Aquilo que os Sonhos dizem.
71 Diário.
Notas iniciais
Arregalei meus olhos.
–Pai... — Falei com a voz embargada.
–Caramba! Esqueci que essas coisas estavam ai. — Falou depois de bater com a mão na testa.
–Até quando pretendia esconder isso de mim? — Perguntei, balançando o diário em sua direção.
–Desculpa querida! Não queria... estava com medo. Você tinha amnésia, pensei que se você lesse, poderia sofrer algum choque. Me desculpe.
Larguei o diário no meu colo, cobri meu rosto com as mãos e dei liberdade para as lágrimas caírem de vez. Senti quando a cama afundou um pouco do meu lado, o que quer dizer que papai se sentou do meu lado, e logo estava acolhida pelo abraço dele. Rapidamente, me virei para papai e aceitei o seu abraço.
Fiquei chorando nos braços de papai por um tempo breve. Desfiz nosso abraço e sequei meu rosto com as costas da mão.
–Onde está a chave? — Perguntei.
–Na sua caixinha de música. — Respondeu sem titubear.
Quando eu ia cruzar a porta, papai me chamou.
–Estou perdoado?
–Claro!
Sai correndo para o meu quarto. Chegando lá, fui até o criado-mudo ao lado de minha cama e peguei a caixinha de música. Achei uma correntinha prateada no compartimento de peças que dão vida a caixinha, enroscada numa engrenagem. A desenrolei e puxei pra mim. Com a corrente, veio uma chave de estilo colonial. Repousei a caixinha de música no criado-mudo e me sentei na cama.
Apoiei o diário no meu colo, peguei o cadeado e usei a chave para abri-lo. Escutei o ''clic'' .
A primeira coisa que fiz foi folear o diário para ver até onde eu parei, quanto eu escrevi. E me surpreendi ao ver que diário não foi tão usado. Se eu escrevi vinte páginas, foi muito!
Voltei para a primeira página e comecei a ler.
''14 de Outubro de 2005''
''Diário, ontem, pois já passou de meia-noite, foi meu aniversário. Me surpreendi ao ganhar meu primeiro diário. Não esperava por isso. Eu adorei a surpresa de meu pais.
Bem, gostei muito deste meu aniversário. Foi diferente de todos. Nem mesmo o país foi o mesmo. Passei meu aniversário de sete anos aqui em Paris.
Houve também uma pessoa diferente no meu aniversário! Madame Blue, minha professora particular. Exatamente! Professora particular.
O fato de eu ter uma professora particular e não estudar numa escola, é uma história que irei lhe contar num outro dia.
Bem, fiquei verdadeiramente feliz hoje. Como nunca estive a bastante tempo.''
Esta foi a primeira página, quando avancei para a próxima, a data era de poucos dias depois.
''28 de Outubro de 2005''
''Diário, desculpe não ter contado nada desde o dia que ganhei você. É que, infelizmente, não tem muitas coisas para lhe contar.
Estou triste. Não que isso seja algo difícil de acontecer. A diferença é que o motivo, desta vez, é outro. Amanhã vou embora de Paris. Pois é... Voltarei para os Estados Unidos, para a minha casa lá.
A minha volta seria mais fácil se eu não tivesse conhecido Madame Blue, minha professora particular.
Ela se tornou minha amiga. Eu não sei se gosto do fato de ter uma amiga, e nem mesmo sei como isso está acontecendo. Ainda me sinto insegura em relação a me apegar a pessoas.
Ela me ajudou demais. Junto com mamãe, conseguiu me convencer a sair de casa para conhecer Paris.
Blue foi importante pra mim. E fico grata de poder ter conhecido ela. E espero, do fundo do meu coração, poder vê-la de novo.''
É por isso que não demorou muito para eu gostar de Madame Blue e confiar nela quando veio pra cá! Quando criança, eu fui realmente apegada a ela. E hoje, ela é como uma mãe pra mim já que eu perdi a minha no acidente.
Continuei a ler. A data era de meses depois da última vez que escrevi no diário.
''12 de Abril de 2006''
''Diário, me perdoe não ter escrito por mais de meses. É difícil ter algo para lhe contar.
