Aqui no Mar

2 Aquata - Parte 2


Notas iniciais
Com licença senhores Vocês teriam um minuto para a palavra da sereia inversa? https://www.youtube.com/watch?v=xBCGVqyWrSQ Não perguntem, apenas aceitem

Dei algumas voltas com Hermes – no intuito de entediá-lo o mais cedo possível, para que voltasse ao baile e me deixasse em paz.

Por algum motivo, não estava funcionando.

“Já lhe mostrei as redondezas no mínimo umas 3 vezes, senhor.” Suspirei vencida. “Não sei o que mais quer de mim.”

Ele sorriu de canto. “Não me chame de senhor. Me faz parecer velho.”

Ergui a sobrancelha. “Os milênios de existência lhe pesam as costas quando assim te chamo, senhor?”

Ele me olhou, achando graça de minha provocação. Cedi. “Do que devo chamá-lo, então?”

“Do que quiser, bella mia.” Insinuou. Seria um tom provocativo ou era apenas a minha cabeça?

Coisa de minha cabeça, com certeza.

Demos alguns passos em silêncio. Estava preocupada demais tentando não corar.

Se é que seria possível controlar o bombardear de meu sangue.

“É um palácio pequeno.” Concluiu Hermes, após um suspiro.

Então volte de onde veio, capeta. “Poderemos voltar ao salão, então?” Perguntei, esperançosa.

“Engraçado que esteja tão ansiosa para voltar ao baile… Estava fugindo dele, quando esbarrou em mim, não?” Ele provocou.

Não quero voltar ao baile. Quero me livrar de você. “Para onde ia com tanta pressa?” O deus não desistiu de investigar.

“Reclusar-me. Em meu quarto.” Admiti, de uma vez. “Sei que quer histórias interessantes da família real de Atlântida para espalhar no Olimpo, mas sinto desapontá-lo. Não tenho nada de interessante a compartilhar. Volte ao baile e tente com minha irmã Adella, eu sugiro. Ela deve ter mais casos a contar do que eu.”

Ele ergueu a sobrancelha. Me encarava como se eu fosse fascinante. “O maior acontecimento da história de Atlântida em séculos está acontecendo no salão de sua casa e quer se esconder em seu quarto?”

Irritei-me. “Vocês, olimpianos, com esta maldita mania de grandeza.” Deixei escapar. “O que há de tão interessante em uma festa? Os deuses maiores em um mesmo cubículo? Eu deveria me ajoelhar perante tal momento, é o que pensa?”

Hermes abriu a boca para responder, mas eu não o permiti. A pergunta era retórica – não que eu esperava que ele soubesse o que isto era. Prossegui, atropelando-me em palavras: “Vocês têm a eternidade e ainda sim se prendem a tão pouco. A momentos grandiosos, esbanjamentos de poder e riqueza. Se quer saber a minha opinião, são muito barulhentos. Subestimam as pequenas coisas. Os momentos de solidão. Pequenas paisagens silenciosas, lindas por si só e esperando para serem admiradas.”

Hermes balançou a cabeça, visivelmente confuso com a expressão de minhas ideias. Não me surpreende. Não nasci para fazer sentido.

“O que tem a ver admirar paisagens lindas com você se trancando em seu quarto?” Expressou ele, lenta e relutantemente. Eu sorri.

“Você não entenderia.” Resumi.

“Está me chamando de burro?” Questionou, brincalhão.

Parei no meio do corredor em sua frente, cansada daquela conversa. “Eu, meu senhor, não te chamei de nada. Nem para nada. Está aqui porque se chamou sozinho.”

Fui inconveniente de todas as formas possíveis. Concluí. Por que ainda insiste?

“Você…” Concluiu o deus, apontando para mim. “É uma garota muito esquisita.”

“E você…” Apontei para ele da mesma forma. “É muito perspicaz por finalmente ter entendido.”

—

Bufando e esgotada, bati a porta de meu quarto atrás de mim. Inevitavelmente, repetia a conversa que havia tido com Hermes inúmeras vezes em minha cabeça.

