Aqueles Seus Olhos Azuis
14 Amor fraterno, encontros duplos e cereal
Notas iniciais
Aqueles Seus Olhos Azuis
Capítulo XIII — Amor fraterno, encontros duplos e cereal
No dia seguinte, ao acordar, Dave Strider se deu conta de três coisas:
1 – Estava namorando John Egbert.
2 – Estava namorando John Egbert.
3 – Estava namorando John Egbert.
Meu Deus! Quando ficara tão idiota por aquele garoto? E quando ficara tão eufórico por alguma coisa? Ele mal conseguia se lembrar.
Foi preciso pelo menos vinte minutos encarando o teto, estático, até que ele absorvesse por completo aquela informação. Wow. Estava mesmo namorando John Egbert depois de cultivar por ele uma paixão platônica de dois anos. Dois anos inteirinhos. E foi preciso apenas um dia e um beijo sem graça para girar em 180° a opinião (e, provavelmente, a sexualidade) de seu melhor amigo. Wow. Wow wow wow.
Ele esfregou os olhos, e esticou a mão para pegar o relógio na mesa a seu lado, no processo, derrubando câmera fotográfica, óculos escuros e alguns papéis inúteis. Ao checar o horário, grunhiu em desgosto. Sério que acordara às seis da manhã de um domingo? Ah, perfeito. Ele sabia que sua vida estava boa demais para ser verdade – sempre algo aparecia para estragar seu humor. E ele tinha certeza que o cara de terno verde lá em cima, que tudo vê mesmo sem ter olhos, estava rindo de sua desgraça agora. Que dia terrível.
Mas, o problema verdadeiro era: ele não estava com o menor sono. Por isso, não podia virar para a parede e dormir de novo, estava agitado demais para isso. Agitado sobre o beijo, sobre o namoro, sobre a conversa na noite anterior. Wooow.
Ele colocou o relógio de volta na mesa, cobriu os olhos com o braço e suspirou profundamente.
Estava namorando John Egbert.
Antes que percebesse, estava sorrindo como um bobo, o rosto queimando, a mente distante. Pensando em como era sortudo e, droga, até Vriska Serket teria inveja de sua sorte naquele momento. Era mesmo sortudo. Sortudamente sortudando mais do que qualquer outro sortudo que já sortudou. E haja sorte.
Antes que desse um nó na cabeça, ele se esticou novamente até a mesa e, produzindo um som tipicamente de velho quando senta, “pescou” o celular, deitando-se de novo com um arfar. A luz da telinha quase o cegando naquela escuridão matinal, verificou o Pesterchum, em busca de alguém acordado àquela hora. E não é que tinha?
–- turntechGodhead [TG] began pestering tentacleTherapist [TT] at 6:10—
TG: rose lalonde por que caralhas você está acordada às seis da manhã de um domingo
TT: Bom dia para você também, Dave.
TG: bom dia
TG: mas sério wtf o que você tá fazendo a essa hora
TT: Quer mesmo saber?
TG: ...isso me deixou tenso
TT: Estou limpando meu quarto.
TG: ah
TG: ah tá
TT: O que VOCÊ está fazendo acordado, Dave, se me permite perguntar?
TG: acordei há uns dez minutos e não consigo dormir
TT: Lamento.
TG: nah
TG: mais tempo pra pensar no john
TG: ai meu deus é sério que eu enviei isso?
TT: Sim, enviou.
TG: você tá rindo da minha babaquice não tá
TT: Sim, estou.
TG: às vezes você é irritante
TT: Você é sempre irritante.
TG: também te amo “maninha”
TT: Ora vamos, não há nenhum problema em acalentar-se com a imagem de seu amante em mente.
TG: amante
TG: você faz isso soar tão impróprio
TT: Não me diga que não teve pensamentos impuros com ele, ainda.
TT: Eu lhe conheço, Dave.
TG: ........bem
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Do outro lado da tela, suas sardas se acenderam. Mas que abuso! Imediatamente supor que ele tivera fantasias com seu melhor amigo...não que ele não tivesse tido. Mas Rose não precisava saber dos detalhes.
