbane contorceu-se de desgosto.
Lorde Caelan, que até então se mantivera passivo, se inclinou para Lady Adalyn e sussurrou furiosamente:
— Você não pode estar falando sério. Isso é totalmente antiético! Adam está vivo, Adalyn! Não podemos tratá-lo como um morto!
Lady Adalyn virou-se para ele, o rosto imaculado por qualquer hesitação.
— Se queremos manter nossa posição, se queremos garantir que o legado da família Altharion continue a brilhar na história, esta é a única escolha.
Lorde Caelan apertou a mandíbula, lutando contra seu próprio instinto. Ele sabia que sua esposa estava certa, mas o gosto amargo da decisão era difícil de engolir.
Lady Adalyn voltou a falar em voz alta, usando sua postura aristocrática e sua voz suave e envolvente para influenciar os indecisos.
— Senhores, esta não é uma decisão fácil, mas é a necessária. Nossa família sempre honrou Cinderhelm, sempre apoiou o Conselho. Permitam-nos garantir a continuidade deste projeto, e asseguro-lhes que Adam nos agradeceria por isso.
Os murmúrios na sala aumentaram. Um a um, os membros do Conselho começaram a inclinar-se a favor da proposta. Alguns relutantes, outros convencidos pela praticidade da decisão.
Então, a votação foi feita. E os resultados eram claros:
A favor da assinatura pelos Altharion:
- Lorde Blackwell.
- Lorde Griswold.
- Lorde Ravenshade.
- Barão Fletchwood.
- Dama Octavia Braxley.
- Lorde Magnus Von Stroud.
As única pessoa a votar contra havia sido Dama Duskbane.
O martelo foi batido.
O Núcleo Arcanum seria produzido.
E Adam Altharion, ainda desaparecido, tinha acabado de perder o controle sobre sua própria criação.
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