Não consegui dormir, então só fiquei deitada na cama, olhando o mar balançar pela janela. Eu nunca parei para pensar como seria realmente navegar em um navio. É muito diferente do que os filmes passam: não há ondas bonitinhas, nem gaivotas voando fazendo aquele barulho horrível, e muito menos golfinhos saltando pelas águas. Na maior parte do tempo, era só água. Para qualquer lado que você olhasse, até o horizonte, só havia água, e mais nada. No começo eu senti um pouco de angústia com esse sentimento, sabendo que, se o navio naufragasse, ninguém viria atrás de nós. E, se viessem, não conseguiriam nos achar. Acho que todos confiamos as nossas vidas na equipe de montagem.

Eu até leria um dos vários livros da estante, mas eu não conseguiria passar da primeira linha sem luz, e não queria acordar Mirina.

Então eu tive uma ideia.

Desci da cama silenciosamente, andei na ponta dos pés até as gavetas e procurei. Achei bloquinhos de papel, clipes, grampos, e várias outras coisas inúteis, até que, na última gaveta, encontrei uma lanterna. Apertei o botão para testá-la, e o raio de luz que saiu foi tão forte que iluminou a sala toda por um segundo, antes de eu desligar, desesperada. Fui ver se Mirina tinha acordado, mas ela só continuava resmungando para o travesseiro. Provavelmente sonhando que estava batendo em alguém.

Subi na beliche de novo e apertei o travesseiro para sentir o pequeno livreto que eu deixara lá. Enfiei a mão na fronha para pegá-lo, e xinguei baixinho ao ver que ele estava amassado. Desamassei um pouco, diminuí a intensidade na lanterna e deitei de bruços, abrindo o diário.

Tinha tantas páginas que eu poderia lê-lo durante a viagem toda, e acreditem, essa viagem iria ser longa. Mas, apesar disso, procurei por uma data especial em 2015.

Eu acordei hoje triste, como sempre, mas senti que era uma tristeza diferente.

Durante o ano, ao passar dos meses, eu vi os campistas saírem dos seus chalés encharcados de ovos, farinha, papel higiênico e o que mais estivesse lá. E eu percebia como eles eram sortudos de terem alguém que lembrasse do aniversário deles.

Bom, eu lembro do dela. E eu tenho certeza de que ela odiaria uma festa e presentes. E de que ela quebraria o braço de quem jogasse um ovo sequer nela.

Mas não, eu não queria fazer uma festa, comprar presentes caros, nem jogar ovos nela. Eu só queria tocá-la. Eu daria tudo que eu tenho para poder segurar a mão dela e desejar um feliz aniversário. Eu queria deixá-la feliz, especialmente hoje, porque ela merecia.

Droga, ela merecia ser feliz mais do que qualquer pessoa que eu já conheci.

Será que ela está feliz agora, no Mundo Inferior?

Será que o lugar onde ela está é bom o bastante para deixá-la confortável?

Se for esse o caso, se ela estiver feliz, se ela se sentir confortável, então está tudo bem.

Está tudo bem.

Lágrimas molhavam o lençol embaixo de mim, mas eu não estava nem aí. Continuei lendo. Li mais três ou quatro páginas, talvez vinte. Até que não aguentei mais e guardei o diário no travesseiro de novo.

Olhei para o teto, pensando no quanto eu queria que ele estivesse deitado comigo, e no quanto eu me apaixonava mais cada vez que lia uma página.

E isso tudo doía muito.

Ψ

Eu estava sentado na minha cadeira de madeira polida, roxa, defronte à minha mesa de pretor. Meu “escritório” era tão arrumadinho e formal que parecia que eu era um executivo de Nova York, não o líder dos campistas filhos de deuses romanos.

Chequei a papelada que eu tinha para assinar/declinar/jogar fora. Alguns pedidos de reforços de Nova Roma para proteção da muralha contra monstros cujo número só fazia aumentar; permissão para os campistas montarem um campeonato de tiro ao alvo; adiantamento da simulação de guerra mensal para essa semana; coisas assim.

