Arabesque
1 único
Sinto um calafrio quando os dedos pressionam algumas teclas do órgão e sai uma nota introdutória para após de alguns segundos mudar pra outra. A bateria rítmica entra e depois as guitarras, que se distorcem e causam paredões sonoros ensurdecedores.
Uma vontade de chorar domina meu âmago, porque é tenro seja lá o que for aquilo que toma o meu coração. Talvez sejam as mãos enormes de Mefistófeles ou não, e a escuridão me toma por completo, me restando lembrar do passado junto da melodia primaveril que me encanta tanto quanto a da flauta mágica.
O vídeo passa na minha cabeça e vejo toda a minha vida, de quando me indaguei o que havia após a morte por ver uma senhora repousada na cama fria do quarto, tendo somente a solidão como companhia, e a praga que lancei aos garotos que brincavam com bola de gude e não me deixavam fazer parte.
Do natal que meu pai nos levou ao um bosque e apanhou com sua força uma árvore para que naquele ano fosse de verdade, exatamente como os americanos fazem e, ainda que a árvore estaria longe de ser um pinheiro, se ele pretendia trazer o espírito natalino para uma família modesta com três crianças sonhadoras, conseguiu.
Nos encheu de magia e a árvore, que trouxera insetos para nossa casa, passou a ser um grande pinheiro. Tudo era mais belo aos olhos de uma criança.
Toda praga era mais tola lançada por elas.
Nenhum existencialismo era grande o suficiente para roubar-lhes alguns anos.
Mefistófeles resolve abrir sua mão para me deixar ir embora assim que a música se encerra.
Fale com o autor