Arcana

1 Prólogo


Eu sou André Cruz. Tenho dezessete anos, tenho cabelo preto e uso uns óculos. Neste exato momento estou num uniforme escolar. Sou filho de um pesquisador que desapareceu do nada. Sim é estranho eu sei, mas não tem o que eu possa fazer, certo? Apenas posso aceitar isso se é o caso. Sabe, ele sempre me ensinou umas coisas complicadas e que eu nunca pude entender direito, não sei se era maluquice da cabeça dele ou não. Por mais inteligente que eu seja e consideravelmente um dos melhores da escola, jamais passou pela minha cabeça de considerar entender os ensinamentos esquisitos daquele homem que um dia chamei de pai.

Sempre me falava para ler certos tipos de livros e sinceramente os mesmos não me chamavam nem um pouco a atenção. Magia, alquimia, sabe lá o que eram essas merdas. Mas sempre vinha com uma frase, que era: “Leia, e aprenda o que estes livros têm a lhe ensinar. Filho, isto será muito, muito útil para ti no futuro, acredite em mim.”. Sinceramente, por que eu me incomodaria em ler livros que ensinam coisas que nem mesmo são reais? Chegava a ser chato escutar ele o tempo todo.

Nunca tive uma mãe presente. Minha mãe biológica morreu assim que nasci e tive que crescer o tempo todo apenas com esse homem velho aí que falava pra eu fazer todas essas besteiras. No mais, a mulher que o meu próprio pai pediu para que cuidasse de mim não é nem uma madrasta, ela só faz um papel de cuidadora. Por mim ela poderia ir embora da casa, afinal de contas ela foi ordenada a cuidar de mim até eu fazer dezoito, que é literalmente ano que vem. E mais, sei me cuidar sozinho, não imagino que eu precise de uma aleatória para fazer esse tipo de trabalho.

Decido abrir meus olhos e olhando diretamente para cima, aqui estou deitado no terraço da escola olhando para o céu e matando aula. Se bem que eu imagino que já deu o horário da escola terminar por hoje.

Levanto-me e olho ao meu redor, me espreguiço. Quando viro meus olhares para a porta do terraço, vejo uma mulher, é uma das minhas professoras que aparentemente veio me cobrar para comparecer às suas aulas.

— Ah, e aí professora.

— Matando aula de novo, André? Parece que nunca vais aprender a lição...

— É, aprender lição não vou mesmo, até porque não tô comparecendo às aulas. Mas coé, veio aqui por quê?

— Engraçadinho. Bem, vim aqui fumar um pouco. – Ela se aproximava aos poucos da grade, com um isqueiro e um cigarro na mão.

— Mas que ótima influência, a professora fuma! De qualquer forma, já deu o horário e vou sair vazado.

— Fique mais um pouco. Precisamos conversar.

— Conversar sobre o quê?

— Ezequiel, seu pai.

Rolei os olhos para o lado. Eu odeio tocar nesse assunto.

— Ah, qual é. Tanta coisa pra você falar e é isso?

— Seu pai foi um pesquisador historiador que era de certo modo reconhecido no Brasil. Depois que se retirou do ramo, decidiu vir morar para cá. Mas a que custo? Ter uma vida pacífica? E logo depois ele desapareceu, o que é mais confuso ainda.

Olho para o horizonte. Eu diria que ela tem razão. Coço a cabeça.

— Bem, eu não ligo mais pra isso de qualquer modo. Já morreu. – Tento fugir do assunto.

— O que mais me fascina, é que quando anunciaram que havia morrido, não falaram mais nada...

— Bem, quando alguém morre, você a deixa morta, certo?

— De fato, mas, nunca mais vi alguém tocar em suas pesquisas, descobertas. Isso é esquisito.

Me lembro, ele me deixou uma carta no quarto dele e disse que era para eu ler sempre que ele saísse, pois poderia ser a última vez que eu veria ele. Era esquisito, pois sempre me deixava inseguro, e um dia isso de fato aconteceu. Eu nunca li a carta que ele deixou.

— Bem, isso não é importante, não pra mim. Agora, se não for nenhum incomodo eu vou dar no pé. Não consigo aguentar ficar na escola por muito tempo, sabe?

