Aramis

1 Capítulo Único


Era uma jovem e bela princesa,

A amada de Vossa Alteza,

A todos encantava

Pois de encantos era cercada

Em uma descuidada noite,

Foi levada para um açoite

Chamam-no de Fera

Aquele quem nos levou a Bela

Ah se aquele bardo soubesse a força que suas palavras possuíam, jamais recitaria aqueles versos. Se ele soubesse que um dos velhos bêbados daquela taberna era o seu Rei, então jamais teria ao menos escrito.

Mas escreveu.

E recitou.

Um trabalho infeliz, o de Bardo. Todavia, um ótimo ganha-pão – isso eu lhe garanto. O problema, como dito, estava nas palavras. Porém, nas recitadas acima, o problema estava no ouvinte. Entretanto, como não se pode culpar um Rei, culpemos o Bardo.

Ao ouvir a canção sobre sua trágica história de amor, Rei Adamantine se estressou e saiu do par aos tropeços, o álcool já na cabeça. Mesmo bêbado, mantinha o capuz sob o rosto, com cuidado para não ser reconhecido.

Difícil dizer quem estava pior: o seu orgulho ou o seu cheiro. Talvez o odor fosse apenas uma reação de seu organismo à dignidade corrompida. A cada dia, o governante definhava, assassinado por seus próprios pensamentos.

Ele acreditava em planos de conspiração iniciados após o sequestro de sua prometida. Os rebeldes aproveitaram o atentado para tentar uma reforma política. Até o mais leal dos súditos se sentia incomodado.

Se a futura Rainha, dentro de toda a proteção do Palácio, foi sequestrada, então o que seria dos pobres plebeus?

Com este pensamento, Vossa Majestade tropeçou nos próprios pés e tombou, sem força alguma para levantar.

O destino não foi muito gentil com Adamantine. Ele salvou toda a sua gentileza para Wöo-r.

Levou um tempo, admito, o Rei-Fera sofreu o bastante por sete vidas. Entretanto, quis o destino que um de seus informantes do Reino de Aragon lhe conseguisse uma pintura da princesa.

Não me atrevo a dizer que ele se apaixonou pela imagem, mas convenhamos: Que homem (Mesmo que fera) abriria mão de algo tão belo quando tudo o conheceu a vida inteira foi o feio? Ordenou a construção de um novo e especial cômodo para sua refém. Um que pudesse observá-la quando quisesse, sem ser visto.

Seu lado homem bem queria possuí-la. Mas seu lado fera estava satisfeito em admirá-la.

E assim o fazia, dia após dia. Acordava, tomava seu desjejum matinal e passava o resto do dia em uma poltrona confortável, escondido, apreciando a moça. Vez ou outra levava algumas papeladas de problemas Reais a resolver. Entretanto, sempre que levantava os olhos, podia vê-la. Então o serviço se acumulava para quando ela dormia.

Por muito tempo, Bela esperou pacientemente por seu resgate. Passava horas em meio aos livros disponibilizados. Grande parte estava em línguas estrangeiras, então suas opções eram bem limitadas.

Um dia, Bela percebeu que não estava sozinha.

O fato se deu durante o horário de chá.

Assim que a porcelana da xícara tocou seus lábios, a princesa ouviu um gemido. Pela primeira vez em meses, escutava um som que não fora produzida por ela. Largou a xícara assustada e, sem se importar com o chá derramado, se levantou e começou a procurar pelo ruído.

O ruído se tornou uma voz. A voz a chamava. Guiada pelo som, após dar uma volta no ambiente, voltou para de onde saíra. A voz se intensificou, mas ainda era fraca demais para se ter referência. Certa de que estava enlouquecendo, Bela tornou a sentar-se. Porém, a voz não a deixou, mas mudou o discurso: pedia para olhar para baixo.

