Araignée au Plafond
5 Auto-Piedade
Notas iniciais
Boa leitura, guys.
São... Três da manhã, eu acho. Estou aqui, em cima da árvore... De novo. Quarto cigarro da noite e eu já estou começando a ficar enjoado. Grande vida, grande bosta. Estou preso nessa droga de hospital psiquiátrico — Matt teima em me corrigir quando falo hospício ou manicômio, então estou pegando a mania de chamar isso aqui de nomes mais civilizados.
Sabe, rotina é uma coisa que enche meu saco, e como nem tudo é perfeito, acabei criando uma aqui, o que me deixa fora do sério. É claro que a falta de nicotina no meu corpo também deve ter culpa — depois que uma outra interna me pegou fumando e deu com a língua entre os dentes, a vigilância das enfermeiras sobre mim tem andado mais tensa. Eu dei sorte porque Scott me ajudou a esconder minhas coisas, mas se não fosse por isso, provavelmente já teria sido expulso do inferno. Bem, acho que isso ajuda a explicar minha situação atual.
Nesse meio tempo que passou, eu tenho parado um pouco para pensar na minha vida. A abstinência tem me dado bastante tempo livre, e com isso, eu acabo tendo que refletir em certas coisas. O principal pensamento é o da minha vida. No que estou me tornando? Há três anos, eu era uma das pessoas mais felizes que conhecia. Meu primeiro ano na faculdade foi perfeito... E eu tinha passado ele longe da minha irmã. Ah, Amy... Como sinto sua falta. E o estranho é que só agora, com esse maldito tempo livre, que resolvi parar para pensar em como seria nossa vida se nada disso tivesse acontecido. É tudo perfeito, simplesmente isso.
Estava pensando quando, de repente, percebo que tem alguém me olhando na janela. Ah, foda-se, vou ser denunciado de novo. Dessa vez, vou deixar que me peguem no flagrante. Talvez, quando estiver sendo arrastado para fora desse lugar, eu resolva fugir e começar uma vida nova. Ou me jogar na frente de um trem, dá na mesma. Esse pensamento me faz rir — doce humor negro -, então trago o cigarro novamente.
— Eu quero tentar. — Escuto, então olho pra baixo — o que Lovino está fazendo aqui?
— Não. — Eu respondo, voltando a olhar para o céu.
— Francis, eu não ligo para seus princípios, me dê logo essa merda de cigarro antes que eu te denuncie para as enfermeiras. — Eu ri, virando um pouco o rosto.
— Você acha que eu me importo? Vai lá, conta. Bom que eu saio desse inferno e volto a ter a liberdade que eu tinha antes.
— E o que vai fazer depois? Dar um tiro na sua testa?
— Não é da sua conta, mas sim, provavelmente farei alguma coisa do tipo. — Respondi, então ouvi o outro suspirar.
Não é que eu não goste do italiano, mas ele é assim com todo mundo. Menos, por algum motivo estranho, com Matt. Os dois parecem ter alguma ligação cósmica que faz com que Lovino o trate bem — entendam, o "bem", quando se trata de Lovino, é sem nenhum palavrão, xingamento ou ironia. Pelo que ouvi falar, eles tem histórias parecidas, algo envolvendo seus irmãos.
— Eu também sinto falta do meu irmão.
Ouvir aquela afirmação de Lovino me deixou um pouco assustado. Olhei para baixo, franzindo o cenho. Durante o tempo que estive aqui, ouvi ele apenas xingando os outros, implicando com Scott — e, diga-se de passagem, muito -, falando sobre receitas envolvendo tomate e vinho... Sinceramente, ele devia ter tomado água do vaso demais e estava sob efeito de "drogas", se é que podemos chamar assim.
— É, pasme, eu também sinto isso. — Ele comentou, se sentando do lado da árvore e apoiando os cotovelos nos joelhos — Feliciano era meu melhor amigo. Mas eu... Eu nunca fui um bom irmão para ele, cara. Sabe, eu não consigo ser gentil com as pessoas, não consigo ser carinhoso, mas ele era tudo isso. Todo mundo prefere o Feli. Nossos pais — aliás, toda a nossa família -, nossos amigos... Meu irmão era o único que realmente me preferia a qualquer outra pessoa. — Ele suspirou.
