III

Percebi que a febre abaixava quando encontrei um sono profundo. Não havia mais imagens perturbadoras – tão reais e, ao mesmo tempo, tão oníricas e confusas. Os gritos que pediam por socorro, bem como o campo devastado pela guerra, finalmente cederam a escuridão, permitindo que o meu corpo desabasse no abismo de vez. Anos pareciam terem se passado, embora soubesse que, na verdade, permanecia naquele quarto a dormir enquanto recuperava meus sinais vitais, estabilizando a respiração e os batimentos cardíacos, restabelecendo uma temperatura corporal saudável, sentindo lentamente as forças retornarem ao meu pulso. Ainda estava muito fraca no geral, sem dúvidas, contudo o risco de morte cada vez mais se afastava de mim. Foi então que um aroma bastante proeminente, semelhante à mirra, penetrou pelo olfato. Aquelas notas perfumadas se espalhavam pelo ambiente com o auxílio do calor da lareira, limpando o ar daquele quarto antes carregado do frio extremo da geada. Talvez já não estivesse nevando lá fora ou talvez a febre havia cessado – pensei, logo após sentir que minha consciência retornava com maior clareza para observar meu corpo desperto completamente.

Desorientada, abri os olhos e tive de esperar para que se acostumassem à luz daquele espaço, pouco a pouco traduzindo o que conseguiam captar com a visão. Os objetos foram tomando formas; texturas e cores voltavam à realidade, me fazendo descobrir, com lucidez, onde estava. E não pude deixar de me surpreender... O quarto era suntuoso, revestido de belas tapeçarias e ornamentos diversos. Os móveis eram como os da nobreza, feitos de madeira maciça. A lareira era enorme, embora houvessem poucas toras queimando – o suficiente para me manterem aquecida de modo aconchegante. Acima dela, pendurado na parede, havia um belíssimo relógio decorado por fios d’ouro, mas seus ponteiros permaneciam parados, talvez por estarem quebrados, fazendo com que eu não pudesse compreender que horas eram. Ao meu lado, numa espécie de criado mudo, jazia numa louça fina a mirra com seu odor característico. Também uma jarra de vidro com água, acrescida de um copo cheio do mesmo líquido.

Nesse instante, me veio à memória o breve diálogo que tivera antes de desmaiar pelo esforço. Com aquele que havia me resgatado durante a nevasca... O que estava fazendo ali, vagueando sozinho enquanto o branco de sua túnica se misturava com o vazio, com o nada? Seria ele o senhor desses luxuosos móveis e tapeçarias? Aliás, teria sido o responsável por me propiciar tamanho conforto durante minha recuperação neste quarto? Mais uma vez, infinitas perguntas voltavam a bombear meu coração com ansiedade, enquanto a lembrança gentil de seu vulto retornava ao momento em que me oferecera o copo com água. Para, logo em seguida, me recordar da máscara prateada, assombrosa, ocultando a sua verdadeira face. Além do azul de seus olhos – os quais expressavam a mesma doçura improvável que sua voz.

Não sabia qual era o seu nome. Entretanto, tinha a certeza de que, sem o seu generoso amparo, possivelmente eu já não estaria mais aqui. Um sorriso discreto crispou-me o canto dos lábios, mesclando o sentimento de gratidão por ter sido salva com uma curiosidade quase infantil sobre sua pessoa. Tolice a minha tentar negar que, em verdade, eu gostaria muito de vê-lo mais uma vez – agora lúcida, preparada para lhe fazer as tantas perguntas que martelavam minha cabeça. Porém, de repente, um amargor tomou conta, dissipando essa indiscrição. “Não posso me aproximar de ti”, ele havia dito, com toda certeza. Sim, podia me lembrar exatamente: o tom de sofrimento engasgado em sua voz polida, a apreensão constante em não se deixar ser visto por mim, a insistência em permanecer oculto pelas sombras que o fogo da lareira fazia no quarto e o reluzir de sua máscara, que denunciava seu trágico destino.

