Aquele que Perdeu a Memória
21 Électrique
Notas iniciais
Estávamos a sós. Eu e ele. O garoto dos cabelos brancos.
Para sairmos da confusão do hall do barco, me tranquei com ele na cabine principal. Eu estava sentada numa cadeira e ele se postava em minha frente, apenas uma mesa nos separando.
Ele me explicou muita coisa. Coisas que eu duvidaria se ele não tivesse invocado a palavra de Themis. Se ele mentisse, morreria.
Disse que ficou preso no acampamento quando cometeu suicídio para um pacto de sangue. Eu reconheci tal ritual, já havia lido sobre ele na biblioteca do acampamento antes. Era uma prática há muito proibida, e trazia sérias consequências.
Ele explicou mais afundo o que estava acontecendo conosco. Explicou que Dylan, filho de Poseidon, abriu as portas da morte ao salvar sua amada, e não as fechou. Agora não há nenhuma barreira entre nós e o os monstros. Matar um deles é como dar um golpe em fumaça: ela pode se deformar, mas nunca sucumbirá.
— Alguns de nós já suspeitávamos disso — eu disse.
— Só não tinham certeza… — ele respondeu. — Annabeth, eu creio que Dylan está no mesmo lugar para o qual estamos indo, o Acampamento Júpiter. Se ele estiver lá, as coisas vão piorar cada vez mais.
— Como você sabe disso? — perguntei.
— Pressentimento — ele respondeu. — E também é bom ter contatos no Acampamento Júpiter. Eu conheço Adam, o líder de lá, há algum tempo. Isso me dá alguma vantagem.
— E quanto àquela parte bíblica que cita os Cavaleiros do Apoca…
— Shhhh! Estão nos ouvindo… — ele disse.
Lucas se levantou e andou em direção à porta. Quando a abriu, Palani nos observou intensamente. Ela ficou surpresa e estática.
— Annabeth, preciso falar com você — ela falou, depois de alguns segundos constrangida.
Fui em direção a ela. Quando estávamos próximas, ela sussurrou:
— Annabeth, eu e os outros líderes estamos nos perguntando por que não estamos aí com vocês. Por que que só você pode falar com ele? Digo, todos somos representantes do acampamento e Anne…
Palani foi interrompida por Colin, que veio correndo, preocupado e ofegante.
— Estamos sob ataque! — ele gritou.
Ψ
Estávamos subindo as escadas do navio o mais rápido que podíamos.
Por um momento, todos esqueceram o fato de que eu estava tendo uma conversa particular com Annabeth. Na verdade, tinha sido uma exigência minha. Eu sabia que ela era a única que tinha uma mente totalmente desenrolada naquele navio. Ela saberia entender tudo.
Não obstantes, corremos em direção ao ataque.
— São Telquines, Colin! — gritou Anne. Sua roupa já estava manchada de sangue. Dela? Não tinha como saber.
— Anne, organize o contra-ataque! — gritou Colin. — Annabeth, eu e você vamos até a câmara de proteção montar guarda.
Os dois correram em direção ao centro da embarcação para que pudessem recolher os semideuses desprotegidos, incluindo Julieta, que estava grávida. Por isso a preocupação de Colin.
Alguns Telquines conseguiram subir na parte da frente do barco. Anne clamou para que todos atacassem lá.
Tentei achar um local mais alto, para que eu pudesse lançar minhas adagas e uma magia de gelo neles, já que eram monstros marinhos. Quando encontrei onde me alojar, pude observar os monstros metade cachorro humanoide e metade peixe atacarem os semideuses e explodirem em pó dourado. Entretanto, se o pó não fosse chutado e espalhado pela água, eles ressuscitavam em questão de segundos.
De lá de cima, vi Percy Jackson pular nas águas e convocar ondas para enfrentar os monstros. Eu havia escalado o mastro do navio. Andei rapidamente por um dos braços laterais usando meus braços para equilíbrio, como em uma corda bamba. Percy passou abaixo de mim montado em uma onda com formato de mão que pegava o máximo de telquines que podia e jogava de volta ao mar.
— Por trás! — ele gritou.