Tenho ciência de que meus pensamentos são um tanto confusos, mas eles fazem sentido em minha cabeça. Minhas ideias apenas se embaralham quando tentam sair.

Confesso que me sinto mal quando me lembro do quanto as pessoas não me entendem – e nem tentam, e nem querem. Um simples ato de querer ficar sozinha ao ir numa festa parece ser, por si só, um escândalo!

Se soubessem o quanto interagir com outras pessoas me esgota... Sinto minha energia ser literalmente drenada quando estou cercada de pessoas que não conheço – ainda mais em um salão cheio delas! Sou obrigada a ser sociável, conversar, e ainda fingir que estou me divertindo – por que se demonstrar meu genuíno tédio, serei eu a indelicada!

Tantos papéis impostos a mim para executar, como se estivéssemos todos em um grande palco… Depois sou eu a esquisita.

Por coisas assim, prefiro evitar tais eventos. São muito exaustivos para o meu gosto.

Pessoas são muito exaustivas para o meu gosto. E seus assuntos vazios também.

Escancarei as cortinas e sentei-me no chão, apoiando meu rosto na sacada. Alana dizia que eu tinha pego o pior quarto, com menos acesso à luz e logo com a pior vista. Para variar, eu discordava.

Dali, do lado de fora de minha janela, eu conseguia ver uma colônia de lesmas do mar. Qualquer de minhas irmãs daria um escândalo e exigiria que elas fossem retiradas, mas eram todas tão bonitas e coloridas – além de inofensivas – que as deixei. Eram melhor companhia do que muitos que já conheci.

“Olá, Jade, Turquesa, Larine.” Cumprimentei-as uma a uma. Não me respondiam, mas percebiam minha presença. Se não fugiam de mim, creio que já era um bom sinal.

Percebi uma nova companhia. Esta era branquinha. “Ora, ora… E você, quem será?”

Para a minha surpresa, esta se mostrou com “orelinhas” amarronzadas. Me surpreendi, abrindo um largo sorriso. Era um coelho do mar! Muito raros, tinha os visto apenas em gravuras em meus livros!

E estavam ali! Em minha sacada!

E eram tão fofos!

“Ok, eu já tinha entendido que você era esquisita… Agora conversando com lesmas?” A voz que havia conhecido naquele dia me surpreendeu ao meu lado, me fazendo pular de susto. “Você só me surpreende.”

“O que demônios está fazendo aqui?” Voltei a Hermes, irada. “Saia daqui! Isto é completamente inadequado!”

Como ao menos chegou em minha varanda? Perguntei-me.

“Eu vou gritar!” Ameacei.

Ele não conseguiu segurar o riso. “Se gritar, acharão que estamos…”

Em um súbito momento de raiva e constrangimento, puxei uma correnteza de água que cercava o palácio — protegido momentaneamente por uma bolha de ar. Posicionei-me em uma postura defensiva, ameaçando atacá-lo se não saísse logo.

Ele ergueu as mãos, em um sinal de redenção. “Calma, calma. Tranquila.” Falava, como se estivesse tentando acalmar um cachorro.

“O que está fazendo aqui?” Retomei a pergunta, lenta e ameaçadoramente.

Ele suspirou. “Confesso que fiquei curioso com aquele seu papo de paisagens. Quis conferir se não teria uma muito bonita em seu quarto…”

Encarava-o, ainda furioso. Em uma escala de 1 a 10, o quão ruim seria para Atlântida se eu tentasse afogá-lo?

“… Mas concluí que a única coisa bonita aqui é você, mesmo.”

Senti meu rosto pegar fogo. Aquilo me pegou completamente despreparada. Não estava acostumada com pessoas tão diretas.

De súbito, sua insistência em me fazer companhia começou a fazer mais sentido.

Fiquei em choque, sem saber como reagir. Por algum motivo, não estava mais tão motivada a expulsá-lo dali.

E ele percebeu. Cruzando os braços e sorrindo travesso, me analisou.

