Aqueles Seus Olhos Azuis
16 Entre escorpiões e barracudas
Notas iniciais
Aqueles Seus Olhos Azuis
Capítulo XV — Entre escorpiões e barracudas

Humanstuck!Meenah headcanon da autora (feat. Aranea)
Vriska virou a cabeça e sorriu mostrando os caninos na direção da garota punk.
–Não, eles não chegam nem a ser trutas.
Meenah deu uma risada breve. Seu batom fúcsia brilhava. Ela mirou os olhos de mesma cor em Dave e John então estreitou-os, sorrindo de canto como se pensasse numa maneira de fazê-los se ajoelharem e lamberem seus pés. Ela tinha esse complexo de imperatriz.
A garota negra de tranças exageradamente compridas trocou o peso de um pé para o outro, mas não desgrudou de Vriska. Mais do que isso, a loura entrelaçou os dedos nos seus, na mão que estava pendurada sobre seu ombro. Elas pareciam um casal de cobras incrivelmente letais.
Não, melhor: uma barracuda e uma aranha. Que par peçonhento e perfeito.
–De qualquer jeito –ela fez um gesto de desprezo com a mão livre- O que cê tá fazendo com essa dupla de peixes-palhaço?
Vriska deixou o sorriso crescer mais ainda, como o rastro de uma cobra.
–Ah, estava me atualizando nas novidades! Você nem vai acreditar se eu contar que esses dois –apontou para os rapazes- estão saindo.
–Nós NÃO estamos saindo! –protestou John, novamente. Dessa vez, parecia bem mais irritado (ou desesperado).
Enquanto Vriska fazia cara de “aham, sei”, Dave só ficava mais e mais deprimido. Por que ele estava agindo assim? Por que negar tanto a relação dos dois? Vriska os vira de mãos dadas, já era, não tinha nem pra quê esconder agora. Em meia hora a cidade toda estaria sabendo, e honestamente – por que isso seria um problema? O pai de John apoiava. O irmão de Dave também. Seus amigos não tinham o menor preconceito com homossexualidade, uma vez que eles mesmos eram mais uma suruba do que um grupo de amigos...sem brincadeira, todo mundo namorava todo mundo naquele meio. Às vezes, até três de uma vez. Era loucura.
Mas voltando ao ponto principal. John não tinha para quê se esconder e fugir e provavelmente sabia disso...então, por que continuava tentando? Estava com vergonha de Dave? Ou pior ainda...se arrependendo de ter aceitado o pedido de namoro dele?
Amor é complicado, o sardento concluiu, em seu estado de letargia. Amor é complicado e ninguém compreende.
Porque ele não pedira para amar seu melhor amigo. Ele não pedira à deus na linha de saída do Céu, quando apenas um bebê babão, para ser daquela maneira. Se apaixonar pelo sexo errado. Ser um completo bug no sistema a vida toda. Não conseguir ser normal por mais que tentasse. Nada daquilo era sua culpa – e se John estava sendo um escroto em negar o relacionamento deles para amigos próximos, a culpa era dele e não de Dave. O problema era dele e não de Dave. O tapa iria em direção à cara dele, e não à de Dave.
Droga, agora ele estava puto mesmo.
A vontade era mandar tudo à merda e ir pra casa, mas ele sabia que não podia fazer isso...não deixaria o namorado na mão com duas fofoqueiras.
Porque, apesar de tudo, ele o amava.
–Tá, dá pra vocês calarem a boca por um instante? –ele pediu, por fim, se colocando entre Meenah e John e abrindo os braços. A morena tinha cara de quem iria puxar um tridente do bolso e enfiá-lo no estômago de Egbert a qualquer momento.
–Não se mete, cara –ela rosnou. Soltara Vriska, que agora estava ao seu lado com os braços cruzados e encarando o ex-namorado com um quase ódio.
–Cala a boca, “condessa”, que você quem se meteu nessa droga de conversa primeiro.
Como ele tinha razão, Meenah calou-se. Inflou as bochechas, imitando a pose da loura ao cruzar os braços.