Então sem nem pensar duas vezes, fui-me, ignorei-a se disse algo. Passei pela porta e deslizei no corrimão das escadas. Na hora em que fui prosseguir para descer a próxima escada, esbarrei com alguém. É um rapaz que vagamente lembro sobre, acho que já vi por aí. Tá usando um casaco azul, tem um grande cabelo castanho.

Aparentemente vai ficar no meu caminho.

Ele tá olhando fixamente pra mim.

— Alô? Você está no meu caminho.

— Sim, eu sei disso.

— Então...

— Vim aqui falar justamente com você. E vim agradecer-lhe por ter me ajudado aquele dia com aqueles rapazes. Você veio e deu uma só em cada um, foi magnifico. Sou Hugo Vicente, é um prazer em te conhecer, André Cruz.

— E como sabe o meu nome? Ah, já sei. Alguém te contou. Bem, de qualquer forma eu apenas fiz o que imaginei que fosse o certo. Ajudar um alguém em apuros. Não espere nada de mim pra ser honesto. Agora, se não se importar eu preciso ir.

— Sim, sim, a pessoa em questão que me contou sobre você foi Lygia Almeida.

Já ouvi este nome em algum lugar... Me é muito, muito familiar e isso me assusta. Com certeza coisa boa não é.

Ele passa a mão na minha frente enquanto penso, é como se estivesse tentando me fazer acordar de volta à vida.

— Ah, você está aí? Bem, queria só terminar de citar que Lygia Almeida é aquela garota da sua sala que todos acham ela b...

— Calado, não diga mais nenhuma palavra. Eu sei de quem está falando. Eu não gosto da pessoa em questão, então vou me retirar antes que a mesma apareça.

— Aonde vai? Fugir? — Aparece bem na hora, uma garota de longos cabelos loiros, olhos verdes... É certamente ela, a mais bonita da escola.

— Ih Serjão, sujou...

— Ora ora, se não é o querido André.

— O que você quer comigo, senhorita Almeida? Veio o que, me dar bronca por eu ser um dos mais inteligentes e mesmo assim ficar matando aulas? Você sabe que isso não vai mudar nada meu desempenho.

— Eu acho ridículo como você consegue tirar notas altas e mesmo matando aula desse jeito. É inadmissível esse tipo de coisa... Como é que da certo pra começo de conversa?!

— É que eu sou muuuuito inteligente, saaaabe? — Falo num tom cômico.

— Papo furado. Me diga o seu segredo.

— Não existe segredo. É isso.

Começamos a ficar numa trocação de xingamentos a partir daí, nada relevante pra ser honesto. Nós dois apenas não nos gostamos porque eu a odeio simplesmente por ser a mais famosinha e patricinha desse lugar, não consigo ter paciência com essa menina. E ela me odeia porque sou muito inteligente pra matar aula.

Hugo tentou intervir, mas falhou atropelado por nossas ondas de raiva que temos um contra o outro. De certo modo não tomamos muito de nossos tempos nessa briga, logo paramos, viramos cada um para seu lado, e saímos andando.

Sem saber com quem ficar, o outro moleque apenas seguiu a maldita daquela Lygia.

Eu, por outro lado, desci as escadas para o térreo e me direcionei diretamente para a saída. Não tem muitos alunos no pátio agora assumindo que os que ficaram são apenas por causa de atividades de clubes. Antes que pudesse sair me deparo com mais um humano... Deus, quantas pessoas vão vir encher o meu saco hoje? É o irmão mais novo de Lygia, Carlos. Um cara de cabelo médio e loiro, repartido no meio.

— O que você quer?

— Nooossa, mas é assim que você, ó inteligentíssimo André, vai me cumprimentar? Mas que ruuude!

— Não seja idiota, cara. Eu tô de saída, então bem, tenta não tomar muito do meu tempo.

— Ah, não é nada demais mesmo, eu só vim te perguntar se você quer vir na minha casa hoje. Achei uns bagulhos estranhos e acho que tu vai gostar! Tem tudo haver com as maluquices que seu pai pesquisava!

— Olha... Eu vou ter que recusar. Hoje tô pretendendo ir direto pra casa.

