Sitara ocupava um dos lados da mesa central do hackerspace com o notebook aberto diante de si, alternando entre os fóruns da DedSec, mensagens acumuladas e notícias que outros membros espalhavam pela rede. Marcus trabalhava ao lado em outro computador, enquanto o restante do espaço seguia no movimento habitual de telas acesas, equipamentos funcionando e gente ocupada com as próprias coisas. Entre as notificações que chegavam, uma mensagem direta chamou a atenção dela.


Vinha de um contato da DedSec e trazia um arquivo de vídeo. A mensagem dizia apenas que aquilo podia ser do interesse deles. Sitara abriu a gravação e deixou o restante das janelas em segundo plano, acomodando uma mão perto do touchpad enquanto esperava os primeiros segundos carregarem.


A imagem surgiu de uma câmera de vigilância instalada no alto de uma sala ampla. A porta entrou no enquadramento por um dos lados e dois guardas apareceram conduzindo uma mulher entre eles. Ela vestia uma camiseta simples escura e jeans, o cabelo estava preso numa única trança comprida para trás, e acompanhava os homens com atenção enquanto avançava para dentro do cômodo.


Sitara continuou assistindo enquanto os três atravessavam parte da sala. O enquadramento aberto revelou aos poucos o restante do ambiente e, mais adiante, um homem que aguardava a chegada deles: Dusan Nemec. Sitara se endireitou diante do notebook e fez um gesto curto para Marcus, ao lado, chamando a atenção dele para a tela sem deixar de acompanhar a gravação.


— Marcus.


Marcus aproximou a cadeira da mesa e se inclinou na direção do notebook de Sitara, deixando o próprio computador de lado enquanto buscava o mesmo ponto da gravação que havia prendido a atenção dela. Dusan continuava visível no escritório, aguardando a mulher que os dois guardas conduziam até ele.


— O que tá rolando? — perguntou Marcus.


— Não faço ideia. Um dos nossos mandou isso. Disse que podia interessar.


Marcus permaneceu inclinado ao lado dela, Sitara não desviou a atenção da tela. Os dois continuaram acompanhando a gravação enquanto os guardas terminavam de atravessar o escritório com a mulher entre eles.


Dusan fez um gesto discreto aos dois homens assim que eles se aproximaram. Os guardas se afastaram e assumiram posição junto à porta, um de cada lado, permanecendo na sala enquanto Dusan voltou a atenção para a mulher diante dele. Com outro gesto, indicou a poltrona posicionada diante da sua.


Ela não seguiu a indicação. Passou por trás da poltrona oferecida e continuou andando devagar pelo escritório, enquanto Dusan acompanhava seu movimento com os olhos, a expressão impassível, sem qualquer mudança diante da escolha dela. Depois de alguns segundos, ele ocupou a própria poltrona e se acomodou, mantendo a atenção nela enquanto a mulher prosseguia pela sala.


A mulher passou pela pequena área de estar, onde as duas poltronas cercavam uma mesa baixa sobre a qual havia uma garrafa de vidro e copos. Ao alcançar a estante, ergueu os dedos e deixou a ponta deles correr pela fileira de livros enquanto continuava andando, seguindo depois para a mesa de trabalho e pela cadeira larga atrás dela. A parede de vidro dominava boa parte do escritório e, além dela, a cidade se espalhava muito abaixo; o percurso dela acabou levando-a até aquela vista.


— Achava que esse tipo de escritório só existia em filmes. — Ela deixou os olhos percorrerem o espaço enquanto continuava andando. — Quero dizer, aquele tipo de clichê que vilões de filmes possuem.


Dusan permaneceu sentado. A mulher passou por trás da mesa de trabalho e parou diante da grande janela, demorando-se na vista antes de tornar a se voltar para ele. Quando retomou o caminho em direção ao centro do escritório, continuou a fala no mesmo tom.


— Tipo um Agente Smith. — Ela avançou entre os móveis, reduzindo aos poucos a distância até as poltronas. — Só que você não me parece alguém que me chamou aqui para dizer que o ser humano é um vírus para o planeta.


Ao chegar novamente à área central, já diante de Dusan, ela ergueu uma das mãos e deixou o gesto percorrê-lo de cima a baixo, indicando a própria aparência dele à fala que vinha construindo:


— Por mais que você tenha a vibe de alguém que, com certeza, acha que o ser humano está destruindo o mundo e gostaria que fossem exterminados


Ela soltou um longo suspiro e finalmente ocupou a poltrona que Dusan havia indicado anteriormente. Recostou-se o suficiente para ficar de frente para ele, encerrando o percurso pelo escritório.


— Mas não é por isso que eu estou aqui, certo?


Ele não entregou uma resposta, apenas inclinou o corpo para a mesa de centro e pousou a atenção na garrafa de vidro, indicando-a com um pequeno gesto enquanto um sorriso permanecia em seu rosto. Ela não acompanhou a oferta com nenhum movimento; manteve os olhos nele, a expressão fria e cortante.


Dusan deixou a mão repousar sobre a garrafa por um instante antes de erguê-la. O vidro se inclinou sobre o copo, e o uísque desceu em um fio estreito até ocupar o fundo, subindo devagar enquanto ele observava a medida. Depois, acomodou a garrafa novamente sobre a mesa, recolheu o copo e tornou a se recostar na poltrona, mantendo-o entre os dedos enquanto seus olhos voltavam para ela.


— Você teve uns meses interessantes. Tenho que admitir, me deu bastante coisa pra ler.


Dusan levou o copo à boca e tomou um gole, sem desviar a atenção dela. Depois se inclinou novamente para a mesa de centro e devolveu o copo ao tampo, afastando a mão antes de se acomodar outra vez na poltrona.


— Sabe, eu achei que você seria diferente.


— Desculpa por te decepcionar. — Ela ergueu os braços antes de continuar. — Eu não estou com minha persona carismática para agradar os fãs.


— Não. A cantora eu já conhecia. Mas foi o que você fez com os Vípers que me deixou curioso.


A mulher inclinou levemente a cabeça. Antes que Dusan continuasse, a gravação parou. Sitara havia pausado o vídeo. Wrench já estava de pé atrás e entre as cadeiras dela e de Marcus, com uma mão apoiada no encosto de cada uma e o corpo ligeiramente inclinado para a frente, mantendo a tela dentro do campo de visão quando Sitara se virou na direção dos dois.


— Vípers? — ela perguntou.


— O grupo que desapareceu recentemente? — indagou Marcus.


Josh se acomodou ao lado de Sitara com o próprio notebook e corrigiu a generalização enquanto consultava as informações abertas na tela.


— Não o grupo inteiro. — Ele passou pelo relatório antes de continuar: — Houve ataques contra membros dos Vípers nas últimas semanas. Alguns dos líderes estão desaparecidos.