–Eu vou mandar a real aqui. –Dave respirou fundo- Eu e o John estamos namorando, sim. –ele cobriu a boca do rapaz quando este tentou protestar- E vocês podem contar isso pro pessoal na escola, pros nossos responsáveis, até pro Papa ou pro fodido presidente dos Estados Unidos se quiserem. Contemplem minha cara de quem não dá a mínima. Eu dou tantas poucas mínimas que o termômetro de mínimas está abaixo de zero. Ele chegou a estourar, tão negativas são as mínimas que eu dou. E vocês podem pegar essas mínimas inexistentes e enfiar no cu pra sair pela boca, só pra ver o quanto eu ligo. –e mostrou o glorioso dedo do meio.
Vriska e Meenah fizeram cara de umbigo.
–Nossa, garotos são escrotos. –disse a loura.
–Só. –disse a morena.
–Por isso eu tenho você. –Vriska sorriu e passou um braço por sua cintura.
–Mas que galanteadora. –Meenah devolveu o sorriso e o gesto, e se curvou levemente para estalar um beijo nos lábios da outra vadia.
John e Dave tinham indescritíveis expressões de um misto de surpresa e nojo, naquele momento.
–Bem, vam’bora, então –disse a de tranças, depois de se separarem- Não vale a pena discutir com essas duas sardinhas raquíticas, aí.
–Hmm, concordo. –ela tinha um sorriso bobo- Ex-namorados não valem nada mesmo, você vira as costas, e eles mudam de time... –ela mandou um olhar de canto na direção de John, sorrindo maldosamente.
–Pra sua informação, Vriska –disse John quase de imediato, finalmente se soltando de Dave- Eu sou bissexual e sempre fui. Mas nem por gostar de garotas eu cometeria o erro de ficar com você de novo.
O sorriso de vadiska murchou que nem pau de velho.
–Saída estratégica pela direita, aranhinha –Meenah a puxou, esfaqueando John com o olhar- Você não merece o desgaste de discutir com quem tem um pepino-do-mar ao invés de um cérebro.
E as duas finalmente saíram.
Dave estremeceu e fez uma careta:
–UGH, até que enfim. Eu não aguentava mais ouvir a voz enjoada da vadis—hey cara, você está bem? –ele se virou para o namorado. John tinha um olhar perdido.
–Ah...hein? Ah, sim, eu tô...bem. –ele concluiu- Que tal um sorvete pra esfriar os ânimos?
–Uh...tá, vamos comprar um. –Dave concordou, desconfiado.
Se perguntava o motivo daquela breve distração. Será que John ainda pensava sobre o relacionamento deles? Ou pior – será que pensava sobre seu relacionamento com Vriska? Eles pareciam realmente felizes quando estavam juntos...e se aquela ofensa tivesse sido apenas da boca pra fora? E se, na verdade, Egbert sentia falta de seus tempos com a outra loura? E se ele quisesse terminar antes mesmo de começar?
Todas essas possibilidades começavam a causar uma taquicardia em Dave. Ele estava desenvolvendo um pânico em perder John que não conseguia controlar. Como faria sem ele? Não viveria. Não teria interesse em viver.
Calma, cara, relaxa. Ele tentou dizer a si mesmo. Não é nada disso, você quem tá pensando demais. Não se pressiona, ok? Não tem nada a ver, isso aí. Se o John tiver algo pra falar, ele vai falar na sua cara.
Mas o que lhe garantia isso?
*~*
Após o sorvete, os dois decidiram que iriam para o estacionamento do shopping, ligar para o pai de John ir busca-los. Estava quase na hora do pôr-do-sol, e se eles queriam ter um tempo antes do jantar, teriam de sair dali logo.
Mas a cabeça de Dave não dava uma trégua: ele continuava pensando em possibilidades, opções, conversas...e uma pior que a outra. Ele estava tão pessimista. Nem parecia o cara relaxado que costumava ser, antes de se descobrir apaixonado pelo melhor amigo.
