Arcanum
13 Apostas do Destino
Clara Gildspring se equilibrava na estreita passarela de metal que cruzava o coração da torre, o zumbido contínuo das engrenagens pesadas ecoando ao seu redor. O pano gasto em suas mãos já não tinha a maciez de antes, agora endurecido pelo óleo seco que impregnava os dedos e manchava seus punhos finos. O gigantesco ponteiro principal, mais uma vez, exigia seu cuidado minucioso — o tipo de trabalho que a mantinha ocupada e, ao mesmo tempo, lhe lembrava constantemente a posição que ocupava. Uma fachada perfeita: a relojoeira inocente, engenhosa, intocável em sua rotina.
Mas por dentro, Clara sentia o peso de uma raiva silenciosa. A cada menção ao Núcleo Arcanum, uma fisgada amarga subia pela garganta. A invenção de Adam — o único ser humano que realmente tinha rompido sua barreira e se tornado um amigo de verdade — agora não passava de um tótem de ganância e traições. Pior: ele havia desaparecido na noite do baile, e por meses, ninguém falava de outra coisa senão de seu fracasso, de sua morte implícita, ou de teorias frias sobre o que acontecera. Para Clara, porém, não eram especulações acadêmicas. Era luto.
O pano escapou de seus dedos e caiu entre as barras da passarela, batendo contra a lateral da engrenagem antes de se perder no escuro abaixo. Clara fechou a mão em punho, e sem pensar, bateu contra a base metálica do ponteiro. O impacto reverberou pelo aço, fazendo o colosso tremer por um instante. O som ecoou como um grito contido no meio daquela prisão de bronze e ferro.
Ela inspirou forte e desceu a escada lateral até o balde de água que mantinha perto do painel de ajuste. Ajoelhou-se, mergulhou as mãos até os pulsos, esfregando para arrancar o óleo entranhado nas linhas da pele. Depois, passou a água fria pelo rosto, tentando apagar os traços da frustração que se acumulavam.
O reflexo nas janelas da torre, iluminadas pela luz do sol da tarde, mostrava uma jovem de olhos marcados por olheiras e de postura rígida demais para alguém de sua idade. E ela se perguntou, pela milésima vez, por que sempre os melhores são os primeiros a cair? Seria o destino? Seria acaso? Ou simplesmente a crueldade inevitável de um mundo que recompensa os predadores e arrasta para o esquecimento aqueles que ainda ousam acreditar em algo puro?
Ela respirou fundo, mas a amargura não cedia.
As portas a vapor se abriram com um chiado, revelando dois trabalhadores uniformizados da torre. O mais alto ergueu a prancheta que trazia debaixo do braço e anunciou, sem rodeios:
— Gildspring, o Conselho das Máquinas está requisitando sua presença no Salão Oval.
Clara piscou, surpresa. Sua mente fervia, mas o rosto rapidamente se moldou na máscara que cultivara ao longo dos anos: uma expressão doce, quase infantil, com a curiosidade certa nos olhos.
— Oh… mas do que se trata? — perguntou em tom suave, quase ingênuo.
— Confidencial. — o outro respondeu, já se inclinando para verificar as engrenagens. — Melhor não questionar. Vá logo, eles não gostam de esperar.
— É. E já que você terminou por aqui… — o primeiro completou com um sorriso preguiçoso. — …melhor ainda, não precisamos levantar um dedo.
Clara conteve o impulso de revirar os olhos. Jogou o pano encharcado dentro do balde, respirou fundo e caminhou em direção à saída, deixando a torre do relógio para trás.
O caminho até o Salão Oval sempre a fazia sentir o peso da cidade sobre os ombros: as passagens de cobre, as engrenagens suspensas que giravam como símbolos do poderio industrial de Cinderhelm, e as enormes cúpulas que guardavam os maiores segredos do Conselho.
Ao chegar diante da porta blindada de ferro, Clara pressionou o botão lateral.
— Clara Gildspring, registro 498-AR. — anunciou em tom formal.
A voz metálica de autorização respondeu após alguns segundos:
— Entrada permitida.
As engrenagens da porta se moveram, abrindo-se lentamente para revelar o salão circular. No centro, de pé e com as mãos cruzadas atrás das costas, estava Lorde Luther Blackwell. O sorriso dele era um misto de polidez ensaiada e cinismo calculado. Ao redor, os membros do Conselho observavam em silêncio.
Clara entrou, inclinando levemente a cabeça em sinal de respeito.
— Fui convocada. Há algum problema, senhores?
Antes mesmo que Blackwell pudesse falar, Dama Duskbane inclinou-se para frente na cadeira, a voz cortante ecoando pelo espaço:
— Isto é um absurdo. De todas as pessoas que trabalham no Big Bang, Clara é a última que deveria ser posta em questão.
Clara piscou, confusa, e assumiu um tom de desespero bem treinado:
— Eu… não entendo. O que está acontecendo?
Do outro lado da mesa, Lorde Ravenshade ergueu a mão em um gesto lento.
— Dê a palavra a Blackwell, Duskbane.
Blackwell fez um leve aceno de agradecimento, caminhando alguns passos na direção de Clara. Sua voz era tão cordial que se tornava venenosa:
— Como você sabe, minha cara, o Conselho das Máquinas agora conta com uma cadeira da família Altharion. Uma novidade em muitos anos. Lady Adalyn, que conduz pessoalmente os negócios envolvendo o Núcleo Arcanum — investimento do qual sou, diga-se de passagem, parte majoritária — fez uma solicitação oficial.
Ele parou diante dela, inclinando-se levemente para baixo, como quem fala a uma criança.
— Essa solicitação trata da substituição completa da equipe de manutenção e serviços do Big Bang. O que, naturalmente… inclui você.
O salão caiu em um silêncio gelado. Clara manteve a expressão de surpresa — genuína, em parte — mas sentiu por dentro a fúria amarga subir como fogo pelo estômago.
— Infelizmente, Gildspring… — Blackwell concluiu, com aquele sorriso frio. — …você terá de ir.
Clara piscou algumas vezes, como se o choque a tivesse atingido em cheio. O movimento breve foi suficiente para que Blackwell avançasse com seu discurso, a voz suave preenchendo o Salão Oval.
— Deve estar se perguntando por que, de todas as pessoas, você foi chamada aqui pessoalmente para ouvir isso, não? — disse ele, caminhando em círculos lentos, as mãos ainda cruzadas atrás das costas. — É simples: seu trabalho na torre tem sido notável. Dedicação exemplar, resultados impecáveis. Portanto, o Conselho decidiu honrar seus serviços, não apenas informando-a antes de qualquer outro funcionário… mas também lhe dando a responsabilidade de treinar a futura equipe.
O sorriso dele se alargou, calculado.
— Uma equipe que eu mesmo selecionei, indivíduo por indivíduo, de acordo com suas competências específicas.
O coração de Clara se apertou, mas o rosto permaneceu na máscara dócil, a voz modulada com cuidado:
— Essa “recomendação” tem… algo a ver com Adam?
As palavras ecoaram no salão como uma lâmina fina. Houve uma troca imediata de olhares entre os conselheiros: inquietação, desagrado, suspeita. Apenas Blackwell permaneceu imóvel, o sorriso intacto.
— Ah… — ele suspirou, quase teatral. — Até os mais brilhantes profissionais estão sujeitos a deslizes. Quem somos nós para julgar se, por acaso, você não pôde vigiar Adam Altharion com o zelo necessário, de modo a evitar que fosse… digamos… sequestrado bem debaixo do seu nariz?
Clara sentiu o veneno lhe subir à língua, o desejo ardente de cuspir contra aquele rosto ensaiado. Mas engoliu a raiva, mantendo o olhar inocente e a postura recatada.
— Não, não. — Blackwell ergueu a mão, como se fosse inocentá-la. — Não insinuo nada. Poderia acontecer a qualquer um. Assim como todo relógio, por mais bem cuidado, enferruja com o tempo.