Ora, vai desculpá-lo?! É um adolescente com os hormônios à flor da pele, nada mais normal do que, vez ou outra, pegar-se imaginando o quão adorável John ficaria debaixo de si, os lábios vermelhos e os olhos enevoados. Entre outras coisas mais.
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TG: esse não é o fodido ponto nessa conversa
TT: Adoro deixa-lo desconfortável, sabia disso?
TG: vsf
TT: “Vai ser feliz” você também.
TG: primeiro as damas
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Dave podia quase ouvir os “OOOOO” à distância.
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TT: Achei que o cavalheirismo havia morrido. :)
TG: meu deus rose podemos voltar pro assunto principal?
TT: Certo, perdão.
TT: De qualquer modo, então vocês agora são namorados?
TG: eu e minino egberto?
TT: Não, você e Equius Zahhak.
TG: ew
TG: mas sim senhora eu e john estamos namorando
TT: Meus parabéns, aos dois!
TG: haha valeu
TG: sabe
TG: eu acho que eu devo isso a você
TT: Oh, é mesmo?
TG: é
TG: tipo
TG: sem a sua dica do romantismo eu não acho que eu teria conseguido
TG: eu ia provavelmente estar ignorando o john ou fazendo ciúmes ou sendo escroto com o cara
TG: isso aconteceu ontem por causa de um conselho errado da terezi e eu fiquei com o cu na mão e tocando punheta
TG: ainda bem que ele tava fingindo só pra me deixar preocupado
TG: maldito trapaceiro
TT: :’)
TG: mas de qualquer jeito a gente se reconciliou e se beijou na porta da casa dele e eu o pedi em namoro e toda essa palhaçada que a jade já deve ter te falado sobre
TT: Falou, de fato.
TG: imaginei
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Dave revirou os olhos escarlate. Meninas simplesmente não conseguiam ficar quietas!
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TT: Mas bem, o que planeja fazer agora?
TG: perdão
TT: Referente a John. Pensaram no que vai acontecer agora que estão namorando? Como vão ficar as coisas entre vocês dois?
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Ele comprimiu os lábios. Uh. Não tinha dado atenção a isso, na verdade.
Certo, quando se namora alguém, marcam-se encontros, você quer ficar o maior período de tempo possível perto daquela pessoa, vê-la todos os dias, ligar de repente só pra ouvir a voz...
Mas isso tudo era meloso demais para a legalzice de Dave Strider. Ew, não. Ele não fazia essas coisas.
...certo, sentia vontade. Mas não fazia!
Em vez disso, o que eles poderiam fazer? Hm. O rapaz murmurou enquanto coçava o queixo, forçando a mente matinal a pensar em algo que manteria sua imagem de cara legal e ainda assim não parecesse que ele estava ignorando John.
Mas não adiantava. Seu raciocínio estava lento demais para aquela merda.
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TG: a gente marcou um jantar com meu irmão e o pai dele será que serve
TT: Já vai conhecer a família? Está com o pé no altar.
TG: sem piadinhas pf
TT: Desculpe, foi inevitável. :’)
TG: tá ok
TG: mas é
TG: o pai dele disse que queria passar mais tempo com o bro ou coisa parecida?
TG: eu acho que vai dar uma señora mierda mas não custa tentar
TG: provavelmente
TT: Pensas que seu irmão sozinho seria capaz de detonar completamente a (relativamente) boa imagem que o Sr. Egbert tem de você e dele?
TG: ye
TG: tudo numa noite
TG: é tipo uma competição boba que ele faz com si mesmo
TG: merda
TG: eu vou ter que conversar com ele sobre isso
TT: Boa sorte educando seu guardião.
TG: valeu
TT: Sem problemas.
TT: Então, jantar? Essa noite?
TG: ah não
TG: nada de espiar da janela da cozinha senhorita lalonde!
TT: Mas que absurdo, Dave. Por que tipo de stalker me tomas?
TG: do tipo que faria algo assim
TG: já que chegou ao ponto de ESPIONAR o meu encontro romântico
TT: Eu disse que tinha boas intenções!
TG: ok ok
TG: mas de qualquer jeito não inventa
TG: isso é importante
TT: Certo, ah, que seja.
