Arcanum
10 Águas Turbulentas
O céu ainda guardava o último resquício da névoa matinal, dissipando-se lentamente em véus suaves enquanto o sol do meio da manhã nascia por trás das nuvens pesadas. O mar reluzia em reflexos prateados, embalado por ondas calmas que lamuriavam a areia da costa.
A torre de Merlin já era apenas uma silhueta distante. Agora, toda a atenção recaía sobre o imenso navio de ferro atracado com firmeza, prestes a zarpar.
No interior da cabine de navegação, Porto parecia ter descoberto o paraíso. Seus olhos brilhavam com o reflexo dos botões metálicos, alavancas hidráulicas, painéis com contadores e um leme refinado feito de um polido aço escuro. Passava as mãos pelas superfícies como se estivesse alisando um artefato sagrado.
— Oh, minha nossa senhora... você é uma delícia. — murmurou com um sorrisinho malicioso, antes de cravar as mãos no leme e bufar com confiança. — Capitão Porto, ao seu dispor.
Puxou a alavanca de apito, o qual ressoou pela praia com um estrondoso rugido metálico, fazendo gaivotas distantes saírem em revoada. Ele ergueu o queixo com satisfação.
— Essa belezinha é tão linda que me dá vontade de casar com ela! — comentou orgulhoso.
Ao seu lado, Alstroemeria olhava tudo com fascínio legítimo, os olhos vívidos percorrendo cada parte da estrutura.
— É a primeira vez que vejo um navio assim! De ferro mesmo! Como... como é que ele não afunda? O ferro não devia afundar direto pro fundo?
— Bom, é simples, veja só... — Porto estalou os dedos, pronto para brilhar. — Isso aqui é pura física náutica. O que acontece é que—
— A densidade do navio é compensada pela distribuição do peso e do formato da estrutura, o que garante flutuabilidade por meio do deslocamento da água. — Astrid entrou na cabine sem cerimônia, os olhos digitalmente piscando em azul enquanto examinava os controles. — Basicamente, ele flutua por causa do design.
Alstro arregalou os olhos.
— Isso faz sentido... incrível!
— Eu... — Porto travou. — … estava prestes a falar isso. Só que com mais charme! — resmungou, virando os olhos. — Valeu por estragar esse mísero momento com esse cotoco de gente, torradeira!
— Disponha. — respondeu Astrid, secamente.
Alstro não resistiu à provocação e, com um sorrisinho travesso, deu um chutezinho de leve na canela de Porto.
Porto soltou um grunhido agudo e pulou pra trás com exagero dramático, segurando a perna com ambas as mãos como se tivesse sido baleado.
— Traição! Isso é traição intercontinental, seu duendezinho demoníaco!
Do lado de fora, os xingamentos trocados entre Alstro e Porto eram totalmente abafados, enquanto Adam, Koryu e Alexandros se despediam de Merlin à beira da areia úmida.
Merlin ajeitava seu chapéu azul, os olhos cerrados com serenidade. O vento balançava seus longos cabelos prateados e a ponta de seu cajado cintilava levemente.
— Dentro de dez horas, estarei nos portões de Midland. O tempo é curto, mas é meu dever garantir que a Runa Ancestral de Eldorwyn esteja protegida. — disse ele. — Farei minha parte o melhor que puder. Garanto que tudo estará em ordem quando retornarem.
Koryu cruzou os braços, imponente, os seis olhos fixos em Merlin com seriedade e preocupação mistas.
— Tem certeza de que isso é o melhor, Mestre? — perguntou, sua voz grave.
Merlin suspirou com um pequeno sorriso e balançou a cabeça.
— Ainda com isso? Já disse que não precisa me chamar de "Mestre". — ele pousou a mão levemente sobre o ombro de Koryu. — Mas sim, tenho certeza. Cinderhelm é o ponto mais vulnerável agora. E deixar Eldorwyn às escuras seria um arrependimento imenso para todos, principalmente por ser nossa principal vantagem territorial se o pior acontecer.
Adam assentiu, franzindo o cenho.
— Não vamos falhar, eu prometo. — disse, decidido. — Vamos impedi-lo... e dessa vez, ninguém vai morrer por minha causa.
— Adam… sabe que nada do que está acontecendo é por sua causa. Não ponha tal peso em seus ombros. Pense apenas no objetivo, no agora. — Merlin o aconselhou, com um breve suspiro, seu olhar terno e simpático.
Adam nada disse, apenas desviando o olhar.
Alexandros, de pé ao lado do inventor, não disse nada. Mas o modo como firmou a postura junto a de Adam falava mais do que palavras: ele estaria ao lado dele.
Merlin se afastou um passo, agora com um semblante mais sério.
— Agora vão. E tomem cuidado, por favor.
Os três assentiram em concordância, com Adam sendo o primeiro a se virar e caminhar na direção do navio.
Alexandros fez uma breve reverência em respeito a Merlin.
— Nos vemos em breve, senhor… — Alexandros disse, com um sorriso suave, o qual foi retribuído por Merlin, antes de ambos os magos seguirem rumos distintos.
Koryu se manteve a olhar Merlin se distanciar da praia por alguns segundos, seus cabelos balançando ao vento, antes de olhar para baixo com seus seis olhos e então respirar profundamente, antes de seguir ambos Adam e Alexandros.
Com um leve chiado de vapor e o bater metálico de engrenagens hidráulicas, Porto empurrou o manete principal e recuou os controles do painel.
A passarela frontal do navio se recolheu lentamente, rangendo com o peso da própria estrutura, até selar-se completamente com a proa do casco. Ao lado, um sistema de roldanas puxava de volta a âncora molhada, gotejando maresia enquanto se recolhia em sua cavidade.
— Vamos embora, doçura. Mostra do que é feita. — murmurou Porto com um sorrisinho de canto, alisando o painel.
Girando o leme hidráulico, ele acionou novamente o apito marítimo. O som ecoou por toda a costa, alto e firme como uma declaração de partida, afastando bandos de gaivotas e quebrando o silêncio da enseada.
Em seguida, os motores internos ganharam vida, vibrando sob os pés da embarcação, e o navio de aço começou a se mover com força firme pelas águas calmas, deixando para trás a praia enevoada de Eldorwyn.
No convés superior, Alstroemeria estava debruçado na beirada, os olhos fixos na costa que lentamente se tornava uma silhueta indistinta. O vento brincava com seus cabelos escuros e o brilho suave de suas asas semi-translúcidas refletia os primeiros raios do sol matinal.
Seu semblante era misto em muitas emoções. Encantamento, nervosismo, e um pouco de decepção.
— Eu queria ter falado mais com ele... — murmurou, com a ponta dos dedos tocando o colarinho do traje.
Então, ao notar a ausência de uma certa embarcação entre as ondas, franziu o cenho.
— Ué... onde foi parar aquela coisinha que a menina ciborgue trouxe? Ela simplesmente...
— … Foi colocada pra dentro. — disse uma voz metálica e precisa logo ao seu lado.
Alstro deu um gritinho estrangulado, girando bruscamente.
Astrid estava ali, parada como uma sombra recém-surgida, o cabelo preso em duas presilhas de cada lado, os olhos digitais piscando levemente.
— C-Como é…? — disse ele, ainda com a mão no peito.
— A lancha foi armazenada no compartimento de carga inferior. — completou, sem emoção. — Nunca se sabe quando vamos precisar de uma rota alternativa.
Alstro tentou recuperar o fôlego, respirando fundo.
— Tá bom... mas pode, por favorzinho, fazer barulho da próxima vez?
— Considere isso como um teste de reflexo. Você falhou. — respondeu ela, se virando para sair.
Mais à frente, uma porta de metal se abriu com um rangido abafado, revelando Adam, agora vestindo uma camisa escura e ainda com os cabelos úmidos do banho recente para tirar o excesso de suor de seu treinamento, caminhando em direção à ponta do convés. O vento brincava com as pontas de seu cabelo desgrenhado e a barba densa, os olhos fixos no horizonte que se estendia em azul cristalino pelo reflexo da luz solar.