No início não entendi, pois estava vidrado na batalha vigorosa que os campistas travavam contra os demônios marinhos. Eu mesmo já havia liquidado um bom número dessas criaturas. Estávamos ganhando. Telquines e mais telquines explodiam em pó dourado e nenhum semideus havia caído. Pude ver filhos de Hefesto explodindo as cabeças de alguns monstros com marretas e filhos de Ares fincando as suas lanças no peito das bestas.
Então entendi o que Percy dizia e repetia diversas vezes, tentando desesperadamente conseguir atenção.
Uma horda de telquines subiu pela parte de trás do navio, quebrando pedaços de madeira que constituíam o barco. Ninguém havia percebido. Eles iriam pegar todo mundo de surpresa.
Tentei gritar, mas os semideuses só perceberam a situação quando o primeiro filho de Ares foi empalado nas costas, caindo morto logo em seguida.
O ataque surpresa foi um choque muito grande. Foi difícil para a maioria dos campistas manter a calma. A confusão reinava. Alguns indecisos andavam para lá e para cá, não atacando ninguém. E, para piorar, alguns telquines mortos antes ressuscitaram. O que antes era pó dourado foi substituído por um líquido vermelho. Sangue de semideus.
Um filho de Atena tentou resistir com suas adagas de mão, mas foi esmagado quando alguns monstros destruíram um mastro que caiu em cima do pobre garoto. Uma filha de Ares fora decapitada por um dos telquines e a cabeça de outra foi abocanhada e arrancada brutalmente enquanto ela tentava salvar sua amiga.
Eu não podia ficar parado, observando. Joguei várias adagas e derrubei uns quatro a cinco monstros, mas foi Percy quem deu a cartada mais poderosa.
Ele invocou uma onda que molhou todo o chão de madeira do barco. Eu, vendo que essa onda iria levar não só telquines, como também semideuses, conjurei uma magia para que os que tivessem sangue de deus fossem encobertos por um campo de força. Sim, existe esse tipo de coisa. Assim, não só os que estavam lutando como os que estavam dentro do navio estariam protegidos.
Meu coração começou a acelerar. Tal magia era poderosa demais para meu sistema cardiovascular, mas eu me forcei a continuar.
Percy dava conta daqueles que caíam de volta na água. Eu o vi de relance formando gelo pontudo com a água marítima e lançando nos demônios que haviam caído.
Nesse momento, uma ideia veio a minha cabeça. Eu me lembrei de quando o ciclope que matou Elizabeth morreu. Quando ele virou pó, um raio verde caiu e o rodeou, sumindo logo em seguida.
Eu conhecia aquela magia.
Ponto positivo: mataria todos os telquines e apenas eles se eu mantivesse o campo de força em volta dos semideuses.
Ponto negativo: poderia custar minha vida, causar um incêndio no navio e matar os campistas de qualquer jeito.
O ponto positivo ganhou.
Os telquines tentavam golpear os campistas, mas sem sucesso. Porém, iriam tê-lo logo, pois minha magia estava começando a falhar.
Meu coração continuou acelerado e minha cabeça bamba. “É agora ou nunca”, pensei.
Ergui minha mão esquerda e com a direita me segurei no mastro principal. Havia uma nuvem de bom tamanho para a magia. Mirei nela e então gritei:
— Δίας σύννεφα, φέρε μου το φως που καίει και το θόρυβο εκκωφαντική! — (Días sýnnefa, fére mou to fos pou kaíei kai to thóryvo ekkofantikí!)
Minha voz saiu esganiçada, devido a força que coloquei para que o som saísse alto.
Nada aconteceu. Gritei mais uma vez.
— Δίας σύννεφα, φέρε μου το φως που καίει και το θόρυβο εκκωφαντική!
Alguns trovões ribombaram em meio as nuvens, mas não era o suficiente.
Percy deve ter visto o que eu tentava, então jogou mais uma onda.
Tínhamos em torno de cinquenta telquines no barco e mais uns cinquenta fora. Mesmo se voltássemos a lutar, não iriamos aniquilar todos.
— Δίας σύννεφα, φέρε μου το φως που καίει και το θόρυβο εκκωφαντική! — gritei mais uma vez.