Mas eu lembrei que tinha prometido falar sobre eu ter uma professora particular em vez de estudar em uma escola e enfim decidi contar a história.
A quase dois anos atrás, quando eu ainda estuda em uma escola, eu tinha um amigo. Ele se chamava Jack.
Eu e Jack eramos bem próximos. Todos os dias, passávamos nossos intervalos, sozinhos, no corredor menos usado da escola. Fazíamos isso para ficarmos longe de encrencas. Para ficar longe de Peter.
Peter é um garoto chato e metido. Ele sisma comigo e por isso Jack, para me defender, já brigou com ele muitas vezes.
Em um dia qualquer, estava eu e Jack conversando sozinhos no corredor, quando Peter surgiu. Eles começaram a brigar. No meio da discussão, Jack começou a dar pequenos empurrões em Peter na direção da escada.
Foi um acidente. Não acredito que Jack tenha feito isso de propósito.
Quando vi, Peter estava com seu corpo imóvel no final da escada. Era possível ver sangue na região de sua cabeça.
Não demorou muito para que alguém visse o garoto morto e começasse a gritar. Quando percebi, havia praticamente a escola inteira ao redor.
Fui parar na secretaria e lá, diante da diretora e a polícia, me pediram para contar tudo que sei.
Estava em choque, não sabia o que fazer. A única coisa que passava em minha mente era impedir do meu amigo ser punido por algo que eu era a culpada.
Sim. Eu era a culpada. Se eu não fosse tão fraca e soubesse defender a mim mesma, isso jamais teria acontecido.
Jack tinha pais agressivos. Batiam nele quase todos os dias. Sem motivo algum.
Isso tudo se passava pela minha cabeça. Assumi a culpa do acidente.
A história não acabou. Depois disso, Jack sumiu, sem pedir desculpa, sem agradecer.
A história do acidente se espalhou. Por onde eu andava, tinha alguém me xingando ou lançando olhares acusatórios.
Eu passei a não querer mais sair de casa.
Então eu comecei a estudar em casa porque meus pais jamais iriam deixar eu parar de estudar. E é por isso, Diário, que eu tenho uma professora particular.''
Passei para a página seguinte.
''29 de Maio de 2006''
''Diário, a exatos dois anos atrás, foi o dia que eu acabei com a minha vida. A dois anos atrás, eu assumi a culpa do acidente de Strongland.
Não tem um dia se quer, que eu deixe de lembrar disso. Chego até a reviver as cenas em meus sonhos.
Eu vou ser perturbada por isso até o final da minha vida, que por sua vez, parece chegar ao fim a medida que os dias se passam, afinal, sinto que estou definhando. Cada vez mais doente. Cada vez mais perturbada pelos fantasmas envolvidos no caso Strongland.
Estou enlouquecendo. Do nada estou chorando, soluçando terrivelmente, ou me debatendo tanto que minha mãe ou meu pai chegam ao ponto de me segurar.
Será que vou morrer assim? Louca?''
Estou surpresa. Meu coração está apertado. Fui tomada pela angústia. Continuei a ler mesmo assim.
''2 de Agosto de 2006''
''Eu havia melhorado tanto ao passar um ano em Paris. Regredi totalmente. Acho até que estou pior.
Por que eu assumi a culpa de um assassinato no lugar de outra pessoa?
Tive tantas chances de ser corajosa e quando fui ser assim, acabei com a minha vida.
O que eu tinha na cabeça?
E Jack? Por que ele não me agradeceu por isso ou pediu desculpa?
Ele preferiu fugir...
Se eu encontrasse ele, iria perguntar por que ele fez isso.
Eu quero fazer uma promessa. Uma promessa a mim mesma.
Prometo que, se eu encontrar Jack algum dia, irie saber por que ele foi embora. Por que ele me abandonou.''
Passei para as próximas páginas e todas falavam do acidente. Pouquíssimas vezes achei coisas sobre Madame Blue ou meus pais. Todas as páginas foram ocupadas por Jack e Peter.
Cheguei na última página e desatei a chorar ao ver sobre o que era.
''12 de Abril de 2009''
''Amanhã, irei fazer um piquenique com minha mãe. Só eu e ela.''
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