Um silêncio pesado se instalou.
— De toda forma — retomou, com aquele tom entorpecente de falsa cordialidade —, já pretendíamos realizar mudanças profundas nos departamentos. Uma nova era para a indústria exige renovação, em todos os setores. Não é nada pessoal, Gildspring.
Clara inclinou a cabeça e repetiu, com um pequeno sorriso frio que passaria despercebido para qualquer outro menos atento:
— Claro.
Os olhos de ambos se encontraram. Um duelo silencioso, carregado de tensão. Blackwell não desviou o olhar, e Clara tampouco. Até que Ravenshade limpou a garganta com uma tosse fingida, o som ecoando como um estalo de chicote para quebrar o momento.
Ravenshade ajeitou o colarinho, pigarreando antes de retomar com voz solene:
— Você terá uma semana para preparar a nova equipe, Gildspring. Esse é o prazo definido para a substituição completa dos departamentos.
Antes que Clara pudesse responder, Blackwell estalou os dedos suavemente, sem sequer olhar em sua direção.
— Ah, Ravenshade, não esqueça de mencionar o que ocorrerá no domingo.
O Lorde fez uma breve reverência com a cabeça e prosseguiu:
— Sim. Além disso, Clara, ficará sob sua responsabilidade a organização e o monitoramento de segurança durante o Baile de Máscaras que o próprio Lorde Blackwell oferecerá. Será na penúltima noite de estreia do Núcleo Arcanum em suas fábricas, marco que oficializará a produção em massa dos Catalisadores.
Um sorriso de cálculo se esgueirou no rosto de Ravenshade.
— Considere isso um último serviço extracurricular. Claro, devidamente recompensado com uma quantia generosa, cortesia do próprio Blackwell.
Clara respirou fundo, contendo a náusea que lhe subia à garganta, e forçou um semblante de ânimo sereno.
— Entendido. Aceito a tarefa.
Blackwell aproximou-se mais uma vez, inclinando-se ligeiramente para lhe dar dois tapinhas breves na bochecha, o gesto paternalista que queimava como ferro em brasa na dignidade dela.
— É isso que gosto de ver. Uma atitude cooperativa. — disse com suavidade venenosa, antes de lhe oferecer uma piscadela sarcástica. — Vai longe na vida assim.
Clara sustentou o olhar por um segundo, firme por trás da máscara ingênua, mas nada disse.
Dama Duskbane, que assistia a tudo de braços cruzados e expressão carregada, interveio com voz seca:
— Já pode se retirar, Gildspring.
O tom dela deixava claro o desgosto, não por Clara, mas por ver aquela encenação barata sendo imposta.
Clara inclinou a cabeça respeitosamente e se despediu, cada passo até a porta pesando como chumbo. Assim que cruzou o limiar e as portas se fecharam às suas costas, o burburinho retomou dentro do Salão Oval, Blackwell já mergulhando em detalhes sobre a estreia das fábricas e a divisão das ações.
Clara, porém, nem se deu ao trabalho de ouvir. Seu único impulso era sair dali o mais rápido possível, antes que sua máscara de docilidade rachasse de vez.
[.]
No coração pulsante de Cinderhelm, a fortaleza de aço da Guarda de Ferro erguia-se como um monólito ameaçador, quase à altura do Big Bang, suas paredes blindadas refletindo o vapor constante que serpenteava pelas ruas da metrópole. Dentro, na sala de guerra, mapas, esquemas e pilhas de documentos preenchiam cada mesa sob o olhar implacável da Comandante Helena Draven.
Os Vigias, sua divisão mais leal, estavam reunidos em torno dela. O dossiê aberto no centro da mesa era mais volumoso do que qualquer um já compilado, uma verdadeira teia de corrupção, subornos e crimes, todos rastreados até os membros do Conselho das Máquinas. Desta vez, havia provas irrefutáveis — graças às informações meticulosamente fornecidas por Clara Gildspring.
Um dos investigadores, jovem mas com olhar endurecido, apontou para o esquema no mural.
— O elo mais direto é Grigori Blackspanner, do Distrito das Sucatas. Ele injeta capital ilícito em Blackwell, que depois redistribui os lucros com Ravenshade. E todo o acobertamento passa pelas mãos de Octavia Braxley.
Outro completou, cuspindo as palavras com nojo.
— É basicamente uma máfia corporativa. Supremacia mercantil da indústria férrea… e agora, com o Núcleo Arcanum, se transformando em cartel de armas militares.
Helena ouviu sem interromper, os olhos cinzentos fixos na papelada. Quando falou, sua voz carregava o peso de ferro da certeza.
— Nós os temos. Cada testemunho, cada comprovante, cada transação disfarçada em propina. Uma década inteira de investigações converge aqui. Não há como saírem ilesos.
Houve um silêncio breve, até que uma investigadora mais velha perguntou:
— Então por que não avançamos já para a operação, Comandante?
Helena ergueu o olhar lentamente, gelando a sala.
— Porque ainda falta uma peça.
Ela caminhou até o mural, batendo o punho contra o símbolo dos Altharion.
— Agora que fazem parte do Conselho, se todos os outros forem derrubados, a lei garante que o poder supremo recairá sobre eles. Lady Adalyn é sombra de Blackwell. Não hesitará em perpetuar o ciclo. Em semanas, o Conselho estará ainda mais podre, e Cinderhelm mergulhará no caos.
As palavras ecoaram. Um dos Vigias murmurou, descrente:
— Então… o que nos resta?
Helena inspirou fundo e respondeu com frieza calculada.
— Restam todos. Sem exceção. Os Altharion também vão para o chão. Só assim a constituição permite que a Guarda de Ferro dissolva o Conselho e reforme o governo sob comando militar.
Ela encarou cada um dos presentes, firme.
— Isso não é só uma operação. É um golpe de estado. Mas um golpe com justa causa, e amparado pela lei. A restauração da ordem em nome de Cinderhelm.
O silêncio seguinte era denso, cortado apenas pelo estalar dos tubos a vapor das paredes.
Um dos investigadores folheou o dossiê até a seção dedicada aos Altharion, ajustando os óculos enquanto falava com pesar.
— Infelizmente, eles são o ponto cego da investigação. Mesmo comparados aos mais isolados do Conselho, como Lorde Griswold e Lorde Magnus Von Stroud, com toda a podridão e sujeira que carregam, os Altharion ainda não possuem nada que possamos transformar em prova sólida. Lady Adalyn, em particular… não parece sequer compreender a extensão do esquema de cartel. Não que seja ignorante, mas sim… despreparada.
Helena estreitou os olhos, confirmando com um gesto lento de cabeça.
— Exato. O único que tem noção do que se meteram é o marido dela, Lorde Caelan. Mas Caelan é submisso nos negócios. Não foi ele quem se colocou à frente da moção do Núcleo Arcanum, e sim Adalyn. Logo depois do desaparecimento de Adam. — ela se inclinou sobre a mesa, encarando os mapas e esquemas como se pudesse encontrar neles a saída. — A melhor aposta, senhores, não está em Adalyn ou Caelan. Está em cavar ainda mais fundo nas transações de Blackwell. Se obtivermos detalhes exatos das negociações entre ele e os Altharion, talvez possamos construir a acusação que falta. Melhor ainda… se Adam fosse encontrado vivo, poderia requisitar marcialmente os direitos do Núcleo Arcanum de volta.
Os Vigias se entreolharam, alguns com a esperança reacendendo. Helena ergueu a mão, cortando o entusiasmo.
— Isso provaria que Adalyn quebrou a lei ao declará-lo morto e tomar posse da invenção sem consentimento. Seria o bastante para colocar ela e o marido atrás das grades.
A Comandante então recostou-se na cadeira pesada de ferro, soltando um longo suspiro. Seus dedos percorreram a têmpora em círculos, um raro sinal de desgaste.
