Aquilo que nos diz o silêncio
1 Capítulo único
Notas iniciais
Conversas indistinguíveis, talheres tinindo contra a porcelana, passos de garçons apressados, o abre e fecha das portas dos lavatórios… assim era o silêncio de uma cadeira vazia.
Mas Daniel não parecia padecer pela falta de companhia naquela quinta-feira. Bem verdade, estava muito bem acomodado em um assento confortável e servido da presença de um recém adquirido volume de Folhas de Relva. E o cheiro de livro novo era um prato cheio para a felicidade da solidão, afinal, quem seria melhor companheiro na espera de seu filé de salmão grelhado com salada senão o próprio senhor Whitman?
Os dedos percorriam apressadamente cada palavra lida quando uma voz áspera interrompeu-lhe a leitura.
— Com licença, senhor…
— Ó, mas o meu pedido já chegou? — Daniel interrompeu, com satisfeita surpresa, quem quer fosse o presumido garçom. — Pelo movimento pensei que demoraria mais.
Fechou o livro, guardou-o num dos bolsos do casaco.
— Err… — Houve uma pausa embaraçada. — Na verdade eu queria saber se este assento está ocupado.
Daniel demorou a compreender o que o homem, e neste instante o cheiro forte de uma colônia barata de lavanda explodiu-lhe o olfato, queria ali.
— Ah sim, sim… quero dizer, não… Enfim, a cadeira está vazia e pode levá-la se quiser. Não espero por ninguém, fique à vontade.
Daniel buscou outra vez o livro do bolso e tratou de caçar a página onde havia sido interrompido.
— Err… — Algo mais estava vindo do recém-chegado. — Na verdade eu queria saber se você se incomodaria em dividir a mesa comigo. A casa está cheia hoje e eu duvido que eu consiga uma mesa antes de uma e meia.
— O que? — Coçou a cabeça.
— Dividir a mesa — insistiu.
Houve mais um silêncio naquela conversa. Daniel estava prestes a bolar uma desculpa para livrar-se dele; afinal, a companhia do senhor Whitman era mais do que suficiente para aquela pausa para o almoço. Como se previsse os seus planos, o estranho avançou as palavras:
— Por favor, cara. Eu fiquei preso no escritório com um cliente chato pra caramba, perdi quarenta minutos do meu horário de almoço e estou morrendo de fome. Se não fizer o pedido antes das uma provavelmente não chego no escritório no horário e meu chefe me esfola… Claro que eu poderia ir comer na Esquina do Dogão, mas eu não confio passar a tarde sustentado por cachorro-quente com caldo de cana pelo resto do expediente… Por favor?
Daniel respirou fundo, e arrependeu-se disso quando a lavanda barata fê-lo pigarrear e tossir. Ainda pensou numa saída para a situação, mas a consciência agiu mais rápido que a vontade.
— Claro, por que não? — Tentou parecer simpático, mas só tentou.
Daniel tateou a mesa e buscou o óculos escuros, colocou-os novamente no rosto.
— Obrigado, cara. Você não sabe o quanto sou grato. Você é um cara muito gente fina... A propósito, meu nome é Murilo.
— Daniel — respondeu insosso e retomou a leitura.
O garçom não demorou a chegar para recolher o pedido de Murilo, que fez questão de explicar que as contas seriam separadas.
Daniel permaneceu em seu silêncio costumeiro aos horários de almoço, ou pelo menos tentou. Não era preciso um tato aguçado para perceber a mesa tremendo sob seus cotovelos. Houve uma tentativa de ignorar a tremedeira por alguns minutos, mas a paciência logo terminou.
— Algum problema? — baforou.
— Hã? Não, por quê?
— Sua perna nervosa… a mesa está tremendo.
— Minhas desculpas. É somente a fome, fico ansioso, mas tentarei me conter agora.
Daniel voltou às linhas pontilhadas… outra vez, não por tempo suficiente.
— Cara, você é muito gente boa. — Murilo gaguejava, ainda assim tentava puxar assunto.
— Você já disse isso. — Tentou concentrar-se na leitura.
— Mesmo?
— Sim…
A pausa que transcorreu não foi o suficiente para Daniel correr sequer meia linha com os dedos.
— Mas é sério. Eu tentei dividir a mesa com outro cara ali atrás (eu chamo ele de o cara do suco de acerola) que sempre pensei que seria uma pessoa bacana. Mas ele acabou sendo cara de pau, não quis dividir a mesa comigo.