TT: Eu não ia espionar, mesmo. Apenas pedir relatório depois que tudo acabasse.
TG: hm
TG: acho que isso eu posso te dar
TG: mas vem cá
TG: só não espalha isso falou
TG: não quero gente atrapalhando
TT: Posso apenas informar Jade?
TG: ela tudo bem
TG: fica mais fácil pra mim
TT: Estupendo.
TT: Devo ir-me agora, então, se me dá licença...
TG: toda
TT: Boa sorte. :)
TG: haha valeu
–-turntechGodhead [TG] ceased pestering tentacleTherapist [TT] at 7:00—
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Ao final da conversa, Dave finalmente decidiu levantar-se. Fez a higiene matinal e seguiu para a cozinha, de onde roubou uma caixa de cereal pra beliscar, enquanto Bro não acordava. Era impossível ir até a sala, pois ele estava lá em seu futon...e da mesma maneira, foi impossível fugir rápido o bastante quando o dos cabelos indomáveis entrou na cozinha e atirou Cal contra ele, gritando que já lhe dissera mil vezes para não comer cereal direto da caixa.
E a manhã se passou assim, normal, entre videogames e fantoches, até que o celular deu sinal de vida ao lado de Dave durante uma partida de GTA V.
–Espera, espera, pausa o jogo –o menor pediu, alcançando o objeto que vibrava sem parar no braço do sofá- Alô?
–Dave! –a voz de garoto na puberdade era animada do outro lado da linha- Como vão as coisas?
–Super bem. –ele sorriu sem perceber, encostando-se melhor para falar tranquilamente- E com você?
–Tudo tranquilo –fora a resposta- Então, eu te liguei pra...
–É o John? Dave, é o John? –Bro interrompeu apenas pelo prazer de ser chato, cutucando seu ombro- Se for o John, diz que é regra sagrada dessa casa que não se liga pra nenhum de nós durante uma partida de videogame. Dave. Dave. Diz isso pro John. Dave, diz.
–Puta que pariu, cara –ele tentava empurrar o outro, ao mesmo tempo que explicava para um confuso Egbert do outro lado que era apenas Bro sendo irritante- Dá pra nos deixar em paz uma vez?
–Eu os deixei em paz o bastante –fora a resposta do mais velho com uma mão lhe empurrando o queixo- Nem escondi o Cal no seu quarto pra espionar suas conversas. Nem li seu histórico do computador!
–É, depois de eu te mandar parar. –ele grunhiu- Bro, pelo amor de Deus!
No meio de tantos empurrões e investidas, Dave conseguiu enfim chutar o irmão para o outro lado do sofá, fazendo-o quase cair – e que bom que não o fez, senão seu peso puxando o braço oposto ia causar o sofá de virar com eles dois ali. Um naufrágio deveras danoso.
–Oi, John? –ele falou rapidamente no celular- Agora eu posso falar. Vai, manda a bomba.
–Certo –ele parecia um pouco nervoso- Então, eu sei que a gente vai se ver mais tarde, no jantar e tal...
–Aham –ele disse, colocando o pé descalço no peito do mais velho, mantendo-o longe.
–...mas assim, eu queria falar contigo antes. Mas não por celular, eer...pessoalmente. Que acha de irmos almoçar juntos?
–Um almoço sozinho com o meu namorado? –ele sorriu- Fechado.
Então, a pressão contra sua perna esticada parou. Ele levantou os olhos, levemente confuso, para constatar que Bro realmente parara de força-lo. Em vez disso, o encarava estático, e ele podia jurar que seus olhos estavam arregalados por trás dos óculos.
–...namorado –ele repetiu, como se fosse uma palavra proibida- Vocês estão namorando?!
Dave congelou e empalideceu. Oh meeeeerda.
–Dave? –John o chamou do outro lado da linha- Ainda está aí?
–Não acredito que começaram a namorar e você nem me contou, pilantrinha! –Bro pulou sobre ele, Dave soltando um grito nada másculo antes de ser estapeado por Lil Cal e Bro ao mesmo tempo, este último alternando-se entre ofensas e risadas.