— Mas sejamos realistas. A última opção é quase impossível. — Sua voz saiu mais baixa, amarga. — Não quero nem pensar no que pode ter acontecido com aquele rapaz. — Por um instante, o silêncio dominou a sala, e Helena deixou escapar um pensamento quase pessoal demais para seus subordinados. — Ele sim… merecia estar no Conselho. Um dos poucos que podiam representar o que Cinderhelm deveria englobar.
Um dos Vigias abriu a escotilha pesada da sala, chamando Helena em voz baixa.
— Comandante… é a Agente CG, na frequência particular.
Helena ergueu o olhar imediatamente. Se Clara Gildspring, de todos os agentes, estava acionando a linha direta, era porque não havia tempo a perder. Ela se levantou com firmeza, ordenando aos investigadores que continuassem revisando o dossiê, e saiu em passos longos até seu escritório particular.
A sala era silenciosa, isolada por camadas de ferro e cobre reforçado para evitar interceptações. Helena girou o seletor do rádio acima da mesa, alinhando-o à frequência secreta dos Vigias — uma frequência que ninguém fora da divisão jamais conseguira decifrar, por mais que o Conselho tivesse tentado.
A voz de Clara atravessou o chiado metálico quase imediatamente.
— Comandante. Temos um problema.
Helena se inclinou sobre o transmissor, a mão firme sobre o botão de resposta.
— Do que se trata, agente? Houve algum incidente na operação?
Do outro lado, Clara suspirou fundo, e então respondeu com a calma controlada que usava para mascarar sua raiva.
— Fui demitida antecipadamente do departamento de manutenção e serviços gerais da torre do relógio. Blackwell puxou as cordas no Conselho. Vai substituir absolutamente todos os departamentos por pessoal dele. Tenho apenas uma semana antes que o acesso ao Big Bang se torne impossível.
Helena praguejou baixo, um murmúrio abafado que o rádio captou mal. Endireitou-se, respirando fundo antes de responder.
— Claro que foi obra dele. Blackwell finalmente percebeu que havia alguém de olho nos movimentos dele dentro da torre. E se está desconfiando de você, significa que nossa margem de manobra está prestes a se esgotar. Eu devia ter previsto que aquele bastardo acabaria usando o cérebro.
Clara assentiu do outro lado da linha, a voz carregada de frustração.
— É exatamente o que pensei. Ele tentou jogar a culpa em Adalyn, como se fosse um pedido da família Altharion… mas eu conheço esse teatro. Blackwell quer me encurralar. E conseguiu. No domingo, me encarregaram da segurança do Baile de Máscaras na propriedade dele, no Bairro Nobre. Isso significa que, se eu tentar bisbilhotar qualquer arquivo, a responsabilidade vai cair em mim. Ele me colocou num beco sem saída.
Helena cerrou o punho sobre a mesa, o metal estalando sob sua força. Sua voz, porém, saiu controlada, carregada de autoridade.
— Então que seja. Nós vamos dar um jeito nisso. Não é a primeira vez que Blackwell acredita ter encurralado alguém. E certamente não será a última. — fez uma pausa, firme. — Por agora, mantenha a calma e continue com o trabalho. Não dê motivo para ele acelerar sua substituição. Eu mesma vou lhe atualizar em breve sobre os próximos passos.
O silêncio de Clara durou um instante, até que ela respondeu:
— Entendido, Comandante.
O rádio emitiu apenas estática depois disso. Helena recostou-se na cadeira de ferro, encarando o vazio por alguns segundos antes de anotar em sua prancheta: Domingo – Baile de Máscaras.
[.]
Clara desligou o rádio, deixando apenas a estática morrer aos poucos. Empurrou a cadeira da pequena mesa de jantar de seu apartamento — um espaço bem equipado, mais luxuoso do que a maioria imaginaria para alguém de sua posição “modesta” na torre do relógio. Andou em passos lentos até a varanda, empurrando as portas de vidro e deixando o vento frio lhe bater no rosto.
Lá de cima, a metrópole se estendia em toda sua magnitude: os bondes cortavam os tubos magnéticos suspensos pelo céu como flechas de aço reluzentes; nuvens altas se mesclavam com colunas de vapor, e os sons longínquos dos dirigíveis misturavam-se ao burburinho abafado da cidade. Clara apoiou os braços no parapeito, os cabelos ruivos bagunçados pelo vento, e deixou a mente vagar em um silêncio que só fazia ecoar ainda mais suas próprias dúvidas.
Mas a paz não durou.
Três batidas firmes na porta ecoaram pelo apartamento. Clara estreitou os olhos, imediatamente deixando a varanda e caminhando até o hall de entrada, silenciosa como sempre fora treinada a ser. Chegou até a porta e, antes de qualquer gesto impensado, inclinou-se para espiar pelo olho mágico.
O coração disparou. Do outro lado, parado no corredor, estava ninguém menos que Alexandros Carbone.
O herdeiro da EosMist e da GoldenCoal. Um nome que estampava colunas de jornais e relatórios industriais — não a porta de seu apartamento.
Ela congelou por um instante, genuinamente desconcertada. Mas logo ergueu sua máscara habitual: o sorriso doce, a postura leve, a aura da garota ingênua que todos acreditavam conhecer. Girou a chave e abriu a porta com cuidado.
Do outro lado, Alexandros — imponente, alto, os longos cabelos azulados presos em um laço simples — se abaixou levemente para poder encará-la com os olhos claros e diretos.
— Me perdoe pela visita repentina, senhorita Gildspring — disse, com a polidez formal que carregava naturalmente.
Clara ergueu as sobrancelhas, deixando escapar uma risada breve de surpresa.
— Alexandros Carbone… na porta do meu apartamento. — Ela inclinou a cabeça, ainda sorrindo, embora os pensamentos corressem em disparada. — Eu só via seu nome nas páginas dos jornais, sempre na seção industrial. Jamais achei que iria se materializar aqui na minha frente.
— Imagino que deva estar surpresa. — Alexandros manteve o tom baixo, quase conspiratório. — Mas eu não vim até aqui por banalidade. Preciso discutir algo de extrema importância com você. Em particular.
Ela apoiou o ombro no batente da porta, cruzando os braços, encenando pura curiosidade inocente.
— E posso perguntar o que, exatamente, o traz até o meu modesto apartamento, senhor Carbone?
Ele balançou a cabeça, como quem corta uma linha de pensamento.
— Não posso falar aqui. Este lugar não é… seguro. — Os olhos dele a mediram com seriedade, e a voz carregava uma urgência velada. — Mas eu garanto que, se vier comigo, logo vai entender.
Clara arqueou discretamente uma sobrancelha.
— É mesmo? — perguntou, mantendo o tom brincalhão, mas estudando cada gesto dele. — E o que poderia me convencer a sair daqui com você, assim, de repente?
Alexandros então deu um passo à frente, próximo o bastante para que a distância entre eles fosse apenas simbólica, e respondeu firme:
— Envolve diretamente Adam Altharion.
O nome caiu como um raio.
A máscara de Clara quase rachou ali mesmo. Os músculos de seu rosto traíram um instante de surpresa genuína; seus lábios se entreabriram, e ela piscou várias vezes, como se precisasse confirmar que tinha ouvido aquilo corretamente.
— O… quê? — sussurrou, antes de recompor o sorriso, um tanto trêmulo. — Perdão… acho que entendi errado.
Mas o olhar dele dizia que não, não havia mal-entendido algum.
Alexandros não desviou os olhos dela, a seriedade em sua postura denunciando que não havia engano algum.
— Você ouviu certo, Clara — disse, firme, mas sem arrogância. — E eu sei que deve estar cheia de perguntas. Prometo que terá todas as respostas se vier comigo. Só… confie em mim. Por favor.
Clara permaneceu imóvel, a mão ainda apoiada no batente da porta. A cabeça dela fervilhava: Adam. Depois de todo aquele tempo em silêncio, depois do desaparecimento, depois de se convencer de que talvez estivesse morto ou, pior, em poder de Blackwell… agora Alexandros surgia do nada, dizendo que tudo tinha relação direta com ele.