— Quem é essa garota? — Wrench continuou voltado para a imagem interrompida no notebook quando perguntou.


— E o que liga ela a isso? — acrescentou Marcus.


Josh voltou a atenção ao próprio computador e iniciou a busca pelo perfil dela no profiler da ctOS. A pesquisa permaneceu nas informações básicas que conseguiu localizar.


— Lynn Wolf. Vinte e sete anos. Formação na Berklee. Musicista.


Enquanto Josh lia, Sitara ergueu os olhos para Marcus. Ele devolveu o olhar e, quase no mesmo movimento, os LEDs da máscara mudaram para (? ?), entreolhando entre os dois.


Sitara voltou ao notebook e retomou a reprodução. Na tela, o escritório tornou a ganhar movimento, com Wolf ainda sentada diante de Dusan. A pequena inclinação da cabeça permaneceu como sua única reação à menção dos Vípers; ela não acrescentou nenhuma resposta, e Dusan levou o assunto adiante.


— Os Vípers começam a perder gente. Alguns dos nomes mais importantes somem. E então Richard Jr Appleton aparece morto.


Dusan não emendou o restante. O silêncio se prolongou por alguns instantes, deixando o nome de Appleton suspenso entre os dois antes de ele retomar, no mesmo tom:


— E quando comecei a olhar para Appleton, encontrei seu nome. — Houve outro intervalo antes que acrescentasse a última informação. — Você tinha registrado uma ocorrência contra ele.


Wolf não respondeu. Durante alguns segundos, permaneceu imóvel na poltrona, com a mesma expressão voltada para Dusan; só depois ajeitou o corpo, endireitou-se e apoiou o cotovelo no braço da poltrona, deixando a cabeça repousar na mão:


— Sim. Eu registrei uma ocorrência contra ele.


— Eu sei — continuou Dusan. — E não deu em nada


— Porque o sistema é falho para pessoas comuns. — Wolf lançou a frase seca, sem hesitação, numa constatação ácida.


— Só que você não parou por aí. — O silêncio permaneceu por alguns instantes antes de Dusan retomar, sem apressar a progressão do que vinha colocando diante dela. — E foi nesse momento que as coisas ficaram interessantes.


Outra pausa separou aquela conclusão do próximo ponto, alongando novamente o intervalo entre as informações.


— Isoladamente, nada disso significa muita coisa. Junto, começa a ficar difícil chamar de coincidência.


Wolf sustentou a mesma expressão, deixando a conclusão de Dusan repousar sem oferecer confirmação, negação ou qualquer detalhe que ele pudesse aproveitar. Quando finalmente entrou na conversa, manteve-se no papel de quem ainda não entendia onde ele pretendia chegar e levou essa suposta dificuldade de compreensão até o deboche.


— Certo... Ou eu estou bem devagar hoje, ou meu intelecto não consegue acompanhar o seu. Teria como desenhar o que você quer dizer?


— Você conseguiu causar um estrago considerável sem chamar muita atenção pra si mesma. — A afirmação ficou suspensa por alguns instantes. Dusan permaneceu em silêncio, ainda voltado para Wolf, antes de continuar. — E fez tudo isso enquanto, oficialmente, continuava sendo só uma musicista com uma carreira interrompida.


Wolf permaneceu na poltrona, com o cotovelo apoiado no braço e a cabeça sustentada pela mão. A constatação de Dusan não recebeu dela qualquer reação; quando respondeu, manteve a mesma linha que vinha sustentando desde que ele começou a reunir os acontecimentos diante dela.


— Você continua sem desenhar a questão para mim.


Dusan se levantou da poltrona e começou a caminhar calmamente pelo escritório, juntando as mãos atrás das costas, afastando-se da pequena área de estar enquanto prosseguia sem pressa.


— E, no meio disso, uma figura mascarada foi vista mais de uma vez perto dos Vípers. Quase sempre quando alguém desaparecia.


Ele continuou andando enquanto deixava a informação ocupar o espaço entre os dois antes de acrescentar a seguinte.


— Então vem a noite beneficente. Appleton leva um tiro de precisão e, pouco depois, uma figura mascarada é vista deixando a região com um estojo nas mãos.


Wolf acompanhava a progressão sem interrompê-lo. Dusan atravessou mais alguns passos pelo escritório, mantendo as mãos unidas atrás das costas enquanto continuava:


— Depois que trouxeram você pra cá, a polícia fez uma busca na sua casa.


— Vocês não tinham mandado pra isso — interrompeu Wolf, se endireitando no assento.


— Foi emitido pouco depois. — Dusan fez um movimento breve no ar com uma das mãos, descartando a questão antes de reuni-la novamente à outra atrás das costas. A caminhada prosseguiu sem que ele se demorasse naquele ponto. — A busca revelou uma máscara e um rifle de precisão.


Ao alcançar a mesa de trabalho, Dusan interrompeu a caminhada e se voltou para Wolf, deixando que a informação permanecesse entre os dois. O silêncio mal chegou a se formar antes que ela abrisse a boca, antecipando-se a qualquer continuação.


— Mas isso não faz sent—


Wolf interrompeu a própria frase antes de concluí-la. A cabeça se baixou um pouco e as sobrancelhas se curvaram enquanto o corpo permanecia imóvel na poltrona.


No hackerspace, a conversa acabou atraindo Ray para mais perto. Com uma garrafa de cerveja na mão, ele se aproximou do grupo diante da gravação enquanto Dusan revelava a busca na casa e o que a polícia tinha encontrado, chegando a tempo de ouvir a negativa interrompida de Wolf. Na tela, Dusan não se demorou na reação dela nem voltou às provas; quando retomou a conversa, já conduzia o assunto para outro ponto.


— Sabe, você resolveu um problema de uma maneira um pouco... extrema, talvez. Mas resolveu.


Dusan permaneceu diante da mesa, sem retomar a caminhada. O intervalo que se abriu depois da constatação afastou de vez a conversa das provas que havia acabado de apresentar e deixou o peso daquelas palavras repousar antes que avançasse para o motivo de ter conduzido ela até ali.


— Eu tenho outro problema — a pausa se prolongou o bastante para separar a afirmação do que vinha a seguir. — E acho que você pode ser exatamente o tipo de pessoa que consegue resolver isso pra mim.


Wolf permaneceu em silêncio, o acompanhando com o olhar, sem oferecer nenhuma mudança de expressão. Dusan sustentou aquele espaço por mais alguns instantes antes de completar, ainda no mesmo registro controlado:


— Isso não precisa terminar com você na prisão. Eu posso fazer esse problema desaparecer.


Wolf não precisou de tempo para considerar o que ele estava oferecendo. A resposta saiu assertiva, seca, com uma acidez que se manteve até ceder ao deboche no final:


— Não importa o que você vai me pedir. A resposta já é não. Mas continua. Pode se divertir fazendo a proposta.