“São de estimação?” Ele puxou o assunto, indicando as lesmas com o olhar. “Não posso te julgar. Tenho duas cobras.”

Envergonhada, sorri. Retornei a água ao mar. “É sério? Quer dizer… Eu sei, eu sei.” Aquata se mostrando um desastre para manter conversações. Check. “Claro que eu sei, você é Hermes… Enfim… São coelhos do mar. É a primeira vez que os vejo. E não gosto da ideia de ser dono de nenhum outro ser vivo. Eles nos acompanham se assim for a vontade deles.”

“Sabe muito a meu respeito, então?” Provocou ele, aproximando-se perigosamente de mim. Me afastei em um passo inconscientemente.

“Todos sabem de você. Mensageiro dos deuses. Faz jus a sua fama. Um comunicador nato.” Era o jeito mais elogioso que encontrei de insinuar o quanto era falante. Apoiei minhas mãos na sacada fingindo me distrair com a vista.

“Muitos acham muita coisa de mim.” Ele deu de ombros, despreocupado. Como deve ser bom, concluí. Ser indiferente à opinião alheia.

“Mas o que você acha de mim?” Seu tom de voz ficou mais grave e sua mão pousou sobre a minha. Desta vez, não tive coragem de me mover. Senti todo o meu corpo petrificado. Estava tensa demais.

Seus olhos dourados se colaram aos meus em uma intensidade assustadora. Merda. Merda. Merda.

Você tem cocô na cabeça? De todas as deusas e ninfas maravilhosas na festa agora, estar perdendo tempo comigo?

Eu nem sou tão bonita assim. Além de esquisita…

“Estou esperando sua resposta.” Ele me pressionou com gentileza.

“O-o que eu acho de você?” Gaguejei. Patética.

“Aham.” Ele murmurou, olhando para os meu lábios. Meu coração se acelerou ainda mais, sem eu saber que isto era possível.

Lindo.

Muito, muito, muito atraente.

“Invasor de quartos.” Foi a única coisa que meu cérebro, em sua magnífica potência, conseguiu bolar como resposta para o momento. É por isso que morrerá sozinha, Aquata, sua burra.

“E você quer que eu me retire?” Seu rosto estava tão próximo ao meu que conseguia sentir seu hálito.

Considerei a ideia, caso pedisse para que ele ficasse.

Não deveria. Literalmente tudo na situação indicava que daria merda.

Conhecia muito bem a fama de Hermes. Mulherengo, se gabava de suas “conquistas” aos quatro ventos. Não podia esperar dele nada mais de uma noite.

E quem disse que quero mais de uma noite?

Assustei-me com o rumo de meus pensamentos. Eu não deveria pensar assim… Não era digno, ou próprio, ou certo.

Eu não nasci para ser certa.

Aquilo não era o tipo de coisa que eu faria… Me aventurar com rapazes, como Adella ou Andrina. Não combinava comigo, eu não era assim.

E você lá sabe o que é ou deixa de ser?

Embora ele já estivesse muito próximo de mim, ele não avançava completamente – esperando por minha reação.

Aquela espera me torturava, e ele sabia disso. E ainda parecia se divertir com meu conflito interno.

Respirei fundo. Provavelmente me arrependeria daquilo.

Foda-se. Pensei, beijando-o.

Ele colou meu corpo ao seu. “Vou assumir isto como um não.”

Notas finais
A foto de um coelho do mar, caso nunca tenha visto um: https://www.aquaa3.com.br/wp-content/uploads/2016/03/Jorunna-parva-o-coelho-marinho.jpg E imagens de lesmas do mar (são muito bonitas by the way): https://go.hurb.com/wp-content/uploads/2019/09/Essa-vaquinha-do-mar-%C3%A9-a-coisa-mais-fofa-que-voc%C3%AA-ver%C3%A1-hoje-2.jpg https://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/0d/04/75/7f/nudibranch-lesma-do-mar.jpg https://i.ytimg.com/vi/s5SudRdWFPA/maxresdefault.jpg