Ela piscou lentamente, avaliando. A desconfiança natural falava alto, mas o nome Alexandros Carbone carregava um peso específico. Dos poucos barões industriais que ainda ousavam manter inimizade com Luther Blackwell, ele era um dos mais visíveis. Se havia alguém com algo real a acrescentar contra o monopólio podre que corroía Cinderhelm, seria ele.
Respirou fundo, deixando o sorriso ingênuo voltar ao rosto, mas dessa vez misturado com algo que parecia… aceitação.
— Muito bem — disse, a voz baixa. — Vou apostar minhas fichas, então. Seja o que for, não pode ser pior do que a situação em que já estou.
Alexandros assentiu levemente, quase em alívio.
Clara ergueu o indicador, no entanto.
— Mas você vai ter que esperar um instante. — Ela deu um passo para dentro, encostando a porta com delicadeza. — Preciso colocar roupas melhores antes de ir com você.
O elfo a olhou por um momento, os olhos atentos, mas logo recuou com a polidez impecável de sempre, deixando-se posicionar no corredor.
— Claro. Tome o tempo que precisar.
Clara fechou a porta suavemente, respirando fundo assim que ficou sozinha novamente. O coração acelerado, as mãos ainda trêmulas. Caminhou até o quarto, abrindo o guarda-roupa e encarando os vestidos alinhados, as roupas de fachada que usava para sustentar a imagem da doce relojoeira da torre. Mas, no fundo, sabia que a escolha que faria agora podia muito bem definir o rumo de toda a sua operação secreta.
[.]
As botas de ferro e couro batiam ritmadas contra o chão sujo, cada passo ecoando entre os prédios deformados de metal retorcido e tubulações que cuspindo vapor ácido. O Distrito das Sucatas era uma cicatriz viva de Cinderhelm: engrenagens abandonadas, carcaças de automóveis enferrujados, prensas quebradas e o cheiro pesado de óleo queimado impregnado em tudo. Mesmo para criminosos endurecidos como Ashka ou Miló, o ambiente era sufocante.
Adrian seguia à frente, a postura ereta, impecável, o manto longo deslizando rente ao chão como se nem a imundície pudesse tocá-lo. Apenas Milena, silenciosa, notava o desgosto real por trás daquela máscara de compostura. Ele odiava aquilo. A visão da miséria o corroía mais do que qualquer arma inimiga, mas ainda assim controlava cada traço do rosto — ninguém, além dela, veria fraqueza.
— Já estamos perto? — Adrian perguntou, a voz baixa mas carregada de autoridade. Seus olhos dourados e frios pousaram em Celindra, que caminhava logo atrás.
Ela puxou o capuz para frente, cobrindo parte do rosto ao observar os becos e vielas em volta.
— Sim. — Seu tom era firme, profissional, mas o desconforto de estar de volta àquele distrito não passava despercebido. — Os Ponteiros se escondem abaixo do lixão municipal, perto das docas interditadas. É um labirinto de metal corroído, só quem conhece a entrada correta consegue chegar até eles.
Fjorn soltou uma risada áspera, batendo uma das mãos contra a coxa.
— Hah! Um beco imundo atrás de um lixão! Parece o berço perfeito pros tais fanáticos de máquina que você tanto descreveu. Mal posso esperar pra ver se eles valem alguma coisa além de sucata.
— Controle-se. — Adrian não olhou para ele, mas a ordem cortou no ar como lâmina. — Precisamos deles dispostos a ouvir, não mortos. Ainda.
Miló mantinha uma das mãos constantemente colada no cabo de sua espada, os olhos atentos ao movimento das sombras entre os becos.
— “Ouvir” não é exatamente a especialidade de cultistas. — Ele inclinou o queixo para Celindra. — E você tem certeza que esses ratos vão se dobrar ao nosso plano?
Celindra estreitou o olhar, mas manteve o passo.
— Não. Eles não se dobram. Eles negociam. E se a moeda for sangue e carne, vão se interessar. Adrian sabe disso.
Ashka bufou, cruzando os braços sob o manto.
— Então estamos indo atrás de um bando de mutiladores lunáticos porque o grande mestre aqui acredita que podem ser úteis. — Seus olhos azulados faiscaram em desafio breve a Adrian, mas o sorriso cínico no rosto dela denunciava que estava mais entediada do que revoltada.
Adrian finalmente parou diante da curva estreita de um beco. A fumaça verde do vazamento químico antigo ainda escapava por rachaduras nas paredes de ferro, e o fedor ácido fazia arder a garganta. Ele inspirou fundo, lentamente, como se quisesse gravar aquela sensação de decadência.
— Úteis não. — disse com calma, girando o rosto para os acompanhar. — Essenciais.
Milena baixou os olhos, absorvendo a certeza na voz dele, mas sem comentar. Celindra apenas assentiu com a cabeça, indicando o portão enferrujado à frente.
— É aqui. A entrada para o subterrâneo.
Celindra ergueu a mão, fazendo sinal para que o grupo parasse antes de avançar mais fundo no beco. Os olhos dela percorriam o chão irregular, cada rachadura, cada lajota de pedra encardida.
— Há armadilhas espalhadas até o portão — disse, séria, a voz reverberando na passagem estreita. — Cinco metros, no mínimo. Pisou errado em uma dessas pedras falsas, e o beco inteiro cospe ferro e pólvora por todos os lados. Ninguém sai vivo.
Adrian arqueou uma sobrancelha, os olhos dourados brilhando sob o capuz. — Então… qual é a combinação?
Celindra hesitou.
— Não tenho. Essa senha só os cultistas conhecem. Nunca cheguei a entrar lá dentro. Mas… — ela apertou os punhos, inspirando fundo — eu sei como burlar.
Fjorn deixou escapar uma risada grave, quase um rugido.
— Hah! Um joguinho de pedrinhas e pólvora? Eu não temo “balas”. Que disparem.
Miló girou a lâmina curta entre os dedos, a sombra de um sorriso irônico em seus lábios.
— Nem eu. Posso cortar todas de uma só vez.
Adrian se virou lentamente, o peso da autoridade em cada gesto. Seu olhar frio percorreu os dois como lâminas.
— Façam o que ela disse. Agora.
O tom não dava espaço para contestação. Até Fjorn, que parecia ansioso por provocar, calou-se e recuou, rangendo os dentes. Um a um, os outros recuaram também, retornando para fora do beco, deixando apenas Celindra avançar.
Ela respirou fundo, fechando os olhos por um instante. Então, com um movimento fluido, a bota metálica da perna direita retraiu-se com um estalo mágico, desaparecendo em fragmentos cintilantes até que seus pés tocassem o chão em contato direto. Celindra pisou com força antes das lajes traiçoeiras, as vibrações correndo pelo solo.
Seu corpo inteiro ficou imóvel, apenas os olhos semicerrados enquanto sentia o pulso do metal e da pedra. Um mapa invisível se formava na mente dela: os dentes das engrenagens ocultas, os tubos carregados de pólvora, os gatilhos tensionados esperando pelo menor erro.
— Aí estão… — murmurou, baixinho.
Ela fechou os punhos com força. O beco respondeu. As lajotas de pedra saltaram dos encaixes, como se cuspidas pelo próprio chão, revelando os mecanismos ocultos. Tubos, molas e disparadores de ferro giraram no ar apenas para serem esmagados pelo poder dela. O metal rangia e amassava, retorcendo-se em bolas compactas antes de despencarem, inúteis.
Um silêncio pesado tomou o beco.
Ashka assobiou baixo, erguendo as sobrancelhas.
— Bom… isso foi bonito. — O sorriso dela era quase genuíno. — Se eu tivesse esse truque nos meus dias em Zaratharn, teria assaltado meia dúzia de cofres sem nunca suar.
Celindra soltou um suspiro breve, recolocando a bota metálica de volta com outro estalo mágico. Ela girou o rosto para Adrian, a expressão fria mas resoluta.