Encostei na cadeira, enterrei o rosto nas mãos e suspirei, cansado. Ser pretor nunca tinha sido tão difícil. Na maioria das vezes, era só sombra e água fresca na maior parte do tempo, mas desde que os monstros se tornaram “imortais” — o que eles já eram, mas vocês entenderam —, eu tinha aprendido o que era responsabilidade de verdade. Havia no mínimo três notícias por dia de pessoas atacadas em Nova Roma. Os hospitais estavam praticamente lotados, e o necrotério estava com mais trabalho do que nunca.

Quando tirei a mão do rosto, notei um envelope roxo em cima da mesa, o que não estava lá antes. Levantei e fui até a porta para ver se quem tinha deixado aquilo lá, mas não encontrei ninguém.

Sentei de novo e verifiquei o envelope. Não tinha nada além do meu nome escrito com piloto preto na frente.

Abri-a e comecei a ler, levantando mais as sobrancelhas a cada linha.

Adam,

eu sei o que você está pensando. Você quer negar a entrada dos semideuses gregos em território romano.

Eu também sei que os hospitais estão cheios, quase não há espaço para construção de mais casas e você já tem responsabilidades demais, mas eu também sei que a esperança para todos está entre eles.

Acredite em mim, eu já convivi com alguns deles, e sei que se a situação estivesse invertida, se fosse os romanos quem precisassem da hospitalidade dos gregos, eles dariam sem hesitar. E não, eles não são fracos, como você poderia achar. O Acampamento deles foi destruído por causa da pessoa que está por trás de tudo isso, porque eu tenho certeza de que os acontecimentos recentes não aconteceram de súbito. Está tudo muito perfeito e planejado para ser arte da natureza.

Mesmo que eu não conviva com eles, também sou uma. Minha mãe tem sangue grego. E eu quero que isso acabe favoravelmente para todos, não só para nós. Se unirmos forças, poderemos descobrir o responsável por tudo isso.

Vai demorar para eles chegarem, e isso dá tempo para você se preparar. Eu não virei com eles, mas você me conhecerá logo depois.

E fique tranquilo, eu não mais irei deixar cartas. O próximo contato que faremos será pessoalmente. Procure por mim, apesar de que eu não serei difícil de achar.

Saiba quem é o verdadeiro inimigo, Adam.

— Luna.

Li e reli a carta mais três vezes, e a mesma pergunta continuava rondando meu cérebro. Quem era ela?

Suspirei novamente e abri a gaveta, tirando os requerimentos de construção de novas casas e colocando-os na mesa.

Ψ

Acordei em um chão molhado e frio. O vento soprava no meu rosto, riscando minhas bochechas e meus lábios. Eu levantei e quase caí para trás com a visão que tive.

Eu estava na beira de um precipício. Árvores, montanhas e campos gigantescos se estendiam para o horizonte. Lá tinham animais tão grandes que eu podia vê-los daqui. Olhei para baixo e não vi nada além de pedras e mais pedras, até uns dois mil metros abaixo, onde a morte me esperava em forma de estalagmites tão grandes quanto um poste.

À minha direita, havia uma construção em formato de igreja, com os fundos pendendo para o precipício, mantidos por madeiras que se prendiam à parede do desfiladeiro.

Então, de repente, o vento parou. O frio virou uma sensação quente, não como calor, mas como vontade, desejo. Um desejo incontestável de pular do precipício, de morrer e nunca mais ter que lidar com nada.

Ouvi um barulho vindo do oeste, e olhei para lá. Como se alguém tivesse aberto uma mangueira gigante do céu, água caía e formava um rio em direção ao leste. Mas não era água incolor, comum. Era uma água preta, e eu via coisas se mexendo dentro dela, coisas brancas e fantasmagóricas. Cheguei por um momento a me perguntar se seriam almas.

