Arcana Magic Story - A Redenção de Sally Parkers
4 Capítulo Final – A solução de Sally Parkers
– Gosta de camomila ou preto? – o Gorila God me oferece os dois saquinhos de pano com uma linha.
– Como? – pergunto sem entender muito que estava perguntando.
– Chás. São dois tipos de chás, querida. – responde o grande macaco.
– Não, obrigado. Estou indisposta. – digo desconfiada, afinal, sabe lá que esse sujeito pode fazer comigo.
O gorila negro se move com agilidade entorno da mesa toda decorada e muito bem sortida de pães, queijos e jarros de todo tipo de líquidos que desconhecia a variação de cores. Pelo aroma são todos adocicados.
Engraçado é o jaleco branco que ele veste. Dá impressão que deseja ser uma coisa que ele não é. Racional, inteligente ou qualquer coisa do tipo que quer aparecer. Todavia, ele é genial, mau e maquiavélico. Olhar nos olhos dele é como fosse estranhamente, humano. Mesmo se achando divino em certas horas.
– Insight. Você disse... O que é isso? – pergunto novamente, pois havia recusado responder a princípio.
– Insight é um termo psicológico para arrebatamento criativo ou perceptivo sobre uma situação ou autodescoberta. É isso que teve quando abraçou a sua inimiga. – explica o Gorila comendo uma torrada coberta de geleia.
Ah, entendi.
– Já que eu fiquei maluca é óbvio que todos se afastaram... – concluo precipitadamente.
– Não, Senhorita Parkers. Eu ordenei que se afastassem de você. – diz o símio.
– Por quê? – pergunto.
O gorila bebe o seu líquido quente na xícara de uma forma delicada.
– Não quero que a contaminem. Queria que a sua decisão fosse à mesma que os voluntários de minha teoria. O Efeito Títere. – responde tranquilamente.
– Quer dizer que me usou novamente para mais uma experiência? – pergunto incrédula e furiosa.
– Sim. Existe uma história chamada “Mito da Caverna” a qual um filósofo chamado Platão afirmou que todos nós estamos presos num mundo de ilusão e imagens que não correspondem à realidade. Ou outro filósofo, Rene Descartes, afirmou que não acreditava que todos nós estamos presos sobre os desígnios e caprichos de uma mente maligna. Um mundo de ilusão controlado por um Demiurgo. Acontece que no meu mundo existiram duas formas de “resistência” contra esta visão de realidade. A aceitação e a negação. – diz o Gorila.
– E daí? – disse segurando o meu impulso de avançar no pescoço de macaco.
– A aceitação é admitir que existisse essa força maligna e resolve trabalhar contra ela acreditando que existe uma antítese contra a mesma. Ou a negação, dizer que não existe nada dizendo que tudo é uma grande mentira e a assumir que tudo é uma ilusão criada por nossa mente. – e o macaco dá uma pausa e bebe mais um pouco o seu chá. Você foi de cabeça na primeira opção. Decepcionante, pois até agora não encontrei nenhum negador.
Eu peguei uma faca e tentei enfiar no olho do gorila, mas a minha mão ficou paralisada no ar. Como houvesse uma força segurando o meu pulso.
– Eu te entendo, verdade! Acontece que eu sou a mente maligna que Descartes tanto temia. Para falar a verdade. Você nunca esteve livre. – diz o Gorila tranquilamente mastigando alguma coisa.
Eu me contorço toda tentando me libertar da algo que não tenho ideia do que seja.
– Quando contratei aquele doppellganger e criei os clones dele para substituir vários alunos e professores, esperava que, tendo tantos “heróis”, algum pudesse perceber alguma coisa. Afinal, a Academia Arcana que estão às mentes mais brilhantes deste mundo. Como tantos Deuses e Deusas... Será que, sua infinita sapiência, estas entidades pudessem ver a minha ameaça e o que posso fazer... A minha surpresa foi que não há nada. Só se movimentaram quando eu mesmo matei um daqueles clones. Eu tive que fazer todo o serviço sujo. Descobri uma heroica inocente, vítima de preconceito e jogada num grêmio por ter uma aparência que não condiz com a sua personalidade. Achei isso hilário. – e o gorila alisa o meu rosto com a ponta daqueles dedos inumanos.
– O que vai fazer? Vai apagar a minha memória? Destruir de vez a minha personalidade e me transformar num zumbi ou fantoche? Se não fizer isso, juro pelos Deuses que vou acabar com a sua raça! – grito com ódio.
