Aquele que Perdeu a Memória
19 Chevaliers
Notas iniciais
— Certo, hum… Sentem-se. Vamos explicar tudo. — meu pai voltou à mesa circular e pegou mais duas cadeiras de um canto escuro para nós.
O porão era um lugar sombrio. A única luz provinha de uma lâmpada pendurada por um fio acima da mesa. Ela revelava algumas prateleiras cheias de frascos de poções e um arsenal de armas na parede. Consegui discernir espadas e arcos, mas também havia armas de fogo e outros instrumentos mortíferos estranhos. Parecia mais uma sala de tortura.
Eu e Francine sentamos ao lado do homem que estava gritando. Ele nos olhou feio e depois virou a cara.
As pessoas na mesa estavam na ordem de homem e mulher, como casais. Quando examinei seus rostos com mais atenção, percebi que eles eram familiares, mas a pouca luz não me deixou reconhecê-los.
— Somos nós, Peter — disse a mulher ao lado do meu pai.
Eles chegaram mais perto da lâmpada, e eu os reconheci. Ao lado dos meus pais, estavam os pais de Beatrice. Ao lado destes, os pais de Mae, a mãe de Luy e o pai de Nal.
Luy perdera o pai aos sete anos, em um acidente de moto.
Nal perdera a mãe aos dez, em um assalto. Desde então, seu pai ficara chato e ranzinza. Isso explica os gritos que ouvimos e a grosseria quando chegamos.
— Certo. Tudo bem. Por que os meus pais e os pais dos meus amigos estão todos juntos no outro lado do país, em uma casa abandonada?
Todos pareceram suspirar ao mesmo tempo.
— Primeiro vamos responder a pergunta da garota — disse meu pai, iniciando a explicação. — Um semideus é, na verdade, uma mistura. Pode ser impactante para você, mas é alguém que é filho de um deus e um mortal.
Francine reagiu melhor à descoberta do que eu, que nem sou semideus. Sua expressão marcava raiva e desapontamento.
— Então quer dizer que meu pai, aquele babaca, é um deus?
— Sim — respondeu minha mãe. Seus cabelos castanhos e seus olhos negros brilhavam na semi-escuridão, e sua pele clara reluzia com o brilho da lâmpada fraca. — Se não me engano, sua mãe disse que é Marte.
— Marte? — perguntei. — Não conheço nenhum deus grego chamado Marte.
— É porque ela é romana — respondeu a mãe de Luy. Os cabelos crespos cor de palha caíam-lhe nos ombros como um lenço. Seus olhos quase dourados examinavam tudo ao redor, como se ela tivesse medo de que algum monstro pudesse sair do armário com uma faca gritando “Surpresa!”.
— Sim — concordou meu pai. — Lucas não deve ter lhe falado, mas há dois Acampamentos. Um deles é romano, que abriga os filhos dos deuses de Roma.
— Francine, esses são os pais dos meus amigos, que você já conheceu. Beatrice, Luíza, Ronald e Mariah — apontei respectivamente para os casais e para os solteiros.
Ela revirou os olhos quando eu citei o nome de By. Depois, apertou a mão de cada um.
— Mas, pai, como vocês conhecem Lucas? — perguntei, confuso. Uma vez ouvi Lucas dizer, quando eu ainda fazia parte do grupo, que era a primeira vez que ele lidava com “mortais”.
A boca dele abriu um resquício de sorriso, mas sua feição de alerta permaneceu lá.
— Nunca achei que um dia precisaria contar isso a você, meu filho, mas eu sou um semideus. Na verdade, a maioria de nós é.
Olhei para cada um dos oito, depois olhei para Francine. Mal consegui processar o que ele tinha dito.
— Vocês… Semideuses?
— A maioria, sim. Só a sua mãe e o nosso querido Joseph que não são.
Joseph, como logo descobri, era o pai de Nal. Assumi que o jeito grosso dele de ser provinha da morte de Bella — esposa dele, mãe de Nal —, a qual, meu pai corrigiu, não foi em um assalto, mas em um ataque da Medusa que ocorrera anos antes. Ele provavelmente estava indignado com a vida. Eu também ficaria caso perdesse minha namorada para um monstro do qual eu nem sequer sabia da existência.
— Então por que vocês não estão no Acampamento? Qualquer um dos dois.
— É complicado, Peter. Eu, Jessica — mãe de Luy — e Thomas — pai de Mae — somos gregos. Os pais de Beatrice, Diana e Erick — eles acenaram para mim — e Queenie — mãe de Mae — são romanos. Separar-nos nos Acampamentos seria difícil, já que isso custaria a separação de vários casais. — ele segurou a mão da minha mãe para reforçar o argumento. Ela, como humana, não poderia entrar no Acampamento Meio-Sangue.
— O que são esses Acampamentos? — perguntou Francine. Ela parecia ter mil perguntas a fazer.
