Notas iniciais
Capítulo escrito pelo Mestre Clodoaldo. Sim, ele está de volta!

Coloquei a ponta de meu cajado no ombro da garota que estava caída no chão, exausta. Ela se aliviou e respirou profundamente. Dava para ver na feição que ela estava confusa e amedrontada.

Fechei os olhos e busquei nos confins da minha mente uma parte, mesmo que mínima, do poder que eu tinha antes de renascer. Pensei bastante, muito mesmo, até que uma pontinha de luz brilhou na minha mente, e eu tentei a sorte.

— Beatrice, — falei com incerteza — ajude-a a levantar. Você também, garotão — apontei para o namorado dela.

— Como sabe meu nome? — perguntou By, relutante. Era muito inconveniente perguntar algo naquele momento.

— Um pouco de esforço e eu adivinhei — respondi, levemente sárcastico.

Com uma expressão de dúvida, ela e o namorado ajudaram a garota a se levantar. Um garoto negro e forte ofereceu ajuda, livrando By de ter que carregá-la, pois sua perna doía. Seu nome era… Droga, eu sempre esqueço que perdi o dom.

Não foram só meus cabelos que mudaram. O antigo Lucas tinha medo, era fraco. Apesar da onisciência, ele era fálico. O perfeito se tornava questão de dúvida e, desse jeito, ele nunca conseguiu viver em paz.

Medo e incerteza, até chegar ao sofrimento.

Agora, esse Lucas se vê preparado para o melhor, sem saber de tudo ao mesmo tempo, ele se concentra nas pequenas coisas que o cercam. Ele vem tendo de volta os pequenos prazeres que, juntos, formam a felicidade. O coração, velho e cansado, agora não sofre com o poder do saber, mas celebra a dádiva da experiência. Só quando perdi o dom percebi que não era realmente um dom, mas uma maldição.

Acho que devo procurar Luna qualquer dia desses para agradecê-la.

Algo no relacionamento de By com o namorado me faz ter conforto. A simplicidade me alegra, me deixa em paz.

Tanto ela quanto o negro — descobri depois que o nome dele era Ronald, “Nal” — me traziam um conforto ao estar perto. Da última vez que senti isso, eu queria que as pessoas se tornassem meus amigos. É isso que eu enxergo nesses dois: amigos, como se meu subconsciente os quisesse por perto. E eu nem os conhecia propriamente. Isso é estranho. Esses sentimentos novos são estranhos.

Quando todos estavam em pé, preparados para fugir, fui ao professor. Olhei-o de cima a baixo. Ele tinha uma aliança e um elástico azul no dedo, provavelmente dado por sua filha ou filho, para simular o que a mãe e o pai têm nos dedos. Ele, perplexo, não disse nada.

— Vá para sua família — falei, ele pareceu lembrar que tem uma, o que resultou num breve e doce sorriso. — Procure um bunker antiatômico e se abrigue lá. Depressa! — gritei.

Ele saiu correndo para a saída da escola.

Olhei para os outros, todos sem fôlego e exaustos. Percebi o que era melhor fazer.

Ergui meu cajado. Em sua ponta, surgiu uma luz verde, iniciando a magia. O pó da equidna estava se reformando. Os três olharam para ele, confusos, sem saber o que estava acontecendo. Era melhor eles não ficarem para descobrir.

— Dytikífóta, Pankósmia Mares, na mas odigíseiópouboroúme na vroúmetodrómomars! — gritei as palavras, que em grego significam: “Luzes do Ocidente, Mares do Mundo, levem-nos onde possamos encontrar nosso rumo!”.

Um domo de luz verde, quase sólida, se formou em nossa volta. Tudo ficou claro, mas depois, estávamos em um lugar totalmente diferente.

Ϟ

Era mágico, era como se ele fosse uma espécie de mago.

Quando chegamos no que me parecia ser um abrigo, a maioria de nós caiu no chão. Ele, o cara de cabelos brancos, estava ofegante, como se aquilo tivesse o machucado. Ele pôs a mão no peito e resmungou alguma coisa, mas logo voltou ao normal.

O lugar era estranho, tinha frascos com substâncias coloridas, livros e manuscritos espalhados por todo lugar, sem nenhuma organização. Parecia um bunker de guerra, feito para sobreviver em casos de bombas nucleares. Tinha algumas anotações em letras gregas nas paredes, aparentemente feitas de carvão. O descuidado nas escrituras denotava pressa, como se fosse uma grande equação matemática.

