Aquele que Perdeu a Memória
12 Planche
Notas iniciais
A clareira estava vazia agora. Quando aconteceu, dezenas de semideuses observavam calados e assustados, em pé, perto das árvores, mas, nesse momento, só eu estava lá. Ou pelo menos era o que eu achava.
Do outro lado do lugar, onde eu morri, havia a caverna que um dia foi temida. Hoje, porém, ela jazia abandonada, com teias de aranha pairando no teto e uma goteira constante que ecoava por todo o recinto.
Entrei lá, e uma onda quente me penetrou, uma presença fantasmagórica e furiosa. Eu pude senti-la antes mesmo de vê-la, mas não senti raiva. Na verdade, só senti pena.
Encostada na parede da caverna, sentada no chão úmido e sujo, estava a mãe de Dylan.
Olhei para o rosto magro e pálido dela, e ela olhou para mim, com os olhos sombrios e sem expressão.
— Você não é Angelina, é?
Ela demorou um pouco para responder. Cada palavra fazia um eco único e sólido.
— Não. Você sabe quem eu sou.
— Cila.
— Louise.
— Eu não tinha interesse em te ver, não preciso dizer o porquê. Então o que você quer comigo? Já não estragou minha vida o bastante? Ou melhor, acabou com ela?
— Não é assim que funciona. Você também não era a primeira pessoa na minha lista de visitas, mas o destino quis assim.
Ficamos em silêncio por um tempo, olhando as pedras e escutando o barulho da goteira.
— Onde você está? — perguntei. Eu soube que Julieta tinha banido-a do mundo mortal, e, para consolidar isso, Dylan teve que matar a própria mãe. Desde então, eu tinha curiosidade de saber onde o espírito dela estava.
— No Tártaro. Nas profundezas dele. Isso que estamos vendo é só uma miragem. Na realidade, é tão escuro e silencioso aqui que alguns segundos são o suficiente para enlouquecer qualquer um. Estou acorrentada em uma rocha que pende ao abismo supremo.
— Vai sair algum dia?
— Eu iria. O ritual da sua amiga não foi forte o suficiente para uma prisão eterna, até porque era só uma criança. — Uma longa pausa, e eu a ouvi suspirando. — Mas ela não teve piedade.
— Como assim? Quem?
— Aquela que vocês estão chamando de “vilão”.
Sentei encostada na parede da caverna que ficava à frente dela.
— É uma mulher.
Cila riu, alto e rouco.
— É, uma mulher.
— Quem é ela? — perguntei, tentando extrair o máximo possível.
— Não vou te dizer. Se eu disser, ela vai voltar, e não vai mais embora. Vou sofrer por toda a eternidade…
Ela começou a suar e esconder o rosto nas mãos. Seja ela quem fosse, botava bastante medo em Cila, provavelmente torturando-a.
— Você disse que ela não teve piedade. O que você fez para ela?
— Eu… não sabia. O Dylan… Ela disse que precisava do Dylan. E ela me puniu por eu ter tentado tomar o poder dele. E agora ela vem aqui todo dia descontar a raiva em mim. Melanie, os deuses…
— Melanie?
— Eu não sei quem é. Ela não me disse. Só ficava repetindo o nome dela sem parar.
— Tem mais alguma coisa? Algo que ela disse?
— Não. Não! Eu não vou dizer mais nada, ou ela vai descontar em mim. Por favor, vá embora.
— Mas…
— VÁ EMBORA! — ela gritou, tão alto que fez as paredes da caverna tremerem, literalmente. Isso provavelmente tinha custado toda a energia que ela tinha sobrando, porque assim que terminou, ela caiu no chão. Para minha surpresa, seu corpo virou pó, como qualquer outro monstro. Depois, toda a caverna virou pó, e as árvores, as montanhas, os prédios de uma Los Angeles sombria e escura. Até que finalmente assisti a mim mesma virar pó, para acordar em um quarto quente e úmido, com as ondas do mar aberto batendo na janela circular.
Ψ
— Então não foi um sonho? — perguntou Colin, com as mãos entrelaçadas no queixo.
— Foi, mas não foi. Pareceu mais que alguém tinha enviado meu subconsciente para lá por algum motivo.
— E quem nos garante isso? — retrucou Palani.
— Eu sei quando estou sonhando. E, além do mais, você acorda de sonhos. Eu basicamente fui expulsa daquele lugar.
— Palani, coisas assim são normais entre nós. Você nunca foi para outro lugar quando dormiu? Ou nunca conversou com alguém morto? — disse Anastasius, parecendo, pela primeira vez, interessado no assunto atual.
— Algumas vezes — ela respondeu.
— E o que te faz duvidar da Louise? — questionou Edward, tirando as palavras da boca de Gabriel.