— Pode vir amanhã se quiser! Que que tu acha? Tenho certeza que vais gostar mesmo.

— Amanhã... Okay, serve.

— Certíssimo! Então está marcado. Veeeeeenha para a minha casa amanhã após a aula, e eu te mostrarei os camiiiinhos!

Apenas ignorei essa última parte da frase, parece até um louco... Acho que agora me vou definitivamente embora daqui. Seguindo em frente, passo pelas portas da entrada e estou indo em rumo ao portão. Olho para o lado e vejo uma colega de classe com problemas, bem, não é nada grandioso a meu ver... Ela só aparenta estar um pouco no mundo da lua... Eu deveria checar. Como era o nome dela mesmo? Ah, não que isso importe de qualquer forma.

Me aproximo para ver a situação.

— Opa, tá tudo bem aí? Precisa de ajuda?

— Não, não... Está tudo bem, eu consigo lidar com isso eu mesma.

“Lidar com isso eu mesma”, se ela estava parada, olhando pro nada... Eu me pergunto o que seja. De qualquer forma já que fui rejeitado logo de cara eu apenas vou embora.

Já que não tenho nada pra fazer, eu vou andar pela cidade. São exatamente quatro da tarde, tenho tempo de sobra pra vadiar por aí.

Passo um bom tempo caminhando até chegar ao centro da minha cidade, que é bem pequena pra ser honesto, mas eu gosto assim mesmo. Enquanto ando acabo esbarrando em um homem de terno, peço desculpas, mas parece que fui ignorado... Ei, ele tá usando um terno? Parece ter um encontro importante. Vejo o homem entrar em uma lanchonete... Mas o que foi fazer lá? Agora tem minha curiosidade.

Calmamente avanço para frente da lanchonete e logo após chegar na entrada aquele mesmo indivíduo sai caminhando pela porta de entrada.

Qualé, fica parado um pouco irmão.

O estranho seguiu para a praça.

Continuo seguindo-o.

Do nada sinto como se algo tivesse mudado. A rua não... Não é mais a mesma. Viro-a e dou nela mesma? O que é isso...

Ando mais uma vez até a esquina e a viro novamente. Olho para as placas, casas... O quê?? É tudo igual... Tudo a mesma coisa de antes.

— Oi! Tem alguém aí?

A rua está deserta. Não é possível. Dou olhares para os lados, para trás... Sozinho. Não tem ninguém aqui!

Eu estava seguindo um homem de terno agora a pouco...

Passo algumas horas andando e andando. A onde eu estou? Nem isso sei mais.

Às cegas acabo de chegando em uma praça, é onde exatamente queria chegar. São oito da noite. Finalmente encontro a praça. Lá está o esquisito de terno. Parece estar se encontrando com homens encapuzados. Me sento em um dos bancos e começo a ouvir a conversa deles.

— Tens certeza de que ele é mesmo?

— Absoluta. São pai e filho de sangue, não tem como não ser.

Do que estão falando...?

— Se descobrir que ele é um usuário de magia, elimine-o imediatamente. O filho de Ezequiel Cruz não pode saber de nada disso.

— Tanto que estamos tentando levar os materiais e pesquisas do pai embora, certo?

O quê...

Me levanto e saio andando com pressa para longe dali... “O filho de Ezequiel Cruz”, certamente sou eu. “Levar os materiais e pesquisas do pai embora”, querem passar a mão nas coisas do velho. Só pode ser brincadeira. O que é isso? Eu não entendo, eu não quero entender, isso é confuso.

“Usuário de magia”... A qual foi...

Cheguei à porta da minha casa, é de dois andares mas não é muito grande. Pelo menos dá pra se satisfazer com o espaço que tem. Olho para o lado e vejo um cara se aproximando. Quem é?! Coloco a chave na fechadura e abro com rapidez.

— Ah! Você mora aqui, jovem? — A voz daquele que se aproximava é escutada.

— Sim... Por que a pergunta? — Sem me virar, questiono de volta esse daí.

— Bem, é que sou um colega de trabalho de Ezequiel Cruz e vim buscar umas pesquisas que ele deixou. É para continuar nossos estudos, sabendo que ele morreu.