Alexandros apareceu atrás dele, os passos elegantes e precisos sobre o aço do convés. A voz foi suave, mas firme:
— Adam...
Adam parou.
Alexandros se aproximou mais, até estender a mão e tocar levemente o ombro do humano, fazendo-o se virar com lentidão.
— Eu sei que você não disse nada quando Merlin comentou sobre a responsabilidade... mas é óbvio. Está remoendo isso desde que se levantou da mesa.
Adam respirou fundo, os olhos pesados.
— Não posso deixar de me sentir responsável. — respondeu. — A verdade é que sou.
Ele virou-se completamente, o tom mais ríspido agora, frustrado.
— Eu criei o Núcleo Arcanum, Alexandros. Eu criei a ferramenta que Adrian vai usar pra acabar com tudo. Se eu tivesse... se eu não tivesse sido tão obcecado em provar meu valor, em seguir os planos dos meus pais, em ser o “futuro” dos Altharion… nada disso teria acontecido. — concluiu amargamente. — Nada.
Alexandros o escutou em silêncio. Depois, falou com clareza:
— Adam, escuta. Você tentou mudar o mundo pra melhor. Como todos nós. Se não fosse com o Núcleo, Adrian teria encontrado outra maneira. Você sabe disso. Alguém que quer se autoproclamar um “Deus” é o tipo de pessoa que queima o mundo para construir o próprio trono com as cinzas.
Adam desviou o olhar, os punhos cerrados, o corpo tenso.
— Não é culpa sua, Adam. — disse Alexandros com mais firmeza. — É dele. E nós vamos pôr ele no chão. Custe o que custar.
Adam respirou fundo, os ombros pesados. Caminhou até a borda do navio e apoiou os antebraços contra o metal frio, olhando o mar aberto se estender à frente. Seus olhos se fecharam devagar, a cabeça baixa.
O som das ondas quebrando contra o casco do navio preenchia o silêncio tenso entre os dois, como se o mar tentasse apagar a gravidade das palavras recém-ditas.
O cheiro salgado do ar, misturado com o leve odor metálico da embarcação, era quase reconfortante. Quase.
Adam, ainda apoiado na borda do convés, exalou lentamente antes de mudar de assunto com naturalidade forçada, abrindo os olhos lentamente.
— E... Caesar? Anastasia? Como eles estão?
Alexandros notou a tentativa discreta de Adam escapar da própria dor. Seu olhar demorou-se alguns segundos na face do humano, lendo mais do que as palavras ditas. Mas decidiu respeitar aquele gesto.
— Anastasia está bem... — respondeu com suavidade, ajeitando uma mecha azulada atrás da orelha antes de continuar. — Ou, pelo menos, do jeito que ela consegue estar. Desde que o nosso pai faleceu, ela se afundou de vez nas artes. Pintura virou tudo pra ela. Entrou num grupo artístico de Cinderhelm e praticamente mora no estúdio agora. Vira e mexe recebo convites para exposições... e convites pra ser modelo também, mas... — ele deu uma risadinha breve, abafada. — Eu sempre recuso.
Adam manteve-se calado, escutando atentamente. Um pequeno sorriso melancólico escapou por um instante em seus lábios ao imaginar Anastasia com pincéis na mão, uma forma tão delicada de lidar com o luto.
Alexandros voltou o olhar para o horizonte, a brisa batendo levemente contra seu rosto e esvoaçando levemente seus cabelos.
— A distância da nossa mãe só tornou tudo mais... fragmentado. Depois que ela assumiu a GoldenCoal sozinha em Eldorwyn, raramente temos notícias. Mas, pensando bem... talvez isso seja o melhor.
Adam ergueu as sobrancelhas sutilmente.
— Melhor?
— Sim. — respondeu Alexandros, sua voz agora mais contida. — Mesmo se ela estivesse lá, duvido que tornasse a casa mais suportável. Talvez até mais miserável.
Adam assentiu com lentidão, compreendendo mais do que as palavras diziam.
Mas o silêncio não durou muito. Alexandros suspirou e disse, quase como se estivesse se preparando para mergulhar:
— Caesar e eu... estamos passando por algumas dificuldades.
Adam virou o rosto para ele, atento.
— Que tipo de dificuldades?
Houve uma pausa. O elfo ponderou, e então decidiu abrir o jogo.
— Após seu desaparecimento, Blackwell agiu rápido. Rápido demais. Foi como se já soubesse que aconteceria, como se estivesse esperando uma brecha.
Alexandros cruzou os braços, os olhos apertados contra o vento.
— Ele comprou lotes imensos ao redor de Cinderhelm. Montou fábricas, chantageou empresários, puxou o investimento pro Núcleo Arcanum com força. Quando os seus pais receberam os direitos do projeto, ele se aliou a eles. Em troca? Um lugar no Conselho das Máquinas. E conseguiu.
Adam arregalou os olhos, o sangue gelando.
— Ele tem mesmo esse nível de autoridade, mesmo entre os conselheiros?
— Não é à toa que até hoje ele nunca foi preso por sonegação, Adam. Blackwell já é consolidado lá. — corrigiu Alexandros. — E sabe qual foi a primeira empresa na mira?
Adam sentiu a resposta antes dela ser dita.
— EosMist. — concluiu.
Alexandros confirmou com um aceno lento, tenso.
— Ele nos ofereceu uma proposta indecente. Queria comprar 75% da empresa em troca de "garantir nossa sobrevivência" no novo mercado que ele mesmo está erguendo. Caesar quase o chutou da refinaria. Eu também não escondi meu desprezo. Mas... a verdade é que ele sabe o que está fazendo. E nós estamos perdendo.
O silêncio voltou, pesado como chumbo.
Adam encarava o chão do convés. A dor em seu peito não vinha apenas do que fora feito com sua criação, mas do impacto que isso estava tendo nas vidas das pessoas que importavam a ele.
— Nós vamos consertar isso. — disse Adam por fim, a voz firme, ainda que baixa.
— Eu espero. — respondeu Alexandros, encarando o mar. — Porque se não fizermos, não vai sobrar nada pra consertar.
Adam continuava debruçado na borda do convés, observando a linha tênue entre o céu e o mar, onde nuvens densas ainda resistiam à luz dourada do início da tarde. Alexandros se aproximou mais, os braços cruzados e a capa longa balançando suavemente com o vento marítimo.
— E então... — Adam começou, sem desviar o olhar. — Como pretende impedir Blackwell de conseguir ainda mais vantagem?
Alexandros soltou uma risadinha seca, inclinando levemente a cabeça.
— Eu já cuidei disso. — respondeu com uma ponta de orgulho. — Escrevi para minha mãe. Pedi que entrasse em acordo com as famílias Lysandra e Ardanis. Se conseguirmos firmar o tratado, a EosMist vai se expandir pra Eldorwyn. Vai dividir o mercado com a GoldenCoal. É arriscado, mas pode salvar nossa pele.
Adam arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Você mandou uma carta pra sua mãe? Achei que... depois de tudo...
— Eu também achei. Mas estou apostando que ela ainda se importa mais com a sobrevivência do nome Carbone do que com a raiva que tem de mim.
Adam assentiu, respeitosamente. Mas Alexandros então mudou o tom e o foco, inclinando um pouco o corpo em sua direção.
— Mas... isso tudo é o de menos agora. O que eu quero saber mesmo é... — seus olhos percorreram o porte físico de Adam com uma expressão entre espanto e curiosidade — … como você ficou tão, tão…?
Adam ergueu uma sobrancelha, divertido com a hesitação do elfo.
— Grande?
Alexandros estreitou o olhar.
— Forte. — corrigiu, sem vacilar. — Eu vi aquele martelo que você deixou no compartimento de carga. Aquilo não é uma arma comum. E antigamente... você não conseguia levantar nada daquele porte com uma mão só.
Adam sorriu de canto, um suspiro pesado escapando logo em seguida.