Meu anfitrião, de alma tão piedosa, em realidade estava buscando ao máximo esconder sua provável condição. Condição esta que, diferente da minha, não possuía cura, não iria melhorar. Inesperadamente, a voz de uma intuição surgiu de dentro de mim. Era como se eu, no fundo, fosse familiar a antigas lendas que narravam o suplício daqueles fadados a perambular pelos campos destruídos pela guerra. Aqueles que padeciam de um silencioso mau, cujo tempo é o seu senhor – alastrando horrendas marcas pela pele e músculos ao longo de vagarosos anos. Um mau conhecido por muitos como a lepra. Tateando em meus pensamentos, pude me recordar, de alguma maneira, sobre os boatos da chegada insidiosa dessa praga a tantas cidadelas, infligindo duras penas ao destino de inúmeras crianças e demais pessoas vulneráveis. Alguma vez devo ter ouvido o ditado que “aquele que não se sente doente, está em perigo”, pois a lepra muitas vezes era descoberta tardiamente, apenas quando boa parte dos membros, como mãos e pés, já estavam comprometidos pela dormência que lhe caracterizava. Com o passar do tempo, feridas se abriam nesses lugares, se espalhando pelo resto do corpo, deteriorando-o numa tortura que não possuía qualquer pressa pela morte.

Um arrepio, então, congelou minha espinha – ao lembrar da cruel sensação de ansiar pela morte e obter, em troca, somente o desespero. Não saberia precisar a quanto havia permanecido na nevasca, sentindo meus ferimentos coagularem, o corpo chacoalhar em extremos tremores e minha alma suplicar pelo fim imediato da hipotermia. O frio congelante é intensamente lento e cruel – mas jamais se comparado ao horror da lepra. Engoli em seco, sentindo-me zonza de leve. Por que meu destino havia cruzado com o lastimável destino daquele senhor? Por que aqueles olhos azuis, responsáveis por me doarem um resquício de esperança para lutar por minha sobrevivência – numa ocasião em que eu apenas pensava desistir –, mereciam um agouro tão nefasto?

Foi quando, num sobressalto, ouvi a porta do quarto se abrir devagar. Minhas bochechas ruborizaram instantaneamente. Sem dúvidas se tratava de meu anfitrião chegando, presumivelmente para checar como eu estava. Ele ficaria aliviado em me encontrar desperta? Havia tanto a lhe perguntar! Mas como não ceder ao sentimento mesquinho de pena à sua condição? Como agradecê-lo propriamente, sem deixá-lo envergonhado por conta de sua aparência? O que deveria fazer?! Nada daquilo no fundo importava, pois eu era sua hóspede e lhe devia a minha vida – pensei resoluta, calando o desconforto em meu estômago quando, finalmente, aqueles olhos azuis adentraram o quarto, assustando-se ao se depararem com os meus.

Poucos segundos separavam a porta, onde ele ficou, da cama que ainda acolhia o meu corpo, deitado e enfraquecido. Contudo, pareceu-me uma verdadeira eternidade. Seus passos foram cautelosos, arrastando nobres vestimentas de linho branco enquanto buscava as sombras que tocavam parte de uma das paredes do quarto. A máscara prateada permanecia ocultando por completo sua face – de menos os olhos –, lhe dando um ar inexpressivo. Não mais trajava a túnica com capuz, tendo a substituído por um tipo de turbante, feito de um pano fino, também da brancura da neve; além das mãos estarem totalmente vedadas por duas luvas de mesma cor. Uma figura melancólica e angelical, que me afligia a cada novo instante com o seu silêncio perene.

— Perdoe-me, meu senhor, por ainda não estar em condições de me ajoelhar. – Disse de supetão, sem compreender bem de onde retirava coragem para dar voz àquelas palavras. Mas continuei invicta, tentando encontrar alguma maneira para que ele se aproximasse realmente de mim: — Sei que não há gestos suficientes para externar tamanha gratidão por ter salvo a minha vida.