Estudos, entendo...

— Desculpa mas não posso te ajudar com isso senhor, já levaram tudo daqui remetente aos antigos moradores.

— Ah sério? Certo então. Muito obrigado. — E notei que cara começou a se afastar de mim. Suspirei de alívio, entrei em casa e tranquei a porta.

Corri para a sala e liguei a luz. Peguei a carta de meu pai no balcão da sala e li com pressa.

“Meu filho, André...

Quando estiver lendo esta carta, provavelmente eu já terei partido para uma jornada um tanto quanto inusitada. Mas não posso dizer que voltarei, porque a este ponto já devo ter sumido da face da Terra. Querido filho, por favor, vá ao meu quarto e pegue aquele livro que está dentro de minha velha caixa, é o que está mais no fundo. Este livro é o que lhe ensinará os caminhos e irá te ajudar com o futuro. Me prometa que sairá de tudo isso vivo.

Assinado, seu amado pai.”

Subi as escadas e fui ao quarto de meu pai, agora abandonado. Procuro por sua “velha caixa” e após encontra-la, começo a tirar tudo que havia lá dentro. Apenas para achar isso que ele me pediu. Quando sobra apenas um livro, “Os Caminhos da Magia”... De novo isso? Peguei e desci de volta para a sala. Sentei em uma cadeira e coloquei o livro na mesa da sala.

Começo a ler cada pagina com atenção. Mas definitivamente após muito tempo lendo, não consigo entender nada. Nadinha. Mas ao menos notei palavras chave... Tais como “Familiares” “livros mágicos” “magos pelo mundo todo” “A Origem” “Outro Mundo” “Arcanos”.

São as coisas que mais me chamaram a atenção nisso... O que mais me intriga é essa coisa de Origem. Origem o quê?

A única coisa que entendi fora todos os textos confusos foi que eu posso invocar criaturas de outros mundos com um circulo mágico e uma relíquia. Relíquia... Que relíquia? Algo velho que seja de sua posse... Eu tenho um relógio de pulso do meu pai. Será que serve?

Ah droga, dane-se isso tudo. Sou inteligente, mas não tanto... Talvez eu precise reassistir Catholigelion para entender isso aqui.

Joguei o livro no sofá e me levantei da cadeira, soltando um suspiro. Quanto tempo eu fiquei lendo esse livro? Vejo que perdi algumas horas da minha vida... De qualquer forma eu acho que vou dormir.

Antes de ir, passei no banheiro e tomei um banho, logo escovei os dentes... Andei até as escadas e as subi logo me direcionando para a porta do meu quarto, abro-a e entro. Ligo as luzes e me deparo com a bagunça que havia deixado anteriormente... Bem, vou apenas me jogar na cama e dormir.

É exatamente o que faço.

Mas se bem que...

Irei pensar um pouco sobre certas coisas...

“Ezequiel Cruz”... Meu pai. Como já foi dito várias vezes... Ele foi um pesquisador e historiador. Já foi reconhecido por trabalhos que nem mesmo eu quero saber sobre, mas sei que eram uns bagulhos meio sinistros ai com pedras esquisitas para pesquisas de laboratórios. Depois que se retirou do trabalho, continuou fazendo aquelas coisas... Mas droga, por que continuar se já parou de seguir esse caminho profissional? Nunca vou entender isso. Mas aparentemente procurou sobre coisas místicas, ou ao menos é isso que dá a entender no livro que ele deixou para mim e a carta também. No final de 2018 sumiu misteriosamente do mapa, ninguém o viu em lugar algum, ninguém sabe de seu paradeiro... Isso é esquisito.

“Hugo Vicente”... É um rapaz que se me lembro bem, está no primeiro ano do ensino médio... Dois anos mais novo que eu. Eu o ajudei com um problema... Acho que o garoto estava no meio de uma briga. Apesar de não me mostrar nem um pouco legal fui lá e ajudei-o a sair dessa fria há um tempo e me agradeceu mais cedo hoje... É um jovem calmo e obediente. Ele gosta da Lygia Almeida.

