Aquele que já se foi
12 1° Fase: Sweet Dream
Notas iniciais
Não ia chorar. Não estava com vontade de chorar. Seus olhos pareciam que estavam com areia de tanto que queimavam pelas lágrimas que Taylor segurava. Logo após sair pela porta do apartamento de Seth, depois de ser expulsa e humilhada, depois de ser desrespeitada pelo cafetão e pelo próprio Seth, depois de tudo que aconteceu e tudo que ela ouviu... Ela ainda não acreditava numa sequer palavra que ele tinha dito.
Tudo parecia surreal, como um sonho.. Melhor um pesadelo, do qual Taylor não conseguia despertar. Taylor tinha preferido descer as escadas, seu corpo e sua mente ainda estava adormecida e ela precisava sentir qualquer coisa, precisava saber se ainda era humana. Ela seguiu diretamente para o estacionamento onde estava sua moto, ela repetia numa ilusão de que tudo aquilo era apenas um pesadelo, beliscou seu braço esquerdo e esperou... Nada aconteceu. Sacou as chaves que estava dentro da bota e colocou na ignição. A moto deu um ronco e Taylor direcionou para a saída.
O sol lá fora já estava bastante quente, ela já tinha perdido o almoço pelo tempo que ficou esperando Seth. Agora ela se perguntava se realmente foi proveitoso ela ter ido até Seth, ter esperado todo este tempo apenas para ele expulsa-la de lá. Ficou repensando em todas as coisas que ele tinha lhe dito. Era uma espécie de masoquismo particular de Taylor. Enquanto dirigia a moto ela continuou repensando naquelas coisas, até ela se recordou de uma coisa que até então tinha ignorado desde que jogou aquele vaso contra parede. Seth iria embora.
O estômago de Taylor embrulhou, suas mãos apertaram com força acelerando a moto e deixando os dedos com nós brancos. Seu Seth, mesmo depois de tudo, iria embora. Ele talvez iria para a capital onde é mais movimentado com suas passarelas, orlas e prédios altos, provavelmente iria acabar com a tal da Granger que ela nunca tinha visto, talvez ele a levaria para algum bar perto da orla e os dois tomariam drinks até ficar um pouco bêbados e acabarem em um motel luxoso, depois eles se casariam, para felicidade de Augusto, e teriam filhos com olhos dourados. Enquanto isso Taylor apodrecia de trabalhar na lanchonete gordurenta, prestaria vestibulares onde não iria passar por não ter capacidade suficiente para ter sucesso igual ao seu pai e provavelmete acabaria tendo seus dias bebendo rum em algum bar qualquer dessa cidade ridícula e depois morreria de câncer no fígado.
Taylor ficou tão distraída em seu pensamento que não tinha visto o som alto da buzina do caminhão em sua direção. Seu coração acelerou e ela virou com tudo para o lado oposto escapando do caminhão. Seus braços estavam trêmulos e ela estava em choque, deu sorte pela rodovia está vazia e ela poder fazer o desvio brusco. Foi desacelerando a moto e parou na encosta da rodovia, tirou o capacete e vomitou todo seu café da manhã na grama alta. Aparentemente Taylor não estava tendo seu melhor dia.
O sino da lanchonete indicou que alguém tinha acabado de chegar. Clarissa parou os seus patins e olhou para a garota de cabelos não mais repicados, mas ainda muito magra e de cabeça baixa e que deveria estar em casa no seu dia de folga. Taylor passou depressa por Clary quase derrubando as bandejas em suas mãos. Passou pela porta dos fundos e depois apareceu por cima dos patins e ajudando Clarissa com os pedidos.
– Ei, sua alcóolatra!! O que está fazendo aqui?
– Ah... Oi Charlie, bom te ver também. Vim fazer um extra. — Taylor disse de modo mecânico.
– Faltou dinheiro para a droga foi?
– Também te amo Charlie. — Taylor saiu patinando com as bandejas na mão.
Charlie ficou impressionado. Taylor falava em plenos pulmões o quanto queria se ver livre daquela lanchonete e agora estava vindo para fazer extra?! Isso sim era estranho.
Ao final do expediente Clary foi para os fundos tirar os patins e o avental. Encontrou Taylor predendo o cabelo em um coque deixando em destaque seu rosto pálido. Nunca em todos os três anos em que conhece Taylor, nunca na vida tinha visto totalmente seu rosto. Ela dizia que tinha o rosto todo desproporcional, testa grande demais, olhos grande demais, nariz muito pequeno, tudo com aparência de garota de doze anos. E ali estava a mesma com os cabelos presos em coque. Clary se aproximou dela e pegou sem braço.
– Você está bem?
A menina deu um salto surpreso.
– Ah Clary, você ainda está por aqui... Queria bem falar com você. Sabe, se você quiser folgar terça e quinta tudo bem, eu posso fazer o seu trabalho também. — Taylor pôs a mão no queixo pensando sobre o assunto.- Se bem que também alugaram o espaço na lanchonete pra daqui a duas semanas e acho que consigo fazer tudo sozinha se você preferir também... Acho que vou falar com Charlie pra eu pegar os dois turnos, de manhã sozinha e a tarde junto com você, a noite como tenho curso ficaria bom ter sempre um pouco mais de dinheiro...
Taylor tagarelava sem parar e Clary apenas a observava incrédula. Mas que diabos aconteceu com Taylor? E a menina continuava a gesticular a cada frase que fazia até que Clarissa pegou em seus dois braços.
– Pare. Taylor, pare com isso. — E foi então que ela se deu conta de que estava tentando fugir de seu principal problema.
– Sim, sim, desculpe Clary... Acho que falei demais.
Clarissa balançou sua cabeça prateada.
– Não, tudo bem... Mas esse não é o problema Taylor, e você sabe disso. O que está acontecendo?
Taylor baixou a cabeça e foi andando para saída. Levantou o rosto e deu um sorriso amarelo para Clary.
– Nada demais Cla, apenas o estresse pelo curso. Estou bem, sério.
E saiu deixando o barulho do sino da porta soando. Clarissa não era dona da verdade e tampouco da sabedoria, mas não precisava ser uma adivinha ou qualquer coisa do tipo pra saber que a última coisa que Taylor estava era bem.
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