A recusa não produziu nenhuma alteração visível em Dusan, tampouco o deboche pareceu tirá-lo do ritmo que vinha impondo à conversa. Ele permaneceu diante da mesa, tranquilo, e continuou naquela mesma fala mansa.


— Tem outro grupo causando problemas. Quero que você cuide disso pra mim.


Dusan não completou a proposta de imediato. O silêncio se prolongou entre os dois enquanto ele permanecia imóvel diante dela, deixando o alvo ainda sem nome por tempo suficiente para separar aquela informação de tudo o que tinha acabado de dizer. Só então concluiu, sem alterar o tom:


— DedSec.


Wolf permaneceu olhando para Dusan depois que o nome deixou de ocupar a voz dele. A demora se estendeu por alguns instantes, sem que ela alterasse a posição na poltrona; então inclinou levemente a cabeça para a frente e ergueu as sobrancelhas. O gesto se desfez num movimento suave dos olhos para o lado quando ela virou a cabeça, como se finalmente pudesse seguir adiante.


As duas mãos foram até os joelhos para lhe dar apoio. Wolf se inclinou para a frente, soltando um suspiro enquanto deixava a poltrona e se colocava de pé sem pressa. Só depois de se endireitar virou o corpo na direção da porta, onde os dois guardas continuavam posicionados. Ergueu uma das mãos e apontou vagamente entre eles, o dedo passando de um para o outro mais de uma vez enquanto o deboche retornava à voz.


— Certo. Qual de vocês vai me algemar e me levar para a cadeia?


Ela ergueu o outro braço para se juntar ao que ainda permanecia apontado entre os guardas. Wolf manteve os braços erguidos diante do corpo e aproximou os pulsos, oferecendo-os aos dois homens enquanto um sorriso se abria em seu rosto. Mais afastado, junto à mesa de trabalho, Dusan desviou os olhos dela para os guardas e fez um único movimento breve com a cabeça.


Os dois deixaram a porta ao mesmo tempo e avançaram pelo escritório. Wolf esperou que se aproximassem e então girou o corpo até se voltar novamente para Dusan, deixando os guardas às suas costas. Com os braços ainda livres diante de si, permaneceu nessa posição enquanto os dois homens completavam a distância e chegavam atrás dela. Dusan acompanhou o movimento por mais um instante e já começava a se virar para deixá-los seguir quando a voz de Wolf o interrompeu.


— Ei.


Ele interrompeu o movimento e tornou a olhar para Wolf. O sorriso dela se alargou. Com os guardas já atrás de si, ergueu as duas mãos e estendeu os dedos do meio na direção dele, dizendo com satisfação:


— Vai se foder.


Os guardas alcançaram os braços de Wolf e os conduziram para trás das costas, desfazendo o gesto enquanto um deles prendia a algema em um dos pulsos e depois no outro. Assim que o metal se fechou, o mesmo guarda manteve a mão em seu braço e deu um puxão para fazê-la avançar. Wolf acompanhou o movimento, voltou a dar as costas para Dusan e seguiu entre os dois em direção à porta.


Dusan permaneceu onde estava enquanto eles a conduziam para fora do escritório. Um sorriso surgiu em seu rosto antes que ele voltasse a se virar. A gravação terminou naquele movimento.


De volta ao hackerspace, Wrench soltou os encostos das cadeiras e endireitou o corpo, afastando-se um pouco da posição em que tinha acompanhado os últimos minutos da gravação. Marcus e Sitara trocaram um olhar breve enquanto o que tinham acabado de assistir ainda se assentava entre eles. Ray reajustou os pés onde estava e ergueu ligeiramente a mão que segurava a garrafa de cerveja, apontando-a na direção do notebook antes de falar.


— De onde veio esse vídeo? — perguntou.


— Um dos nossos mandou — respondeu Sitara. — Um dos guardas que tava na sala.


— Isso tem cheiro da Blume.


— A ocorrência contra Appleton existe — disse Josh, voltando ao próprio notebook e retomando as informações que tinha localizado durante a gravação.


— Eu ainda não entendi onde os Vípers entram nisso — disse Sitara.


— Tráfico. Principalmente drogas — respondeu Josh.


— E a ocorrência contra o Appleton? — perguntou Marcus.


— Abuso — replicou Josh.


A resposta de Josh encerrou a sequência de perguntas. Sitara permaneceu com os olhos na tela dele por alguns segundos antes de voltar devagar a atenção para a gravação interrompida à sua frente. O silêncio se prolongou um pouco mais. Marcus ficou inclinado ao lado dela, acompanhando o intervalo sem se apressar a preenchê-lo, até finalmente voltar à conversa.


— Ela podia ter comprado a própria saída jogando isso em cima da gente. E ela não fez.


— O nome de vocês não entrou naquela conversa por acidente. — Ray alertou.


— E o que ele ganha se a gente não fizer nada? — Marcus perguntou.


— Ele usou a polícia pra terminar uma negociação que ela recusou — disse Sitara.


— E usou a gente como pagamento — acrescentou Wrench.


O silêncio voltou a se estender entre eles. Por alguns segundos, a conversa não avançou; Marcus permaneceu inclinado ao lado de Sitara, ainda voltado para a gravação interrompida, até romper o intervalo.


— Eu quero ouvir o lado dela, porque até agora quem contou essa história foi o Dusan, a polícia e um monte de papel. Ela também devia poder falar.


— Ela não tinha nada a ver com a gente. Podia ter escolhido uma saída. Mas preferiu não foder com a gente. Isso importa. — Sitara complementou.


— A gente não devia deixar eles decidirem o que acontece com ela — continuou Marcus.


Wrench soltou as mãos dos encostos e cruzou os braços. Os LEDs da máscara mudaram para (- -) enquanto ele entreolhava o grupo reunido diante das telas.


— Beleza. E agora?


Josh já tinha voltado a atenção para o próprio notebook quando a pergunta de Wrench ficou entre eles. Os dedos se moveram pelo teclado enquanto ele alternava entre os registros que tinha consultado e novas informações do sistema. Alguns segundos depois, uma nova janela ocupou a tela.


— Levaram ela para uma delegacia. — Josh continuou percorrendo os dados até encontrar o estado do processamento. — Ainda não terminaram de fichar.


— Vou até lá. — Marcus se levantou e deixou a lateral da mesa assim que Josh indicou a localização. — Tentem entrar em contato com ela enquanto eu tô indo.


Ele deixou o grupo diante dos computadores e seguiu para a saída, enquanto Josh permanecia trabalhando no acesso aos sistemas da delegacia. A comunicação continuou aberta pelo comunicador, acompanhando Marcus mesmo depois que ele deixou o hackerspace. A tela do notebook começou a receber outra imagem quando Josh alcançou as câmeras internas do prédio.