— São acampamentos. — respondi. Ela revirou os olhos. — Mas só para os filhos dos deuses. Eles ficam seguros lá, longe dos monstros e de outros perigos. Só existem dois no mundo, até onde sabemos — meu pai assentiu. — O Acampamento romano, ou Júpiter; e o Acampamento grego, ou Meio-Sangue.
— Onde ficam?
— Lucas me disse que o grego fica em Long Island, na costa leste, enquanto o romano permanece em São Francisco, que você sabe onde fica.
— Por que em lados opostos do país? Não deveriam ficar juntos para unir forças?
Olhei para meu pai. Eu não sabia a resposta para essa pergunta, até porque eu achava o mesmo.
— Vamos dizer apenas que gregos e romanos não trabalham juntos. De fato, esse é o motivo pelo qual vivemos longe dos acampamentos. Nos anos 90 esse clima de tensão ficou ainda mais forte. Os dois grupos de campistas entraram em uma guerra fria, que quase se tornou uma guerra civil. Houveram alguns conflitos, e muito derramamento de sangue. Eu, Jessica e Thomas já éramos amigos antes das batalhas, e fomos lutar juntos. Foi então que encontramos Diana, Erick e Queenie. Nesse dia, Erick estava muito machucado, e as duas quase nos mataram pensando que queríamos capturá-lo, mas nós oferecemos ajuda. Nenhum dos seis era a favor da guerra, então fugimos. Saímos do caos que estavam os Acampamentos, voltamos a morar com nossos pais. O mais incrível é que a rivalidade entre os campistas estava tão grande que os monstros sequer ligavam para nós. Vivemos seguros, aprendemos a ser pessoas normais. Na verdade, Lucas nos ensinou como fazer isso. Ele sabia de tudo. Chegamos a tal ponto que até esquecíamos a nossa natureza. Crescemos, envelhecemos, casamos. E aqui estamos.
Ele parou para respirar e deu um tempo para nós absorvermos toda a informação.
— Vou lhe contar a verdade, Peter. Só estamos reunidos aqui por causa de Lucas. Ele nos disse, há quase trinta anos, que esse dia chegaria. Nós estaríamos reunidos ao redor de uma mesa com um filho e uma semideusa, então não, o Joseph não consegue cheirar semideuses. Também disse que alguns de nós não estariam mais presentes. Segundo ele, o futuro do mundo depende dessa reunião. Então escute bem, porque vou lhe contar uma história. Quando Zeus destronou e matou seu próprio pai, Cronos, ele também deu a quatro mortais nada menos que uma parte do verdadeiro poder divino. Estes foram conhecidos como os Cavaleiros do Apocalipse, os primeiros semideuses…
Ψ
Atena. Sim, sim, era ela. Mas me faltava certeza. E a adaga ao meu lado iria me garantir isso.
Mas em meio à multidão ao meu redor, só uma voz eu ouvi. Uma voz que nunca veio até mim, apenas a projeção do saber de tudo me proporcionava o rápido deslumbre dessa voz.
— Olá, filho — Nêmesis estava comigo em um cômodo negro. Tudo era negro, porém se tinha uma leve noção do espaço em que estávamos, isso me fez não enlouquecer.
Ela vestia um manto púrpura e estava com o cabelo preso. Meus batimentos aceleraram ao vê-la. Era a primeira vez que ela aparecia para mim, e isso me deixou confuso.
— Olá, mãe — respondi.
— Você… — uma deusa ficou sem palavras. Interessante. — Bom, eu sei que você nunca me viu e eu nunca falei com você…
— Diga logo — apressei. Não sei por que eu disse isso ou porque falei daquela maneira, apenas fiz.
— Lucas, você é um dos semideuses mais poderosos. Você representa os deuses menores na terra e, por ser meu filho, me deixa orgulhosa. Mas, tome cuidado. Deuses improváveis estão entre vocês através de suas proles também… E os poderosos mais ainda.
— Onde você quer chegar com isso?
— Não ceda às futuras provações. Você é mais forte do que pensa. Erga seu cavalo, Lucas, e lute ao lado dos seus cavaleiros.
Não ceda às futuras provações.
E tudo voltou ao normal.
Ϟ
Quando voltei ao navio, a adaga brilhava verde ao meu lado, flutuando. Estava em um barco. Óbvio que tinha sido construído no Acampamento.
M. Árvore.
O que eu precisava estava dentro de uma árvore e provavelmente essa árvore foi derrubada para fazer o barco.
Porcaria, pensei.
Mas a adaga ainda estava flutuando.
— Impossível! — gritou um filho de Atena.
— Calma, meus irmãos! Não há provas para isso! — bravejava Annabeth, que ainda estava perplexa e tentava acalmar os irmãos a todo custo.
A adaga voou até uma escada e se cravou em um pilar de madeira. Um tronco despelado, e eu já sabia que era ali.
“Mirina. Árvore."
Era a árvore que ficava próxima ao túmulo de minha irmã.
