Aquele que já se foi
9 1° Fase: All hell broke loose
"Acredito que estou no inferno. Portanto estou"
Whisky e gelo. Augusto preparava um drink bar que tinha no apartamento do filho. Sempre tinha pensado que uísque podia ser considerado a bebida dos poderosos, quando ele pensava em que cor teria o “poder”, se existisse, seria exatamente como a cor de um uísque. Degustava com prazer saboreando o gosto meio amargo que possuía a bebida. Sorriu vitorioso, um sorriso comum que o dava com frequência aos negócios peculiares.
Exatamente quando apreciava a visão daquela pútrida cidade que estava, enquanto balançava os gelos em seu drinque... Ouviu a maçaneta se movendo e a voz de Seth atravessando o recinto.
– Pensei ter dito que o queria longe daqui.
O pai do garoto tampouco virou-se, apenas riu e disse:
– O que você acha de trocarmos esta mobília antiquada e esses quadros terríveis?
Seth cerrou os punhos. Como este homem conseguia irritá-lo com tanta facilidade?
– Não tem direito de gostar ou desgostar deste apartamento e tampouco de opinar sobre minha vida.
– Moleque insolente. Não se esqueça que este apartamento está em meu nome.
Seth grunhiu em resposta. Não podia lutar contra o poder de Augusto.
– Agora chega de conversa fiada. Não vim até aqui por causa de um apartamentozinho. – Disse Augusto.
– Para que veio então?
– Apenas o de sempre. Negócios.
O garoto arqueou as sobrancelhas surpreso. O que essa cidade pequena tinha a oferecer para o grandioso Augusto Mansulini?
O pai observando a surpresa no rosto do filho respondeu:
– Porque tanto espanto? É justamente nesse tipo de cidades que os negócios crescem mais. Essas pobres garotas que possuem tanta ignorância embarcam na primeira oportunidade que lhes aparecem...
– Poupe-me dessas suas palavras horrendas. Tenho nojo de você.
Seth virou o rosto pálido. Nunca se acostumaria ao que o pai fazia.
– Em breve você ocupará meu cargo Seth Mansulini. Os negócios precisam continuar.
O rosto do garoto se contraiu com aquele comentário.
– Nunca em qualquer hipótese profira essas palavras horrendas novamente. Nunca.
Seth pegou seu velho casaco e irrompeu porta afora. Augusto Mansulini apenas continuou a degustar sua bebida.
***
O dia amanheceu e Natasya se encontrava na cozinha de sua casa ajudando a pobre Moyra com os alimentos que seriam servidos naquela noite. Parece que uma família muito importante e comerciantes de seda iriam visitá-los, tudo tinha que estar em perfeita ordem. Nada escaparia da vista de sua mãe. O dia correu tão depressa que a tarde logo avançou e Nas foi para o quarto se aprontar.
Sua mãe mantinha alguns costumes e alguns deles era as roupas. Não era exatamente uma burca. Apenas tinha que cobrir o ombros e braços. E claro, nunca mostrar o cabelo para o cavalheiro, pois dizia ela que o cabelo era uma peça bastante influenciável em um relacionamento. A única pessoa que tinha visto seus cabelos, além da família, tinha sido Lucian. Uma saudade brotou em seu peito, mas logo fez questão de esquecer, não era momento para se lembrar do seu Lucian.
Fez uma rápida trança nos cabelos castanhos e volumosos, pôs uma encharpe comprida em volta da cabeça cobrindo assim o cabelo e as mangas da roupa cobrindo os braços morenos. Respirou fundo e foi para a sala de jantar.
Ao atravessar o corredor ouviu o som de risadas e tilintar de taças. Os convidados já chegaram.
– Olhem só quem resolveu aparecer.
Disse uma mulher gorda se dirigindo a Nastasya, fazendo todos olharem para ela.
– Oh sim, como sabem, esta é a nossa gloriosa filha Nastasya.
Nas acordando de seu pequeno devaneio fez uma referência saudosa aos convidados e logo depois sentou em sua almofada. Olhou ao redor da mesa e reparou que além dos seus pais e a mulher gorda, possuíam um homem baixo e um rapaz moreno que trajava uma roupa conforme as tradições e também era incrivelmente alto. Ele só podia ser filho do casal, apesar da altura...
Logo ao seu lado tinha uma garota mais jovem, tinha mais ou menos uns 14 anos, e bebia um chá fumegante.
– Claro Sari, estamos muito honrados com esta sua visita inesperada a Nevada. O que os trazem nesta terra seca?
– Depois desta guerra inútil os negócios estão indo de mal a pior...
– Nem me digam, realmente as coisas estão escassas.
A senhora gorda que a mãe de Nas denominou Sari, assentiu com a cabeça e pôs a xícara fumegante de volta na mesa.
– Exatamente querida. Por isso eu e Patróclo resolvemos fazer uma negociação com vocês.
– Uma aliança no caso? – O pai de Nas se manifestou. -
– Sim, vejo que a adorável Nas já passou da idade de ter um noivo. E o mesmo acontece com o meu querido filho.