O gorila dá um sorriso no canto da boca.
– Onde está aquele desapego e perdão que estava dizendo momentos atrás? Eu vou te responder. Eu implantei isso! Em sua memória. Estava utilizando este conceito de enfrentamento para descobrir se você poderia ser a minha antítese, mesmo tendo uma mente inferior. Mesmo assim. Não deu certo. Pois você não tem a entrega ou a paixão dos loucos apaixonados. Você é uma menina organizada e ética. Uma boa menina. Nada mais que isso. – e acaricia a minha cabeça.
Temendo pelo pior, pergunto:
– O que vai fazer comigo?
– Nada.
Fico chocada.
– Como assim, nada?! – exclamo surpresa.
– Isso mesmo, nada. – retruca. Para que vou apagar a sua memória ou fazer qualquer ação que possa te prejudicar? Para mim, você é uma aliada, uma colega de estudos e uma líder ativa e competente. Sei que esta com raiva pelo fato de se sentir usada e indignada por colocar ideias alienígenas em sua mente. Considere que estas experiências são para aprimorar a sua espécie e ajudar este mundo a libertar de futuros tiranos que descubram o magnetismo animal e apliquem em vítimas indefesas. Acredito que uma Nagah altruísta como você agiria de uma forma heroica e lutaria bravamente para libertação daqueles eventuais coitados... – discursa o Gorila que retira a faca de cortar pão de minha mão.
– O que acha que vou fazer quando eu sair daqui? – desafio o cretino.
Novamente o macaco acaricia a minha cabeça como se faz num gato.
– Você vai me vigiar de perto. Pois sabendo que fui ousado o bastante de trocar poderosos magos e feiticeiros por clones, o que eu seria capaz de fazer para impedi-la para preservar os meus segredos? – questiona com um sorriso nos lábios.
Eu me acalmo. Fico olhando para o Gorila como fosse uma serpente pronta para dar o bote. Então eu digo:
– Está bem. Não sou capaz de detê-lo, mas ficarei de olho em ti. E não conte mais comigo para qualquer coisa. – tento negociar.
– Sim. Eu aceito. Pensei que fosse deixar a Academia Arcana... – e sorri.
Fiquei surpresa.
– Eu nunca deixaria os meus colegas, mesmo que não mereçam nas mãos de um animal doente e insano como você! – digo taxativa.
Por fim, o Gorila diz:
– Adoro heroínas altruístas! – e indica a saída do seu laboratório.
Deuses! Como o odeio! Eu saio daquele lugar o mais rápido possível.
No dia seguinte, retonei as minhas atividades como líder do grêmio da serpente. Harumi, como sempre, ajuda na papelada e etc. Durante a tarde recebi um buque de flores e bombons. Pedi para a minha auxiliar permanente para experimentar os bombons.
Estavam bons...
Separei os pedidos de entrada para o grêmio e separei os pedidos de quartos para entregar ao zelador da instituição. Depois recebi os representantes dos outros grêmios referentes aos constantes assédios sexuais dos “Lobos”, ou clube de atividades físicas, esportivas e estéticas corporais. Adverti o líder deles e o mesmo disse que é uma honra ser repreendido por mim.
Ninguém merece...
Cansada, vou para o meu quarto e qual não é a minha surpresa que vejo a líder das “Lâmias”, conhecida como clube de estética e moda, Rachael, esperando com aquelas quatro patas, braços cruzados e olhos fechados.
– Será que posso entrar no meu quarto? – pergunto esperando que ela saísse do meu caminho.
Neste momento, a criatura acorda e olha para mim com um misto de cansaço e excitação.
– Desculpa, Sally! Eu... Eu gostaria de trocar umas palavras contigo. — diz ela um pouco desorientada devido ao sono e o tédio da espera.
– Sobre? – eu espero com os meus braços cruzados mostrando o meu desagrado e cansaço de um dia exaustivo.
– A sua atitude. Naquele dia que fui torturada. – comenta um pouco confusa.
– Eu posso te adiantar que foi uma experiência do Gorila God. Não tenho nada haver com aquilo. – tento me desvencilhar daquela inesperada atitude.
– Eu achei legal aquilo... – disse ela com o rosto avermelhado. Nunca fui abraçada como um ato de perdão. – e fica mais vermelha.
Faço uma cara de indiferença e bato no ombro dela.