Ele deve ter sentido calor, pois desabotoou a camisa até metade do peito sarado e um tanto cheio de pelos. Ele deixou o cajado no chão, passou a mão nos cabelos brancos, pôs um óculos e procurou por algo nas misturas coloridas que pairavam sobre a mesa. Ao deixar o peitoral semiaberto, mostrou cicatrizes profundas e escuras. Ele não parecia ligar para elas, pois cada cicatriz era obviamente descuidada, algumas nos braços ainda tinham linhas de costura, que aparentemente ele mesmo costurou.

Ele me deixava curiosa a cada passo que dava. Algumas vezes mexia mais o quadril, como um galã espanhol, outras, era duro e envergado, como um nerd super travado.

Ele pegou um frasco com uma substância bege e a colocou dentro de uma seringa. Ele se aproximou de Mae e de mim, com duas seringas, uma para cada.

Todos estavam perplexos demais para perguntar o que era aquilo, mas ele só disse:

— As damas primeiro, é claro.

Ele aplicou uma das seringas em Mae, que hesitou em deixar um líquido estranho entrar no corpo, mas soltou um suspiro de alívio no mesmo momento.

A minha perna havia piorado, estava voltando ao estado em que a explosão deixou. Ele veio com uma das seringas e se ajoelhou na minha frente. Ele pôs a mão na minha perna e injetou a outra seringa. Tudo parecia aliviado para mim. Nada mais doía. A ferida da perna havia fechado em segundos, na minha frente, como se semanas tivessem passado. O sangue coagulou e secou, e ele o limpou com um pano molhado. Suspirei e me aproximei de Peter, que, apesar de já não ter mais a boca fechada, continuava calado. O homem voltou aos frascos, preparando novas seringas. Ele aplicou em Peter e em Luy, Nal estava bem.

Ninguém perguntou nada, apenas agradecimentos secos após as injeções.

Beijei Peter como da primeira vez que nós ficamos juntos. Ele, o homem, nos olhou com um sorriso acolhedor no rosto, mas que depois desapareceu após olhar o horizonte. Será que nós o lembrávamos de alguém? Algum amor do passado? Provavelmente.

Ele mexeu nos cabelos novamente, suspirou e bebeu um copo de água, que eu não sei de onde ele tirou, pois naquele lugar só havia papel, frascos com líquidos e tinta. Pensei ser magia, como ele fez agora há pouco. Magia? Seria esse o nome certo? Ou só ciência avançada. Eu não sei. Vi tantas coisas impossíveis hoje que não sei mais no que eu acredito.

Ele não tirou os olhos de nós até que nos recuperássemos. Quando todos estavam de pé, Nal quebrou o gelo.

— Então… Quem é você? — perguntou.

Ele ficou um tanto triste com a pergunta, novamente.

— Se um dia eu tive um nome, já foi há muito perdido… — ele respondeu. — Acho que não sou tão digno de ser chamado por ele de novo. Hoje só sou conhecido como um escravo de ovelhas.

— Ele é filósofo ou algo assim? — murmurou Peter para mim. Eu ri.

— Bom, então… O que você é? — perguntou Nal.

Ele olhou por alguns segundos para o horizonte, deu um breve sorriso e falou.

— Eu sou Lucas, filho de Nêmesis. Eu sou um semideus — respondeu Lucas, o cara dos cabelos brancos.

Eu ri. Ele olhou com curiosidade.

— Semideuses são lendas! — eu disse, mesmo depois de ver várias lendas ao meu redor.

Ele novamente sorriu com a minha reação. Estava apoiado numa estante, mas logo saiu de lá e se moveu para pegar seu cajado.

— Eu posso ser caçado pelo o que eu irei dizer agora, possivelmente morto, mas… Que os deuses me ajudem — ele disse, abrindo a palma da mão e deixando uma grande luz tomar conta do local.

Ψ

A mão dele começou a pegar fogo!

Era impressionante como eu nunca me acostumava com aquele cara. Já vi tantas coisas científicas, mas nada se comparava ao que ele fazia. Ia além da ciência.

O fogo na mão dele reluzia verde. Ele fechou a mão e a abriu no ar, fazendo o fogo flutuar. No meio das chamas, se abriu uma imagem, como um quadro emoldurado por chamas verdes. A imagem começou a se mexer e ele, Lucas, começou a falar.

