Aquilo Que Não Me Deram
2 Isso não e sobe dedicar a alguém
“Recuso-me a dizer que me tornei o que sou apenas por causa deles. Eles foram, talvez, as forças que amplificaram o que já estava latente dentro de mim — mas sua presença, ou ausência, ressoou muito além do que consigo nomear. É como se tivessem exercido um poder silencioso, não sempre visível, mas profundamente sentida, um campo invisível que moldou mais do que palavras podem alcançar.”
—'Titia Zuzu'
Toda vez que algum trecho me lembra algo famíliar, penso no livro "Carta ao Pai", de Franz Kafka, lembro do esforço quase impossível de traduzir em linguagem o que habita a sombra da relação entre filho e pai — as feridas que não cicatrizam, as nuances de dor e afeto que coexistem sem pedir licença. Assim, meus pais aparecem para mim não como figuras únicas e claras, mas como ausências e presenças fragmentadas, que me atravessaram em camadas que eu ainda tento decifrar.
Meu pai foi uma ausência que não se limitou ao espaço físico. Sua falta foi emocional, social, psíquica — uma ausência que, paradoxalmente, ocupou espaços demais. Na psicanálise, fala-se da função paterna como aquela que simboliza o limite, a lei, a separação necessária para o sujeito emergir. No meu caso, essa função nunca se cristalizou, deixando um vácuo onde eu tive que aprender a navegar às cegas, entre ecos e silêncios que doíam mais do que poderiam explicar.
Minha mãe, embora presente em sua materialidade e em sua ação social, esteve ausente em outros campos — onde as palavras, o acolhimento, o reconhecimento deveriam habitar. Ela foi uma presença que, em sua incompletude, deixou vazios sutis, ecos de algo que não chegou a se formar plenamente. Ela me ensinou que estar ali não é suficiente para ser visto, e que às vezes o silêncio do olhar pode ser mais frio que a ausência física.
Mas nem tudo foi feito de sombras ou de silêncios. Minha avó materna ofereceu, como um farol discreto, uma maneira diferente de estar no mundo. Ela me ensinou, mesmo sem grandes discursos, que a culpa nem sempre é minha, que as escolhas alheias não precisam ser carregadas como fardos invisíveis. Sua presença foi um conforto que não se expressava em palavras explícitas, mas em gestos e atitudes que falavam uma linguagem que eu compreendia sem precisar traduzir.
Meu avô paterno, homem de poucas palavras e muita presença silenciosa, foi uma outra forma de conforto — raro e precioso. Ele manifestava sua sabedoria pela medida do silêncio, pela fala dos momentos certos, pelo peso do que não precisava ser dito. Foi uma presença que me mostrou que o entendimento pode existir no espaço entre as palavras, e que o afeto pode ser sentido na calma da convivência.
Esses contatos, esses vínculos que escapam às definições, foram os que me sustentaram quando os vazios pareciam maiores do que eu. São eles que me fazem acreditar que há maneiras silenciosas e tênues de resistir, mesmo quando o que mais precisamos está ausente.
Este livro é, para mim, um espaço para dar forma ao que ainda não sei dizer. Um convite para quem carrega dores similares — diferentes na superfície, mas semelhantes na essência — que talvez nunca encontrem palavras exatas para o que sentem, mas que reconhecem o peso, o vazio e a necessidade de nomear o indizível.
Assim como Kafka, não escrevo para julgar, nem para absolver. Escrevo porque o que não é nomeado permanece ativo dentro, agindo silenciosamente. E se a ausência deles me marcou assim, então este livro é, antes de tudo, a tentativa de libertar o que ficou preso, para que eu e outros possamos, enfim, respirar.
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