As árvores começaram a cair, uma a uma, até que não restaram mais. A grama dos campos secou e apodreceu, deixando-os amarelos e sem vida.

Então, alguém sentou do meu lado. Era Dylan. Ele não estava como eu o conhecia, triste, depressivo e com a cabeça baixa; mas… vivo. Os cabelos dele balançavam com a brisa, e o sorriso dele não parecia ser afetado pela vontade de morrer.

— Queria não estar sonhando — falei, triste.

— E quem disse que você está sonhando?

— Você morreu.

— Está vendo aqueles campos amarelados? São os Campos de Asfódelos. Daqui a algum tempo as almas vão começar a vagar por lá.

E era verdade. Depois de alguns segundos, vultos brancos se aglomeravam no centro, e iam andando lentamente até as margens, só para voltar ao centro de novo depois, numa vida simples e infeliz.

— E as águas pretas, então? O Rio Estige. Você está no Desfiladeiro de Cyn, Mason. Aqui é o Mundo Inferior. Aqui foi onde eu morri.

— Se isso não é um sonho, como você pode estar aqui, comigo? Pelo que você fez, deveria estar nos Campos de Punição. Você bagunçou a ordem da Vida e da Morte. Com “V” e “M” maiúsculos. São as entidades mais antigas que existem, Dylan, e você conseguiu perturbá-las.

— Eu não estou em lugar nenhum, estou perdido para sempre. Já aceitei o fato, aceite você também. Você só pôde me achar porque você é poderoso, Mason. Poderoso até demais… Quando eu li o Segredo, eu soube de tudo, mesmo que por um momento, e eu vi quem é seu pai. Agora eu entendo por que Lucas ficava longe de você. Ele também sabia.

— Você não pode me falar, pode?

Ele balançou a cabeça. Eu abaixei a minha.

— Eu te entendo. Também odiava quando alguém dizia que não podia falar algo para mim. Mas agora eu sei. Não é assim que funciona. Tudo só pode ser descoberto na hora certa. Não antes, não depois. Essa é a verdadeira ordem.

O sol caiu. Tipo, literalmente caiu, como se a corda que o segurasse tivesse se partido, e, obviamente, tudo virou noite, o céu ficou completamente negro, sem estrelas. A igreja adotou um visual fantasmagórico, mais parecido com um salão de rituais do que com um templo de adoração. Os Campos de Asfódelos escureceram, sendo apenas discerníveis por causa das almas que o atravessavam, e o rio se misturou com o resto da escuridão. De onde eu estava, agora, parecia que o precipício ia até o infinito.

— Não são muitas pessoas que têm o privilégio que presenciar a formação do Submundo — Dylan disse, maravilhado, mesmo que parecesse que ele já tinha visto essa cena diversas vezes. — A Louise está bem?

Eu assenti.

— Diga a ela que eu sinto muito.

— Anne já disse.

— Não. Não por ter morrido, mas por outra coisa.

— Tem outra coisa pior do que você ter morrido?

— Para ela? Tem. Luna me avisou, mas eu não dei ouvidos.

Eu assenti de novo, mesmo confuso, e ficamos um tempo em silêncio, até que eu comecei a sentir puxões. Eu iria acordar a qualquer momento.

— Eu vou te ver de novo? — perguntei.

— A mim? Não. Ninguém nunca mais vai me ver. Só me prometa uma coisa, Mason.

— Qualquer coisa.

Ele sorriu. Um sorriso sincero e triste ao mesmo tempo.

— Não deixe que eu seja esquecido.

Então eu já não estava no Mundo Inferior com ele, mas na minha cama, no navio, deitado. Sem pensar, eu comecei a chorar. Tentei ser discreto, mas a cada lágrima eu só ficava com mais vontade de chorar. Anne percebeu, desceu da cama dela e sentou-se ao meu lado, perguntando o que tinha acontecido. Ela perguntou várias vezes, e em todas elas eu não consegui falar nada.

Até que ela desistiu e me abraçou.

~Ψ~