Nossa, como ele se odiava.
–Então, eu vou pra lá... –a voz de John o tirou de seus devaneios- ...você vem junto?
–Ah, tá, claro. –Dave nem sabia com o que tinha concordado. Apenas seguiu John para os fundos do estacionamento, onde não tinha absolutamente ninguém.
Enquanto andava, observava o rapaz. Ele não falara muito mais depois do encontro – desagradável, diga-se de passagem – com Vriska e Meenah. E Dave apenas se preocupava mais e mais.
Não, na verdade, ele não aguentava mais aquilo.
Estava cheio.
Estava estourando.
Ele precisava mostrar à John o quanto tinha medo de perde-lo, mas...como?
Então, sua mente em erupção pôs em prática a coisa mais insensata que ele poderia ter feito naquele momento.
Dave de repente o jogou contra a parede, o que causou os pulmões do moreno de espremerem todo o ar para fora e provocar um arquejo.
–Ei! Cuida--... –John tentou protestar, parando ao encontrar a expressão do outro.
Mesmo com as lentes escuras ocultando-os, era possível notar o desejo em seus olhos, ele apostava. A boca entreaberta e cada mão de um lado da cintura de John, encurralando-o, toda a situação acabou fazendo o mais jovem enrubescer. Ele baixou o rosto, tentando desviar o olhar para qualquer lugar que não fosse o rosto de Dave.
–John... –ele chamou, a voz rouca- Olha pra mim.
Relutante, o moreno fez o que lhe foi pedido. Ergueu devagar a cabeça, fitando a sugestão de um par de orbes escarlates a encarar de volta, até que este segredo todo o incomodou. Sem aviso prévio, John segurou os óculos do outro pelas hastes e retirou-os, podendo finalmente ver, revelados, os olhos do recém-namorado. Dave apertou os olhos primeiramente – a claridade o incomodava – e enfim, abriu-os.
Os olhos dele são de um azul tão claro...
Então, sem qualquer palavra, ambos se aproximaram ao mesmo tempo. Não foi preciso “eu te amo” ou “você é lindo” para exprimir o que sentiam naquele momento. Os braços de John envolveram o outro pelo pescoço, o puxando para perto, e os lábios se encaixaram como se fossem feitos para isso. A boca de John era tão mais macia do que ele se lembrava...
Demoraram a se separar, apenas para colarem-se um no outro novamente logo depois. Alternavam beijos curtos com alguns mais longos e profundos, e quando Dave segurou a cintura de John com as duas mãos, foi automático. A língua do louro passeou traiçoeiramente por aqueles lábios vermelhos, e com um ofegar, o moreno cedeu passagem. As línguas se entrelaçaram, se roçaram, invadiram a boca alheia uma de cada vez, exploraram tudo o que podiam. Os arfares eram frequentes e nada discretos, e havia um excesso de saliva com o qual Dave preferiu não se preocupar.
John gemeu quando Dave roçou o joelho entre suas pernas.
Dave apertou os olhos quando os dedos do rapaz se afundaram em seus cabelos.
Quando o moreno chamou por seu nome com uma voz lânguida – diferente de tudo o que Dave já ouvira –, ele se distanciou para presenciar a cena. John, de rosto vermelho e lábios inchados, um fio de saliva escorrendo para o queixo, óculos tortos na ponte do nariz, pernas trêmulas, mãos agarrando suas roupas desesperadamente como se ele fosse um porto-seguro. A área de seu baixo-ventre pulsava, ele conseguia sentir, mesmo através das roupas. E o moreno fechou os olhos e gemeu seu nome novamente.
–....whoa. C-caralho. –foi o que escapou, sem aviso, da boca de Dave. Ele simplesmente não conseguia acreditar. Era como um sonho!
–A-ah...hã? –John lentamente ergueu um dos olhos, como se estivesse em seu próprio mundinho até agora- O que...o que foi?