A câmera mostrava uma sala de processamento com uma mesa posicionada diante da área das celas. Uma guarda trabalhava entre documentos espalhados sobre a superfície, enquanto, atrás dela, Wolf ocupava sozinha uma das celas. Ela estava deitada no chão, com o quadril próximo da parede e as pernas erguidas e apoiadas na superfície, encarando o teto enquanto cantarolava uma música.


Wrench descruzou os braços quando reconheceu o som e voltou a atenção inteira para a tela. A máscara ainda exibia (X X), mas mudou para (? ?) quando a cabeça se inclinou um pouco enquanto ele observava a posição incomum da mulher do outro lado da câmera.


— Que porra é essa, ela tá cantando?


Sitara acompanhou a imagem por mais alguns segundos antes de se prender ao obstáculo mais imediato. A guarda permanecia a poucos metros das celas, concentrada na documentação sobre a mesa, mas perto o suficiente para notar qualquer tentativa mais evidente de comunicação.


— Tem uma guarda na sala. Como a gente vai fazer algum contato?


Josh manteve os olhos no notebook. A pergunta não recebeu resposta imediata; ele abriu outro acesso, percorreu algumas opções e começou a digitar outra sequência.


— Tenho uma ideia.


Sitara se aproximou um pouco mais da tela, Wrench acompanhou o movimento de trás das cadeiras deles. Josh não explicou o que estava fazendo. O primeiro sinal apareceu dentro da própria cela. A luz permaneceu acesa por mais tempo que o normal e apagou. Depois tornou a acender pelo mesmo intervalo, sumiu novamente e retornou numa sequência diferente, alternando pulsos longos e curtos que começaram a se organizar num padrão.


A cantoria parou. Wolf continuou na mesma posição por alguns instantes, mas os olhos deixaram o teto e se prenderam à lâmpada acima dela. A sequência prosseguiu. Ela acompanhou cada intervalo em silêncio, sem tirar as pernas da parede enquanto as pausas e os pulsos se acumulavam. Na mesa de processamento, a guarda ergueu a voz sem voltar o corpo para a cela.


— Finalmente calou a boca.


— Por que você não me dá uma sugestão de música? — Wolf continuou olhando para a luz de forma fixa quando ergueu a voz para retrucar. — De preferência uma que você deteste.


A guarda não respondeu. Wolf permaneceu com os olhos presos à lâmpada, acompanhando a sucessão de pulsos longos e curtos até que o padrão se completou diante dela: DEDSEC.


As sobrancelhas de Wolf se franziram. Ela tirou as pernas da parede e se levantou devagar, aproximando-se das grades enquanto os olhos percorriam a sala, primeiro pela mesa, depois pelas paredes e pelos cantos superiores. A busca parou quando encontrou a câmera de vigilância.


— Parece que teve algum efeito — citou Sitara.


Wolf desviou os olhos para a guarda. A mulher continuava inclinada sobre os papéis da mesa, sem prestar atenção à área das celas, então Wolf voltou para a câmera. Ergueu as mãos diante do corpo e começou a gesticular na direção da lente. Wrench tornou a avançar entre os assentos de Josh e Sitara, inclinando-se para enxergar melhor os movimentos, quando perguntou:


— O que ela tá fazendo?


— Se comunicando por linguagem de sinais — respondeu Josh.


Ele acompanhou os gestos até se formarem uma frase: "Pisque a luz duas vezes se entenderem o recado." Ele alcançou novamente o teclado e o comando de controle da luz. De dentro da cela, a lâmpada piscou duas vezes. Wolf acompanhou a resposta e voltou imediatamente às mãos. Dessa vez os gestos vieram em outra sequência, ainda dirigidos para a câmera, e Josh traduziu enquanto observava:


— Ela tá perguntando se a gente tem um plano.


Sitara olhou rapidamente para os outros antes de tornar a atenção para a tela, respondendo:


— Nada ainda.


Josh manteve uma tecla pressionada por alguns instantes. A luz da cela se acendeu numa única piscada longa e voltou ao estado anterior, sinalizando a negativa. Wolf soltou as grades e permaneceu parada diante delas. Alguns segundos transcorreram enquanto ela olhava para o interior da cela, até erguer novamente as mãos para a câmera e retomar os gestos. Josh acompanhou a nova frase à medida que ela se formava:


— Ela tá perguntando se pode sugerir um — ele traduziu.


A cabeça de Wrench se virou na direção de Josh antes de retornar à tela, comentando de forma divertida:


— A prisioneira tá planejando o próprio resgate pra gente?


Sitara não deu atenção ao comentário de Wrench, mantendo a atenção na câmera na tela de Josh e respondendo:


— Diz que sim.


Duas piscadas responderam dentro da cela. A garota virou a cabeça para acompanhar a lâmpada acima dela e, assim que a luz estabilizou, conferiu outra vez a posição da guarda antes de voltar à câmera. As mãos começaram a se mover por uma sequência mais longa. Josh permaneceu concentrado nelas até ter a mensagem inteira.


— "Tenho uma ideia. Se conseguirem abrir a porta da minha cela, consigo improvisar. Vocês só precisam distrair e apagar as luzes na hora certa. Conseguem fazer isso?"


Josh terminou de transmitir a mensagem dela e olhou para Sitara, aguardando. Ela ponderou por alguns segundos, mas então, outra voz entrou pelo comunicador antes que ele voltasse ao controle da lâmpada.


— Tô no lado leste da delegacia — disse Marcus. O ruído da rua acompanhava a voz pelo canal enquanto ele continuava em movimento. — Vou limpar o caminho enquanto ela faz a parte dela. Josh, vai guiando ela.


Sitara manteve os olhos na tela e assentiu para Josh. Ele respondeu dando o comando à cela com duas piscadas na luz. Wolf deixou as mãos caírem e se afastou das grades. Recuou alguns passos para o interior da cela e ficou esperando, voltada para a porta. Josh mudou de acesso na tela. A trava liberou primeiro. Logo depois, a grade começou a correr com um ruído metálico que atravessou a sala de processamento e fez a guarda levantar a cabeça imediatamente. A guarda deixou a mesa e seguiu até a área das celas, mantendo os olhos na porta que tinha acabado de abrir.


— Fica onde está — ela ordenou. — Mãos onde eu possa ver.


Wolf ergueu os braços para a frente e juntou os pulsos. Permaneceu imóvel enquanto a guarda se aproximava e alcançava as algemas presas ao próprio cinto. A distância entre as duas diminuiu até a guarda conseguir segurar um dos pulsos e prender a primeira argola. Wolf manteve os braços estendidos, sem resistir, enquanto o metal fechava ao redor do pulso. Quando a segunda argola estava sendo colocada, os olhos dela se deslocaram da guarda e encontraram diretamente a câmera. Josh percebeu e da sala uma impressora sobre a mesa de processamento despertou de repente. O mecanismo interno começou a trabalhar sem que ninguém estivesse diante dela, puxando papel com um ruído seco e contínuo que fez a guarda virar a cabeça, nesse momento Josh cortou as luzes.