“Lygia Almeida”... É uma colega de sala que por um certo motivo não gosta de mim, motivo esse que é simplesmente porque sou “muito inteligente”... Cara, sério? Eu posso ser arrogante, matar aula, e mesmo assim mostrar uma aura bacana... Eu sei quando é hora de levar a sério ou não... E o pior é que sempre que tiro notas altas essa maldita vem reclamar comigo. Outro ponto que ajuda ela a ser chata comigo é que eu não quero seguir os passos do meu pai. Bem não tenho culpa se eu não me interesso, né?
É uma patricinha, adora gastar dinheiro com roupa e maquiagem... Besteiras. É filha do prefeito da cidade.

“Carlos Almeida”... Irmão da Lygia, e está no segundo... Somos amigos inseparáveis apesar de não combinarmos muito, pois ele não dá muito atenção para estudos e é um dos piores da escola. Apenas meus ideais vão de encontro com os dele... Vou ser sincero, tenta se mostrar forte, mas é fraco demais. Muito sensível que poderia até quebrar.
Odeia a irmã, pois ela recebe toda a atenção do mundo das pessoas e também de seu pai, o prefeito.

A minha professora... Ela é um tanto misteriosa. Seu nome é “Carolina”... A chamamos de Professora Carol. Não tem muito o que falar dessa moça, tem longos cabelos castanhos puxados para um laranja. Olhos pretos... E veste roupas meio vulgares, não totalmente, mas dá pra chamar um pouco a atenção. Fora os detalhes visuais... É uma mulher com muitos segredos e bem rígida.

Eu acho que...

Uh...

Um som INFERNAL começa a tocar. Levanto da cama com extrema raiva.

— AAAH!!! QUEM É, O QUE FOI, QUE QUE TÁ ACONTEC...

É só o alarme do meu celular. O desligo.

Levanto e me troco, colocando o uniforme escolar, logo desço as escadas e faço um café da manhã bem básico.

— Relíquia... Invocação... Ah essas coisas estavam no livro é tudo tão confuso... Uhh... Com quem eu tô falando? Merda.

Faço tudo que preciso fazer, lavo até a louça antes para que eu possa sair de casa e ir direto pra escola. Assim, chegar um pouquinho atrasado não é nem um problema para mim então... Posso tomar o tempo que eu quiser.

Assim que estou do lado de fora, sinto uns calafrios na espinha. Olho para os lados. Não vejo ninguém... Talvez seja só impressão minha.

Ando até chegar ao destino, à escola. São Paulo é uma cidade tão grande que... Bem tomei um bom tempo andando nas ruas dessa grande cidade. Pego o celular para ver a hora e solto um suspiro aflito.

— Ah- O quê?! Vinte pras ooooito?! Preciso me apressar!

Posso matar aula, mas eu pelo menos atendo as primeiras do dia! Corre, corre, corre...!

E se passam mais dez minutos. A primeira aula já foi e a segunda já está rolando a esse ponto... Felizmente consegui chegar ao lugar e entrei em minha classe em uma pressa divina. Os alunos me olham... Surpresos em ver eu atrasado. A professora me ordena a sentar e me dá uma bronca de alguns minutos, “Como pode um aluno tão influenciador se atrasar assim? Que vergonha, meu Deus!” Dá um tempo, velha...

E não é nada demais, o dia passa e as aulas terminam no horário normal que é às 15h40min. Lembro que Carlos queria conversar comigo em sua casa, então decido que vou até lá. Enquanto a minha casa é na Zona Oeste, a dele é na Zona Sul, até que longe viu, tomei um tempo para chegar lá a pé, já que não tenho nenhum outro meio de transporte.

É um casarão grande, toco a campainha e espero alguém atender. O portão abre e... Bem, apenas entro por mim mesmo já que é assim. Tem até que um grande quintal, caminho até a porta da casa e ela abre, está lá o rapaz.

— Yo, André. Você veio, assim como pedi.

— Vamos entrar logo.

— Oh? Tá com pressa?

— Não... É que o dia todo eu fiquei com um pressentimento ruim, como se tivesse alguém me seguindo.

— Ora, pois, então entre. Vou pegar um chá para nós, sinta-se em casa.