Em meio às chamas, estava uma montanha, com várias pessoas em cima dela, como deuses. Eles se mexiam. No centro, havia um barbudo com um raio na mão.

— Esses são os deuses do Olimpo — Lucas dizia. — Zeus, Poseidon, Hera, Atena, Ares, Hefesto, Dioniso, Apolo, Ártemis, Hermes, Afrodite e Deméter. Doze deuses para doze tronos. Todos eles governavam uma parte da terra. Os mais poderosos, Zeus, Poseidon e Hades — o cara com o raio apareceu, depois um cara com uma lança de três pontas em cima de uma onda e depois um cara com um cachorro de três cabeças usando coleira num lugar cheio de fogo — governavam os três mais poderosos reinos, os céus, os mares e o submundo. Essas histórias, como todos já conhecem, passaram a ser lendas, mas elas não são. Após conflitos e discrepâncias em vários meios, os deuses mudaram de local por vários séculos, na Inglaterra, Alemanha, e hoje, Estados Unidos da América. Esses deuses, no passado, tinham filhos que se tornavam grandes heróis, semideuses. Hércules, Teseu, Perseu… Todos com uma gama especial provindas de seus pais olimpianos. Porém, não apenas os doze deuses mais poderosos procriavam com humanos, deuses menores ou menos poderosos também. Minha mãe, por exemplo, Nêmesis, é um desses deuses — alguém quis interromper, mas ele continuou. — Hoje, por motivos de conflitos em proporções mundiais, existe um acampamento onde nós podemos ficar, treinar e não sermos mortos, pois os monstros nos caçam como cachorros atrás de carne. Lá, tudo era mantido em paz entre os semideuses e humanos. Porém, um semideus, filho de Poseidon, resolveu salvar sua namorada da morte, mas não impedindo que ela morresse e sim trazendo-a de volta dos mortos — Peter olhou intensamente para By. — Isso desequilibrou tudo, abriu as Portas da Morte, ou seja, o mundo dos mortos começou a se misturar com o mundo dos vivos. E, pelo que parece, a situação está ainda mais crítica, não só bastava esses dois mundos se misturarem, agora o mundo mitológico, por assim dizer, está entrando no mundo mortal. As criaturas que vocês viram hoje fazem parte do nosso mundo. Vocês, humanos, agora podem ver os monstros da mitologia grega, que, de fato, não é uma mitologia.

O fogo com as imagens desapareceu. Peter pareceu confuso.

— Então… Por que você nos salvou? — disse.

— Existe um propósito para tudo, meu filho — ele explanou. — Não cabe a vocês saberem disso.

— Tem mais uma coisa que eu gostaria de saber… — Peter começou com fôlego, mas após Lucas olhar pra ele, ele perdeu a vontade de falar, como se estivesse com medo. — É… E o que aconteceu com você? Digo, você está cheio de cicatrizes e faz magia… Todos os semideuses fazem isso?

— Não, meu caro jovem — respondeu Lucas. — Eu… Bem, eu... — ele ficou um tanto triste ao falar “eu”. — Eu tenho oitenta anos, apesar de parecer ter dezenove — ele riu das caras de surpresa das pessoas em volta. — Vocês só precisam saber que durante décadas eu fui torturado por mim mesmo, até que aqui estou… Bom, eu sou um mago, pois tenho a bênção de Hécate, deusa da magia. Entretanto, eu sou muito bom com lâminas — ele piscou para Peter.

Fiquei um tanto aliviado por saber que tinha alguém para me proteger naquele mundo de monstros. Eu até o achava simpático.

Peter olhava para ele com os braços cruzados e uma expressão de desprezo. Seria aquilo… ciúmes? Meu Deus — ou deuses? Não sei. Eu não o culpava, Beatrice olhava para ele como se fosse um ídolo teen. Lucas Bieber.

Lucas se abaixou para pegar algo e quando levantou, sem olhar para nada, uma adaga zuniu pelo meu ouvido. Olhei para trás, com medo.

— Ops! — ele disse. — Cuidado com a cabeça, Nal…

Ele sorriu e sentou-se numa cadeira, com um livro na mão.

Ψ

Eis o que Lucas fez na seguinte semana: Ele nos treinou.

Exatamente. Ele disse que não poderia nos proteger cem por cento do tempo, então disse que nos treinaria, para que nós mesmos pudéssemos nos defender dos perigos que estavam lá fora.