A imagem da câmera mergulhou na escuridão junto com a sala. Por um breve intervalo, o notebook no hackerspace soltou apenas alguns ruídos. Quando a iluminação voltou, Wolf já tinha a corrente das algemas passada ao redor do pescoço da guarda. Ela a puxava para trás, conduzindo o corpo da mulher para dentro da cela enquanto a guarda tentava recuperar o controle, até desaparecer com ela além da porta aberta.


— Caralho! — Wrench recuou num movimento brusco. Os LEDs da máscara explodiram num rápido (! !) antes de mudarem outra vez.


Na câmera, Wolf reapareceu junto à entrada da cela com o cinto da guarda nas mãos. A arma, o molho de chaves e os demais equipamentos continuavam presos a ele. Ela encontrou entre as chaves a que precisava para liberar a algema ainda presa ao próprio pulso, soltou o metal e então ajustou o cinto ao redor do quadril.


Com as mãos livres, voltou a olhar para a câmera e apontou para dentro da cela. A guarda permanecia desacordada no interior. Josh entendeu o recado e fechou a porta. Wolf acompanhou a grade correr até a trava tornar a se encaixar. Só depois se afastou e atravessou a sala em direção à mesa onde a guarda trabalhava.


Os papéis do processamento ainda estavam espalhados sobre a superfície. Wolf passou os olhos por eles até localizar a própria documentação, puxou as folhas para mais perto e encontrou o que procurava, dobrou o papel e o guardou no bolso dianteiro da calça. Em seguida, voltou-se para os armários numerados posicionados atrás da mesa. O molho de chaves saiu do cinto recém-colocado. Ela percorreu as numerações, comparando-as com a informação que tinha acabado de ler, até parar diante de um dos compartimentos e testar uma das chaves.


— O que ela tá fazendo agora? — perguntou Sitara, acompanhando cada movimento.


A porta do compartimento numerado se abriu. Wolf recuperou a carteira primeiro e a guardou no bolso traseiro da calça. O celular veio em seguida, junto dos fones de ouvido. Ela conectou os fones ao aparelho, colocou-os nos ouvidos antes de fechar o armário. Wrench soltou uma risada breve, comentando, enquanto LEDs mudavam para (^ ^).


— Prioridades.


Wolf tornou a procurar a câmera. Dessa vez, ergueu o celular na direção da lente e indicou os fones já colocados nos ouvidos, mantendo o aparelho visível por tempo suficiente para que o pedido não dependesse de interpretação complicada. Josh voltou ao notebook. Poucos segundos depois, o celular nas mãos dela recebeu a chamada e ela atendeu sem dizer uma palavra.


— Lado leste — disse Josh, a voz chegando diretamente pelos fones. — Um dos nossos está esperando por você.


Wolf abaixou o aparelho, guardando o aparelho no bolso da frente da calça e deixou a chamada aberta enquanto se dirigia para a saída da sala. Josh alternou entre as câmeras disponíveis, acompanhando os corredores à frente antes de orientar cada avanço.


— Segue em frente. Próxima à direita.


Ela deixou a sala de processamento e avançou pelo corredor indicado. Quando Josh pediu que esperasse, Wolf parou junto à passagem e permaneceu ali até receber a próxima orientação; depois retomou o caminho, mudando de direção conforme as câmeras liberavam trechos sem guardas.


A rota começou a mostrar sinais de outra intervenção antes mesmo de ela encontrar com a pessoa mencionada. Alguns guardas que ocupavam o caminho estavam desacordados, afastados da passagem principal, e ela foi reduzindo o passo ao encontrá-los antes de continuar na direção indicada pelo fone. Mais adiante, uma figura surgiu no corredor. Marcus estava parcialmente coberto para a operação, com tecido ocultando a parte inferior do rosto e elementos da DedSec visíveis nas roupas. Wolf parou por um instante ao vê-lo, passando os olhos dele para o caminho de onde tinha vindo e então de volta para o símbolo que reconhecido.


Sem palavras ditas, ele gesticulou no ar indicando a direção da saída e voltou a avançar. Ela apenas o seguiu. A partir dali, os dois percorreram o trecho restante enquanto Josh continuava acompanhando pelo comunicador. Marcus mantinha a dianteira, guiando a passagem até alcançar o lado leste da delegacia e conduzi-la para fora do prédio. O veículo estava estacionado pouco adiante, esperando por eles.


Marcus alcançou o carro primeiro e assumiu o volante, enquanto Wolf contornou a dianteira e entrou pelo lado do passageiro. Assim que as portas se fecharam, ele colocou o veículo em movimento e deixou a delegacia para trás, entrando no fluxo das ruas sem diminuir a distância que começava a abrir entre eles e o prédio.


Wolf continuou voltada para trás durante os primeiros quarteirões. Acompanhou a rua pela janela, procurando qualquer carro que repetisse as mesmas conversões, alguma viatura deixando a região ou qualquer movimento que sugerisse que a fuga já tinha sido percebida. A delegacia desapareceu entre os prédios e o trânsito continuou seguindo ao redor deles sem alteração. Só então ela se virou novamente para a frente e deixou o olhar passar pelo motorista ao seu lado.


— A jogada das luzes foi uma boa ideia.


— Luzes? — Marcus manteve a atenção na rua, mas a testa se franziu por um instante.


— Lá dentro na cela — ela explicou.


Wolf estreitou os olhos na direção dele. A resposta não tinha produzido reconhecimento algum e, a pequena mudança na expressão dela foi suficiente para fazer Marcus perceber que a dúvida podia ir além das luzes. Ele ligou a pergunta ao que o grupo tinha feito antes de sua chegada e explicou a confusão.


— Você provavelmente tá me confundindo com o Josh. Ele que entrou em contato com você.


Wolf sustentou o olhar estreitado por mais um instante, ainda voltada para Marcus. A tensão na expressão cedeu aos poucos quando ela desviou os olhos dele e os deixou seguir para a rua à frente. O nome novo entrou na conversa com uma simplicidade que ela acompanhou no mesmo tom:


— Então eu tenho um nome para agradecer.


— Eles tão escutando — Marcus tirou uma das mãos do volante apenas o suficiente para indicar o próprio ouvido.


— Ainda estamos em chamada — a voz de Josh chegou pelos fones que ela ainda mantinha colocados.


— Ah. Verdade. — Ela voltou os olhos para a rua à frente. A surpresa não chegou à voz quando respondeu: — Eu tinha me esquecido disso. — Wolf deixou alguns segundos passarem antes de acrescentar, no mesmo tom: — O comentário continua sendo o mesmo.