Eu entro. Ele vai para onde eu suponho que seja a cozinha... Você é o filho do prefeito, por que diabos tu vai fazer as coisas por si mesmo? Não têm empregadas não? Sento-me no sofá da sala. É um lugar grande...

Após um tempo ele volta com duas xícaras na mão, coloca-as na mesa e se senta na poltrona que está logo ao lado, cruza as pernas e os braços.

— Então, o quê que tu quer comigo?

— Recentemente eu achei um livro esquisito.

— Ah, lá vem...

— Não, não, confia em mim cara, é um livro que fala sobre magiiia.

— Tá, e daí?

— E daí que é real.

— Real?

— Funciona.

— Como assim funciona?

— O livro de magia.

— Não é hora para brincadeiras, Carlos, se for pra ser assim eu vou embora.

— Posso não ser um mago ou não ser promissor para esse tipo de coisa, mas com o livro em mãos eu posso conjurar magias muito facilmente.

Solto um suspiro e me viro, começando a andar para a porta quando... Algo acerta a parede ao meu lado, então olhei... Fez um buraco! O que é isso?! Voltei meus olhares diretamente para Carlos e ele segurava um livro igualzinho ao que o meu pai falou na carta, e estava com as mãos abertas se direcionando para a parede, que acabou de ser acertada... Por alguma coisa esquisita.

— Como... Como é?

— Exatamente... — Está sorrindo de forma maligna. — E você como meu caro amigo, gostaria de aprender também? Magiiia. Há há há.

Esse cara... Então as coisas que estavam no livro do meu pai são... Reais...

— Aaah e sabe o que mais? Eu fiz uma dessas coisas chamada de invocação... Sabe, tá escrito no livro que você invoca um monstro, familiar, sei lá o nome dessa joça. Invoquei uma bela moça que fica se chamando de Rainha de... Rainha de que? Ah, Rainha de Espadas. Parece até que eu tô jogando Truco ou algo assim. Mas então, vai querer ou não? Aprender magia comigo.

Então é isso... Decidi ficar, li tudo que tinha naquele livro com toda a atenção do mundo, é exatamente o que eu imaginei... Precisarei de uma relíquia, certo? Líquido, qualquer tipo, sangue, bebidas... E falar as palavrinhas mágicas... Eu preciso voltar pra casa agora... Eu preciso aprender por mim mesmo sozinho, eu não ligo se ele ficar bravo... Invocar... Arcano... Tudo tá fazendo sentido agora, pelo menos pra mim... Obrigado Carlos, você abriu a minha mente agora.

— Eu vou embora.

— Como é? Fica mais um pouco...

— Não... Tem algo que eu preciso fazer.

— Não seja idiota, André...

— Foi mal aê.

E me direciono imediatamente para a porta, começo a ignora-lo, e ele mesmo tá falando pra eu voltar. Vou às pressas ao portão e o abro, esse sentimento de estar sendo perseguido agora é maior, talvez se eu estiver mesmo, o cara que tá atrás de mim deve ter percebido quem eu sou, pois depois de ouvir aquela conversa ontem a noite na praça, não há dúvidas, estão atrás de mim porque eu sou um potencial mago assim como era meu pai... Talvez fosse por isso que ele desapareceu... Porque foram atrás dele... Com passos rápidos eu desço escadas e pego vários metrôs na tentativa de despistar quem quer que esteja me perseguindo, eu preciso chegar em casa agora.

O metrô para, eu saio de lá e subo correndo para a superfície, e também corro para casa. Chegando a um bairro calmo, está de noite, bem de noite. Eu perdi muito tempo na casa do prefeito, onde está a minha...

Assim que avisto meu lar, vou imediatamente para dentro, na hora em que fui colocar a chave na porta, percebi que estava aberta. Alguém entrou, e não sei quem foi... Eu sinto, tem uma pessoa vindo para cá. Abro a porta e entro com toda a pressa do mundo... Vou à cozinha, pego o vinho daquela velha que cuida de mim, toda a cerveja, eu não tenho nenhum tipo de líquido fora esse e vai ter que ser isso mesmo.