— O caminho está limpo. Se houver mais armadilhas, será na escadaria abaixo.
Adrian assentiu lentamente, a compostura impecável.
— Muito bem. Todos, venham. — Seus olhos se estreitaram, a ordem afiada como aço. — Fiquem juntos. E, acima de tudo… sem exaltações.
Eles então avançaram pelo beco despido de ameaças, chegando até o portão enferrujado que dava acesso às profundezas do subterrâneo onde os Ponteiros aguardavam.
O grupo descia cada vez mais fundo, a escadaria se estreitando, as paredes de pedra escura cobertas por tubos enferrujados que escorriam vapor em sibilos constantes. O ar ficava mais pesado a cada degrau, impregnado com o cheiro de óleo queimado e ferro derretido. E, logo, o calor começou a se tornar insuportável, vindo de fornalhas ocultas que rugiam lá embaixo.
Os primeiros sons chegaram como ecos: marteladas secas, guinchos metálicos, vozes humanas entrecortadas por gritos de dor. Depois, o ruído das máquinas, contínuo, sufocante.
Quando finalmente chegaram ao fim da escadaria, um salão imenso se abriu diante deles, sustentado por pilares de ferro retorcido que seguravam o teto rochoso como se fosse prestes a desabar.
E o que se revelava ali era um verdadeiro espetáculo de horrores.
Uma multidão de ciborgues grotescos se movia em cadência, corpos mais máquina do que carne. Alguns caminhavam com membros substituídos por lâminas, outros rastejavam em carcaças de ferro, ainda com pedaços de pele e olhos humanos pendendo em contraste repugnante.
Sobre mesas de ferro, vítimas ainda conscientes eram cortadas a frio, sem anestesia, suas entranhas substituídas por engrenagens e tubos. O som de ossos quebrando se misturava ao sibilar das brocas. Mais ao alto, corpos eram transportados por esteiras, suspensos pelo pescoço em ganchos enferrujados. Cada um passava por setores diferentes até chegar a uma zona de “ressurreição”, onde núcleos improvisados de sucata eram enfiados nos torsos, fazendo-os estremecer e reabrir os olhos em meio à fumaça.
Ashka parou por um instante, seus olhos sempre ousados agora vacilando.
— …Certo. Agora eu entendo porque você parecia tão perturbada com esses malditos — murmurou, olhando para Celindra.
A ex-capitã tinha o rosto contraído, pálido. Ela virou de lado, como se não fosse capaz de encarar a visão das cirurgias. Sua mão trêmula fechou-se em punho.
— Eles sempre foram monstros. Mas ver… isto… — sua voz falhou, e ela se calou antes que a náusea a dominasse.
Milena, no entanto, permanecia impassível. Nem um traço de desconforto em seu semblante. Apenas seus olhos, sombrios e atentos, refletindo cada detalhe. Ao lado dela, Adrian permanecia igualmente inabalável, o olhar fixo no fundo do salão.
E ali, no coração daquele inferno, erguia-se algo maior.
Uma estrutura colossal estava acoplada à parede rochosa: uma máquina ciclópica, lembrando um enorme órgão musical. Tubos imensos cuspindo vapor sem cessar, engrenagens descomunais girando dos dois lados. Mas o que mais chamava atenção era o rosto. Uma máscara grotesca moldada em ferro negro, olhos profundos e vazios como abismos, e uma boca aberta em escuridão total, de onde ecoava uma voz vibrante e dissonante, como se viesse de dentro de uma caverna infinita.
— Mais rápido… mais forte… não desperdicem a carne! — ecoava a voz, cada palavra pulsando pelos tubos como uma ordem sagrada.
Milena inclinou levemente a cabeça, avaliando.
— Fascinante.
Adrian estreitou os olhos dourados.
— O que é aquilo?
Celindra finalmente ergueu o olhar, e seus olhos se arregalaram de puro reconhecimento. O sangue lhe ferveu nas veias.
— …Não pode ser. — Sua expressão endureceu, o maxilar travado em fúria. — Esse… esse é o Big Ben. O “Deus das Máquinas”. O líder supremo dos Ponteiros.
Miló, que observava com a lâmina ainda em mãos, franziu a testa.
— O rosto fala… mas como? Isso é algum encantamento? Magia?
Celindra balançou a cabeça, amarga.
— Não. Aquilo é... — ela respirou fundo — ... um ser humano. Ou, pelo menos, já foi. Atrás daquela parede de tubos, daquela máscara grotesca… há órgãos. O que sobrou deles. Ele não tem corpo. É só um amontoado de carne conectado a esse colosso.
O salão inteiro vibrava com os comandos do Big Ben, enquanto dezenas de servos mecanizados continuavam a obra profana de transformar homens em máquinas.
Adrian deu um passo à frente, sua presença impecável e gelada contrastando com o caos sufocante do subterrâneo. A fumaça das fornalhas envolvia o salão, e os tubos colossais do Big Ben soltavam apitos furiosos, como pulmões metálicos em frenesi.
— Intrusos! — a voz cavernosa do Big Ben ecoou pelo salão, como trovões ressoando dentro de um órgão profano. — Rasguem-nos em pedaços! Alimentem a Máquina!
De imediato, os ciborgues grotescos interromperam suas tarefas, olhos vermelhos e artificiais acendendo em uníssono. Como uma maré de ferro e carne, eles se viraram em direção ao grupo, os primeiros já avançando com braços convertidos em serras e perfuradores, enquanto outros erguiam rifles improvisados, suas bocas metálicas exalando vapor.
Miló reagiu primeiro, com um movimento rápido: sua katana escarlate deslizou da bainha, riscando a luz rubra no ar. Ao lado, Ashka baixou o corpo e estendeu os braços, e as três lâminas de cada manopla deslizaram para fora com um som seco, faiscando sob o brilho dos fornos.
Fjorn rosnou, cerrando os punhos enormes e avançando como um animal descontrolado.
— Que venham! — rugiu, preparando-se para esmagar o primeiro ciborgue que ousasse se aproximar.
Mas, antes que o impacto acontecesse, Milena ergueu uma das mãos, o olho direito brilhando em azul etéreo.
Num único gesto, uma barreira translúcida de energia se expandiu, explodindo pelo salão. O impacto foi tão violento que ciborgues e aliados foram lançados para trás em direções opostas, como folhas no vendaval. O próprio chão tremeu, o teto rochoso gemeu sob a pressão, e os tubos do Big Ben vibraram em protesto.
Silêncio tenso se instalou por um instante.
Adrian ajeitou a gravata, passando a mão pelo cabelo com calma absoluta, antes de erguer a voz clara e cortante:
— Nenhum de nós veio aqui com intenções de hostilidade. — Seu tom era frio, mas firme, e carregava um peso de autoridade que ecoou até o fundo da câmara. — E certamente não estamos atrelados às autoridades podres de Cinderhelm. Viemos barganhar.
O rosto metálico do Big Ben estremeceu, a boca sem fundo reverberando com escárnio.
— Sacos de carne e osso… nada têm para barganhar comigo além de seus cadáveres! Vocês serão despedaçados e oferecidos à Máquina!
Os servos avançaram mais alguns passos, mas Adrian permaneceu imóvel, como se a horda diante dele fosse irrelevante.
— Na realidade… — ele começou, dando alguns passos para frente, o som de suas botas ecoando no chão metálico. — O que viemos oferecer é algo… semelhante a isso. Mas com muito mais valor.
Fez um gesto breve, e Milena dissipou o campo de força com um estalar de dedos. O ar voltou a se mover, trazendo de novo o calor sufocante e o cheiro de sangue e graxa.
Adrian ergueu a voz, direcionada diretamente à boca negra e sem fundo do Big Ben.
