Aquilo Que Ficou de Nós

2 A Lentidão da Cidade


A manhã seguinte despertou Erika com a sensação pesada de que a noite anterior não tinha sido apenas um sonho. Ainda sentia a presença de Seiji, embora soubesse, racionalmente, que ele não podia estar ali. Levantou-se com cuidado, os músculos ainda doridos e a cabeça latejante. A rotina era a sua âncora, a única forma de manter o mundo equilibrado, mesmo que por pouco tempo.

Após o banho, Erika vestiu roupas simples, práticas, que escondiam mais do que revelavam. No espelho, o reflexo devolvia-lhe uma mulher exausta, mas com um olhar que ainda procurava forças. No canto da cozinha, Seki movia-se com a precisão habitual, preparando o pequeno-almoço com gestos silenciosos e controlados.

— Hoje vou chegar tarde — informou Erika, enquanto pegava na mala. — Temos um jantar da empresa.

— Compreendido — respondeu Seki, sem hesitar.

Ainda assim, Erika notou algo diferente no robô. O seu olhar manteve-se fixo nela por mais tempo do que o habitual. Não era uma questão de programação, era uma atenção que parecia quase humana, demasiado intensa para ser apenas mecânica.

— Há mais alguma coisa, que me querias dizer? — perguntou, franzindo ligeiramente o sobrolho, desconfiada.

— Não, Erika — respondeu Seki, desviando ligeiramente os olhos. O tom era neutro, mas a hesitação foi suficiente para a inquietar.

No trabalho, Erika manteve-se concentrada, como se cada tarefa fosse uma parede a separá-la do mundo e das suas emoções. As reuniões sucederam-se, chamadas, relatórios, decisões. Tudo corria normalmente, e ainda assim havia algo dentro dela que não se deixava acalmar, como se sentia-se estranhamente distante, como se estivesse a observar tudo de fora.

O jantar da empresa trouxe consigo um ambiente de formalidade e estratégia. Erika bebeu mais do que o habitual, não por prazer, mas para diluir o peso da noite anterior e a saudade que ainda sentia. Mantinha a postura profissional, sorrisos calculados, respostas rápidas. Cada gesto parecia ensaiado, mas ninguém notou a turbulência interior que a dominava

Quando o jantar terminou, Erika recusou o convite para continuar a noite noutro local e decidiu caminhar pela cidade. As ruas estavam iluminadas por lâmpadas amarelas que lançavam sombras longas sobre os passeios. O efeito do álcool tornava os sons mais suaves, as cores mais lentas, como se tudo tivesse desacelerado para lhe dar tempo de refletir. E nesse momento, a memória de Seiji voltou com força total: os passeios juntos, as mãos dadas, a segurança que ele sempre transmitia. A cidade parecia mais leve, o mundo mais agradável, como se ele ainda estivesse ali, sussurrando-lhe que tudo ficaria bem.

As lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto sem aviso. Não havia vergonha, nem contenção. Apenas a expressão crua de quem ainda se sente viva pelo amor que perdeu.

Erika, sem que percebesse não notou os olhares que a seguiam, três homens surgiram discretamente nas sombras, observando-a com intenções maliciosas. Erika continuou a caminhar, absorvida pelas lembranças, sem notar o perigo que se aproximava. A cidade que abrandava para ela, não abrandava para eles. O mundo tornara-se um lugar de dualidade: memórias de calor e segurança, e sombras de ameaça e medo.

O contraste entre a serenidade ilusória e o perigo iminente criou um arrepio que percorreu-lhe a espinha. Mas naquele momento, Erika ainda não sabia que a noite iria testar não apenas o seu corpo, mas também a sua capacidade de acreditar que, mesmo no mais escuro dos becos, havia algo ou alguém capaz de salvá-la.