— No futuro... depois que Adrian ativou a máquina, o mundo desmoronou em questão de dias. Eu participei de diversas incursões. Perseguições. Defesas desesperadas em Cinderhelm e nos arredores. Runeforge foi sendo engolida aos poucos. Não havia escolha, Alexandros. Ou eu me fortalecia até o limite, ou morria. Treinei meu corpo até o colapso, e o martelo... bom...
Ele estava prestes a contar a origem do objeto, quando...
BREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEHHHHHH!!!
O som estrondoso do apito do navio cortou o ar como uma navalha, seguido de um rugido de vapor que sacudiu até o chão metálico sob seus pés. Ambos se viraram bruscamente.
— AAAAAAAAAAHHHHHHHHH???!!!! — gritou Alstroemeria, saltando no susto.
O jovem fada pulou tão alto que se jogou instintivamente nos braços do primeiro ser próximo — que, por azar ou destino, era Koryu, recém-saído da parte interna do navio.
O nocthyriano arregalou os seis olhos, pegando Alstro com uma mão no quadril e outra nas costas, segurando-o com surpreendente delicadeza, apesar do susto.
— O que significa isso? — perguntou, confuso e ainda processando a situação.
Alstro piscou, percebeu onde estava e seu rosto ficou da cor de um morango. Imediatamente se soltou.
— N-Não foi por querer! Me assustei! — disse, virando de costas para esconder o rosto enrubescido, ajeitando as asas com pressa.
Ao fundo, Porto estava no painel de comando do navio, girando o leme com uma mão e bufando de tanto rir da própria travessura.
— Cês tinham que ver a cara que ele fez! — dizia, quase caindo da cadeira. — Parecia um gato molhado!
Koryu bufou, limpando a poeira da roupa com um tapa.
— Pois isso não vai ficar assim. — disse o nocthyriano, já se encaminhando para a cabine do capitão.
— Epa, pera aí. FOI PRA RIR, CALMA! — Porto dizia pelo megafone, antes de uma confusão generalizada e abafada ser ouvida instantes depois.
Adam e Alexandros trocaram um olhar cúmplice. O momento de tensão se dissolvia com um riso mútuo e sereno, pelo menos por ora, nas pequenas loucuras do recém-formado grupo.
[.]
Enquanto isso, do outro lado do cruzamento King-Queen.
O enorme navio de guerra cortava as ondas com precisão cirúrgica, projetado para velocidade e discrição. No centro da câmara de comando, sob a luz artificial arroxeada dos painéis e do chão envernizado em negro metálico, Adrian Paxton estava diante de uma mesa holográfica. Seu olhar era gélido, calculado. Seus dedos entrelaçados repousavam diante do peito, e sua voz, quando falou, foi cortante como uma lâmina.
— Chegaremos em Cinderhelm um dia antes do previsto.
Um murmúrio contido se espalhou entre os presentes.
— Mérito de Null e Celindra. — ele continuou, com um breve aceno de cabeça para ambos. — Estratégia pura combinada com conhecimento de terreno. Um ajuste que pode parecer mínimo, mas será essencial.
Celindra Draeven, de braços cruzados e postura irretocável, assentiu com um leve sorriso, seus olhos esmeralda cheios de orgulho. Ao seu lado, Null não expressou nenhuma reação, mesmo por baixo de sua máscara de gás, além do leve tilintar dos sensores nos ombros.
Adrian então ampliou o holograma, revelando os detalhes da cidade de Cinderhelm, linhas de energia pulsando por todo o mapa até se fixarem em um modelo tridimensional de uma máquina reluzente: o Núcleo Arcanum.
— Cipher interceptou transmissões internacionais por rádio. Uma nova produção de máquinas alimentadas por energia pura. Auto-sustentáveis. Instáveis sem a tecnologia certa... e absolutamente essenciais para o que pretendo fazer.
Nerion Thorne, sempre elegante, passou os dedos pelo queixo, com um tom de voz teatral.
— E por que exatamente precisaríamos... disso?
Antes que Adrian respondesse, Miló se inclinou sobre a mesa, com seu costumeiro desdém afável.
— Porque se ele não usar isso pra estabilizar aquela geringonça ancestral dele, nós viramos poeira cósmica. E eu prefiro morrer lutando, não como dano colateral de um curto-circuito.
Celindra, focada, cruzou o olhar com Adrian.
— E a Runa Ancestral? Se essa máquina chama tanta atenção assim, os olhos estarão voltados pra Cinderhelm. Um furto já criaria comoção entre as autoridades. Dois em sequência... pode ser suicídio.
Adrian então deu um passo à frente, o holograma tremeluzindo e fundindo as imagens do Núcleo com a Runa Ancestral.
— Não teremos outra chance. A cidade não está preparada para uma extração dupla. O Conselho está distraído, a indústria está em conflito interno, e a Guarda de Ferro não está lá tão no controle assim. — ele sorriu de canto dos lábios. — Estão na coleira justamente por causa da guerra comercial que está havendo.
O som abrupto de uma palma enorme batendo contra a mesa reverberou por toda a sala de comando como um trovão. A estrutura metálica tremeu sob a força, e até mesmo o holograma titubeou por um momento.
— Isso é tedioso! — rugiu Fjorn, os olhos faiscando de impaciência. — Esperar, infiltrar, sussurrar... Isso não é guerra, é serviço de ladrão! Eu quero lutar! Quero esmagar ossos, não códigos de acesso!
Miló, que até então parecia mais entretido em cutucar uma de suas unhas com a ponta da adaga, soltou uma risada seca.
— Pela primeira vez, e talvez a única, o brutamontes tem um ponto. Uma boa distração não apenas manteria os olhos longe da runa e da máquina, como daria a mim algo pra me entreter. Ficar quieto por muito tempo me deixa... Inquieto.
Nerion endireitou-se na poltrona elegante feita sob medida para seu porte e requinte. Com a voz carregada de ironia e polidez, comentou:
— Uma manobra tríplice... Não é uma ideia absurda. Minha filha é mais do que capaz de lidar com a obtenção da Runa, e o meu mais velho pode cuidar da tal máquina. Tudo sob controle.
Mas a resposta de Raizo veio em tom baixo, firme e direto.
— Não tente tomar decisões por mim. Se for necessário, defenderei este navio, mas não participarei de algo que não endosso.
O clima congelou por um breve segundo. O olhar de Nerion se tornou cortante, como lâmina mergulhada em veneno.
Adrian, no entanto, ergueu uma mão, cortando qualquer possibilidade de conflito.
— Sua posição é compreendida, Raizo. E não será forçado a nada.
Ravyn, sentada preguiçosamente em cima do encosto de uma cadeira próxima, girou uma adaga nos dedos antes de responder com uma respiração profunda.
— Farei o que meu pai julgar melhor.
Adrian então levantou-se lentamente, olhos passando por todos os presentes, estreitando-os levemente.
— Já determinei os esquadrões.
Com um gesto, reaparece a projeção dividida em três frentes. Adrian aponta com precisão cirúrgica:
— Retaguarda: Raizo, Nerion, Null e Cipher. Vocês manterão o navio seguro, coordenarão comunicações e serão o último bastião, caso algo dê errado.
O mapa se divide novamente, um brilho vermelho surgindo no setor industrial da cidade.
— Distração: Fjorn, Miló e Freya. Vocês causarão um caos pontual. Explosões, ruídos, entre outros. Se possível, envolvam as forças locais e o próprio setor privado.
Por fim, o ponto mais profundo do mapa de Cinderhelm brilha em dourado, com as linhas energéticas da cidade convergindo ali.
— Objetivos primários: Celindra e Milena virão comigo. Com o conhecimento de Celindra sobre a localização exata do cofre, a Runa de Cinderhelm será nossa. Ao mesmo tempo, Ashka e Ravyn devem se infiltrar na sede da produção da máquina. Usem tudo que tiverem, mas com o máximo de velocidade. Na pior das hipóteses, estaremos zarpando para Stormgard em 1 hora após tudo isso se desenrolar.
Ele então desativava o holograma logo após, ajustando sua gravata elegantemente.
— Era apenas isso. Estão dispensados por hoje. Treinem bastante e também descansem, ainda há dias de preparo pela frente.