— E se isso for exatamente o que “ela” quer que pensemos? — Palani fez sinais com os dedos para as aspas. — E se for um homem querendo nos deixar mais distantes da resposta? Pode até mesmo ser a Cila. Não sabemos de nada.
— Não sabemos de nada se considerarmos que o sonho de Louise foi só um sonho. Mas se considerarmos que foi uma visita real, sabemos que é uma mulher, que estava interessada no Dylan e que provavelmente tem uma inimiga chamada Melanie.
— Obrigada, Anne — Louise falou. Eu acenei com a cabeça para ela.
— É perigoso. — respondeu Palani.
— É tudo que temos. — eu disse.
Colin olhou para a mesa, ponderando.
— Eu não acho que Anne seja a melhor pessoa para confiarmos nesse momento... — disse Hellen, pela primeira vez.
Não aguentei: mostrei o dedo no meio bem na cara dela. Depois, transformei-o em um bombom de cupuaçu e o abri.
Depois de algum tempo, a expressão de nojo saiu do rosto dela, que voltou a falar.
— Isso só confirma. — mordi o bombom, fazendo questão de mastigar de boca aberta. — Entretanto, acredito que os argumentos dela são importantes.
— Então só a Palani é contra? — perguntou Colin.
— É o que parece — Palani disse, se levantando e saindo, já sabendo o resultado da votação.
— Então é isso. Vamos discutir mais sobre o que fazer quando chegarmos no…
O resto do bombom caiu da minha mão.
Todo mundo pensou que era algo normal, até toda a sala começar a tremer, e Palani voltar correndo para dentro da sala de reuniões.
— T-tem algo estranho lá fora. Algo grande. Bem grande.
Ψ
Ele estava me abraçando enquanto eu chorava. Lucas tinha o abraço mais acolhedor depois do de Peter.
— E se ele morreu? — perguntei.
— Ele não morreu, eu sinto isso — ele me dizia.
Nal ficava cochichando com Lucas algumas vezes. Eu achava que eles estavam escondendo algo de mim. Eu tinha certeza.
Lucas havia sido um grande amigo esses dias. Ele era nosso mestre e nosso amigo. Ele gostava de nós, eu sabia disso.
— Eu fui tão idiota brigando com ele. Ele tem ciúmes de você! O que vai ser de mim se ele morrer? — me perguntei.
— Sabe, Beatrice, minha namorada morreu. Ela morreu na minha frente. Desde lá eu nunca mais tive outra pessoa, eu enlouqueci. Eu sou o que sou hoje por causa disso. Eu fiz coisas imperdoáveis e desumanas depois disso. Não quero que você cometa o mesmo erro.
Ele sorriu de uma forma lamentável.
— Cair em depressão? — perguntei.
— Não, enlouquecer — ele disse. — Enlouquecer, e depois… saber que está louco.
Eu chorei mais.
— Então você está me confirmando que ele morreu…
— Não! Não foi isso que eu quis dizer…
Ele colocou as mãos nas minhas bochechas cheias de lágrimas. Ele olhou para os meus olhos por quase um minuto.
— Eu senti uma grande deturpação com Peter, alguns dias atrás, mas está tudo normal novamente. Eu consigo sentir a presença dele novamente. Acho… acho que nós devemos encarar o fato de que ele não vai voltar, mas que nós temos que ir atrás dele.
— Sair daqui?! — exclamou Luy. — Você é louco? Agora que sabemos da existência dos monstros, eles sabem da nossa. Não podemos simplesmente dar uma volta.w
Lucas se virou para ela com um olhar severo.
— Só irá comigo quem realmente quiser Peter de volta. Ninguém será obrigado a nada, Luy — ele falou. Estava de lado para mim, então pude ver seu sorriso torto no canto da boca, sarcástico, intimidador.
— Eu vou — soltou Nal. — Peter é meu amigo, eu vou atrás dele.
Lucas sorriu para ele, um sorriso de orgulho. Lucas se expressava através de sorrisos tortos cada vez mais diferentes, demorou semanas para diferenciar um do outro. Nós realmente aprendíamos muito com ele.
Acabou que apenas eu, Nal e Lucas iríamos atrás de Peter. Mae não queria deixar Luy sozinha de jeito nenhum, e, além do mais, alguém tinha que cuidar do bunker.
— Como você vai saber onde ele está? — perguntou Nal.
— Não vou — disse Lucas. — Mas vamos usar isso.
Ele tirou uma moeda de ouro do bolso. Um dracma de ouro, como ele explicou depois, a moeda do mundo grego. Pegou uma pirâmide de cristal debaixo de alguns papéis e abriu uma brecha na porta espessa do bunker, produzindo um feixe de luz. Ele posicionou a pirâmide paralela ao feixe de luz, e, do lado oposto, surgiu um arco-íris.