— Uma pena! Não é mesmo!? — Fingiu ainda estar concentrado nas páginas cheirosas.
Murilo calou-se repentinamente, e a mesa tornou a tremer. Daniel suspirou, arrependeu-se das escolhas da vida, desistiu da leitura e cruzou os braços. Quando a mesa parou de mexer o tagarela voltou a conversar.
— Ah, mas o problema não foi nem ele recusar a dividir a mesa. Mas sim a desculpa de “estou esperando alguém no momento, me desculpe”. Caramba, qual a dificuldade de dizer somente: “desculpa, cara, mas eu prefiro almoçar sozinho e não sinto pena de você o suficiente para isso.”
— Tentarei me lembrar disso da próxima vez — argumentou pacífico.
Murilo, como se não escutasse as ironias de Daniel, continuava a falar.
— Eu frequento esta espelunca fazem oito meses e, de segunda a sexta, eu venho almoçar aqui e encontro o cara do suco de acerola e te afirmo… Nunca vi ele acompanhado num almoço! Nunca! Eu tenho pouquíssimas certezas nesta vida, Dan — interrompeu-se. — Posso te chamar de Dan?
— Não vejo que diferença faz a esta altura, não mesmo?
— Pois é, Dan, das poucas certezas que eu tenho nesta vida uma é que, quando eu passo por aquela porta, você estará aqui, nesta mesa, com seus óculos escuros e sua bengala… e a outra é que o cara do suco de acerola estará em alguma mesa aleatória almoçando algo sozinho e tomando suco de acerola!
Daniel ficou confuso, guardando uma dúvida no sigilo da mente, mas sempre era um tanto quanto frustrante saber que alguém lembrava dele, mesmo sem conhecê-lo, enquanto ele sequer tinha noção da existência da pessoa.
Murilo, não reparando no silêncio contraditório do outro, simplesmente voltou a falar:
— Sabe, eu queria saber qual é a dificuldade em tentar socializar um pouquinho com as pessoas à volta.
“Eu acho que já tenho uma lista aqui com vários motivos,” pensou em dizer, todavia, sem saber bem por que, conteve-se.
— Não é necessário ser o melhor amigo de ninguém, nem se preocupar em mandar presentes no natal, mas custa trocar palavras com aquelas pessoas com quem nos deparamos todos dias e reconhecemos… mas que não conhecemos? Saber seus nomes, me entende?
— Estranho! se, ao passar, você me encontrar e desejar falar comigo, por que não falar comigo? E por que eu não falaria com você? — De repente Daniel flagrou-se citando Whitman e ponderando mentalmente o que acabara de ouvir.
— Exatamente! — animou-se. — Qual a dificuldade de trocar duas palavras, um olhar, um sorriso com as pessoas que encontramos na rua? Por que virar o rosto para alguém que nos encara? Qual o medo que as pessoas tem? Por que fingir que está olhando o celular quando achamos que alguém aproxima-se de nós? Quantas pessoas deixamos de conhecer por termos nos fechado para as possibilidades? Hoje em dia gentileza e simpatia são confundidos com interesse. Não posso simplesmente tentar puxar assunto sem parecer interessado em algo além de uma conversa? É frustrante.
Daniel estava com uma careta confusa nas fuças e sentia que não conseguia disfarçá-la. Murilo estudou-o por um breve silêncio e percebeu que falara demais.
— Droga! Eu estou parecendo um velho reclamando dos tempos de hoje!
— Eu queria poder dizer que não parece, mas estaria mentindo.
Murilo gargalhou alto e Daniel deixou um riso alinhar-se nos lábios.
— Me desculpe pelo desabafo. Mas só o que quero dizer é: de que adianta conhecer estranhos se eles permanecerão estranhos?
— Eu entendi, Murilo, talvez não concorde com tudo, mas compreendi.
Uma pausa íntima repousou ali.
— Você é uma boa pessoa, Dan — suspirou.
— Você já disse isso.
— Eu sei...
Murilo falaria algo mais, porém fora interrompido pelo garçom que chegou com os pedidos. A conversa retornou com mais calma, entre garfadas e goles, Daniel ficou sabendo que Murilo trabalhava ali próximo, num loja de assistência técnica de computadores. Contrapartida, contara-o que trabalhava do outro lado da rua como contador numa empresa de publicidade. Trocaram memórias simples e informações básicas (e isto variava desde o estilo de música preferido até mesmo a acidentes trágicos com super-cola na infância). Descobriram que não estavam do mesmo lado em Guerra Civil, mas concordaram que a Marvel era bem melhor que a DC... Ao final, já não poderiam mais se chamar de estranhos, talvez até pudessem se considerar conhecidos.