A sala de comando foi esvaziando lentamente, cada membro da equipe se retirando conforme as ordens finais de Adrian.
Fjorn foi o primeiro, soltando uma risada explosiva de satisfação ao bater o punho nas costas de Miló, que apenas apertou os dentes com os lábios fechados. Outros seguiram sem cerimônia. Um a um, sombras poderosas desapareceram pelos corredores metálicos da embarcação.
No corredor mal iluminado, com lâmpadas oscilando sobre a tubulação exposta, Nerion caminhava com passos elegantes, frios, quase silenciosos — até parar abruptamente ao lado do filho.
Sua mão, pálida e longilínea como a de um cadáver, segurou o antebraço de Raizo, que até então permanecia com as mãos nos bolsos, a cabeça levemente baixa.
— Raizo. — disse Nerion, o tom melódico e envenenado como sempre — Sua falta de colaboração está se tornando um problema cada vez mais evidente. Como ousa me afrontar na frente de-... deles?! — O veneno na última palavra era quase físico.
Raizo levantou o olhar, os olhos semicerrados com um brilho gélido. Com um movimento brusco, livrou o braço da posse do pai.
— Não esqueça, Nerion... — disse, deliberadamente recusando-se a chamá-lo de pai — Estou aqui por ela. Só por Ravyn.
Nerion estreitou o olhar, mas Raizo continuou, sem se intimidar.
— Desde que se envolveu nisso, só consegui ver o quanto você está cego pela sua sede de vingança. Essa parceria com Adrian? Com aqueles psicopatas? É insana. E você sabe disso. Mas vai seguir adiante mesmo assim, desde que pareça “nobre”.
Fez aspas com os dedos, carregadas de sarcasmo.
— Eu não confio nele, nem um pouco. Nem nos outros. Principalmente você. — O olhar de Raizo agora era puro gelo. — Ravyn já está destruída demais por sua causa. Eu jurei protegê-la... mesmo que isso signifique ficar no caminho de todos vocês.
O corredor permaneceu em silêncio por um momento, enquanto Nerion mantinha o semblante erguido, embora seus olhos denunciassem o desdém crescente.
Com um estalar audível dos lábios, como quem saboreia o próprio desprezo, Nerion virou o rosto com elegância teatral.
— Então suma da minha frente, criança... antes que eu esqueça que você ainda tem o sangue dos Thorne correndo nessas veias fracas.
Raizo não respondeu. Apenas se virou calmamente e seguiu seu caminho, os passos ressoando cada vez mais distantes, enquanto Nerion permanecia parado, envolto pelas sombras pulsantes do corredor do navio.
[.]
Enquanto isso, de volta à sala de comando.
As luzes frias refletiam contra os painéis metálicos, projetando tons azulados no chão de aço.
Adrian, sozinho, ou achava que estava, manipulava os painéis holográficos com precisão cirúrgica. Os dados se deslocavam como constelações digitais, brilhando com gráficos, coordenadas marítimas e fluxos energéticos das Runas Ancestrais.
Um leve chiado sutil, como um sussurro eletrônico na estrutura da nave, mal foi notado por ele.
— Mestre.
A voz ecoou doce, baixa, e assustadoramente próxima.
Ele parou. Não de susto, Adrian não se assustava fácil, mas de cálculo. Seus dedos cessaram o movimento, os hologramas congelando no ar.
Ele se virou devagar. Milena já estava ali, envolta em sombras, como se houvesse surgido da própria estrutura do navio.
— Preciso falar com você. A sós. É importante. — disse ela, com o olho direito claramente intenso.
Adrian girou o pulso e os painéis se recolheram, retraindo-se de volta à mesa de comando. Ele cruzou os braços, o tom ainda casual:
— Se for sobre o plano, já revisei as projeções. Null e Celindra ajudaram a otimizar a rota, a sincronização de tempo está perfeita. A margem de falha não passa de 3% no pior cenário. Você está se preocupando à toa, Milena.
Ela deu um passo à frente. As luzes da sala não pareciam tocá-la direito.
— Não é disso que estou falando.
Adrian arqueou uma sobrancelha, descruzando os braços lentamente.
— Então... do que se trata?
Milena o encarou por longos segundos, como se pesasse cada palavra. Então, finalmente, com um tom calmo, porém inconfundivelmente sério, ela disse:
— É sobre Adam Altharion.
Adrian piscou, confuso.
— Eu sei que ele vai tentar impedir você.
Milena se sentou diante de Adrian, como solicitado, as pernas cruzadas, postura impecável, olhar envolto em mistério — mas firme.
Adrian, por outro lado, mantinha os olhos cravados nela como se quisesse decifrá-la por completo. Ele encostou os cotovelos sobre a mesa de aço e entrelaçou as mãos diante da boca.
— Explique. — disse, quase num sussurro, o tom grave.
Milena respirou fundo. Mentiu.
— Durante minha última meditação, tive uma visão. Vi o Núcleo Neural Arcaico. Ele foi destruído por Adam Altharion. Vi o futuro que está tentando alcançar... se despedaçando por causa dele.
Por um instante, o tempo congelou no rosto de Adrian. Seus olhos se arregalaram com intensidade contida. Não de medo. Mas sim de êxtase. Porque aquilo significava duas coisas.
Primeiro: o Núcleo Neural Arcaico se tornaria mesmo funcional.
Segundo: ele havia chegado tão perto, tão perigosamente perto, de realizar o impossível.
O olhar dele se perdeu por um momento, voltando-se para o reflexo embaçado na superfície do painel desligado.
“Foram décadas. Anos de estudo, dor, isolamento. De ver a estrutura do mundo colapsar sobre si... e não poder fazer nada. Eu lutei. Eu me levantei. Eu construí. Peça por peça, circuito por circuito. E agora... tudo será esmagado por um maldito fracassado da elite cinderhelmiana?!”
Ele piscou.
— Você tem certeza absoluta do que viu, Milena? — A voz dele soou mais dura, o tom entrecortado.
Ela não hesitou.
— Tenho.
Um longo silêncio se instaurou.
Adrian passou as mãos devagar pelo cabelo, os dedos deslizando pela cabeça como se quisesse arrancar os próprios pensamentos. Respirou fundo.
E então, ergueu-se subitamente.
BAM!
Ambos os punhos colidiram contra a mesa de aço com força brutal. O som reverberou pelas paredes da nave. Os painéis vibraram.
— Isso NÃO vai acontecer. — Seus olhos agora queimavam. — De jeito nenhum.
Ele então olhou fixamente para Milena, o tom agora tomado por uma frieza que gelaria até ferro fundido:
— Encontre-o. Não importa como. Não importa onde. Ele não pode chegar vivo a Cinderhelm. Faça o que for necessário.
Milena se levantou com a mesma calma de sempre. Curvou levemente a cabeça, uma reverência silenciosa, e desapareceu entre as sombras do corredor, sem fazer som algum.
Adrian, por fim, deixou cair toda a máscara.
Ele gritou.
Rugiu como uma criatura presa em uma armadura de carne, e então começou a destruir tudo ao seu redor. Os painéis, as prateleiras, os suportes, tudo sendo quebrado com as mãos nuas.
Ele queria moldar o mundo para que ninguém mais precisasse sofrer.
Mas agora ele era só mais um homem diante da possibilidade do fracasso.
[.]
A iluminação suave do salão de jantar oscilava levemente a cada movimentação do mar.
As janelas reforçadas de aço deixavam passar apenas o mínimo da luz da lua que se refletia nas águas, e o leve som do motor do navio era abafado pelos painéis metálicos que os cercavam. A mesa retangular de refeição, ainda com um pano simplório, estava coberta por latas abertas, utensílios improvisados e pratos mornos com porções de carne processada, arroz seco e vegetais conservados.
Porto mastigava com o rosto inclinado para o lado, testando a resistência de uma das carnes com os dentes, enquanto Alstro ao lado dele fazia cara feia para uma ervilha quase inteira em seu garfo.
Adam, de braços cruzados, recostado na cadeira, olhava com uma expressão curiosa para o piloto da embarcação.