— Sei bem que os Ponteiros vêm sendo caçados. Que estão enfraquecidos, constantemente encurralados pela Guarda de Ferro. — Seus olhos dourados cintilaram, cortantes. — E, francamente, os servos que você tem… não me impressionam. São feitos de restos. Pobres coitados arrancados da sarjeta, moldados à força. Nada que realmente mantenha seu culto vivo contra forças de verdade.
As palavras cortaram fundo. Celindra apertou os punhos ao ouvir aquilo, ainda contida, enquanto Ashka olhava de canto de olho, curiosa sobre até onde Adrian iria.
Ele então abriu os braços, como se a oferta fosse inevitável:
— O que proponho é simples. Um acordo. Eu lhe trarei espécimes verdadeiramente poderosos. Lutadores de verdade. Soldados. Oficiais treinados para matar. Corpos dignos de fortalecer seu exército.
Um burburinho ecoou entre alguns dos ciborgues mais lúcidos, como se a promessa tivesse acendido fagulhas de expectativa.
Adrian então inclinou levemente a cabeça, sua voz descendo em um tom quase confidencial, ainda que ecoasse por todo o salão:
— E em troca… apenas preciso que seus súditos façam o que já sabem fazer de melhor. Causar caos. Espalhar destruição. Apenas algumas horas de distração em um dia específico, para que eu possa garantir algo que você já deve ter ouvido falar.
Um sorriso frio tomou seus lábios.
— O Núcleo Arcanum.
O riso do Big Ben ecoou pelo salão como um trovão metálico, uma gargalhada que fez os pilares vibrar e os fornos silenciarem por um instante.
— Impossível — bradou a voz mecanizada, cada sílaba cheia de desprezo. — Vocês acham que podem enfrentar a Guarda de Ferro? A armada inteira? Quem se julga ser melhor do que o poder da Máquina?
Adrian manteve a calma absoluta, o olhar glacial fixo na face sem fundo do Big Ben. Ergueu lentamente a mão e, com um gesto deliberado, indicou Celindra ao seu lado.
— Temos uma vantagem que você não tem — disse baixando a voz, como confidência letal. — Temos alguém que conhece as entranhas da Guarda por dentro.
O nome de Celindra soou no ar e por um segundo a boca mecânica pareceu processar a informação, como um mosaico de engrenagens tentando encaixar uma peça inusitada.
— Celindra Draeven? — a pergunta saiu, incrédula. — A capitã...?!
Adrian não desviou o olhar.
— Foi expulsa. — afirmou, seco. —Deixada de fora, desacreditada pelas mesmas instituições que deveriam a proteger. Está conosco agora. Fora da lei aos olhos do governo, como todos aqui.
O rosto de Celindra endureceu; tentou manter os olhos erguidos, mas a raiva contida e o peso da traição que carregava a fizeram desviar o olhar por um segundo, o suficiente para que Big Ben percebesse a tensão.
A máquina soltou uma nova risada, dessa vez mais longa, de desdém caloroso, e as paredes tremeram levemente com o som.
— Traição? — repetiu, chocada em seu próprio registro mecânico. — Nunca vi algo assim. Uma Draeven a trair seus próprios? Isso... chama minha atenção.
Adrian aproveitou o momento. A expressão no rosto dele era a de quem oferece a única saída racional numa negociação de alto risco.
— A estreia das fábricas ocorre na próxima segunda-feira — declarou, observando as reações ao redor com precisão cirúrgica. — Será o momento em que seus espaços estarão cheios de autoridades e guardas. Os Ponteiros causarão distúrbios por toda a cidade, principalmente no Big Bang, atraindo o máximo de atenção possível. Enquanto isso, nós, minha equipe, vamos usar a distração para isolar e capturar grupos específicos da Guarda de Ferro, trocar os prisioneiros e, essencialmente, abrir caminho para capturar uma das máquinas: um Núcleo Arcanum. Não precisamos de todas, apenas uma.
Os tubos do Big Ben apitaram, um som estridente que poderia ter sido preocupação ou curiosidade.
— E por que eu deveria acreditar em vocês? — a questão veio pesada, desafiadora. — Por que confiar que vão cumprir a palavra?
Adrian sorriu com a elegância fria de sempre, aproximando-se ainda mais, como se falasse algo íntimo e, ao mesmo tempo, implacável.
— Porque vou te dar a posição exata do navio que nos trouxe — revelou. — A rota de fuga. O esconderijo. Se não cumprirmos, você tem o poder de afundar o que resta de nossa operação. Afinal, vocês sabem como punir traições eficientemente. É uma garantia — disse, sem qualquer tremor na voz.
A promessa pairou no ar. Big Ben ficou em silêncio por um instante, suas engrenagens rangendo como se pesassem uma decisão. A oferta era ousada, dar informações cruciais sobre seus próprios meios de fuga em troca de apoio e um serviço massivo dos Ponteiros, mas também colocava Adrian numa posição de credibilidade: se ele se expunha assim, demonstrava confiança (ou desespero calculado) suficiente para convencer a máquina que regia aquele subterrâneo.
Do fundo do salão, alguns ciborgues murmuraram como fichas sendo arrastadas; a possibilidade de obter material humano “de qualidade” acendeu uma fagulha de interesse nas fileiras. Celindra apertou os punhos, o conflito estampado no rosto: colaborar significava trair antigos princípios — e talvez salvar sua própria causa ao mesmo tempo. Milena, ao lado de Adrian, manteve a expressão imutável, mas seu olho direito transparece a análise fria de quem conhece piores acordos e ainda assim os aceita.
Big Ben, por fim, deixou escapar um som que soou muito parecido com um riso longo, contemplativo.
— Muito bem — declarou, sem ceder ainda completamente, mas já interessado. — Tragam-me uma prova de boa fé. Mostrem que estão dispostos a sujar as mãos como eu exijo. E me digam: quando, exatamente, começa essa “segunda-feira” de vocês?
Adrian inclinou a cabeça, imóvel e resoluto.
— Segunda-feira ao amanhecer. — respondeu. — Dê-nos a cobertura que prometi e eu lhe entregarei a rota do navio. Falhamos, e vocês terão tudo o que precisam para nos aniquilar. Cumprimos, e ganhamos algo que vale muito mais que a sua paciência.
O Big Ben ficou em silêncio novamente, os tubos apitando ritmicamente enquanto ponderava. O plano de Adrian colocava em jogo muito: alianças inusitadas, interesse de facções cruéis e a chance de um golpe direto no coração do projeto que todos cobiçavam.
[.]
Alexandros avançava com passos seguros pelas ruas iluminadas do Bairro Nobre, guiando Clara sem revelar de imediato para onde a levava. O contraste era gritante: dali, os arranha-céus de bronze e vidro refletiam a luz das lâmpadas a vapor, enquanto o movimento incessante de carruagens elegantes e bondes suspensos pintava um retrato de prosperidade distante da sujeira dos distritos inferiores.
Clara, mesmo mantendo sua máscara de garota ingênua, não conseguia evitar que a mente questionasse:
Por que me trouxe aqui, Alexandros?
Ela enfim quebrou o silêncio.
— O que estamos fazendo aqui? — perguntou, franzindo o cenho com genuína curiosidade, os olhos voltando-se para o elfo.
Alexandros respirou fundo, prestes a responder, mas antes que pudesse abrir a boca, uma cena abrupta roubou a atenção de ambos. A porta da confeitaria à frente deles, com uma placa pintada à mão em letras cursivas, “La Gatita”, se escancarou com violência.
Dois homens mal-encarados foram arremessados para fora como bonecos de pano, rolando pelo chão de pedra polida com gemidos doloridos. Calos avermelhados inchavam em suas cabeças, e uma fumaça fina saía deles como se tivessem levado golpes de um ferro em brasa.
Na soleira da confeitaria, surgiu Evelyn Bellamy. Os olhos verdes faiscavam, e o sorriso era um meio-termo entre desdém e pura satisfação. Os longos cabelos loiros, presos em duas maria-chiquinhas adornadas por uma tiara felina, balançaram ao vento conforme ela levantava o punho ainda soltando vapor da surra aplicada. O vestido preto e branco de maid cafe parecia fora de lugar diante da força brutal que exibia.