Soquei o pilar com força e vi que não ia adiantar muito, então usei a adaga flamejante e chamusquei parte da madeira. Quando queimei e quebrei a madeira do barco, vi o compartimento dentro de um interior oco que eu havia feito na árvore. Era cilíndrico e feito de uma espécie de pedra. Jade, se eu não me engano. Retirei ele de lá e abri. Li em silêncio o que estava escrito, enquanto o debate sobre Atena começava a tumultuar ainda mais atrás de mim.
“… até as plantas que enobrecem o mundo morreriam de desgosto se soubessem o que eu descobri.”
Assim se iniciava toda a reviravolta que eu mesmo escrevi, em 1957. E só fui guardar lá décadas depois.
Ϟ
Todos estavam brigando no navio. Filhos de Atena contra o resto do acampamento. Alguns diziam que todas as afirmações de Mason eram mentira, outros diziam que já sabiam o que estava acontecendo e que já desconfiavam da deusa muito tempo atrás.
Apenas um semideus ergueu a voz para que todos ficassem em silêncio. Ele falou e, junto com sua voz, que mais parecia um trovão, todas as luzes começaram a falhar. A própria sombra dele cresceu e começou a engolir todas as fontes luminosas. O som do microfone abafou e todos prestaram atenção nele.
— Eu tenho como provar — dizia ele.
Ele tinha pele morena e cabelos brancos. Ou melhor, estava com os cabelos brancos.
Era Lucas. Era meu irmão.
Ψ
— Como pode fazer isso? — perguntou alguém no meio da multidão.
— Quem é você? — perguntou Annabeth.
Peguei alguns dos papeis e comecei a ler. Algumas pessoas tentaram protestar, mas a magia para calá-los foi muito fácil.
— “08 de setembro de 1957 – ano de algumas mudanças no acampamento. ”
“Tenho observado certas coisas desde a chegada de novos semideuses. Foi descoberto que alguns filhos de Atena estavam usando corpos humanos para rituais. Corpos de campistas romanos tomados prisioneiros. Eu já sabia disso muito antes. Na verdade, venho aqui registrar no papel coisas que precisam ser reveladas no futuro e garantirei a vênia para fazê-lo. Não é fácil, mas até as plantas que enobrecem o mundo morreriam de desgosto se soubessem o que eu descobri. Depois de tempos e tempos tentando quebrar a barreira secreta que os deuses colocaram para meu ilimitado conhecimento, descobri o porquê de a mãe da sabedoria lutar tão arduamente para reivindicar minha onisciência. Descobri o porquê de meu acesso ser tão temido. As próximas palavras serão apenas um resquício do que eu me lembro, mas serão importantes de alguma forma, sei que serão. Atena planeja destronar todos os deuses. Ela planeja tomar todos os domínios da Terra e dos Céus para ela, até o Mundo Inferior e o Tártaro. Ela é conhecida entre alguns de seus filhos como “A Senhora Dourada” ou algo desse tipo. Antes que minha memória falhe, em seu triunfo, ela terá uma aliada neste lugar. Não lembro o nome. É algo em grego, traduzi automaticamente para Tocha. Isso é estranho e preocupante. Deixo em anexo algumas fotografias do acampamento e dos filhos de Atena. Deixo aqui também a marca de Temis, que prova a veracidade de minhas palavras.
P.S.: Me conforta saber que Elizabeth, enquanto viva, não tinha contato com esse plano. As proles de Atena são escolhidas a dedo para serem os porta-vozes da mãe. Por sorte, Beth não foi uma delas.
— Lucas Stone”
Dei as fotografias para Annabeth. Nas cores preto e branco, elas retratavam em sua maioria os filhos de Atena que eram porta-vozes da deusa naquela época. Isso provava que ela tramava isso a muito tempo e o único motivo de ela não ter dado fim àquele pergaminho era a forte magia que estava envolto no papel.
Anexa àquilo, uma folha destacava as seguintes frases:
“E eu vi, e eis um cavalo branco; e o que estava sentado nele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e ele saiu vencendo e para completar a sua vitória.
E saiu outro, um cavalo vermelho; e ao que estava sentado nele foi concedido tirar da terra a paz, para que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.
E eu vi, e eis um cavalo preto; e o que estava sentado nele tinha uma balança na mão. E eu ouvi uma voz como que no meio das quatro criaturas viventes dizer: ‘Um litro de trigo por um denário, e três litros de cevada por um denário; e não faças dano ao azeite de oliveira e ao vinho.’
Então ouvi a quarta Criatura: ‘Venha’ e apareceu um cavalo baio, o nome do cavaleiro era Morte e o Inferno o seguia de perto.
Apocalipse – 6:2,4,6 e 7.”
Annabeth me olhou com frieza. E repetiu a pergunta.
— Quem é você? — seu rosto era de decepção e tristeza.
— Eu, querida, sou uma das poucas salvações que vocês têm.
Na multidão à minha frente ecoou uma pergunta, tal qual que eu sorri.
— Esses são os Cavaleiros do Apocalipse?
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