— Porto... — começou, comendo um pouco mais devagar — Você disse que é de Cinderhelm. Mas nunca ouvi falar de você. Não que eu me gabe de conhecer todo mundo, mas...
Porto ergue uma sobrancelha e engoliu antes de responder, pegando um pedaço de pão endurecido com a outra mão.
— Eu cresci perto da costa, mais pra sudoeste, sabe? Pescadores, ferro-velho, sucata de navio... o glamour dos salões de gala nunca chegou lá. Todo o meu conhecimento sobre os barões da indústria cinderhelmiana vem dos motores dos navios que carregam a fortuna deles. — ele dá uma risadinha nasal, jogando um olhar para Adam. — Me diz uma coisa... a família Altharion já construiu navio?
— Não. — Adam respondeu simplesmente.
— Aí está a sua resposta — retruca Porto com um sorriso. — Só conheço quem tem relação com hélice, casco e propulsão.
Alexandros solta um leve riso abafado pelo canto da boca, empurrando seu prato levemente à frente.
Alstro, curioso como sempre, se inclina um pouco mais.
— Você já foi capitão de um daqueles navios imensos de transporte de carvão? Os da GoldenCoal?
Porto solta uma gargalhada curta e espirra algumas migalhas de pão.
— Capitão? Nem nos meus sonhos mais bêbados. — balança a cabeça, divertido. — Você precisa de papelada, testes, aprovação dos inspectores da Marinha... e uma carteira de favores pendentes mais longa que o convés. Eu era carregador. E depois, mecânico. No fim, fugi com uma embarcação que consertei sozinho.
Astrid, que havia comido com eficiência robótica, mas sem descuido, levanta os olhos da própria tigela.
— Onde está Koryu?
O ambiente dá uma leve esfriada. Alstro aponta vagamente com o garfo para cima.
— O vi no convés. Estava encostado no mastro. No escuro. Quieto.
Porto franze o cenho.
— Esse maluco vai congelar lá. Tá um vento de matar.
Alexandros então intervém com naturalidade, como quem sabe de onde vem a dúvida.
— Na verdade... isso é bom pra ele. Os nocthyrianos são biologicamente sintonizados com a escuridão. Mas não a de Nocthys, mas a nossa. Isso os reequilibra e regenera. — ele cruza os braços, olhando para cima, como se imaginasse Koryu ali em cima, imóvel. — Estudei sobre isso em Eldorwyn, na Academia Arcana. As sombras sobrenaturais de Nocthys os consome. Aqui fora, longe de lá, é como se voltassem a respirar.
Adam assente lentamente, em silêncio.
Por um momento, todos ficam quietos. Só se ouve o barulho do motor distante, e das colheres raspando as últimas porções dos pratos.
Do lado de fora, o vento sopra firme. E no topo do convés, mesmo invisível àquela cena, Koryu observava o céu estrelado refletindo em seus seis olhos.
O mar calmo balançava suavemente a embarcação, quase hipnótico.
Koryu, parado na proa do navio, sentia o corpo inteiro vibrar com a presença do manto da noite. Seus seis olhos estavam abertos, a pele fria e a respiração leve. Mas então…
Um arrepio rasgou sua espinha.
Uma presença. Não, diversas.
A brisa mudou. O silêncio foi cortado pelo som seco de correntes tensionadas. Ele girou o rosto em direção ao leste — no negrume, chamas surgiam.
Tochas. E então, como serpentes famintas, nove arpões dispararam da escuridão, brilhando entre os clarões. Koryu sacou sua katana de carne, seus olhos e os da arma se acendendo em sincronia. Com precisão quase animal, cortou quatro dos projéteis, mas os demais se cravaram no piso metálico do convés com um estrondo ensurdecedor, fazendo a estrutura do navio estremecer.
Lá embaixo, no salão de jantar, as colheres e pratos foram derrubados. Adam foi o primeiro a se levantar, a cadeira caindo atrás de si com um baque. Astrid puxou A.G.U.A imediatamente para escanear a origem do impacto. Alstro, em puro reflexo, correu para trás de Adam, escondendo-se sob seu manto, os olhos arregalados de medo. Alexandros já subia os degraus, ajeitando os cabelos azulados presos no vento.
Porto rapidamente tratou de subir de volta para a cabine de controle para ver o que estava acontecendo e já conduzir o navio, agarrando o megafone manual e pressionou o botão, sua voz retumbando:
— EI! QUE PORRA VOCÊS ESTÃO FAZENDO NO MEU NAVIO, SEUS FILHOS DE UMA CADELA DESMAMADA?!
Do outro lado, por entre a cortina da escuridão, um enorme navio de aparência carcomida, adornado com crânios, teias de aço enferrujadas e placas improvisadas de ferro, se revelou: Um navio pirata. E sobre ele, dezenas de figuras grotescas, rindo, gritando, urrando — um pandemônio.
Implantes mecânicos vibravam. Canhões de mão carregados com pólvora faiscavam em meio às trevas. Homens e mulheres de dentes apodrecidos, braços de ferro, olhos substituídos por lentes vermelhas e torsos costurados de forma assimétrica — cada um mais deformado que o outro.
No centro da multidão, erguendo-se sobre a borda superior, o Capitão se revelou.
Um homem alto, de pele curtida pelo mar, cabelos presos em tranças sujas, implantes metálicos visíveis por baixo da pele, e uma maçã verde quase inteira sendo devorada lentamente entre as falas. Sua voz ecoava como trovão entre os mastros quebrados:
— Esse navio... — ele morde mais um pedaço da maçã, cuspindo parte da casca — … Agora pertence a mim. Capitão Bone Garp, o Triturador de Ossos! — Ele ergue a espada enferrujada embutida em um braço de prata, apontando para o grupo no convés. — Não é todo dia que um brinquedo de ferro cinderhelmiano aparece na costa sem escolta. E com tão pouca gente? Ahhh, é o que eu chamaria de generosidade divina!
Um coro de gargalhadas sujas o seguiu. As correntes dos arpões começaram a ranger — sinal de que logo iriam puxar o navio para abordá-lo de vez.
Adam cerrou os punhos. Koryu ajustou a empunhadura de sua katana. Astrid ativou os mecanismos de combate nos braços e pernas. Alexandros sacou sua pistola rúnica discretamente da parte de trás de seu cinto.
Koryu deu um passo à frente no convés, seus olhos — todos os seis — acesos em vermelho vivo, fixos nos piratas à frente.
— Aqueles que ousarem subir neste navio… — sua voz saiu baixa, porém firme como aço — ... Conhecerão a morte instantaneamente."
Sua katana viva, grotesca e pulsante, se ergueu em suas mãos, a carne se retesando, os olhos da lâmina se abrindo ao som de um baque sombrio. Sombras começaram a brotar ao seu redor, se esticando como mãos famintas ao redor dos pés dos aliados.
Do outro lado, o Capitão Bone Garp gargalhou, cuspindo o talo da maçã ao mar.
— Ah, vocês ouviram isso, rapazes? — bradou, zombando — O maldito morcego-... Aranha-... Sei lá o que é um essa porra de seis olhos! Ele quer bancar o profeta da morte! Pois bem... VAMOS PAGAR PRA VER!
Ele estendeu o braço mutilado, coberto de placas de ferro, e apontou para o navio cinderhelmiano, autorizando o ataque.
Com gritos e urros animalescos, a tripulação pirata começou a correr pelas correntes-ponte que conectavam os dois navios, as correntes rangendo sob o peso e a fúria dos invasores.
Adam, ao lado de Alexandros, não hesitou. Sua voz retumbou como um trovão nas costas de todos:
— PRA CIMA!
No instante seguinte, o caos explodiu.
Koryu respirou fundo, assumindo sua posição de combate com a lâmina..
Astrid ativou seus módulos de combate, os braços se reformando em lâminas gêmeas, enquanto A.G.U.A. projetou um escudo de energia para protegê-la momentaneamente.
Alexandros, sacou e ativou a pistola, que passou a brilhar em um intenso azul celeste, carregada e pronta para uso.