–Me dá esse celular agora, seu pequeno bastardo! –ele começou a mexer em uma certa área da barriga de Dave, que sabia ser seu ponto fraco. O louro mal conseguiu formular um “não toque aí” antes de começar a rir histericamente. Nada legal.
–BRO, AI MEU DEUS, M-ME SOLTA! –ele gargalhava, enquanto, naquele caos, seu irmão mais velho pegava o celular caído no chão e o colocava contra a orelha, imobilizando o menor no sofá.
–Alô, John?
–Ah...h-hey, Bro. –risada nervosa- O Dave tá aí...?
–O Dave tá meio impossibilitado de falar agora. –ele deu um meio sorriso, olhando de esguelha para o irmão preso contra o sofá, rosnando insultos- Mas pode se abrir com o Brozão aqui: qual é a boa?
–Uh... –ele pareceu hesitar- N-nada demais, eu acho. –ele fez uma pausa- Posso levar o Dave pra almoçar?
Um sorriso felino desenhou-se no rosto daquele que Dave chamava de seu “guardião”. E por alguns segundos, até ele teve medo da resposta.
–Mas claro! Sem problemas, carinha. –Dave suspirou de alívio quando ele riu- Só trazer ele cedo.
–Hah, legal! –John também riu, era possível ouvir de longe- Ah, ele te falou sobre o jantar hoje à noite, né?
–Olha que engraçado: não falou. –Bro sorriu maldosamente mais uma vez e saiu de cima de Dave, levantando-se do sofá- Se importa em me contar sobre isso?
–Bro, por favor! –Dave se levantou em um pulo enquanto o mais velho afastava-se para a cozinha- Me devolve isso!
Bro virou-se, colocando o dedo sobre os lábios em um “shh”.
–Então, John, jantar...? –e entrou no aposento, fechando a porta antes que o mais jovem pudesse sequer protestar.
*~*
–Tudo certo! –Bro irrompeu na sala, onde Dave já vegetava no chão duro e frio, esperando que seu corpo se decompusesse. Porque a dignidade já estava quebrada, destruída, amassada e cuspida, depois que seu irmão mais velho tivesse um contato mais longo com John do que cinco segundos.
–Me deixa aqui pra morrer. –fora a resposta, enquanto ele cobria os olhos com o braço dramaticamente.
–Levanta daí, coisinha. –ele o cutucou com a ponta do pé direto nas costelas, o fazendo se contorcer- Não é nada demais, eu só tava batendo um papo-cabeça com teu macho.
–O quanto você falou? –perguntou, ainda recusando-se a sair daquela posição.
–Não muito. Só contei daquela vez que você entalou na banheira infantil...
–Ai meu Deus, BRO! –ele gritou, sentando-se bruscamente, chegando a sentir o sangue escapar da cabeça enquanto o mais velho dobrava-se de rir.
–Calma, calma, é zoeira, vish. –Bro lhe jogou o celular- Só queria que você saísse do chão.
O outro pegou o aparelho no ar e grunhiu, ficando de pé.
–Tá, tanto faz.
–Bem –ele estralou as costas- De qualquer jeito, parece que temos um encontro duplo, huh?
–Encontro...duplo? –franziu a testa.
–Qual foi, o Sr. Egbert é até bem bonitão. Que tal ganhar um sobrinho, hein? –ele ergueu e abaixou as sobrancelhas rapidamente.
–BRO, QUE NOJO! –Dave sacudiu os braços para espantar aqueles pensamentos- Você NÃO vai flertar com o meu futuro sogro!
–Brincadeirinha. –ele riu, sacudindo os ombros- Eu vou nesse tal jantar. É! Vai ser legal.
–Tá, tá... –ele bufou- Só nada de me envergonhar, por favor. E tente agir como um irmão mais velho responsável, do tipo que não me empurra brinquedos sexuais de pelúcia com traseiros exageradamente avantajados.
–Então, quem sou eu? –ele tocou o peito com as duas mãos, como se estivesse tendo uma crise existencial. Dave revirou os olhos.
–É uma pessoa sã. Ou ao menos, tente ser.
–Tá, captei a mensagem. –ele riu- Agora vai pro seu quarto, você tem um almoço marcado com John Egbert em poucos minutos e o gato vem te buscar em casa.
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