Arabella

1 Arabella's got some interstellar-gator skin boots


"Vivemos sozinhos, morremos sozinhos. Todo o resto é apenas ilusão"

Travis soltou um longo suspiro enquanto subia as escadas da sua não-tão-nova escola, repetir duas vezes seguida o mesmo ano não estava em seus planos, dessa vez ele iria estudar pra valer e finalmente sairia do colegial e iria para uma boa Universidade, suas esperanças eram que ele conseguisse passar na faculdade de Vancouver. Ele nunca gostou do fato de que foi abandonado no Canadá com sua tia e seu irmão gêmeo enquanto sua mãe ia para Chicago morar com seu padrasto e a filha dele – garota ao qual ele nunca tinha visto, apenas sabia seu nome, Katie Gardner – e ele ficou lá, desolado e acabou repetindo o ano. Sua idade era de 17 anos, estava estudando novamente o terceirão, se fosse pela idade ele estaria no ano certo, mas o pequeno fato de que sua mãe o colocou na escola mais cedo do que o normal – E mais cedo do período que ela colocou Connor – o fez ficar adiantado. Mas isso não resultou em nada assim que ela descobriu que ele tinha repetido, fazendo seu sonho de "Filho prodigo na faculdade" ir de água abaixo. Travis não era e nunca foi um garoto burro, suas notas eram altíssimas, seu problema era apenas as faltas constantes.

Abriu a porta da sala vagarosamente e entrou, sentou-se em seu costumeiro lugar de sempre: Na parede direita, ao lado da janela. Ele gostava de olhar a vista da cidade pela janela, já que sua sala era no terceiro andar, todas aquelas casinhas e arranha-céus que ele via pela janela lhe dava inspiração para novos desenhos. Ele ficou ali, olhando o transito movimentado na avenida mais próxima quando ouviu um som estridente de cadeira se arrastando e um resmungo, olhou para o lado e se deparou com Angel arrumando os cabelos e tirando a jaqueta de couro.

Angelina Grace era a garota lésbica mais feminina que ele já viu em toda a vida. Ela havia pegado mais garotas em uma única semana equivalente a todas a que ele já ficou em toda a sua vida. Em um momento Angel agia como uma aspirante de couro nata, em outro, ela era totalmente feminina, Travis suspeitava de que ela bipolar, e que acima de tudo ela era na verdade hétero, mas não sabia disso ainda.

– E aí – ela disse lhe direcionando um sorrisinho enquanto ele estava perdido olhando para seus olhos azuis elétricos vagos – Colé Travis, o inverno já está acabando! Estamos em fevereiro e você está usando esse sobretudo enorme por que?

Travis se remexeu um pouco inquieto, em parte porque estava pensando na forma mais correta em respondê-la e porque ele não poderia revelar que ele estava usando o sobretudo para cobrir seus novos hematomas.

– Eu ainda estou com frio. Além de quê eles irão ligar o ar-condicionado hoje.

– Ba dum tss, o ar condicionado está com defeito e se você não percebeu o aquecedor está ligado. – Angel disse convencida piscando os olhos diversas vezes. Seus cílios grandes faziam com que ele ficasse mais perdido ainda naquele azul intenso.

– Qual é Angelina, não enche. Quero usar e pronto.

– Não tá mais aqui quem falou.

O sinal bateu e uma aglomeração de pessoas entraram na sala. Travis observou cada um dos seus amigos entrarem e o cumprimentarem. De todos eles apenas Will havia repetido o ano com ele, que por coincidência era seu melhor amigo.

Quando o professor de sociologia entrou pedindo para que os alunos fizessem um semicírculo todos protestaram, aulas com semicírculo só significava uma coisa: Debate. Eles odiavam debate mais do que odiavam prova surpresa. Debates nas aulas do Sr. Grimes era um tremendo saco, segundo Percy, amigo de Travis, pois poucas pessoas concordavam com certas opiniões e sempre causava uma divergência.