— How I wish, how I wish you were here, we're just two lost souls… — cantarolou Lucas.
Eu e Nal fizemos uma expressão de confusão. Lucas nos olhou com um sorriso, esperando alguma coisa, como se nós fossemos completar a música.
— É claro que vocês não conhecem! — ele disse. — Essa droga de Justin Bieber está estragando essa geração!
Eu e Nal continuamos sem entender nada.
— Pink Floyd! — disse Lucas. — Ah, esquece…
Ele jogou o dracma no arco-íris.
— Peterson Coyote — ele disse.
Um arco se abriu no ar. Primeiro era um espelho, com o formato e tamanho de um, mas depois era uma tela. Vimos Peter, com uma garota. Não preciso nem dizer o que se passou na minha cabeça, é claro.
Um segundo antes eu queria salvá-lo, depois, queria que ele explodisse esquartejado.
— Quem é essa? — perguntei, de cara fechada. Lucas percebeu, e ficou calado.
— É bonita — Nal respondeu.
Bati no ombro dele com força.
Lucas pareceu analisar não Peter e a garota, mas o lugar em que eles estavam, tentando achar algo que desse alguma pista.
— Ele ainda está aqui, em San Francisco. Em uma vila na periferia da cidade. Por isso que eu consigo sentir a presença dele tão forte, ainda — disse Lucas.
“Ele foi atrás dos pais”, pensei.
— Vamos, estamos perdendo tempo — Lucas disse.
Ele abriu a grande porta do bunker e depois a fechou, trancando-nos do lado de fora.
Ψ
A primeira meia hora de caminhada para a vila foi tranquila, até Lucas ter um surto. Ele pegou um pedaço de madeira e começou a desenhar na neve. Símbolos e mais símbolos. Passamos quinze minutos nessa brincadeira.
— Lucas, vamos! — exclamou By.
Ele levantou a cabeça.
— É claro, é claro — ele disse. — Eu vou me lembrar disso, eu vou…
Ele estava distante, em outro mundo. Depois de mais alguns minutos caminhando, ele voltou ao normal.
— Ouviram isso? — ele perguntou.
Eu e By nos entreolhamos.
— Nal, pegue sua espada. By, pegue seu cajado — ele disse.
Eu tirei minha espada da bainha, não sabia muita coisa, mas aprendi muito com Lucas naqueles dias, não sei se iria mandar ver, mas iria aguentar alguns instantes.
Para By, Lucas tinha feito um novo cajado. Era um pouco menor que ela, chegando ao seu busto, diferente do dele, que passava um pouco da cabeça. Ela o tirou das costas.
Lucas subiu em uma das árvores que estavam ao nosso redor e desapareceu por lá.
— Eu ainda não escutei nada — falei.
Mas depois, eu escutei.
Barulhos pesados e mais pesados como grandes batidas no chão. Depois de alguns segundos, eles apareceram. Os ciclopes eram muitos, em pouco tempo eles nos cercaram. Estavam armados com pedaços de tronco e com rostos muito raivosos.
Quando nos cercaram, ficaram parados, até que um deles rugiu e os outros avançaram para atacar. A primeira fileira deles foi dizimada, restando apenas poeira e adagas cravadas no chão onde estes estavam.
A segunda fileira também. E a terceira.
Lucas estava os dizimando de cima das árvores.
Até que as adagas pararam. Os ciclopes restantes ficaram receosos e esperaram para avançar. Quando se certificaram que não seriam alvejados pela parte de cima, avançaram para cima de nós dois.
By teve tempo de conjurar uma magia fácil, de vento, e fez com que a poeira que estava no chão voasse pelos ares, tirando a chance dos ciclopes voltarem.
Eu jogava futebol, sabia me esquivar. Então eu sempre esperava um ciclope atacar para que pudesse contra-atacar. Desse jeito eu eliminei três. By lançou alguns feixes de luz que dizimaram três ou dois.
Ainda faltavam muitos.
Mais adagas de Lucas. Mais vinte ciclopes caídos.
— De onde estão vindo? — gritou By.
— E eu sei lá, porra! — gritei de volta.
Lucas caiu bem no meio de nós dois. Caiu em pé, é claro.
— Olha a língua! — repreendeu.
— Vocês me deixam nervoso — retruquei. — Ah, os ciclopes famintos e gigantes também.
Ele ergueu o cajado e gritou para que eu e By nos abaixássemos. Gritou em grego e uma luz branca me cegou. Creio que cegou By também.
Quando abri os olhos, nenhum ciclope. Todas as árvores num raio de duzentos metros estavam cortadas pela metade e as que seguiam estavam queimando. Lucas estava caído.
Corri para ele.