Marcus continuou conduzindo o carro para longe da região da delegacia, acompanhando o trânsito e as mudanças de direção, enquanto Wolf apoiava o cotovelo na porta e deixava a cabeça repousar na palma da mão. A cidade passava do outro lado do vidro enquanto ela permanecia olhando para fora enquanto o ruído do motor e das ruas ocupava o espaço que nenhum dos dois tentou preencher. Quando já havia distância suficiente entre o carro e o lugar de onde tinham saído, Marcus retomou a conversa.


— A gente viu a gravação — disse Marcus, mantendo o carro no fluxo da rua. O assunto entrou no silêncio que tinha se formado entre eles sem alterar o ritmo da direção. — A conversa com Dusan.


Wolf deixou a paisagem passar pela janela por mais um instante antes de virar o rosto para ele, ainda com a cabeça apoiada na mão. O nome não produziu reconhecimento.


— Quem?


A pergunta fez Marcus olhar para ela por um instante antes de voltar à rua. A surpresa passou rápido, substituída por um breve franzir de testa. Ele reformulou sem insistir no nome:


— O cara que armou pra você.


Um som baixo de compreensão escapou de Wolf. Como se nome tivesse encontrado algum lugar entre as informações das últimas horas. Ela voltou a apoiar a cabeça na mão. Dessa vez, porém, não retomou a observação da cidade pela janela lateral. Os olhos permaneceram voltados para a frente, acompanhando o painel e a rua além do para-brisa enquanto escutava. Marcus continuou:


— Tudo que a gente sabe até agora veio dele e dos registros. A gente queria ouvir de você.


Wolf puxou o ar profundamente e soltou devagar, num suspiro que atravessou a quietude do carro. Marcus não tentou preencher o intervalo antes de chegar à pergunta que tinha levado consigo desde o hackerspace:


— O quanto daquilo era verdade?


— Essa resposta é bem mais longa do que parece. — Ela voltou o rosto para ele. — E vocês não sabem metade da merda.


O olhar permaneceu nele por alguns instantes antes de se afastar. Wolf encarou o para-brisa e ficou em silêncio enquanto a própria dimensão daquela conversa se organizava junto de problemas mais imediatos: estavam num carro em movimento, tinham acabado de sair de uma delegacia e ela nem sequer sabia para onde estavam indo.


— Esse não é o tipo de lugar e momento para contar isso. — Wolf manteve os olhos no para-brisa enquanto o carro seguia pela rua, deixando a pergunta vir depois de alguns segundos em que acompanhou o caminho à frente. — Para onde a gente está indo?


— Ainda não decidimos. — Marcus continuou dirigindo, sem procurar uma resposta mais elaborada do que a que realmente tinha. — A prioridade era tirar você de lá.


Wolf virou o rosto na direção dele assim que Marcus terminou. As sobrancelhas se ergueram, e ela manteve os olhos nele por alguns segundos.


— Vocês fizeram tudo isso sem ter um plano antes?


Marcus lançou um olhar rápido para ela e tornou a atenção ao trânsito. Um sorriso curto começou a aparecer no canto da boca antes da resposta.


— Mais ou menos isso.


Wolf manteve o rosto voltado para Marcus por alguns segundos, as sobrancelhas ainda erguidas. Só então desviou os olhos para a rua, acompanhando novamente o movimento do trânsito pelo para-brisa.


— Eu não sei se fico impressionada ou chocada...


— Mas deu certo.


Wolf revirou os olhos diante da resposta e se acomodou outra vez voltada para a frente. O movimento terminou com os olhos novamente no para-brisa, acompanhando a rua enquanto o carro continuava avançando.


— É. O importante é que deu certo... De alguma forma.


A rua continuou correndo diante deles. Ela ficou quieta por mais alguns instantes, acompanhando o caminho à frente antes de quebrar o silêncio.


— Eu conheço um lugar seguro. Podemos ter o resto da conversa lá.


Wolf tornou a apoiar a cabeça na mão e voltou a olhar pela janela. A frase seguinte saiu mais baixa, quase para si mesma, sem que ela desviasse os olhos da cidade.


— Eu já precisava conversar com alguém da DedSec mesmo...


— Fala o caminho — ele solicitou.


O carro deixou as ruas mais movimentadas para trás até Marcus reduzir a velocidade diante de uma construção antiga, encaixada numa parte da cidade em que fachadas gastas e estruturas sem qualquer apelo se sucediam sem chamar atenção. Wolf indicou o ponto com um movimento curto, e ele estacionou junto ao meio-fio antes de desligar o motor. Quando os dois desceram, Marcus demorou alguns segundos olhando para o prédio e depois para os arredores, procurando na aparência do lugar alguma coisa que justificasse a segurança que ela tinha prometido.


— Esse é mesmo o lugar seguro que você mencionou?


Wolf já seguia em direção à porta quando respondeu. Não diminuiu o passo nem se voltou para ele; apenas acompanhou por alguns instantes a rua ao redor antes de alcançar a entrada.


— É uma parte pobre da cidade. Você sabe muito bem como funciona a prioridade de vigilância nesses lugares.


Ao chegar à porta, Wolf ergueu a mão até uma luminária instalada ao lado da entrada e passou os dedos pela estrutura metálica. Uma pequena peça se soltou entre seus dedos, estreita e discreta o bastante para se confundir com parte do próprio suporte. Só quando ela a virou na mão Marcus conseguiu perceber a ponta dentada, recortada como a de uma chave.


Wolf se abaixou junto ao batente, mas não levou a peça à fechadura visível na porta. Os dedos encontraram a lateral de um tijolo próximo da altura do trinco e puxaram o bloco inteiro para fora da estrutura, revelando uma cavidade estreita no interior da parede. Outra fechadura estava escondida ali, recuada o suficiente para desaparecer completamente quando o tijolo permanecia no lugar.


Marcus acompanhou a pequena chave entrar no mecanismo oculto e ouviu o clique produzido quando Wolf a girou. A fechadura aparente continuava intacta na porta, perfeitamente disponível para qualquer pessoa que tentasse entrar pelo caminho mais óbvio. Wolf tornou a encaixar o tijolo no batente, devolveu a peça metálica à luminária e empurrou a porta para dentro.


O interior sustentava a mesma aparência banal da fachada. Uma grande porta de correr ocupava boa parte de uma das paredes e tinha largura suficiente para a entrada de um carro, mas o mecanismo que permitiria movê-la estava completamente imobilizado por correntes grossas e vários cadeados. Um veículo preto permanecia estacionado no centro da garagem, com os vidros escurecidos demais para permitir qualquer visão do interior.