— Tua cordialidade é mais que o suficiente. Sou eu quem lhe peço perdão por fazê-la presenciar minha abjeta condição. – Ele sibilou, tristemente doce como da primeira vez em que o ouvira, ainda em meu delírio febril. Percebi, de relance, que seus olhos me analisavam bastante preocupados. Mas não dei a devida importância – minha irritação por considerar que talvez estivesse fazendo-o se sentir inferior falava mais alto. Precisava, imediatamente, contornar aquela situação.

— Não há nada que se desculpar, eu imploro. – Ruborizei ao dar conta do quão entrecortada eu havia soado naquele momento. Meu coração parecia entalado na garganta. – Se não fossem os teus cuidados, muito provavelmente estaria morta agora. – Prossegui, querendo ao máximo evidenciar que estava verdadeiramente agradecida. E, sobretudo, que não me importava com sua aparência! Sua resposta não tardou a vir – muito embora aparentasse estar mais sombria:

— Receio que não esteja completamente recuperada ainda. – Ele me disse, pausando em seguida como se fosse um enorme desafio encontrar as palavras adequadas. – É realmente um acontecimento ter sobrevivido àquela nevasca, ferida dessa forma...

Só assim compreendi porquê seus olhos permaneciam preocupados. Direcionei os meus rumo aos curativos em minhas mãos – para então constatar que elas continuavam sangrando. Com dificuldade, movi o lençol que me cobria, revelando mais sangue ao redor das roupas brancas que vestiam o meu corpo. Haviam muitas faixas, também manchadas de vermelho, protegendo uma ferida aparentemente profunda – que começava pela cintura até alcançar a região do meu dorso. Além de arranhões e hematomas menores ao longo dos braços e pernas.

O vermelho que assombrara os meus sonhos não era uma ilusão febril. Ver o meu sangue, nesse momento, me bombardeou com reminiscências – e de novo pude ouvir os gritos de desespero pedindo por socorro, a sensação do corte das espadas e o prazer que sentia ao rasgar corpos com suas lâminas. Como também vi a brancura da neve sendo maculada por aquele cenário de guerra – sendo maculada pela violência de que eu teria sido capaz...

Senti meu corpo vacilar, enfraquecido, tentando renegar o amargor daquelas lembranças agora tão pungentes, tão reais. Tinha a certeza de que iria desmaiar outra vez. Porém, para a minha completa surpresa, me deparei com aqueles olhos se aproximando, apreensivos.

— Preciso estancar o sangue de novo. – Sua voz continuava doce, ainda que expressasse um tom de urgência. Inspirei ao máximo, notando que as mãos enluvadas desenfaixavam as minhas rapidamente. As feridas latejavam de maneira insuportável. – Imagino que o desconforto agora seja muito, mas por favor, tente segurar sua respiração. – Seus olhos suplicaram, como se compartilhassem da mesma dor que eu sentia naquele momento. Às escondidas, fitei seu olhar durante longos segundos, quando assenti com sua orientação. Me comovia esta postura caridosa – em especial o temor de que eu pudesse contrair sua doença devido a nossa proximidade. Entretanto, meu nobre anfitrião sequer poderia cogitar que minhas mãos haviam sido manchadas com muito mais sangue. E o quão indigna eu era das suas atenções.