— Com licença, os senhores irão precisar de mais alguma coisa? Posso servir um café ou uma sobremesa? Hoje temos petit gateau. — O garçom mais uma vez atrapalhava-os.
— Eu vou querer um cappuccino. — Daniel disse risonho. — E você, Murilo?
A resposta demorou a vir. E chegou com um gosto pastoso.
— Eu tenho que ir agora, meu chefe me mata se eu me atrasar — explicou-se.
— Ah, não se preocupe comigo. Sei como é. Pode ir. Eu vou aproveitar o restante da minha folga e logo tenho que voltar também. — Simulou um riso.
Nenhum dos dois falou nada enquanto a conta era paga. Quando o garçom foi embora Murilo levantou-se daquele silêncio.
— Fiquei feliz do restaurante estar lotado hoje. Desculpe pelo incômodo, tentarei não repetir isso — despediu-se.
Daniel pensou em falar alguma coisa, mas preferiu ficar calado quando uma mão suave roçou por seu ombro e foi embora.
Tirou os óculos escuros para não embaçarem e tomou um gole do cappuccino amargo ao ouvir a sineta da porta principal anunciar alguém saindo do lugar.
Conversas indistinguíveis, talheres tinindo contra a porcelana, passos de garçons apressados, o abre e fecha das portas dos lavatórios… assim era o silêncio de uma cadeira vazia.
Suspirou-se.
Daniel ficou mais alguns minutos ali, perguntando-se se deveria ter trocado números de celulares ou e-mails e, ao final, encontrou-se pensando no que Murilo havia dito sobre se tomar iniciativa e fazer o que se quer fazer sem ter medo de respostas e discursos… Percebeu que havia falhado nesse quesito.
Mas o que poderia ter feito? Se depois de todo aquele monólogo Murilo quisesse algo além de uma conversa ele simplesmente teria dito, não é mesmo? Daniel não tinha tanta certeza do que sentia, não estava apaixonado, talvez estivesse atraído, talvez não. Provavelmente era somente uma simpatia que nutrira pelo tagarela... Com certeza não sentiria falta de Murilo se nunca mais conversasse com ele, todavia, naquele exato instante, era uma boa lembrança, então por que não a prolongar? Até onde aquilo poderia ir? O que estava de fato perdendo ali?
Seria um papo de um almoço e somente isto? Poderia virar uma amizade de longa data? Um romance furtivo?
Fosse como fosse, o almoço havia passado, talvez no dia seguinte, caso conseguisse sentir o cheiro de lavanda barata dele ou distinguir a voz dele de todo aquele falatório, pudesse convidá-lo para outra conversa. Será que ele aceitaria? Murilo não parecia o tipo que recusaria contato, mas claro que ele poderia ter sido gentil por causa do favor prestado.
Havia muitas perguntas soltas no ar e, como de praxe da natureza humana, Daniel decidiu fazer o que se faz quando muitas dúvidas surgem: deixou tudo para a sorte. Quem sabe não se encontrassem quando o restaurante estivesse lotado novamente, não é mesmo?
Torceria para que isto acontecesse logo.
Suspirou-se.
A sexta-feira havia chegado cansada e estressante, mas agora só precisava enfrentar mais meio expediente para ir descansar com o fim de semana.
Daniel estava na mesa de sempre esperando o garçom vir anotar seu pedido. Desde que entrara, tentava escutar a voz familiar ou até sentir o cheiro peculiar de Murilo, mesmo não sabendo o que faria caso viesse a percebê-lo por ali.
— Esta cadeira está ocupada? — As palavras tinham cheiro de lavanda barata.
— N-não — gaguejou surpreso com a chegada.
— Então o senhor não se incomodaria em dividir a mesa comigo, não é?
— Não me incomodaria. A casa está cheia mais uma vez? — perguntou com curiosidade inocente.
Murilo teceu um longo silêncio, Daniel supôs que ele estivesse observando o restaurante. A cadeira rangeu antes de ele sentar-se, somente então veio a respondê-lo.
— Na verdade... não.
Conversas indistinguíveis, talheres tinindo contra a porcelana, passos de garçons apressados, o abre e fecha das portas dos lavatórios… assim era o silêncio de um sorriso.
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