– Valeu. Eu fico agradecida, mas agora vou dormir. Tive um dia duro e cansativo. Obrigada, tá? – desvio do corpo dela para entrar em meu quarto.
– Quero sair do meu clube e entrar conselho do grêmio! – diz ela decidida.
Viro o meu rosto na direção dela e iluminada pelas luzes do corredor do alojamento, digo para a lâmia:
– Melhore as suas notas e apresente uma solicitação formal para a Harumi. Vamos fazer uma avaliação e pelo estatuto fazer uma votação para aprovação. – explico de uma forma intimidadora, mas, na verdade, eu decido quem entra no conselho estudantil do grêmio.
– Tudo bem! – responde com um sorriso que nunca vi daquela criatura. Obrigada! – e sai dali como num encanto.
– Pode?! – retruco surpresa depois que a lâmia saiu.
Uma semana depois, com mais membros, o conselho estudantil do grêmio da serpente, não é o mais forte, pois tem muito mais voz ativa politicamente falando. Mesmo sendo representante do grêmio na Academia Arcana, nunca fomos influentes dentro dos outros clubes.
Porem, pela primeira vez, eu fui respeitada. Pelo que sou e não pelo temor do Gorila God.
Em por falar nele. Faz tempo que ele está sumido.
Desde dia do incidente, não tive qualquer notícia daquele macaco nojento.
Até certo ponto isso é bom. Isso ajudou em minha autoestima e afirmação como líder do grêmio da serpente. Fiquei muito feliz que as minhas ideias e decisões estão sendo implantados.
O mais incrível, estou sendo ajudada...
Os membros estão mostrando que são bons auxiliares e estão respeitando as regras e aumentando as notas. Como num sonho...
Até o retorno do Gorila God na sala do conselho estudantil.
– Eu gostaria de apresentar a minha nova assistente do laboratório. O seu nome é Lucy e aqui estão os papeis de solicitação de entrada em nosso grêmio. – e o símio entrega os papeis para mim.
Eu olho para a garota. É uma moça bonita dos seus dezessete anos, loira, olhar distante e muito séria. Noto que fica paralisada e nem pisca os seus olhos. As suas roupas são excessivamente limpas. O seu cabelo é cortado alinhadamente na altura da nuca. A garota não usa nenhum ornamento ou acessório muito comum das garotas de sua idade.
– Uma nova escrava? – pergunto irônica.
O gorila olha para Lucy e reponde para mim.
– Não dá para hipnotizá-la. Os seus olhos verdes são espelhados. Eu acabaria sendo escravo dela. – e ri de sua piada sem graça.
– Ela parece humana... O que ela é? – pergunto esperando uma resposta evasiva do símio.
– Um androide. – retruca sem hesitar.
– Curioso. Sem mistério? Isso é novidade para mim. Vou escrever que é um constructo para o relatório do diretor. – e olho para a garota. Olá? Você fala?
Ignorando-me completamente, a garota diz algo para o Gorila em uma língua que não compreendo.
Sinceramente, nunca vi aquele macaco com medo. Porém, eu o vi realmente assustado. Ele retruca na mesma língua da criatura humanoide e se despede de mim mais rápido que poderia imaginar.
Pela primeira vez, eu pude utilizar um velho truque que a minha nova auxiliar me ensinou para chantagear uns idiotas que costumam assediar as meninas do clube de moda.
Orbe do tempo.
Um artefato que grava e tudo que acontece em numa sala e por Sorte tinha um ativo naquele momento naquela sala.
Não é que gosto de fofocar, mas qualquer coisa que faça aquele Gorila ficar com medo. Atiça a minha curiosidade. Não importa que estejam falando em outra língua, existe o Efeito Pentecostes para isso. Tradução instantânea. E o que aquela nova dupla diz:
“Senhor! Teleportaram seis agentes nível doze neste mundo. Estão comunicando que querem um relatório da missão. O que reporto? Afinal, o senhor me reprogramou...”
O Gorila responde:
“Diga a eles que estou em missão. Tudo que eles querem ouvir.”
Então a garota responde:
“O atraso deve-se as suas experiências behavioristas, idiota.”
E ela dá uma risada estranha.
– O que é dizer com “experiências behavioristas”? Que diabos é isso? – questiono assustada e curiosa.
Infelizmente, a tradução me deixou ainda mais confusa.
– O que eu faço? – começo a pesquisar naqueles livros que tenho em minha pequena e infrutífera biblioteca pessoal.
FIM
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