Travis raramente abria a boca em aula de sociologia, não que ele gostasse dos temas, mas porque ele preferia ouvir o que os seus colegas tinham a dizer.

– Bom dia – Sr. Grimes disse sentando-se no meio do circulo, com uma prancheta na mão – Sugerem temas?

– Enchentes! – Percy Jackson disse do fundo.

– Suicídio – Zoë Nightshade falou baixinho se encolhendo um pouco com os olhares estranhos que lhe lançaram.

– Corrupção – Thalia Grace falou. Era irmã gêmea de Angel, a única coisa que diferenciava Angel e Thalia era o pequeno fato de que Angel havia pintado o cabelo de loiro há dois anos e não gostava muito de rock. O irmão mais novo das duas, Jason Grace, era calouro do primeiro ano e não suspeitava da fama das irmãs.

– Analfabetismo – Annabeth Chase falou balançando os braços para que o Sr. Grimes escolhesse seu tema.

– Preconceito! Preconceito! Preconceito! – Angel disse diversas vezes batendo na carteira, ao seu lado Lily, sua amiga, segurava uma plaquinha com os dizeres "Sou Homossexual e não tenho vergonha ".

A sala estava um verdadeiro alvoroço e Travis apenas sorria na companhia de Will. Diversas vezes se segurou para não fazer uma piada maldosa com alguns temas sem sentido. O professor suspirou e deu três tapas na mesa, fazendo os alunos de calarem.

– Anotei todos os temas. Nas próximas semanas vamos debater sobre eles – A sala toda fez um som de comemoração e o professor sorriu, mas logo depois fez uma careta e os alunos ficaram quietos novamente – Que tal hoje vocês dizerem o que estão pensando nesse momento?

– To pensando seriamente qual vai ser a próxima pegadinha que eu e Travis iremos fazer. Acho que é algo haver com bolas de neve. – Connor soltou, fazendo com que sala o vaiasse. Travis lhe lançasse um olhar frio, como ele poderia ser tão babaca pra revelar o plano dos dois?

– Estou pensando em química – Rachel e Nico disseram ao mesmo tempo.

– To imaginando como a Sra. Morgana fica só de calcinha e sutiã — Percy disse e recebeu um belo tapa no ombro, dado por Annabeth, a sala inteira riu.

– To pensando na minha morte – Travis disse baixinho achando que ninguém o ouviria, mas ao notar o silencio na sala e olhar de todos sobre si, seu sangue gelou e ele desejou nunca ter abrido a boca.

– Explique-se, Stoll – Sr. Grimes pediu analisando-o por cima do óculos de armação grossa.

Travis suspirou e ajeitou-se na cadeira, falando exatamente o que tinha em mente:

– Existe cerca de sete bilhões de pessoas no mundo, ou mais, ou menos, não sei, não sou bom em geografia, talvez isso nem seja assunto de geografia, em fim, e vamos supor que morre mais ou menos 1000 pessoas por dia em todo o mundo. E no fim, nós não sabemos. Quer dizer, se alguém desta sala morrer hoje, nós saberemos, obviamente, mas daqui a cem anos ninguém vai saber que esse alguém morreu, ele simplesmente vai ser esquecido. Vivemos sozinhos, morremos sozinhos. Todo o resto é apenas ilusão. E eu fui perceber agora que um dia eu vou morrer, e eu meio que quero ser lembrado, de alguma forma, mas quero. Quero ser tipo... Einstein, espero que ele seja para sempre lembrado como um grande gênio, e eu quero isso pra mim, não quero morrer e em alguns anos cair no esquecimento, em um tumulo qualquer em um cemitério qualquer. Eu não quero ser esquecido.

Travis Stoll era conhecido por suas brincadeiras, piadas e pegadinhas que ele fazia com seu irmão. Era sempre com um sorriso de que iria aprontar alguma coisa, mas ninguém nunca imaginou que ele poderia ter pensamentos como esse.

A sala ficou em um completo silencio. Depois, meio hesitante, Silena Beauregard bateu palmas e sorriu, fazendo com que todos da sala a acompanhasse.