Mais ao canto, uma bancada de madeira acumulava algumas ferramentas sobre a superfície, enquanto outras permaneciam presas num painel da parede. Caixas com tralhas ocupavam partes do chão e dos cantos, e uma porta fechada se destacava do outro lado do ambiente. Marcus avançou alguns passos sem se afastar muito da entrada, deixando os olhos percorrerem a garagem antes de se prenderem à única passagem interna.


— Esse é o tal lugar?


A pergunta encontrou apenas o espaço que Wolf tinha ocupado segundos antes. Quando Marcus tornou a procurar por ela, a porta do outro lado já estava aberta e Wolf tinha desaparecido por ali sem aviso. Ele ficou olhando para a passagem por um instante, soltou o ar pelo nariz e atravessou a garagem atrás dela.


O cômodo seguinte tinha sido arranjado para parecer um quarto comum. A decoração não chamava atenção por nada em particular, mas a normalidade terminava na cama: toda a estrutura estava levantada, expondo no piso um alçapão metálico aberto. Uma escada estreita descia para o subsolo, e Wolf já não estava no quarto.


Marcus se aproximou da abertura e olhou para baixo antes de começar a descida. Conforme deixava o piso superior para trás, o espaço subterrâneo se revelava entre os degraus e as paredes próximas, muito menor do que a construção acima fazia imaginar. Quando alcançou o último degrau, Wolf já estava alguns passos adiante.


O lugar era pequeno, quase estreito, e algumas das paredes carregavam pinturas de lobos brancos correndo ou erguendo a cabeça em uivos silenciosos. Outras criaturas de aparência mística dividiam o espaço com eles, formas que Marcus não conseguiu identificar numa primeira observação. O conjunto contrastava com a quantidade de ferramentas e peças espalhadas pelo restante do bunker.


Uma bancada de madeira mais larga que a da garagem ocupava praticamente toda uma parede. Peças de mecanismos sem função imediatamente reconhecível se misturavam a alguns canivetes com as lâminas abertas e a um caderno cheio de anotações e rabiscos. Acima da superfície, um mural sustentava outras ferramentas, folhas escritas, desenhos e papéis presos em diferentes posições.


Sob a estrutura da escada havia outra mesa, menor, onde um notebook permanecia cercado por monitores. Na parede oposta à entrada, um pôster torto destoava até da organização funcional do restante do lugar, colocado de maneira visivelmente descuidada. Marcus ainda percorria o bunker com os olhos quando Wolf se abaixou perto da mesa e encontrou uma garrafa.


Ela levou o gargalo diretamente à boca e bebeu por vários segundos, sem qualquer pressa. Quando baixou a garrafa, encontrou Marcus parado a poucos passos, com a atenção presa nela. Wolf sustentou aquele olhar por um instante antes de reagir.


— Nem olha assim. Considerando a merda em que eu estou, isso é justificável.


Marcus não respondeu. Ergueu as duas mãos diante do corpo para se isentar de qualquer comentário ou julgamento, e um sorriso curto acompanhou o gesto antes de ele voltar a relaxar os braços.


Wolf soltou um último suspiro e colocou a garrafa sobre a mesa do notebook. Depois se acomodou na cadeira diante dela e se voltou para Marcus, deixando a mudança de assunto substituir de vez a pequena pausa produzida pela bebida.


— O que, exatamente, vocês sabem?


Marcus continuou de pé, sem se aproximar das coisas espalhadas pelo bunker. A resposta veio direta, limitada ao que a DedSec realmente tinha conseguido reunir antes de tirá-la da delegacia.


— A gente sabe que você registrou uma ocorrência contra o Appleton. Abuso. Os Vípers mexiam com drogas, alguns deles começaram a sumir e o Dusan juntou essas coisas na gravação. A ligação entre tudo isso? Nada além.


Os ombros de Wolf desceram devagar enquanto ela assimilava a extensão daquela resposta. Durante alguns segundos, o rosto permaneceu voltado para Marcus com uma expressão esvaziada da leveza anterior, como se ela medisse quanto precisaria realmente contar para preencher o espaço entre aquelas informações.


— Vocês querem a história inteira desde o começo, com todos os detalhes? — Wolf sustentou o olhar nele durante a breve pausa. — Não é uma história agradável.


Marcus não tentou diminuir o tamanho daquilo nem conduzir a resposta para um ponto específico. Permaneceu diante dela, deixando que a escolha sobre por onde começar continuasse com Wolf.


— Eu quero a verdade. Do jeito que aconteceu.


Wolf ficou quieta por mais um instante. Então se recostou na cadeira e ergueu uma das mãos no ar, assumindo uma cadência deliberadamente narrativa antes mesmo que a primeira frase terminasse de se formar.


— A história começa com uma garota que gostava de se divertir em bares, mais especificamente em karaokês. Ela se empolgava durante as apresentações, como parte de um pequeno espetáculo.


A mão acompanhou a frase com um gesto amplo, completando a pequena encenação que a voz já tinha iniciado. Marcus ergueu uma das sobrancelhas diante da mudança inesperada, cruzou os braços e reajustou o peso sobre uma das pernas, mas permaneceu em silêncio enquanto Wolf virava o rosto para ele.


— Mas, em uma noite, um canalha aproveitou que ela ficava distraída durante seus shows improvisados e colocou alguma coisa na bebida dela. Ela ficou com uma lacuna enorme na memória, lembrando de detalhes que nunca a abandonarão. Permaneceu acordada durante o estupro sem conseguir se mexer, sem conseguir falar. Apenas... ouvindo, sentindo...


A teatralidade ainda existia na maneira de organizar a história, mas perdeu qualquer possibilidade de leveza conforme as palavras avançaram. Wolf deixou o silêncio ocupar o intervalo depois da última frase e ergueu ligeiramente as sobrancelhas para Marcus, como se oferecesse a ele uma pergunta cuja resposta já estava preparada.


— E depois? — A pausa deliberada continuou por mais um momento. — Acorda largada em um beco qualquer. Sendo amparada por desconhecidos.


Wolf deixou a cadeira e se voltou para a mesa do computador. Abriu uma das gavetas, remexeu o interior por poucos segundos e retirou uma pasta de documentos, levando-a consigo enquanto retomava a narrativa.


— E essa nem seria a pior parte de toda essa merda.


Ela interrompeu o próprio movimento antes de alcançar a bancada, olhando para a pasta nas mãos por um instante. A voz perdeu imediatamente o registro teatral anterior quando Wolf corrigiu a frase que tinha acabado de dizer.


— Mentira. A parte anterior é obviamente a pior, mas o que eu quero dizer é que a próxima consegue ser tão revoltante quanto.


Wolf atravessou o espaço restante e lançou a pasta sobre a bancada de madeira, perto de Marcus. Abriu a capa e deixou os documentos expostos para ele, sem precisar organizar o conteúdo antes que Marcus se voltasse para as páginas.