— By… — ele falou entre as respirações pesadas — vento… By… forte…
Coloquei a cabeça dele no meu colo.
— By, magia de vento, forte! — gritei.
By demorou alguns segundos para entender, mas o fez. Ela cravou o cajado no chão e falou palavras em grego. Um mini tornado se fez em torno dela e se expandiu, levando com ele a poeira dos monstros. Mas um pouco tarde demais, porque um deles voltou à vida. Minha espada estava ferrada, By e Lucas estavam muito exaustos para fazer algo, e o ciclope vinha com tudo em nossa direção.
Fechei o olho para não ter que ver nada, mas ouvi um forte barulho de impacto. Quando abri o olho novamente, vi que o ciclope estava caído no chão. Virou poeira dourada, e nós pudemos ver o que o tinha matado: ele havia tropeçado na tábua que Lucas usara para desenhar os símbolos no chão.
Um último sopro de vento espalhou os grãos de poeira. Uma gota de suor escorreu na minha bochecha.
Lucas sorriu.
— Meus garotos… — ele disse, recobrando o fôlego.
Lucas se levantou e se apoiou no cajado.
— Isso dói — ele falou, com a mão no peito.
Ψ
— Você é louco? — gritou Luy, vindo de longe. — Quase nos matou!
Ela estava com Mae do seu lado.
— O que fazem aqui? — perguntou Lucas.
— Nós não vamos ficar naquele bunker sem o senhor, Lucas — respondeu Mae.
Ele sorriu.
— Eu sabia que viriam — ele disse. — Venham, me ajudem a andar.
Mae e Luy ficaram cada uma do lado dele, ajudando-o a dar os passos. Nal estava cuidando de um ferimento em mim. A unha de um dos ciclopes me rasgou o ombro. Ele estava suturando. Doía um pouco.
Lucas se recuperou e nós voltamos a caminhar.
Ψ
Eu nunca mais iria usar essas magias pesadas.
Meu coração, que nunca funcionou muito bem, fica sem controle quando eu uso magia forte demais. A arritmia cresce e eu sempre desabo. É horrível. Sorte que eu tinha gente por lá.
Caminhamos por mais cinco horas ininterruptas, até chegarmos à periferia onde Peter estava. Eu não fazia ideia de que meu bunker ficava tão longe.
— Se minhas coordenadas estiverem certas, Peter está um pouco mais ao leste — eu disse.
— Não, não tão ao leste — disse By, apontando para a casa que vimos na mensagem de Íris. — É essa casa.
— Bom, vocês vão lá dentro, descubram o que Peter está fazendo na casa de uma desconhecida, que eu fico aqui desenhando na neve. Não sou obrigado a ver ninguém se beijando.
— Não vamos nos beijar. Não muito…
— Quer fazer o favor de entrar logo?
E eles entraram.
Ϟ
A porta estava aberta. Isso era bom, dispensava contato desnecessário. Não que fosse certo entrar na casa dos outros assim, mas era do meu namorado que estávamos falando.
Uma mulher de cabelos cor de mel estava sentada na mesa, ao lado da menina que vimos na tela flutuante.
Eu a odiei só de olhar.
— Cadê ele? — perguntei.
— Ele quem? — ela disse, se levantando. A mulher, que provavelmente era a mãe dela, teve que a segurar para não avançar em cima de nós.
— Peter. O cara que estava com você. Meu namorado.
Ela olhou para mim intensamente, então sorriu.
— Então você é o coração partido dele. Prazer em te conhecer.
Dessa vez, Nal teve que me segurar para eu não ir atrás dela.
— Bem, você faz um péssimo trabalho como namorada, porque ele não quer ver você.
— Ah, como se você soubesse. Onde ele está?
— Desculpe, não vou dizer.
Bufei de raiva.
— É? Então eu vou ficar aqui até ele voltar.
— Boa sorte — ela tirou a mão da mãe da barriga, pousando-a delicadamente na mesa. Depois, deu um beijo na bochecha dela, e pegou uma mochila que estava no chão.
— Aonde você vai? — perguntei.
— Espere um segundo. Eu te conheci há dois minutos, você invadiu a minha casa, me insultou, e agora quer que eu te dê satisfação? Vá se ferrar.
Ela passou por mim, e eu fiquei encarando perplexa a mãe dela, que me deu um olhar de desaprovação.
Ψ
Senti que alguém tinha saído da casa, e preparei o sermão para Peter que estava decorando.
Mas quando virei de costas, bem, eu fiquei perplexo.
— Louise? — perguntei, andando em direção à garota.
Ela me olhou, confusa.
— Você é outro doente mental? Não, meu nome é Francine — ela bateu no meu ombro com força quando passou por mim.
E, quando ela me tocou, eu lembrei.
Ϟ
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