Abro todas as garrafas, latinhas, e despejo tudo no chão da sala formando um círculo mágico... O relógio de pulso, sim, a relíquia... Tá no quarto do meu pai não é? Subo as escadas da casa para o segundo andar e entro nos aposentos do meu falecido velho... Tá vazio.

Vazio...

Já sei...

Vieram aqui...

Aquele homem de ontem...

Levaram tudo...

Tudo...

Ah não, o relógio tá... No meu quarto, deve estar lá... Se aqui tá vazio só... Só tem um lugar pra eu procurar...

Corro, corro, corro até meu cômodo, abro todas as gavetas da minha escrivaninha, tem que estar aqui, tem... Achei o relógio de pulso dourado do meu pai... Isso aqui é uma velharia que eu chamaria de... Relíquia, com certeza.

Ouço um som de janela se abrindo...

Arrepio.

Ajusto os meus óculos e olho para o lado...

Tem um homem ali... Agachado na minha janela...

Tá vestindo uma roupa estranha...

Ele tem uma catana na mão direita...

Saio correndo dali. Fecho a porta com toda a força do mundo e pulo as escadas, caindo em cima do circulo de invocação que estava próximo de começar a secar, coloco a relíquia no meio e me levanto do chão.

— Palavras mágicas... Palavras mágicas... Quais eram...?! AH, lembrei! E é tudo em... Russo... Droga, eu vou ter que falar assim mesmo, errado ou não, vai ter que dar certo! — Solto um suspiro. — O sushchestvo, kotoroye prikhodit iz Potustoronnego mira, ya prikazyvayu vam poyavit'sya, i vmeste my dostignem nashey tseli!

Assim que termino, olho para trás, e ali está ele, aquela coisa que antes estava na minha janela aparece novamente... Eu não sei... Talvez isso seja um dos chamados Arcanos, aquilo que o Carlos citou ter também... Ando de costas, já fiz o que era pra ter sido a invocação... Talvez pela pressa, ou por ter dito alguma coisa errada, eu... Devo ter falhado... Não, eu não vou morrer aqui... Não posso, eu preciso saber mais sobre essas coisas esquisitas... Preciso saber onde está o meu pai...

Caio de costas, de costas para a parede, não há nada que posso fazer... Essa criatura se aproxima de mim...

Eu fecho os olhos.

Escuto sons como se fossem meus batimentos cardíacos...

E os passos daquilo param.

...

“Estou morto?” É o que penso...

Abro os olhos...

Vejo... Outra pessoa em minha frente... Está de costas para mim e de frente para o da catana...

E então começo a ouvir sons de metal se encontrando com metal, os dois sumiram, vejo flashes rápidos de luz... O que... O que está acontecendo aqui?!

Do nada tudo para... E a nova presença de antes que havia aparecido volta a aparecer em minha frente, desta vez olhando para mim.

— A qual é... Me mata logo, caramba...

— Lhe matar é algo que não irei fazer.

Uma voz feminina... É uma mulher? Tá tudo escuro eu não vejo nada... Apenas uma silhueta...

— Não se preocupe o perigo já se foi. Finalizei-o com sucesso, apenas para lhe proteger.

— Quem... Quem é você...?!

As luzes se acendem num passe de mágica. É... É de fato uma garota que tá me olhando. Ela está usando um vestido longo e vermelho, com partes de armadura por cima e estas são douradas... É uma mulher... Com cabelos avermelhados tipo fogo... Longos... Bonitos... Ofusca a minha visão...

— Eu sou a carta Dois de Ouros. Venho de muito longe e estou aqui para protegê-lo, lutar a teu lado, encontrar a saída deste local e procurar a entrada do Outro Mundo. Eu sei quem você é, você é o meu mestre, aquele que me invocou aqui.

Então... Deu certo...?

— Mestre... Você é... Meu familiar? — Falo enquanto me levanto lentamente, encarando-a.

Ajusto meus óculos. Estou todo suado... O que acabou de acontecer aqui na sala da minha casa? E tá tudo intacto mesmo após parecer que tudo ia explodir com esses... Flashes e... Ah! Eu não sei, eu não sei! Preciso de uma explicação detalhada disso tudo... Eu vou ter que perguntar a essa mulher... E é melhor que explique para mim tudinho...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.