Antes de continuar, quero deixar algo bem claro: Há quase sete meses que Bela não via a luz do sol ou contatava qualquer pessoa. Os criados entravam e saiam escondidos apenas para deixar os mantimentos. Sua pele empalidecera e secara, seus cabelos se transformaram em grossos e emaranhados fios, sua voz era rouca e fraca. Desafinava nas palavras simples sempre que tentava usá-la. Ainda assim, o brilho no olhar continuava lá.

E olha... Se de fato a beleza está nos olhos de quem vê, então não há a necessidade de sentir pena da prisioneira. Ela estava no Paraíso.

Voltando, Bela achou a voz. A xícara caída se rachara e agora chorava de dor, pedindo por ajuda. Por um momento, a princesa considerou sua sanidade, entretanto não podia deixar a pobre xícara despedaçada agonizando. Era o seu instinto ajudar aos seres vivos, já estava tomando as dores da porcelana. Pegou-a e a apertou contra o peito, como uma mãe desesperada para acalmar sua cria.

Após alguns minutos, o choro cessou. Bela balbuciou uma ou duas palavras. Mal reconheceu o som de usa voz, mas a xícara a respondeu normalmente. Um tanto envergonhada pela curiosidade, a jovem perguntou como um objeto poderia falar. A resposta foi óbvia e veio do armário: com a boca, oras! Bela riu e deixou de lado todos os seus medos de estar enlouquecendo. Afinal o que tinha de errado em falar com a mobília?

Pouco a pouco, foi conhecendo e se familiarizando a cada um dos móveis. Tinha um cuidado extra. Por exemplo, só se sentava no chão, comia com as mãos e evitava pentear o cabelo. Tudo em prol de seus novos amigos. Fazia de tudo para agradá-los, devido ao fato de temer perde-los também. Não suportava a ideia de voltar a ficar sozinha.

Cada movimento, cada respiração era observada minunciosamente pelo Rei-Fera. É vero que ele não entendia metade do que ela falava, já que desde que redescobrira a sua voz, Bela praticamente inventara um novo idioma. Todavia, Wöo-r não se importava em não entende-la. O fato de apenas poder ouvir aquele som o fazia feliz.

Pela primeira vez, acreditou no Reino Sagrado de Mantaquim.

Sete anos se passaram desde a última vez que ele viu sua prometida esposa. Desde então, não procurara outra para tomar seu lugar. Isso seria admitir que perdeu. E ainda dava a chance de Wöo-r ou qualquer outro Rei toma-la para si. Não. Precisava de vingança. Tomar o que é seu por direito.

Cego de raiva, Adamantine pegou seu cavalo, sem dar satisfação alguma para ninguém – era um Rei, afinal das contas – e mandando qualquer guarda que tentasse pará-lo a Aramis, e saiu Reino afora, a procura de sua honra.

Não precisava parar para comer, era alimentado pelo seu ódio. Não precisava se banhar, a crosta de sujeira formada era a sua armadura. Quando o animal desfaleceu de cansaço, ele continuou o caminho guiado pelos instintos. Se por acaso passava por um vilarejo, repelia as pessoas como um criminoso, sem deixa-las considerar que estavam perto de seu Rei.

Já não era mais Rei.

Não era mais homem.

Um vestido surgira no cômodo. Caía em camadas de seda com várias tonalidades de amarelo e exibia um topázio de mesma cor no seio. A visão fez Bela arfar. Ele a trazia lembranças de um passado distante, do qual não possuía quase nenhum resquício. Era mais um sonho do que uma vida, mas ainda assim era belo.

Tal como Bela.

Não havia uma ocasião especial, apenas a vontade de adorná-la.

Wöo-r riu enquanto a via pedir opinião ao armário e ao candelabro. Ele também já estava familiarizando com os amigos de sua bela, apenas não conversava com eles, já que não podia ouvi-los.

Até mesmo eu duvido de minha capacidade de conversar com móveis, mas quem sou eu para julgar Bela? Se ela era capaz de interagir com tais, então era e ponto.

E eram móveis de um ótimo gosto, isto se podia ver pelo sorriso de Bela após se vestir. A veste ficou um tanto folgada, mas a princesa não pareceu se importar. Ela parava em frente a uma placa de madeira e via seu reflexo ali. Isto a fazia sorria.