Nastasya que até então se mantinha calada ouvindo a conversa e bebendo seu chá começou a engasgar quando ouviu a proposta que aquela mulher estava fazendo. Não era possível, só podia estar ouvindo coisas. Não, não, não.
– Proponho um casamento com direito a dote e tudo mais. Assim podemos unir nossos negócios com seda aos seus com tapetes.
Enquanto para Nas tinha sido ir para o inferno a primeira vez. Para sua mãe tinha sido como estar no Paraíso. Que maravilhoso!
– Que maravilha!!! Isto são músicas para os meus ouvidos. Já podemos marcar a data imediatamente!!!
NÃAAAAAAAAO
Por dentro a pobre Nastasya gritava de terror. Não queria se casar, não com um homem que nem sequer conhecia. Não queria que sua mãe comandasse sua vida como se fosse apenas negócios. Olhou para o rapaz moreno a sua frente, nem sabia qual era o seu nome.
– Que ótimo que aceitaram nossos acordo. Não é mesmo querido?
Patróclo afirmou.
– Hoje é dia de festa. – Falou o pai de Nas. – Vamos comemorar. Moyre traga o banquete que iremos comemorar.
Enquanto a comida era servida o inferno de Nastasya apenas começava.
***
– Quer dizer que o poderoso chefão voltou? – Disse Amelia jogando os cabelos loiros para trás e acendendo um cigarro.
– Sim Melia, aquele filho da puta voltou – Disse Seth referindo-se ao seu pai.
Amelia era considerada por ele uma irmã que nunca teve. Apesar de suas características excêntricas possuía uma grande afeição pela mesma e o mesmo podia se dizer da garota. Amelia Bringstone e Seth Mansulini foram criados juntos desde a infância, uma amizade incalculável e impressionante. A mãe de Amelia e a de Seth era muito amigas e com seus filhos não foi diferente. Muitos até pensavam que essa amizade ia resultar em namoro, chagavam até a dizer
‘Tomem cuidado com esses dois, está claro que essa união não irá gerar boas coisas, onde já se viu amizade assim?’
Todos estavam errados.
Conforme foram crescendo a amizade também cresceu e desde então Amelia tem sido a confidente de Seth e vice e versa.
– Já contou para Taylor?
Melia observava com os olhos pesados de maquiagem a expressão de desgosto do amigo.
– Sim, ela estava em meu apartamento quando o velho chegou.
– Oh não, puta merda.
Seth suspirou.
– Imagino que ela já saiba qual é sua profissão.
– Foi inevitável não contá-la.
Agora foi a vez de Amelia suspirar.
– Sabe quais são os planos dele?
– Sabe Deus o que está planejando. Mas prefiro não interferi, já sei o que acontece quando alguém se intromete em seus planos.
Seth lembrou da vez em que confrontou o pai e também se lembrou da cicatriz em que tinha no peito e balançou a cabeça espantando a amarga lembrança.
– Seja lá o que aquele velho esteja aprontando... Foda-se!
– Já se perguntou o porquê que gosto tanto de você?
– Claro que já, você não resiste ao meu loiro natural. – Disse jogando os longos cabelos dourados para trás.
***
Seth demorou para chegar em casa. Era de madrugada, finalmente conseguira esfriar mais a cabeça. Não esperava ver a luzes acesas da sala do escritório, mas logo se lembrou que não morava mais sozinho.
Augusto ouviu que o filho tinha chegado e logo se apressou a dizer:
– Imagino que estava com aquela garota sem classe. Como era o nome dela mesmo? Tyler?
– O nome dela é Taylor e não ouse falar dela.
Augusto jogou as mãos para o ar e disse:
– Que seja, mas ainda não me respondeu.
– Não que isso lhe convenha, mas não... não estava com Taylor. Estava com Amelia.
Augusto Mansulini bufou lembrando da fedelha da Amelia e de como nunca gostou dela. Sempre fora uma menina muito curiosa e como sempre influenciava Seth.
– Ainda tem contatos com essa gentinha? Que inapropriado.
– Já terminou o que tem para dizer? Por que realmente estou querendo ir para o quarto.
– Não irei prosseguir com o assunto. Tenho algo para dizer. Em parte envolve o que vim fazer nessa cidadezinha ridícula.
Seth fingiu interesse e até cruzou os braços para dar mais ênfase.
– É mesmo? Não creio que veio somente para dizer o quanto me ama. Diga-me então.
– Vim por você querido filho.
– Poupe-me de suas falsidades.
– Estou falando sério. Preciso de você e você irá me obedecer.
– Não tenho tempo para perder com você Augusto.
Augusto sorriu. Imaginou qual seria a resposta de seu filho. Previsível de mais.
– Ah... você irá se interessar. Não tem opções.
***
Logo após se passar dois dias, quando Taylor ia se recolher para dormir depois de um dia exaustivo. Seu celular apitou, ela olhou para a tela e viu a seguinte mensagem.
“Doce Taylor, peço-lhe que não me procure mais. O tempo que passamos juntos realmente foi muito prazeroso e percebi que nutriu um sentimento por mim, mas não posso correspondê-lo. Você foi uma bela diversão. Seja lá o que tivemos... Está acabado.
Seth"
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