– Parabéns – Sr. Grimes falou e logo depois de ver a expressão no rosto de Travis continuou: – Você acaba de me mostrar que tem uma forte opinião. Espero que você consiga ser lembrado, Travis.

Travis permaneceu quieto e deu um sorriso meio conturbado.

***

O restante das aulas passou rapidamente e logo Travis estava indo para casa acompanhado pelo seu irmão. Era quase impossível diferencia-los, por isso Connor estava pensando em fazer uma tatuagem para que ninguém mais os confundissem, porem Travis achou melhor que eles continuassem iguais para que as pegadinhas que eles faziam com sua Tia não mudassem.

Chegaram no pequeno apartamento quase na hora do jantar, a nevasca que se aglomerou pela rua de uma hora para outra atrapalhou o percurso dos dois, mas depois de diversos atalhos conseguiram chegar em casa a tempo de não levar uma bronca de Johanna.

Johanna Stoll era uma mulher baixinha e um pouco rechonchuda, mas era um amor de pessoa, cuidava de Travis e Connor como se fossem seus filhos e amava cada um deles – mesmo com as pegadinhas sem graças que eles faziam.

– A mãe de vocês ligou hoje. – Johanna disse quando os três estavam sentados no sofá comendo pipoca assistindo um desenho animado – Ela quer falar com vocês.

– Não vou retornar. Que se foda, se ela quer falar conosco ela que venha de Chicago até aqui — Connor disse e levou um puxão de orelha da Tia – Ai ai ai, tá, desculpa. Vou ligar.

Travis lhe estendeu o telefone e Connor ligou, revirando os olhos ao ver que o numero estava chamando. Ele queria tanto que desse na caixa postal, ativou o viva voz ao perceber que sua mãe havia atendido.

– E aí – Connor e Travis disseram juntos, conseguindo uma risada de Johanna.

– Oi meus amores – Travis colocou a língua para fora com uma careta, os dois riram – Tenho um assunto delicado a tratar.

– Manda.

– Lembram-se da Katie?

– A Kat Cat? A Natureba? A Srta. Cereal? – Connor perguntou rindo. Ele havia ficado as férias com a mãe e teve a oportunidade de conhecer Katie, enquanto Travis ficou de castigo por ter repetido de ano – Aham, quê que tem ela?

– Ela vai passar uns tempos em Vancouver. Com vocês.

– Legal – Travis disse em ironia, mas depois de analisar o que a mãe havia acabado de dizer, berrou: – COMO ASSIM COM A GENTE?

– "Com a gente", credo Travis, fala direito. – Johanna disse. Ela era professora de língua portuguesa – É "conosco".

– Com a gente. – Travis e Connor falaram juntos provocando e logo riram ao ver Johanna bufar.

– Vocês ouviram o que eu acabei de falar?! – A mãe dos dois exclamou e eles logo voltaram a atenção para o que ela estava falando – Katie vai estudar aí, em Vancouver, e não estamos com condições de alugar um apartamento pra ela, ou seja, ela vai ficar aí com vocês. Johanna permitiu que ela ficasse com vocês. Peguem ela no aeroporto amanhã às sete horas. E ela já está matriculada na escola de vocês. Sejam legais. Tchau.

Logo após Connor desligar, Travis cruzou os braços e olhou torto para Johanna.

– Não me olhe assim! Como a sua mãe mesma disse, ela é legal.

– A Katie é legal, mas.. – Connor fez um ar de suspense – Ela fica irritada fácil e tem umas manias estranhas. Vai ser legal ela aqui porque poderemos fazer planos malignos contra ela.

Travis e Connor fizeram um high five e sorriram.

Naquele momento, Travis não tinha nada em mente, apenas imaginava que sua meia-irmã iria passar um bom tempo com eles. Mal ele sabia que ela, uma simples garota de Chicago, o ajudaria com seus problemas mais obscuros e daria um jeito em não deixa-lo cair no esquecimento.

E que, acima de tudo, ela seria a sua Arabella.

Notas finais
Devo continuar?