Nossa repleta mudez preencheu o quarto, fazendo com que um embaraço pesasse sobre os meus ombros. As mãos dele prosseguiam com o trabalho, habilidosas, limpando e suturando os cortes com precisão – enquanto eu continuava a analisá-lo, prudente. Sua máscara cobria totalmente o rosto, emoldurada pelo lenço do turbante. Não conseguia ver seu nariz, sua boca ou orelhas, tampouco a cor dos fios de seu cabelo, se era curto ou longo. O único resquício de pele se mostrava ao redor dos olhos – pálida e com indícios da enfermidade num estágio severo. Fugi de seu olhar em vários momentos, aproveitando a fraqueza de meu corpo como desculpa. Embora soubesse, no fundo, que estava a me interrogar em silêncio. Eu me sentia decepcionada por aquela covardia – e por imaginar que ele poderia me interpretar da forma errada. Não estava envergonhada por ele ou pela sua aparência – e sim envergonhada comigo mesma. Por todo o horror que poderia ter feito, trancafiado nas profundezas de minha confusa memória.

— Vire-se, por favor. – De repente, sua voz fez cessar a espiral de pensamentos que me levavam para longe dali. Permaneci imóvel, tentando situar aquelas palavras. Ele teria se sentido humilhado? Encarei aquela máscara, como que ansiando por alguma resposta – ou perdão. Quando todo o tempo do mundo pareceu se esvair no exato momento em que o azul de seus olhos finalmente veio de encontro aos meus. Atordoada, me pus de costas num giro, para esconder algumas lágrimas que ameaçavam surgir. Minha mente rodopiava, em seu interno conflito.

— Consegue lembrar como se feriu dessa maneira? – Ele me perguntou, relutante. Senti seus dedos tocarem levemente a extensão da ferida em meu dorso, limpando-a com delicadeza. Meus olhos arderam, tentando segurar o choro. Eu não conseguia me recordar. Não sabia quem era, ou o que havia feito realmente – mas toda vez que me forçava revisitar aquelas cenas, mais sentia nojo de mim. Quem eram aqueles cavaleiros armados com espadas e carabinas ao meu lado? E por que achávamos no direito em tirar aquelas vidas, em ferir aquelas pessoas?! A amnésia, passageira ou não, era irrelevante. Porque nada poderia me eximir dessa responsabilidade. Nada apagaria o sangue que eu sabia, no fundo, que havia derramado...

— A neve... – Sussurrei, querendo desaparecer por completo. – Eu só me lembro da neve.

— Compreendo... – A mansidão de sua voz permanecia inabalável. – Por vezes, quando lembranças morrem, nos é permitido um recomeço. Ainda que sob um outro destino. – Nesse momento, pude jurar que “ouvira” uma espécie de... Sorriso? Virei-me novamente ao seu encontro, investigando a máscara inexpressiva. E um profundo acolhimento vindo de seus olhos... Sempre tão gentis.

— Como pode ter tanta certeza? – Indaguei, exasperada. Não, eu não era digna de redenção. O passado queimava dentro de mim. Contudo, mais uma vez aqueles olhos me embalaram num silêncio contemplativo, lendo minhas expressões com interesse.

— Porque você veio de longe. – Ele respondeu por fim, terminando os curativos para então se afastar, preparando-se para deixar o quarto. Tentei me mover, ainda que a dor insistisse atrapalhar os meus planos. O que ele queria dizer com “vir de longe?!”

— Espere! – Implorei, num sobressalto. – Eu não entendo!

— Os teus olhos, menina. Eles não são daqui. – Os seus, repletos de azul, fitaram os meus uma última vez, antes de sair pela porta. E me dei conta de que já não sangrava mais.

Notas finais
Coloquei a foto do personagem Rei Baldwin IV, do filme Cruzada, de Ridley Scott, porque me serviu de inspiração para o background básico e aparência do nosso anfitrião mascarado. O Rei Baldwin IV existiu de verdade, governou Jerusalém entre 1161 a 1185 - e durante este período foi diagnosticado com lepra, doença incurável para aquele período histórico. Mas, como será visto ao longo dos capítulos, a história do nosso misterioso anfitrião não será igual ao do Baldwin - tanto da vida real, quanto do filme. E muito será também descoberto sobre quem é a narradora - e o seu passado. Abraços!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.