Alstro, tremendo, engoliu em seco, saiu correndo para dentro do navio, sabendo que não poderia ajudar nem se quisesse com o tipo de magia que tinha.
E assim, cada um avançou de forma independente.
Com um estalo hidráulico, os braços de Astrid se bifurcaram, reformando-se em duas lâminas longas e reluzentes, cada uma adaptada para cortes de velocidade extrema. Seus olhos digitais varreram o campo, detectando movimentação periférica a 0,3 segundos de impacto.
— A.G.U.A., luz!
O pequeno caranguejo metálico ergueu as pinças, emitindo um flash branco e cortante da lente superior. Três piratas que se aproximavam pela retaguarda foram cegados por segundos cruciais.
Astrid girocutou de lado, as lâminas em seus braços passando rente aos rostos dos inimigos como um raio metálico, rasgando carne e aço com precisão cibernética. Os corpos desabaram ainda com os olhos esbugalhados, tentando entender o que os atingiram.
Logo à frente, sete piratas a cercaram, armados com cimitarras, rifles de pólvora e garras artificiais. Astrid ativou o protocolo tático, sua visão se tornando uma enxurrada de dados: ângulos de ataque, tempos de reação, distâncias de golpe.
O primeiro veio pelo flanco direito, defendido.
O segundo, uma estocada baixa, redirecionada com a ponta da lâmina.
O terceiro e o quarto atacaram simultaneamente, bloqueados em cruz com o antebraço esquerdo.
— Sequência identificada.
Astrid se lançou num giro baixo, a lâmina da direita varrendo o espaço frontal em um corte horizontal tão limpo e veloz que mal foi visto. Os sete piratas estacaram, por um segundo inteiros, até que jorros de sangue explodiram em sincronia de seus torsos e gargantas. Caíram juntos como bonecos.
A.G.U.A ativou seu campo de energia: uma bolha refratora de luz azulada que expandia uma barreira de defesa ao redor de Astrid. Com o escudo ativado, os braços dela se transformaram novamente, reconfigurando-se em duas luvas de ferro colossais, com dedos reforçados e um núcleo vermelho-pulsante em cada palma.
— Modo: impacto!
Com um rugido metálico vindo dos próprios membros, Astrid disparou à frente como um juggernaut, ombros baixos, braços erguidos em defesa. Os piratas tentaram detê-la — má ideia.
Cada um que encostava em seu escudo era jogado para o ar como bonecos de trapo, os ossos estalando, espadas voando, sangue jorrando como chuva carmesim. Ela investia com brutalidade inumana, esmurrando o chão e gerando uma onda de impacto que quebrou as ripas do convés, fazendo outros recuarem em terror.
A voz digital de A.G.U.A soou em seu ombro:
— Impacto: 86% de eficácia. Recomendo continuar.
Astrid apenas sorriu de leve, o brilho rubro de seus olhos intensificando, antes de disparar contra o próximo grupo.
No momento em que os primeiros piratas pisam no convés pela corrente, Koryu já estava no centro, sua katana pulsante de carne viva respirando com ele. Olhos semelhantes aos seus brilhando no aço vermelho da lâmina.
O primeiro pirata mal tem tempo de levantar a clava: a katana cortou em linha reta da cintura até o ombro. Outro vem de lado com uma lança, Koryu a decepa junto com os dedos do homem.
Uma terceira lâmina, atrás, ele bloqueia com a parte plana da arma e gira o corpo, arrancando a cabeça do atacante em um movimento só.
O som seco da carne sendo dilacerada se mistura ao baque dos corpos no chão molhado de sangue. Alguns piratas hesitam. Outros — tolos — avançam.
— Venham. — Koryu sussurra.
Dentre os piratas, um se destaca: roupas mais finas, florete reluzente, postura firme. Um esgrimista.
Koryu ergue uma sobrancelha. Esse seria diferente.
O esgrimista parte em passos curtos e rápidos, com estocadas controladas, alternando ritmos e ângulos. Koryu se vê forçado a recuar, ajustando a postura, um pé atrás do outro, assumindo uma guarda defensiva mais baixa. O florete era rápido, difícil de prever — uma arma de precisão.
Por um instante, o esgrimista sorri ao ver uma brecha na guarda de Koryu — e estoca, direto no rosto.
— Lento.
Os seis olhos de Koryu piscam em sequência. Ele desce o corpo em um giro de meia-lua fluido como fumaça, o florete passando por cima de seu cabelo. Ele desliza sob o braço estendido do inimigo, sua katana já em movimento.
Shhhh-CLACK!
O braço do esgrimista voa no ar. Antes mesmo que o pirata possa gritar, Koryu se ergue atrás dele e faz um único corte lateral na altura da mandíbula.
A metade direita do rosto do esgrimista cai como manteiga, revelando dentes expostos, os olhos tremendo de incredulidade antes do corpo colapsar.
Estalidos soam ao longe, piratas com pistolas cinderhelmianas disparam ao verem o massacre.
Mas Koryu não recua.
Em vez disso, ele corta o ar e as balas.
Cada disparo se choca contra a lâmina, gerando faíscas e pequenas ondas de choque, que empurram os atiradores para trás com a própria força dos disparos redirecionados.
Uma última bala, desviada, atinge um pirata ao lado, bem entre os olhos.
Koryu gira a katana para trás, a lâmina viva se retorcendo levemente de prazer. Ele olha para os piratas, com os olhos brilhando de vermelho.
— Alguém mais?
Enquanto isso, o outro lado do convés estremece com os gritos dos piratas, e o som surdo de ossos sendo esmagados por punhos que não conheciam misericórdia.
Adam não tinha nem sequer pensado em pegar seu martelo no compartimento de carga. Ele não precisava.
Um pirata tenta se aproximar por trás. Adam gira o tronco, acerta um cruzado de direita tão seco que o homem gira no ar e cai inconsciente sobre um tonel.
Outro corre de frente com uma espada curta, Adam abaixa o corpo, agarra-o pelo tornozelo e o arremessa girando contra dois outros, como se fosse uma marreta humana. O trio voa por cima do parapeito e desaparece na água escura abaixo.
Dois vêm pela esquerda. Um direto, outro com uma barra de ferro. Adam desvia do primeiro com o tronco, agarra o segundo pelo colarinho e o arremessa de ombro no chão, com impacto o bastante para fazer o convés vibrar.
Direto de direita no queixo. Uppercut no estômago. Cotovelada na têmpora.
Três piratas, três corpos no chão.
No meio da confusão, um soco atinge Adam em cheio no rosto. Um soco bem colocado.
O homem é grande. Careca. Ombros largos. E com olhos que evidenciaram ser experiente.
Adam vira o rosto lentamente. O impacto não deixou marcas, só um leve tombo para o lado.
Ele franze o cenho.
— Você vai se arrepender disso.
Sem tirar os olhos do careca, Adam estica o braço para o lado e dá um tapa com as costas da mão em um pirata que vinha por trás, o homem voa como um boneco de pano para fora do navio.
— Vamos ver se você é tudo isso, grandalhão! — o pirata ruge, abrindo os braços e partindo pra cima.
Os dois se chocam no centro do convés como feras. O som da colisão ressoa alto, com os dois trocando socos que faziam a madeira ranger.
Adam acerta um gancho. O careca devolve com um cruzado.
Adam recua. O pirata aproveita: tackle. Os dois rolam pelo convés, chutando tonéis, derrubando cordas, até Adam ficar por baixo.
— AGORA VOCÊ VAI-!
O careca o prende num mata-leão. Puxando com toda força. Pescoço travado, ar escasso.
Adam rosna com os dentes cerrados, e então o morde.
— AARGHHH!!! — o pirata grita, soltando involuntariamente.
Adam gira no chão, dá um cotovelaço brutal no fígado do homem e, com um grunhido de força, o agarra pelo casaco e o lança por cima do ombro.
O homem atravessa um monte de caixas de mantimentos, os estilhaços voando. Farinha e frutas voam no ar, cobrindo parte do convés.
Respirando pesado, Adam reergue o tronco e cospe no chão. Suor pingando, mas firme.