Na outra mão, segurava as pistolas que havia arrancado dos vagabundos. Sem cerimônia, apertou os dedos até as engrenagens cederem com um estalo metálico, e os pedaços desmontados caíram em cascata de ferro inútil sobre o chão.
— SEUS FILHOS DE UMA RAPARIGA CORNA RATA! — disparou ela, chutando os homens que tentavam se recompor. — SE NÃO SUMIREM DA PORRA DA MINHA FRENTE, EU VOU ARRANCAR OS SEUS OLHOS E MIJAR NOS BURACOS ATÉ FAZER UMA FONTE PERSONALIZADA PRA DECORAÇÃO DA MINHA LOJA! — Os impropérios seguiram como um rosário criativo de insultos que fez Clara piscar, surpresa com a naturalidade feroz da cena.
Os dois bandidos, desesperados, juntaram as poucas forças que tinham para fugir tropeçando, desaparecendo entre os becos laterais. Evelyn bufou, ergueu a mão para ajeitar os cabelos loiros e só então percebeu Alexandros, parado a alguns metros, acompanhado da ruiva de feições delicadas.
O semblante dela se iluminou num sorriso largo.
— Ora, ora! Finalmente o elfo resolveu aparecer! Voltou mais cedo do que meu tio disse. — disse com voz cheia de energia, inclinando levemente a cabeça de lado em tom brincalhão. — E essa aí... é a tal convidada especial, não é?
Clara, pega de surpresa, manteve o sorriso ingênuo, mas sentiu uma pontada no peito: Ele falou sobre mim antes...
Alexandros confirmou com um leve aceno, mas sua expressão era sóbria.
— Evelyn, preciso conversar em particular com ela. Fecha a confeitaria por enquanto.
— Tudo bem! — respondeu ela de imediato, já girando o cartaz de Aberto para Fechado e puxando a porta de vidro com firmeza. — De qualquer forma, eu ia começar a faxina mesmo. — ela então gesticulou com os braços, convidando-os para dentro. — Venham, venham. O doce é por minha conta, mas quero ouvir tudinho.
Clara respirou fundo antes de entrar, a aura fofa e delicada da confeitaria La Gatita — com suas mesas redondas, cadeiras de madeira entalhada e vitrine repleta de bolos e tortas ornamentadas — contrastando violentamente com o espetáculo de brutalidade que tinha acabado de testemunhar, com o cheiro suave de açúcar levemente queimado e baunilha fresca.
Alexandros conduziu Clara até uma mesa reservada, num canto mais discreto. Lá, sentado em silêncio, estava um homem grande, de ombros largos, cabelos um pouco longos e barba bem cuidada. O traje era de cidadão respeitável, mas a forma como o tecido se esticava em seu peito denunciava a força contida no corpo.
Ele mantinha a cabeça baixa sobre a xícara de café já quase fria. Respirou fundo antes de se levantar quando os passos de Clara e Alexandros se aproximaram.
Alexandros deu dois passos para trás, abrindo espaço e dizendo, firme mas calmo:
— Clara… esse é Adam. Adam Altharion.
O mundo de Clara congelou. Seu olhar subiu lentamente até o rosto do homem, e quando encontrou os olhos dele, o chão pareceu fugir sob seus pés.
Adam forçou um sorriso, tímido e trêmulo, mas o gesto se desfez tão rápido quanto surgiu. Clara piscou várias vezes, sem acreditar. Uma risada curta, nervosa, escapou dela.
— Isso é algum tipo de piada?
A resposta de Adam veio grave, mas sem hesitação.
— Sou eu, Clara.
A voz. Aquela voz. Era impossível fingir depois de ouvi-la. Os olhos dela se arregalaram ao limite, o coração disparando no peito.
— Mas… como? Quando? Onde…?! — Ela gaguejou, perdida entre perguntas sem resposta. — Não pode ser… Adam não era… tão alto, tão… — Ela engoliu seco, os lábios trêmulos. — Mas… é você…!
Era ele. Por mais diferente que estivesse, ao olhar fundo nos olhos dele, Clara o reconheceu.
Ela recuou desajeitada, batendo o quadril contra a beira de uma mesa, respirando ofegante, como se o ar tivesse lhe faltado. Adam deu um passo, a mão meio erguida, a voz mais suave.
— Eu posso explicar tudo.
E, então, ao invés de fugir ou explodir, Clara avançou. De súbito, o choque se transformou em impulso, e ela o envolveu num abraço intenso, desesperado e genuíno, como se tivesse medo de que ele desaparecesse caso o soltasse.
Adam ficou imóvel por um instante, surpreso. Nunca tinha visto Clara se entregar de forma tão aberta. Então, lentamente, os braços dele a cercaram, firmes e reconfortantes, devolvendo o abraço com calor. Clara conteve as lágrimas, a garganta fechada pelo peso de meses de incerteza. Adam abaixou o rosto próximo ao dela, fechando os olhos por um momento.
Do balcão, Evelyn observava a cena, mordendo o cupcake que segurava com força exagerada. Seus olhos marejavam discretamente, e um pensamento dolorido atravessou seu peito: queria que fosse eu, nos braços dele!
Adam esperou que Clara respirasse fundo e se acomodasse, as mãos dela ainda trêmulas sobre a mesa enfeitada com toalhas floridas.
Alexandros puxou outra cadeira e se sentou junto, mas se manteve em silêncio, deixando o peso da cena repousar sobre Adam.
Clara foi a primeira a romper o silêncio, a voz quase sufocada pela avalanche de perguntas.
— O que aconteceu com você…? Onde esteve durante todos esses dias…? Por que está… tão diferente…? Quem foi que te sequestrou?!
Adam fechou os olhos por um instante, soltando um longo suspiro, como se estivesse se preparando para soltar um peso que vinha carregando desde o baile.
— Ninguém me sequestrou.
Clara franziu o cenho, confusa, enquanto Adam começava a explicar. Contou como, naquela noite no Big Bang, foi teleportado para longe sem qualquer controle, como se tivesse sido cuspido para fora do mundo conhecido e lançado à Costa Sul de Eldorwyn. Explicou sobre Merlin, o velho sábio que o encontrou, sobre os meses de treinamento e revelações, e por fim sobre o futuro que lhe foi mostrado — um futuro onde Adrian Paxton triunfava.
Clara ouvia atônita, tentando absorver cada detalhe. Os olhos dela cintilavam em choque, mas também em angústia.
— Eu tenho memórias de dois caminhos diferentes — prosseguiu Adam. — As deste presente… e as daquele futuro. Ainda não consigo ver tudo com clareza, muita coisa está turva, mas o suficiente eu sei: Adrian vai tentar se apossar do Núcleo Arcanum. Ele quer moldá-lo até criar algo novo, o Núcleo Neural Arcaico… e se fundir com o Arcanum.
As palavras caíram pesadas no ar. Clara arregalou os olhos, quase se levantando da cadeira.
— Fundir-se com o Arcanum…? Isso é impossível!
Adam balançou a cabeça, sério.
— Tecnicamente, ele já fez isso. No futuro que vivi, Adrian alcançou essa fusão quase completa. Mas não totalmente. — Ele apoiou o punho fechado sobre a mesa, o peso da revelação estampado no rosto. — O último fragmento, 0,1% do Arcanum, está comigo. Foi isso que me salvou. É a única razão pela qual Adrian não consegue me apagar da existência ou remodelar essa linha do tempo. Estamos conectados.
Clara levou a mão à boca, tentando processar.
— Então… enquanto você viver, ele não pode assumir o controle?
Adam assentiu, firme, olhando nos olhos dela.
— Exato. Ele não tem poder sobre esta linha do tempo enquanto eu estiver vivo.
O coração de Clara disparava, não apenas pelo que ouvia, mas pelo que aquilo significava. Adam, sentado ali diante dela, era literalmente a barreira restante que impedia a destruição do universo.