–N-nada! –ele se apressou em dizer- É só que você está tão...lascivo. –ele segurou o queixo do outro, vendo-o se contorcer e conter um novo gemido ao morder o lábio inferior. Tá de brincadeira. Então ele se excitava com aquele tipo de fala? Deus, Egbert, você é realmente uma putinha, lá no fundo...
–Hey, John –ele chamou, fazendo o rapaz abrir os olhos enevoados para dar melhor atenção o que ele tinha a dizer- ...está quase escurecendo. Não acha que precisamos chamar seu pai?
Mais do que ninguém, Dave queria continuar com aquilo. Queria ver mais expressões, ouvir mais de seu nome, sentir mais toques. Ele sonhara com aquele momento diversas vezes, acordando em um estado deplorável...e agora, finalmente, tinha John Egbert em mãos. Rendido. Entregue. Ele queria desesperadamente tocá-lo de modo indevido e ouvir os arfares contra seu ouvido, mas não tinham tempo. Nem privacidade.
E se alguém os visse? E se alguém conhecido os visse? E se o pai de John os visse? Dave se meteria em tantos problemas que teria que mudar de nome e ir viver no México. Será que Pepito soava bem?
De qualquer modo. Eles tinham que parar e pensar se valia mesmo a pena. Talvez fosse melhor se continuassem depois, num quarto trancado, com uma cama e tal. Além do quê, fazer algo assim no estacionamento de um shopping parecia meio anti-higiênico.
John produziu um grunhido de desprazer que Dave poderia classificar como adorável.
–Odeio quando você tem razão... –ele murmurou, suspirando em seguida- Tá bom, vai...mas como eu devo sair andando normalmente...com isso?! –ele olhou para baixo. Dave também olhou e também corou.
John tinha uma ereção bem chamativa.
–Você, uhh... –Dave umedeceu os lábios- ...pensa em matemática? Na sua avó pelada? Eu não sei.
–Você poderia... –ele mordeu o lábio inferior e desviou o olhar- Me ajudar com isso. Talvez?
O rosto do sardento era como uma fogueira agora. Faltava pouco para ele começar a soltar fumaça.
–Eu, UH. Honestamente... –coçou a nuca, desconcertado- ...eu bem que queria. Mas se eu te ajudar a se livrar disso –apontou para as calças dele- Quem vai me livrar disso? –e apontou para suas próprias.
Os dois deveriam se nomear logo os reis do pau duro. (*Boner Kings)
John encarou-o por um longo tempo, até que Dave começou a ficar levemente desconfortável. Os olhos azuis eram um misto de desejo e seriedade, e ele realmente não conseguia decifrar aquela expressão. Mas tudo ficou mais claro quando o moreno proferiu:
–Eu quero muito te tocar e isso é um problema.
Então, Dave fez a coisa mais imprópria para o momento: começou a rir. Alto.
John o olhou confuso enquanto ele se desculpava, mas por fim, deixou escapar uma risadinha adorável que quebrou o clima vergonhoso. Eles dois eram igualmente ridículos.
–Certo, acho que perdi –disse Dave, coçando o olho- Pode me devolver meus óculos agora, por sinal?
–Tá, eu também... –ele riu mais um pouco, entregando a ele o acessório- Você é estúpido, Dave.
–Somos ambos estúpidos.
–O ciclo da estupidez está completo.
O louro colocou os óculos no rosto e revirou os olhos. John sorriu de canto.
–Bem, então acho que eu deveria ligar pro meu pai? –perguntou o moreno, ao que o outro assentiu- Certo...vou mais pra lá, então. –ele justificou, apontando para a frente do shopping enquanto tirava o celular do bolso.
–Beleza –respondeu Dave. O namorado se virou, mas antes que saísse, ele agarrou-o pelo ombro e puxou-o um passo para trás, sussurrando ao seu ouvido- Mas hey, não fique desapontado tão cedo. Temos muito tempo pra isso ainda. –e estalou um tapa na bunda do rapaz.
John enrubesceu, sacudiu a cabeça em negação e se afastou.
–Alô, pai?
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