O careca, coberto de cacos, se levantando cambaleante. Olhos em fogo, antes de voltar a avançar contra o inventor.
Alexandros se movimenta rápido, sua capa azul ondulando ao vento marítimo, o suor misturado à brisa salgada no rosto. Com os olhos fixos nos inimigos do outro lado do convés, ele ergue a pistola rúnica com a mão direita, firme, precisa.
Bang! Bang! BZZZRR!
Cada disparo é uma pequena explosão de magia comprimida. Um pirata é atingido no ombro, o braço dele se despedaçando em faíscas azuis. Outro tem o peito perfurado, o projétil o atravessando e atingindo mais dois atrás. O calor arcano faz a madeira ao redor dos acertos arder em brasas breves, deixando rachaduras fumegantes no casco do navio pirata.
— Eles estão armando os canhões! — Alexandros grita para os demais, recuando até uma das muretas laterais e se jogando atrás dela, recarregando sua pistola com um novo cilindro, com movimentos ágeis e treinados.
Koryu degola outro adversário com um golpe limpo. Seus seis olhos tremeluzem ao captar o movimento em uníssono: as bocas dos canhões se acendendo.
— BAIXEM-SE! — ele ruge, girando sua katana carmesim no ar, preparando o contragolpe.
Um canhão dispara direto em sua direção. Koryu gira o corpo com maestria, e sua lâmina parte o projétil no meio, as duas metades da bala caindo ao seu redor com um baque surdo, ainda fumegando, mas impotentes. A sombra viva que o envolve vibra com o esforço.
No lado oposto, Astrid escaneia o projétil vindo até si em milésimos.
“Ângulo 73º. Força: moderada. Tempo de impacto: 2.1 segundos.”
Sem perder tempo, ela salta com impulso hidráulico nos pés por cima da bala de canhão, pousando com perfeição a poucos metros de distância em uma pose perfeita, lâminas reativadas em cada braço. A explosão atrás dela parece cena de cinema.
Enquanto isso, Adam segura o brutamontes pirata desacordado pelos cabelos, ergue-o como um troféu ensanguentado… e então, de relance, vê o canhão vindo na sua direção.
Sem recuar, sem pensar, ele solta o inimigo no chão e, com as duas mãos, agarra a bala de canhão.
O impacto estala seus músculos como cordas.
Ele então arremessa o canhão de volta com brutalidade, como se jogasse uma bola de ferro. O projétil voa girando no ar e atinge o navio pirata com força devastadora, arrancando um dos canhões da base e fazendo três tripulantes voarem para trás, gritando.
Estilhaços caem no mar como chuva de ferro.
Adam gira o pescoço, olhando para os companheiros.
— Eles vão recuar ou naufragar em breve! Precisamos de distância! Tirem os arpões do convés! — ordenou ele, pegando um dos arpões presos no piso de ferro com uma das mãos, o braço repleto de veias de esforço, antes de tirar da superfície e arremessar de volta para o navio de madeira.
Koryu tratou de cortar o que estava mais próximo de si, tal qual Astrid, e com Alexandros disparando contra as correntes do restante, resultando no navio cinderhelmiano balançar assim como o de madeira, começando a criar distância entre estes com um alto som de ranger metálico.
Já no interior do navio, Alstroemeria corria pelo corredor metálico do navio como se sua vida dependesse disso. E de fato, dependia. Seus pés leves quase não tocam o chão, mas o som estridente das botas pesadas dos cinco piratas atrás dele o fazem gritar:
— AAAAADAAAAAM! ALGUÉM?!? PORTOOOO?!?
Ele chega à cabine do capitão e, com um impulso dos ombros, arromba a porta, quase sendo recebido com um pedaço de metal direto na cabeça.
— AHHH! — Alstro grita, desviando por milímetros.
— O que você tá fazendo aqui, porra?! Quase te matei! — esbraveja Porto, com o ferro ainda em mãos.
— Tentando não MORRER, obrigado por perguntar!!!
— Estamos na mesma então!
A porta explode para dentro e cinco piratas entram, arfando e com sorrisos nojentos nos rostos, espadas prontas.
Porto engole em seco, erguendo o pedaço de ferro como se fosse uma espada gloriosa.
— Um passo a mais e eu... e eu...
— Você o quê? — diz um dos piratas, debochando, enquanto os outros avançam.
Um dos piratas mais grotescos, com cabelos desgrenhados e dente de ouro, para diante de Alstro, lambendo os lábios.
— Você é... bonitinho, hein? — ele sussurra. — Quase pensei que fosse uma mocinha. Mas não tem problema... Aceito todo tipo. Podemos fazer isso do jeito fácil... ou do difícil.
Alstroemeria arregala todos os olhos e grita de puro horror.
— FICA LONGE DE MIM!
Num impulso de pura adrenalina, ele afunda os dois pés direto no joelho do homem, que se dobra com um grito agudo, a perna virando quase num ângulo inumano.
— AAAAAARGH, MEU OSSO, SEU FILHO DE UMA PUTA!
A queda do pirata faz os outros quatro se distraírem por um segundo.
E é tudo que Porto precisa.
Com um urro, ele esmaga o crânio de um deles com o ferro, sangue espirrando contra os painéis metálicos da cabine. Outro recebe uma rasteira, bate com o queixo no chão e desmaia com o impacto. O terceiro é chutado com força, tropeça no pirata de joelho quebrado e desaba em cima dele.
Agora restava um. O último pirata, o mais experiente entre eles, trava espada contra metal com Porto, faíscas voando.
— Você sabe mesmo usar essa coisa, marujo de merda?
Porto ri, nervoso.
— Não, mas posso te bater com ela do mesmo jeito!
E com isso, os dois iniciam um duelo improvisado dentro da cabine, enquanto Alstro corre até o paneil e agarra o megafone de emergência. Sua voz, embora trêmula, explode por todo o navio com o som de uma sirene logo em seguida:
— AAAADAAAAAM!!! AJUDAAAAA!!! ELES TÃO TENTANDO NOS MATAR AQUI EM CIMA!!! OU PIOR!!!
Lá fora, no convés, o som é como um trovão vindo do alto-falante. Adam imediatamente se vira com a expressão endurecida:
— KORYU! CABINE, AGORA!
Koryu não hesita. Seus seis olhos se expandem brevemente, focando no interior do navio. Em menos de dois segundos, ele desaparece como sombra entre as frestas metálicas, deixando para trás apenas o tremor de sua velocidade e um rastro de energia sombria.
Com os navios agora se distanciando após os arpões serem cortados, Adam aponta diretamente para o navio inimigo com um comando seco, cheio de fúria:
— ASTRID, DERRUBE AQUELE NAVIO!
— Com prazer. — responde Astrid, já com os olhos iluminando em tom avermelhado.
Seus dois braços se reconfiguram com cliques metálicos e vapor escapando, fundindo-se em um único canhão de energia de alta voltagem, com A.G.U.A ativando o estabilizador de calor. O zumbido crescente ecoa, um som grave e ameaçador conforme a energia de plasma é carregada.
No navio pirata, o Capitão morde outro pedaço de maçã, até ver o brilho no horizonte.
— Mas que por-...
BOOOOOOM!!!
O feixe de plasma atravessa o casco do navio inimigo como uma lança divina, derretendo madeira, ferro e homens ao atravessar a linha mais baixa da estrutura, o ponto vital do navio.
O navio pirata explode em gritos, fumaça e estalos de madeira pegando fogo, água começando a ser sugada com violência para o interior do buraco causado. O caos se instaura. Piratas mergulham para longe, gritando e abandonando suas armas.
Alexandros, sem perder tempo, continua disparando com precisão cirúrgica, mirando nos pontos de contenção e nos mastros, despedaçando as estruturas secundárias do navio, ajudando na destruição total da embarcação.
Em questão de segundos, o que era uma ameaça se transforma em escombros flamejantes afundando no mar escuro, engolidos pelas ondas.
Fumaça sobe em espirais, luz das chamas refletindo nas águas, e silêncio enfim volta a pairar no convés.
Enquanto isso. Dentro da cabine de comando, o caos continua em alta.
