Arabella

1 Not as kind on the eyes as Arabella.


Arabella

Arabella tinha aquele jeito de moça contente, que ri de tudo e conquista o coração de todos. Não é preciso muita coisa para se gostar da personalidade maravilhosa dela: basta uma conversa ou outra e todo o resto acontece de repente.

Nada disso foi diferente para Mia. No momento em que se viram, no primeiro dia de aula do último ano de Ensino Médio, fora impossível para a garota não reparar na beleza espaçosa da Arabella, nos seus grandes cabelos castanhos e opacos e nas suas roupas verdadeiramente esquisitas.

Naquele início de ano, das poucas vezes que conversaram, nenhuma delas fora sem a presença de outros colegas de classe. E ali, ouvindo seus amigos rirem dos casos e das reações exageradas de Arabella, Mia nunca pensou que, eventualmente, elas se tornariam tão boas amigas, que compartilhariam segredos e bobagens do cotidiano – até, claro, a primeira festa da turma, feita por algum aluno que morava perto da escola.

Mia, que sequer pretendia ter aparecido, acabou bebendo mais do que gostaria e encontrando algo parecido com coragem e muita estupidez. Procurando um isqueiro, caminhou o quintal espaçoso até a piscina cheia de gente, onde encontrou mais do que precisava.

Arabella fumava Camel amarelo, usava vestidos coloridos e esmaltes escuros, detalhes que percebera pela primeira vez naquela noite, e passaria a notar todas as vezes que saíssem juntas dali pra frente. Porque havia algo naquela garota que sempre fazia Mia repará-la um pouco mais que o normal, fosse no seu nariz arrebitado ou nos seus lábios pintados de roxo.

“Quer outro cigarro?” perguntou a Mia, jogando seus fios tortos para trás da orelha. Esperou-a negar silenciosamente para fazer uma outra pergunta: “Será que eu posso te beijar?”

Sim, disse Mia. Arabella podia beijá-la, pelo simples fato de que Arabella poderia fazer qualquer coisa.

E o beijo veio silencioso, molhado, os lábios finos da garota se encaixando perfeitamente nos seus. Suas unhas longas agarraram os cabelos curtos de Mia e arranharam sua nuca pálida. Havia algo naquele beijo, sabia disso – algo que continuaria a sentir nas diversas próximas vezes que beijara Arabella.

Porque elas se beijaram de novo, e de novo, e de novo, e no dia seguinte, e no dia posterior a esse, e tantas vezes, que ambas perderiam a conta com o passar do tempo.

De início, os beijos precisavam sempre de uma desculpa para acontecerem: uma festa, um bar, algum passeio fora da escola; até o dia em que tocar de lábios passaram a acontecer no banheiro feminino, no vestuário de educação física ou até mesmo nos corredores vazios. E Mia, que era cheia de inseguranças e vontades, achou aquela nova rotina um tanto quanto confortável.

Arabella vivia dizendo como não estava pronta para um relacionamento sério e que seu relacionamento ideal não passaria de uns beijos eventuais. Ela saía com diversas pessoas, se encontrava com mais algumas no final da aula e sempre marcava com a Mia mais de uma vez na semana. A outra garota, por sua vez, adorava a série de beijos sem compromissos repetidas vezes em um curto intervalo de tempo – era quase tudo o que precisava.

Não foi preciso mais do que alguns meses para que as duas se tornassem boas amigas. As horas do dia vinham, iam e voltavam, e não havia instante em que não houvesse assunto para conversarem, independentemente de qual fosse. Não precisavam de bom dia para iniciar a conversa ou despedidas de boa noite para finalizá-las; o diálogo era espontâneo e contínuo, como se fosse certo.

Mia então entendeu que ela precisava se preocupar, uma vez que parou para pensar sobre Arabella e seus efeitos colaterais em sua vida. Sabia – claro que sabia, provavelmente todo mundo sabia – que acabaria se apaixonando pela garota em algum momento.