Passamos por todo tipo de privação. Passamos fome, ficamos sem ir ao banheiro por muito tempo e treinamos, e treinamos, e treinamos…

Ele era ótimo em adagas, atirava com precisão em qualquer parte de qualquer pessoa ou coisa.

Ensinou à By magia, a Nal e a mim esgrima, a Mae adagas, e à Luy igualmente magia. Ele criou uma incômoda amizade com By nesse tempo. Digo incômoda pois ele era um mago,inteligente, sábio, forte, durão, tudo o que eu não era e estava fazendo uma forte amizade com a minha namorada. Eu não gosto muito dele.

É, eu definitivamente não gostava muito dele.

Ele também passou a semana de lero-lero com Nal. Conversavam por vários minutos, isso era estranho. Digo, era estranho o modo como todos gostavam dele, ele era amigável o suficiente como um amigo e durão o suficiente como um professor. Eu nunca fui com a cara dele. Ele estava conversando com a By de novo, logo me enchi de raiva. Eles estavam rindo.

— Do que vocês tanto riem? — perguntei.

— De você — respondeu By.

— Beatrice me contou várias histórias de você — ele riu um pouco. — É verdade que você aos treze anos correu pelado de um ganso pela sua fazenda?

Fiz cara de envergonhado, mas ri depois, assentindo com a cabeça.

Sentei-me perto deles.

— Lucas, — falei — vamos sobreviver, digo, vamos sair dessa com vida sem sermos feridos?

Ele suspirou, mandando o sorriso embora.

— Sobreviver? Creio que sim, meu caro Peter, afinal vocês têm o melhor treinador da galáxia. Não se ferir? Acho muito improvável. Mas escute o que eu vou te dizer. Está vendo todas essas cicatrizes? Elas marcam dor, claro, mas também marcam superação. Não tenha medo da dor, porque é ela quem define o que você é. A dor sempre está presente, só é necessário aprender a conviver em harmonia com ela.

Ele se levantou, mas antes que andasse, sua expressão era de lembrança, como se lembrasse de algo. Ele pegou um pedaço de carvão e escreveu outra letra grega na parede. Ele fez isso por toda a semana, como se quisesse terminar aquela equação.

— Agora, — ele disse — vamos jantar, estou roxo de fome.

Ψ

Um timbre agudo, fino, curto e leve. Fechei os olhos e saboreei o som que passava da minha garganta fechada para o ar, enchendo meus ouvidos.

Outro timbre, dessa vez grosso, forte e longo. Um som grave que lembrava lutas e guerras, poder e ganância, traições e morte.

Essa era a música dos deuses, uma melodia que misturava o leve com o forte, a calmaria com a algazarra, lotando as bocas e instrumentos de antíteses e fazendo todo o Monte Olimpo parar e adorar. Mas, na ironia da vida, eu estava cantarolando-a no Submundo, enquanto caminhava pela terra vermelha e abrasenta. Ela me ajudava a afastar os pensamentos negativos.

Mas eu só me senti bem quando uma voz conhecida ecoou pela minha mente.

Melanie… Melanie… Melanie…

Eu ri. Ela sabia que eu estava aqui, e sabia o que eu ia fazer, mas não tinha como impedir. Eu estava em território de Hades, e ela seria descoberta caso desse um passo sequer por aqui.

O que ela pensou? Que eu ia deixar o planinho dela sair perfeito? Deveria ter me matado quando teve a chance.

Olhei para a frente e vi o grande rio prateado correndo à toda velocidade. Sentei na borda, tomando cuidado para não deixar meu pé tocar a água. Só um toque seria suficiente para roubar toda a minha força vital.

Esperei alguns minutos, até que vi: uma massa branca que parecia embrulhada em alumínio prateado. Estava irreconhecível e feia, mas eu sabia o que era.

Com um pouco de esforço, consegui alcançá-la sem tocar no rio, e puxei-a para mim com ajuda de luvas, derrubando-a no chão por conta do peso. Ela estava molhada e gelada, pálida e fria. Mas salvaria o mundo. Quanta ironia.

Sequei-a, coloquei no ombro e me pus a andar, voltando para o meu lugar de origem. Hoje era um dia triste para a inimiga.

Enquanto eu andava, a voz foi ficando mais intensa, assim como meu riso.

Melanie...

~Ψ~