Eu vi que um raio verde limão ameaçou sair das nuvens, mas nada aconteceu. Meu coração estava muito rápido, eu iria ceder se não conseguisse logo.
Os campos de força travaram e eu vi que eu tinha que acertar dessa vez. Minha visão estava embaçada, mas quando voltou ao normal, vi que minha mão estava com sangue. Não dos outros, mas meu. Sangue que estourou de minhas veias e começou a descer pelo meu antebraço e pingar na madeira do barco, enobrecida pela aurora.
Cada pingo de água salgada que tocava em meu corpo era sentido. Arrisquei cair do mastro e meu coração começou a escurecer minha visão.
“Não posso…”, pensei.
Ergui minha mão vigorosamente de novo. Gritei um aleatório “Ah! ” Para espantar a dor e a agonia que tomava meu corpo. A vida de todos dependia de mim.
Soltei o mastro, levantando meus braços para o céu. Meus cabelos estavam eriçados e minha visão ficou escura. Eu sabia que eram meus olhos que haviam ficado completamente cinzentos. Minha visão me deu uma brecha. Vi nitidamente por três segundos. “É agora”. Não ocupei minha cabeça com muita coisa e apenas gritei, como um trompete enferrujado e como uma súplica de um último suspiro.
— ΔΊΑΣ ΣΎΝΝΕΦΑ, ΦΈΡΕ ΜΟΥ ΤΟ ΦΩΣ ΠΟΥ ΚΑΊΕΙ ΚΑΙ ΤΟ ΘΌΡΥΒΟ ΕΚΚΩΦΑΝΤΙΚΉ!
Eu vi a luz, mas apaguei muito rápido para ouvir o trovão.
Ϟ
Uma luz desceu do céu e fritou todos os telquines, junto com Lucas que estava no mastro principal e caiu como uma batata no chão. Um raio verde, seguido de um trovão barulhento e poderoso, caiu dos céus e desceu pelo mastro principal, intermediado por Lucas. Todo o ambiente ficou claro e nítido por um momento. Todos os telquines na água foram dizimados também.
O campo de força à minha volta desapareceu, e eu corri para ajudá-lo.
Alguns campistas me chamaram para salvar um semideus que estava boiando, o que me interrompeu de ir na direção de Lucas.
— É o Percy! — disseram.
— Anne, ajude-me com a corda — um filho de Atena me pediu.
Jogamos a corda em Percy e o puxamos rapidamente. Uma filha de Apolo examinou o pulso e a respiração, enquanto o corpo molhado dele tremia devido à carga enorme de eletricidade.
— Ele vai viver — ela disse. — Não está em estado crítico. Teve sorte.
— Não posso dizer o mesmo desse aqui — gritou outro filho de Apolo, que estava com Lucas.
— O coração dele não bate.
Ψ
Os semideuses na parte de baixo estavam protegidos. Perguntei a Colin como estava Julieta e os outros depois do raio.
— Estamos bem — ele disse. — Estamos todos bem.
Ninguém protestou, o que me levou a acreditar. Estranhamente, todos os semideuses estavam protegidos do raio que nos atingiu. Mais tarde, fiquei sabendo que foi uma magia de Lucas que fez isso. Entretanto, a maioria de nosso suprimento e água potável foi queimada pela energia do raio que matou os Telquines.
Estava pronta para xingar, quando vi muitos semideuses trazerem Percy desacordado. Quatro seguravam ele; dois nos braços e dois nas pernas.
— Duas macas, rápido! — gritou um filho de Apolo.
— O que aconteceu com ele?! — gritei, histérica, como quase nunca faço.
— Ele está bem, Annabeth — me devolveu o mesmo filho de Apolo enquanto o colocava na maca.
— E Lucas? — perguntei.
— Bem, você já ressuscitou um semideus? — ele perguntou.
Quando olhei a outra maca, vi Lucas, queimado e desacordado. Sua camisa estava colada ao corpo e ele tinha sérias manchas negras de queimadura.
— Ele não pode morrer! — eu disse.
— Então comece a rezar agora.
Ψ
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