Porto trava os dentes, usando toda sua força para manter o pirata armado longe, segurando com ambas as mãos o braço do inimigo com a adaga. Mas estava perdendo a luta aos poucos, sendo empurrado de costas contra o painel de navegação. O som da lâmina sendo forçada para baixo ressoava ameaçador.
Atrás, Alstroemeria se debate entre o medo e o instinto. Quando tenta se levantar, um dos piratas que achava estar inconsciente agarra seu calcanhar com força. Alstro grita em pânico:
— AI! AI! ME SOLTA, SEU DEMÔNIO!!!
Num reflexo histérico, ele começa a pisotear a cabeça do pirata com os dois pés, gritando a cada salto. As pancadas se tornam tão frequentes que um estalo grotesco ecoa na cabine. Só quando escorrega no sangue espalhado e cai sentado com força no chão, se dá conta de que o homem está morto.
— ... Ai... minha bunda...
O pirata que luta com Porto consegue, por fim, desarmá-lo, jogando o pedaço de ferro longe e empurrando Porto contra a parede. Com um olhar selvagem e a lâmina erguida, ele prepara o golpe final.
Mas antes que ele possa desferi-lo, Alstroemeria pula nas costas dele com um grito de pura adrenalina, envolto em desespero, arranhando o rosto do homem como um gato enfurecido.
— SAI DE CIMA DO MEU AMIGO, SUA MULA BÍPEDE!
O pirata grita de dor e começa a se debater, batendo as costas contra a parede da cabine, tentando se livrar do pequeno furacão loiro grudado nele.
Consegue agarrar Alstro pelos cabelos e o arremessa para frente, fazendo o jovem fada voar por cima de seu ombro e bater no chão de madeira, escorregando até perto de Porto.
Com sangue escorrendo do rosto, o pirata pisa firme em direção a Alstro, erguendo a lâmina para um corte cruel e vingativo...
De repente, uma linha de sangue fina e silenciosa surge no pescoço do pirata.
Ele para. Fica confuso. Toca a ferida com a ponta dos dedos. Vê o vermelho brilhante em sua mão.
— ... Mas o quê…?
A cabeça dele cai para o lado, rolando para perto da mesa de navegação, o corpo logo desabando ao chão com um baque surdo.
Atrás dele, Koryu guarda a katana de carne ainda pingando, com seus seis olhos cerrados num semblante frio. Uma única agitada da lâmina bastou.
Ele estende a mão para Alstroemeria, sem dizer uma palavra.
— O-Obrigado… — diz Alstro, agarrando a mão de Koryu e se levantando com a ajuda dele, ainda trêmulo.
— Não precisa agradecer. Agora, acho que é melhor verificar a situação dele. — Koryu indica Porto com a cabeça, as mãos na cintura.
Alstro então corre até Porto, se abaixando ao seu lado.
— Você tá bem?! Tá doendo muito?! Isso é sangue demais ou é normal?!
Porto geme, colocando uma mão sobre o ferimento no peito.
— Eu já tive piores... Mas se quiser me mimar um pouco, não vou reclamar.
— Eu vou cuidar disso agora mesmo! Só... só não desmaia, tá?! — diz Alstro, já puxando sua bolsinha de ervas do armário de metal mais próximo que tinha seus pertences, tirando compressas naturais e uma pequena ampola de elixir mágico preparado com ingredientes de Zaratharn.
[.]
Alguns minutos após o término da batalha.
No convés úmido e manchado de sangue, Adam e Koryu arremessavam os últimos corpos dos piratas ao mar, um por um, como fardos vencidos.
— Esse é o último deles. Nenhuma presença hostil restante. — disse Koryu, seu tom seco e preciso, os seis olhos ainda varrendo o perímetro por instinto.
Adam tocou o ombro do aliado.
— Fez um bom trabalho.
Koryu apenas acenou com a cabeça, um gesto contido, porém sincero.
Mas antes que a tensão pudesse se esvair totalmente, Alexandros surgiu, ofegante, puxando com uma corda molhada e que algemava o pirata que iniciara tudo aquilo: o Capitão Bone Garp.
— Ele tentou subir pelo outro lado do casco, como uma maldita enguia. — anunciou Alexandros, o olhar severo.
Astrid ajusta os encaixes nos braços metálicos, ativando suas defesas.
— Temos posicionamento, temos vantagem e temos artilharia. Por mim, terminamos isso agora.
O Capitão, ensopado, machucado e com o nariz quebrado, se ajoelha, tremendo, as mãos presas.
— P-Por favor! Não estávamos pensando direito! Eu só... só queria um navio, ouro, uma vida melhor! Não sabia que vocês eram... eram desse tipo aí! Misericórdia, só isso eu peço!
Koryu já havia dado um passo à frente, a mão na empunhadura de sua katana de carne, pronto para silenciar o pirata. Mas ele para no exato instante em que Adam ergue a mão.
Adam caminha em direção ao Capitão.
— Essa era uma rota segura. Ninguém além dos cartógrafos ou navegadores militares conhece esse trajeto. E vocês? Um bando de piratas aleatórios? Como chegaram aqui?
O Capitão tenta articular palavras. Engasga.
Suas pupilas contraem, e ele fica confuso.
— Eu... achei que era só sorte... Mas agora que pergunta... Eu não... lembro porquê. A rota só... parecia certa.
O silêncio gela o convés.
Adam dá um passo adiante, os olhos semicerrados.
— Alguém disse pra vocês virem. Alguém os guiou.
O Capitão encarou-o, sua expressão confusa e incerta.
Até que Adam mudou o tom de voz de maneira que apenas ambos os dois ouvissem.
— Paxton?
O Capitão imediatamente abaixa a cabeça, e quando o faz, seu corpo começa a se contorcer.
Os ossos estalam, a pele borbulha, veias incham como tentáculos internos. Seu pescoço se dobra de forma inumana, como um corpo sendo esvaziado por dentro.
— MAS O QUÊ-?! — grita Alexandros, recuando em choque.
Koryu se move na mesma hora, arrastando Adam consigo.
Astrid se joga à frente do grupo, e A.G.U.A ativa um escudo energético translúcido, envolvendo os quatro a tempo de conter a explosão grotesca de matéria negra, uma gosma grossa e corrosiva que se espalha por todo o convés frontal, sibilando e queimando o metal ao toque.
A massa pulsa por instantes. Quase viva.
O silêncio é sepulcral. Só os estalos do metal corroído quebram o ar.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Alexandros, trêmulo, estava mais confuso do que nunca, quebrando o silêncio.
— O que foi isso...?!
Adam respira fundo. Os punhos cerrados. O maxilar travado.
Ele encara os resíduos escorrendo no chão.
— Então é verdade… Ele também voltou junto comigo.
— E-Espera… não me diga que Adrian…? — Alexandros tentou falar, juntando as peças rapidamente e arregalando os olhos.
— … Ele voltou no tempo também. — Koryu concluiu, cerrando o cenho.
— Correto. — Adam assentiu em concordância. — Ele sabe que estamos tentando impedir o seu “eu” do passado de concluir o plano. Está nos vigiando.
Os outros três olharam para cima, quase como se buscassem vestígios de Adrian em qualquer lugar.
Astrid então implodiu o campo de força, fazendo a gosma negra voar longe e sem os tocar.
— Mas como é possível que esteja influenciando outras pessoas a isso?
Astrid perguntou, olhando por cima do ombro ao maior.
Um silêncio pesado se instala entre os presentes. O céu noturno continua calmo, irônico diante do que acabaram de presenciar.
Adam dá alguns passos adiante, desviando o líquido corrosivo, e observando o luar em frente, franzindo firmemente o cenho, antes suspirar pesadamente.
— Ele está mudando a realidade lentamente. — então, virou-se aos demais. — Limpem essa… coisa. Não queremos ter ainda mais danos ao navio.
Foi a última coisa que disse, antes de começar a caminhar para o interior do navio, mesmo com Alexandros estendendo a mão para tentar tocar seu braço, mas com Adam passando reto e fechando a porta de ferro firmemente atrás de si.
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