— E o que aconteceu?
— Um dia, eu cansei de ser a maldita ovelha negra da família e resolvi pular de um prédio. Quebrei a clavícula, fiquei um tempo no hospital... Então me jogaram nessa prisão branca. — Ele riu seco. Olhei para baixo e Lovino levantou uma sobrancelha, olhando para mim também. — Não pense que é só você que tem problemas, bastardo. Todo mundo aqui é fodido. Todo mundo tem um problema na vida, todo mundo tem uma pedra no sapato... E, também, todo mundo tem um jeito de lidar com isso. Tipo a Katya, cara. Quando ela chegou aqui, não se aproximava de ninguém. Então, um dia, ela confundiu o Toris com uma menina e eles jogaram xadrez. Depois disso, ela começou a andar com a gente. O Toris, por exemplo, também só se abriu depois que ficou no nosso time em uma quarta-feira de jogos. Caça ao tesouro. E assim, cada um foi arranjando uma forma de lidar com seus problemas.
— O seu jeito de lidar com os problemas é enchendo o saco de todo mundo à sua volta? — Ele riu — eu precisava gravar isso, Lovino Vargas sendo legal -, então levantou o dedo médio para mim, o que também me fez rir.
— Podemos dizer que sim, Francis, é o meu jeito de lidar com o mundo. — Ele me respondeu, se levantando e limpando a roupa. — Te digo duas coisas: uma, você tem que parar de ter pena de si mesmo. Ela morreu há quanto tempo? Dois anos? Pare de ser um covarde e entenda que ela já foi embora, ficar sofrendo não vai fazer sua irmã sair do túmulo magicamente. — Ele falou, olhando pra mim. — E segundo... Pare de subir em árvores de madrugada. Você fica parecendo um macaco quando faz isso.
Eu ri, revirando os olhos. Ele se despediu, então começou a andar de volta para o prédio principal. Dessa vez, apaguei o cigarro na árvore, colocando o filtro em um galho para que não o achassem no dia seguinte. Com cuidado, desci da árvore, tomando cuidado para não falhar e cair. Voltei para o meu quarto em silêncio, tomando ainda mais cuidado para que não me encontrassem. E quando finalmente cheguei no quarto, fui para o banheiro — com o cheiro que eu estava, qualquer enfermeira perceberia que eu tinha fumado.
Apenas parei para pensar nas palavras do italiano quando entrei no chuveiro. Quando comecei a pensar no assunto, confesso que, sim, eu fiquei irritado com o modo que ele falou da minha irmã e do meu luto. Mas depois de alguns minutos, percebi que Lovino tinha um pouco de razão, e eu estava relutante em aceitar isso. Eu sempre tive consciência que, não importava o quanto eu chorasse, Amy não voltaria. Eu poderia me matar de tanto chorar, desidratar, socar as paredes... Ela estava morta. E só sobraram os ossos e as memórias dela. A memória da minha irmã rindo, dançando balé, fazendo suas apresentações milimetricamente calculadas... Mas o que tinha sobrado de mim? Um francês magrelo que largou a faculdade, perdeu a namorada e conseguiu afastar todo mundo... Tudo por causa da minha maldita auto-piedade. Porque eu não consigo aceitar que ela se foi, não consigo encarar a droga da realidade e seguir em frente.
Pensando nisso, eu sai do box, me secando com a toalha e colocando a roupa do Instituto. Uma vez, quando eu era mais novo, mais feio e mais idiota, chamei uma garota para sair comigo e fui rejeitado. Aquilo foi um tapa na minha cara. Um dia, vi ela saindo com um inglês da minha turma. Aquilo me deixou possesso de raiva... E eu só ficava dizendo que eu não prestava, não valia a pena, que era feio e morreria sozinho. Então, um belo dia, minha irmã simplesmente me deu um tapa na cara — sim, esse foi no sentido literal — e me mandou parar de ser um bebê chorão. Se eu não me amasse, não cuidasse de mim, ninguém mais faria isso. Ela me fez ficar irado, mas eu acabei seguindo o conselho. E depois de seis meses, aquela garota virou minha namorada — Michelle.
Estou pensando seriamente em tomar esse conselho para minha vida novamente e tentar mudar. Dessa vez, no definitivo.
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