Os registros continham a ocorrência e os procedimentos realizados depois dela. Marcus começou a percorrer as informações sobre os testes físicos, as roupas examinadas e a descrição fornecida do agressor, mantendo os papéis sobre a própria bancada enquanto Wolf permanecia próxima.


— A garota procurou ajuda, mas sabe o que encontrou? Pessoas dizendo que ela não conseguiria nada daquilo. Que só seria pior se tentasse levar adiante.


A cadência de narradora desapareceu outra vez antes do comentário seguinte. Wolf se aproximou mais da bancada e apoiou os antebraços na madeira, inclinando levemente o corpo enquanto Marcus continuava diante dos documentos.


— Só faltou os policiais rirem. E sinceramente? Eu já tinha ouvido falar que a polícia é uma merda, mas sentir diretamente na pele é outra coisa. Foi muito mais...


Marcus levantou os olhos dos papéis quando a frase ficou aberta entre os dois. A palavra surgiu como uma tentativa de acompanhar o sentido que ela vinha construindo, sem que ele afastasse completamente uma das mãos da pasta.


— Decepcionante?


— Revoltante.


Wolf retirou os braços da bancada e começou a se afastar devagar. Quando retomou a história, não recuperou a voz teatral; a primeira pessoa permaneceu, acompanhando a mudança entre aquilo que tinha acontecido com ela e aquilo que decidiu fazer depois.


— Então eu pensei: tenho duas opções em mãos. Aceitar que essa porra aconteceu e que ninguém vai fazer nada, porque é assim que o mundo vive; ou...


Os olhos se desviaram de Marcus de maneira evidente e permaneceram por um instante em algum ponto distante da parede. Quando voltaram para ele, a hesitação da pausa tinha desaparecido, deixando a atenção de Wolf inteiramente fixa no homem à sua frente.


— Tomar uma atitude sozinha.


Ela desviou os olhos outra vez e apontou para o caderno aberto sobre a bancada. Marcus deixou a ocorrência e acompanhou a indicação, encontrando as páginas preenchidas por anotações e rabiscos que ocupavam a superfície perto dele.


— Foi assim que eu descobri os Vípers. Bom... a descoberta é muito mais longa, mas, cortando os detalhes, achei o grupo que fornece drogas para esses desgraçados.


Wolf voltou a se aproximar enquanto falava, e uma das mãos tornou a se mover no ar. A dramatização retornou aos poucos, não ao conteúdo anterior, mas à maneira como ela preparava a próxima escalada da história.


— Mas a história não para só aí. Ela consegue ficar ainda pior. Sempre consegue.


A voz de Wrench entrou pelo comunicador antes que Wolf continuasse. O som direto nos fones interrompeu a pequena encenação no meio do movimento e trouxe de volta, de uma vez, a presença das pessoas que acompanhavam toda a conversa à distância.


— Porra, quantas vezes essa história ainda vai conseguir piorar?


Wolf ficou em silêncio imediatamente. A mão permaneceu suspensa por um instante antes de baixar, e ela piscou enquanto a lembrança da chamada aberta reassumia lugar na cena. Quando falou, a constatação veio sem qualquer tentativa de disfarçar o lapso.


— Eu tinha esquecido absolutamente das outras pessoas ouvindo a história.


O silêncio seguinte durou apenas o suficiente para ela reorganizar o ponto em que tinha parado. Wolf voltou a atenção para Marcus e retomou o relato sem transformar a interrupção numa conversa paralela.


— Meu plano inicial era apenas descobrir uma ligação entre os Vípers com a venda de drogas para a “alta sociedade”. — Wolf marcou o termo com aspas feitas pelos dedos. — Eu queria achar quem alimentava esses desgraçados. Mas quanto mais eu investigava, pior foi ficando. Não eram drogas quaisquer. Era um esquema muito maior de crime. Drogas para praticar crimes sexuais, para induzir uma falsa morte por overdose acidental. Tudo orquestrado por pessoas lá de cima.


O dedo dela apontou para cima quando a frase chegou às pessoas envolvidas no esquema. Depois a mão voltou a descer enquanto Wolf mantinha a progressão da descoberta, deixando a dimensão daquilo ultrapassar definitivamente o problema que tinha iniciado sua investigação.


— E eu não achei só esse esquema gigantesco de drogas. Achei nomes gigantescos envolvidos. E é aqui que vocês entram.


A voz de Josh chegou pelo comunicador assim que os dados passaram a fazer parte da história. A pergunta veio curta, sem desviar o assunto para qualquer outra coisa.


— Você ainda tem esses dados?


Um sorriso largo apareceu imediatamente no rosto de Wolf. Ela se virou para Marcus, usando a presença dele como destinatário da parte visual da resposta, e apontou para ele enquanto falava para Josh através dos fones.


— Sim, meu caro amigo das luzes. Eu soube imediatamente que aquilo era exatamente o tipo de coisa que a DedSec gosta de expor. Por isso eu disse que já queria conversar com vocês. Esses dados faziam parte do meu plano final.


Wolf deixou a mão cair e fez outro gesto curto para empurrar a própria narrativa de volta ao ponto anterior. A pequena digressão tinha levado a história até a DedSec antes da hora, e ela mesma retomou a sequência que vinha construindo.


— Mas vamos voltar à ordem dos fatos. Foi nesse momento que achei o nome do meu alvo: Richard Júnior Appleton.


Wolf pronunciou o nome lentamente, separando-o do restante da história. O sorriso desapareceu enquanto ela prosseguia, e a atenção deixou Marcus para se prender a algum ponto mais distante do bunker.


— Mas antes de seguir para ele, eu fiz um plano extra, porque não podia deixar os Vípers seguirem arruinando mais vidas em troca de mais dinheiro sujo.


O olhar permaneceu afastado enquanto Wolf avançava para a consequência daquela decisão. A voz perdeu novamente o movimento performático e ficou mais contida, acompanhando a sequência sem tentar suavizá-la.


— Então... um a um... foi sumindo.


Só depois dessa frase Wolf tornou a olhar para Marcus. A distância que tinha colocado entre si e o restante do bunker se fechou quando ela encontrou novamente os olhos dele e completou aquilo que os desaparecimentos realmente significavam.


— Eu fui tirando todos os nomes importantes que consegui.


Marcus permaneceu diante da bancada, mas a expressão que acompanhava o relato foi ficando mais séria conforme a ligação entre os desaparecimentos e Wolf deixava de depender das suposições reunidas pela DedSec. Ela percebeu a mudança sem interromper o próprio olhar e deixou alguns segundos passarem antes de entregar a confirmação que ainda faltava.


— Sim, essa parte é verdade. A figura mascarada era eu.


A frase permaneceu entre os dois enquanto Wolf sustentava o silêncio por mais alguns segundos, ainda com os olhos presos em Marcus. Quando voltou a falar, corrigiu a própria formulação sem acrescentar qualquer explicação.


— Sou eu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.