E o amor, ah, o amor chega de repente, esfregando-lhe as dores no rosto sem cor, esfarelando seu coração antes de soprá-lo ao vento. Não havia como Mia esperar por aquele sentimento de braços abertos, sorrisos e vontades, como Arabella fazia. Repetia não para si mesma diversas vezes, tentando convencer a si mesma que poderia evitar o amor se pensasse em vários e vários defeitos que a sua provável paixão tinha, e a incomodava bastante.

Arabella acreditava em signos, sabia interpretar os distintos mapas atrais e ler a mão de quem pedisse, independentemente de quem fosse. Ela nunca desembaraçava os cabelos, ria o tempo inteiro e fazia comentários estúpidos durante grande parte das conversas. Era péssima em exatas, sempre reprovava em matemática e fazia piada com as pessoas que não entendiam história.

Ela tinha aquela paixão irritante por livros clássicos da literatura internacional e se recusava a comprar os mais vendidos da temporada, por considerá-los fúteis, apesar de sempre assistir todos os filmes em cartaz, e chorar em cada um deles, sempre que podia. Arabella tinha aquela mania insuportável de bater as canetas com a tampa mordida na carteira da sala, durante a prova, sem ritmo algum. Ela não tinha nenhum talento para música e, mesmo com a voz desafinada, cantava horas e horas, repetindo a mesma frase de uma única música incontáveis vezes.

E, apesar de tudo isso, Arabella ainda tinha os olhos castanhos mais bonitos que Mia já ousara ver em toda sua vida.

Naquele dia, olhando para as íris exageradamente escuras da amiga, Mia percebeu que não havia muito que se fazer quando o assunto era paixão – ela viria, tarde ou cedo, quando se trata de mulheres com um certo encanto especial como Arabella. Porque mesmo pensando em todos os seus maiores defeitos, percebeu que conhecia a moça bem demais para se desapegar.

“Não sei se a gente pode continuar com isso” Mia disse, incerta, entre os beijos que a outra insistia em deixar na sua boca seca.

E ao contrário do que pensara, ela não perguntou o porquê. Não argumentou, não questionou, não tentou impedir de maneira nenhuma. Sorriu, de um jeito que Mia nunca havia visto antes, e concordou silenciosamente, antes de apoiar suas mágoas em um último toque de lábios.

No fim, Mia passou tanto tempo evitando o amor e seus supostos diversos problemas, que sequer teve tempo para pensar em Arabella ou no que quer que ela estivesse sentindo. Esqueceu-se, depois de tantos beijos e toques, de perguntar a amiga o que raios ela esperava daquilo tudo. Porque se ela, que era tão certa sobre não acreditar em qualquer tipo de sentimento recíproco, havia se perdido no meio da paixão, pelo que a garota não deve ter passado?

Foi preciso mais de um mês para Mia se acostumar a se encontrar sempre com Arabella e não sentir a estranha urgência de beijá-la. As conversas, tão naturais e aparentemente indispensáveis, reduziram-se ao mínimo. Estas, por sua vez, entraram para a lista de coisas que nunca percebera, e só o fez quando já era tarde demais: as conversas, todas elas, faziam muita falta.

Arabella fazia falta.

O amor, que tanto temia, havia encontrado um confortável lugar para ficar dentro de seu peito. E toda aquela mágoa, e toda aquela espera, e toda essa saudade, tudo havia se tornado tão grande e espaçoso, que Mia se perguntava quanto tempo mais conseguiria ficar tão presa dentro de si.

“Sinto sua falta” contou a Arabella, um bom tempo depois de ter constatado o fato.

Eu também, respondeu a outra, com a boca cheia de batom vermelho carmim.

E foi contanto as diversas novidades, que Mia descobriu algo que nunca havia esperado – Arabella, que sempre vomitava certezas sobre seus relacionamentos não muito sérios, estava praticamente namorando esta garota, Naomi. Estava morrendo de amores, completamente apaixonada, e tudo dando mais imensamente certo do que já antes cogitou.

Mia, então, ouviu toda a envolvente história de amor, sorrindo enquanto podia, e aceitou mais um Camel amarelo.

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