Também duvido da minha capacidade de ver algo através da madeira, mas quem sou eu para contradizer alguém como a Bela? Quem sou eu para suspeitar das razões de um sorriso tão raro e genuíno?

Enquanto a princesa devaneava em sua nova aquisição, o mundo do lado de fora girava. E o tempo continuava passando. Em meio a guerras e ameaças militares, aquele cômodo em Rökk era um antro de paz e alegria. Intocável e sagrado. Não passou muito tempo, talvez alguns meses, Bela ainda usava seu vestido novo, quando o Rei Wöo-r foi incomodado em seu momento de calmaria.

Diziam os guardas que um maltrapilho de Aragon perturbava a paz da plebe. E por mais que os rebeldes o atacassem de todas as formas possíveis, ele continuava em pé. Como um morto-vivo. O homem gritava pelo animal que os liderava. O animal covarde que precisava roubar a fêmea dos outros para ter uma.

Ao ouvir este conto, algo parecido com um sorriso surgiu nos lábios de Wöo-r.

E mandou chamar Adamantine ao seu Palácio.

Se por acaso tens o estomago fraco ou problemas com certos tipos de cena, peço encarecidamente que pare de ler agora. Apenas em caso de curiosidade, resumir-te-ei os próximos parágrafos. Em uma palavra: Morte.

Ao notar a deplorável situação que seu inimigo se encontrava, o governante de Rökk se deleitou em gargalhadas, incitando mais a raiva no ainda dito homem.

Homem que estava preso em correntes pelos pulsos, tornozelos e pescoço. E espumava pela boca.

Homem que se igualara à Fera.

Rökk o levou para que admirasse sua amada. Irreconhecível bela amada. As bochechas antes carnudas, eram buracos escuros que delineavam o crânio quase sem cabelos. Fio a fio fora arrancado ou caía por falta de proteína. Os ossos da clavícula que ficavam à mostra pelo vestido mais se assemelhavam a facas pontiagudas. Ela já não ficava em pé, os joelhos enfraquecidos não podiam aguentar tamanho peso.

Todavia, ela ria.

As cordas vocais já não eram capazes de produzir o mesmo som reconfortante de antes e nem mesmo ela conseguia utilizá-las com tanta certeza. Apenas mexia os lábios e movimentava a língua conforme lhe era mais fácil. Isso a fazia soltar grunhidos animalescos em direção aos moveis.

Vendo-a naquele estado, Adamantine assumiu sua nova natureza e com uma força descomunal, livrou-se das correntes e atacou ao Rei, com mordidas e arranhões em qualquer parte que pudesse alcançar. Chamando a indevida atenção de Bela.

Não se engane, ela o reconheceu.

Talvez de um sonho distante ou de outra vida, mas reconheceu.

E foi o suficiente para rastejar até ele, emitindo urros que deveriam significar algo como “pare”.

Mas que não passavam de urros.

Os guardas olhavam aturdidos, sabendo que a cena não seria esquecida tão facilmente. Carregá-la-iam para o túmulo, com a certeza de que Aramis existia e que não queriam ir para lá.

O Reino Amaldiçoado pareceu mais próximo quando Adamantine se afastou. O brilho nos olhos de Wöo-r permaneceu tempo o suficiente para ver uma dama de cabelos vermelhos chorar por apenas um lado do olho. O brilho nos olhos de Bela permaneceu mesmo após sua cabeça ter sido arrancada de seu pescoço.

Adamantine soltou um último brado de desespero antes de deixar seu corpo cair sobre os cadáveres.

Ele deu as mãos ao seu inimigo como velhos companheiros e se encaminharam para o Reino de Aramis. Ao atravessarem os Portões Amaldiçoados, cruzaram com Bela, que estava finalmente liberta de sua prisão. Uma fada a esperava do lado de fora para leva-la à Mantaquim, onde tudo não passaria de um terrível sonho, que logo seria esquecido.

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