Clara ficou imóvel por alguns longos segundos, deixando a frieza analítica assumir o lugar do choque. Seus dedos roçavam a borda da xícara de chá posta recentemente em sua frente por Evelyn, enquanto a mente trabalhava em padrões, probabilidades e precedentes.
O Conselho das Máquinas, a recente manobra de Blackwell, a transferência dos direitos do Núcleo Arcanum para os pais de Adam, tudo encaixava num ossário de interesses que, naquele exato momento, se apresentava com contornos letais: se Adrian realmente visse na estreia das fábricas a chance perfeita para agir, a cidade inteira estaria distraída, as ruas abarrotadas, e a proteção institucional fragilizada pela celebração. Não havia tática mais propícia para um golpe cirúrgico.
— Isso significa… — murmurou Alexandros antes que ela conseguisse formular a frase completa, como se traduzisse o raciocínio em voz alta — … que ele vai tentar se apossar de uma dessas máquinas no dia da estreia. O timing é perfeito. Milhares nas ruas, multidões celebrando no Big Bang... qualquer caos vira cobertura.
Adam assentiu, rosto tenso.
— Adrian vai usar uma distração brutal. Sempre foi do tipo que prefere o espetáculo à sutileza. Vai criar um rompante que arraste as atenções e, enquanto isso, um punhado de homens faz o serviço sujo. É o modus operandi dele.
Clara fechou os olhos por um instante, enxugando uma ponta de ansiedade com a palma da mão. O plano de Adam veio como uma lâmina afiada: a peça original do Núcleo Arcanum — o projeto autoral que demonstrava sua concepção, os esquemas-mestre — estava arquivada no Big Bang, no Salão Oval. Se aqueles documentos fossem destruídos, se a criação original fosse eliminada das pranchetas oficiais, o valor estratégico do Núcleo como fórmula única cairia drasticamente; cópias poderiam ser feitas, sim, mas a ausência do projeto-matriz complicaria — e talvez impedisse — a reprodução fiel e imediata da tecnologia.
Era a brecha que podia negar a Adrian o caminho fácil para completar o Núcleo Neural Arcaico.
Clara quase cuspiu o chá de surpresa com a proposta. A expressão que tomou seu rosto era uma mistura de horror prático e cálculo frio.
— Isso é terrorismo industrial — disse com voz curta, firme. — Destruir o projeto original do Big Bang não é uma sabotagem clandestina qualquer; é um ataque direto às estruturas legais e econômicas de Cinderhelm. Se forem pegos com isso, a cabeça de qualquer um dos envolvidos valerá bilionárias recompensas. — Ela avaliou os rostos ao redor, os pequenos movimentos que traíam suas intenções. — Vocês têm ideia do que isso significa?
Adam a olhou com a calma de quem já havia passado pelo pior e, ainda assim, carregava a convicção de quem não tinha alternativa.
— Sei. — falou, simples. — Sei o preço. Sei que é extremo. Por isso não posso ser pego. Por isso peço ajuda de alguém dentro do Big Bang. Você é a única que pode chegar aos andares superiores sem levantar suspeitas; a única com acesso ao Salão Oval e ao arquivo. Sem você, a ideia é suicida. Com você, aumenta a chance de funcionar e diminuir o alcance do dano colateral, porque o objetivo é erradicar a possibilidade técnica de Adrian replicar a máquina, não causar sofrimento desnecessário às pessoas. Depois que tudo estiver acabado, eu saio da cidade. Nunca mais volto.
Clara sentiu o peso das palavras. A parte fria da mente calculava rotas, rostos a serem evitados, horários de patrulha da Guarda de Ferro, maneiras de acessar o cofre de arquivos do Big Bang sem disparar os alarmes. A parte humana — aquilo que sabia fingir ingenuidade há anos — reagiu com outra contagem: se Adam estava ali, vivo, e se era a barreira entre a normalidade e uma catástrofe, aquilo redimensionava o que era aceitável. O juramento de proteger o sistema, a vida das pessoas, ganhava uma forma concreta que não cabia em protocolos.
— Se eu fizer isso — murmurou Clara, voz baixa, quase um cálculo final — você garante que não haverá outras formas do Núcleo serem reconstruídas em segredo? Que destruir o plano não é apenas um remendo temporário que os investidores ricos vão simplesmente comprar de novo e replicar por outra via?
Adam fechou os olhos, encostando a testa por um segundo nas costas da cadeira como se pesasse o próprio destino.
— Não posso garantir nada com 100% de certeza. Mas sem o projeto-matriz, os passos para recriar a máquina ficam exponencialmente mais difíceis e caros; os investidores teriam que redescobrir a engenharia por tentativa e erro, e Adrian perderia o tempo crítico. Tempo é o que precisamos. Ele não pode ter as Runas antes que tenhamos destruído as fábricas, e a única maneira de reduzir drasticamente o risco de sucesso dele é tirar de circulação a origem. — Adam abriu os olhos e os apontou para Clara com uma sinceridade simples — Eu não quero vítimas inocentes. Eu quero acabar com a possibilidade. Depois disso, eu sumo.
Alexandros esboçou um gesto breve, como quem pesa opções.
— Precisaremos planejar cada passo com precisão cirúrgica. Rotas de entrada e saída, sinais de horário, distrações controladas que não virem um massacre. Não podemos depender apenas do suor e da sorte.
Clara respirou fundo, e por um momento sua máscara de ingênua ficou de lado — não por orgulho, mas pela escolha consciente de quem decide arriscar tudo por uma causa maior.
— Eu tenho contatos nos setores de arquivo e segurança do Big Bang — disse finalmente. — Sei por onde passam as chaves mestras, quais vigias são mais suscetíveis a manipulação e quais registros operacionais só são consultados uma vez por semana. Posso obter acesso ao Salão Oval. Mas aviso: se isso for um plano mal calculado, se houver outra forma de atingir o mesmo objetivo sem que eu ponha a mão na ilegalidade, eu não vou fazê-lo. Não sou martírio nem fanática. Quero proteger o que resta da cidade.
Adam assentiu, aliviado por encontrar na resistência lógica de Clara um aliado e não uma porta aberta ao erro.
— Não peço martírio — respondeu. — Peço parceria. E que você guarde isso como segredo absoluto, acima de qualquer escritório, de qualquer promessa feita ao Conselho. Se Blackwell souber que você nos ajuda, o preço será mais que dinheiro, será sua liberdade. Ou sua vida.
Clara olhou por um instante longe, para a vitrine por onde Evelyn ajeitava novos bolos para exposição, para a vida que aparentemente seguia indiferente à conspiração que fermentava na mesa. Depois, ergueu a cabeça e fechou o punho uma única vez, num gesto contido de decisão
— Me deram uma semana para preparar a substituição dos departamentos… — repetiu enigmática, consciente de que aquela mesma semana era a janela que poderia definir o futuro de Cinderhelm. — Antes do cair da noite do baile que Blackwell fará no Domingo, sobre o qual ele me deixou responsável, colocarei o plano em prática pra desativar quaisquer sistemas de vigilância e abrir uma brecha no Big Bang para vocês se infiltrarem. Se tudo for conforme planeado, terão uma abertura de aproximadamente 35 minutos ou um pouco menos até que percebam irregularidades na ronda da noite.
Adam sentiu um alívio cortante, misturado ao medo. Alexandros inclinou-se para frente, já começando a divagar em nomes, horários e possíveis rotas alternativas. Clara, por sua vez, colocou a máscara de ingénua como quem põe uma armadura invisível e, por baixo dessa casca, arquitetou mentalmente a sequência, contatos a corromper, senhas a descobrir, o jeito de parecer coesa diante de Blackwell na festa sem parecer mais suspeita do que já estava.
No canto da confeitaria, Evelyn limpava as migalhas de um cupcake, olhos brilhando com a surpresa de observar gente que mexia com o destino da cidade.
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