Notas iniciais
Peguem seus lencinhos porque agora vamos de sad fic.

Aviso: tem traição aqui, se não se sente bem com o tema, por favor, não leia.

Está frio. Parte dos meus cabelos e ombros estão úmidos. O casaco marrom que estou usando não é quente o bastante.

Meu corpo cansado se curva sobre a mesa branca, minha vista cansada se turva sobre o café recém preparado entre minhas mãos, é minha fonte de calor no momento; está amargo, eu nunca gostei dele assim, acho que é por isso que estou tomando.

Levanto um pouco a cabeça, inclino, reparo no lado de fora.

Está chovendo, não algo torrencial, é uma chuva leve, mas contínua o suficiente para que as gotas de água formem caminhos tortuosos no vidro embaçado bem ao meu lado. São como pequenos rios, como lágrimas correndo por uma face. Que grande ironia, não?

Com a visão perdendo-se além do vidro meus olhos ardem, mas as lágrimas já não saem mais, eles também estão cansados.

Um casal caminha de mãos dadas sob o mesmo guarda-chuva, sorrindo docemente.

Deve ser bom poder sorrir assim.

Que bom que você pode.

O cardápio do dia por aqui é diferente: Café amargo acompanhado de um sorriso amargo. Bon appétit!

A época das coisas doces já havia passado.

"Izuku... não, Midoriya, eu preciso te dizer algo."

É o tipo de sentença que ninguém ia querer ouvir naquele tom de voz.

As suas palavras naquele primeiro dia do mês de abril continuam se repetindo em loop infinito na minha cabeça. Minha mente exausta adoraria que isso parasse, mas não vai, não é?

Aquela cena vindo outra vez em minha cabeça era a resposta.

"Midoriya, eu já não te amo mais. Eu quero terminar."

Ser frio não era o bastante, você até mesmo abandonou meu nome e passou a me tratar pelo sobrenome, como se fossemos estranhos, como se não tivéssemos vivido sob o mesmo teto, compartilhado a mesma cama.

Estávamos bem na porta de casa, eu tinha acabado de chegar.

"Haha... I-isso... É uma piada?"

Eu até mesmo tentei rir na hora... patético. Suas malas já estavam prontas.

"Me desculpe, não é assim que eu queria que as coisas fossem. Eu não quero que você me entenda errado, eu jamais queria ter feito isso com você, Midoriya, mas as coisas entre nós dois já não estavam como antes e você apenas... apenas não queria aceitar e então eu encontrei alguém. Neste último ano eu estive com outra pessoa, eu sei que é errado, eu não deveria ter mentido e continuado com você, sei que não deveria ter feito isso, mas eu não queria te ver triste."

"I-isso é mentira, não é? Tem que ser. Por favor, Shouto, me diga que é algum tipo de piada sem graça."

O vermelho, o branco, o azul, o gris, tudo ficou embaçado, tudo se perdeu.

Onde e quando se perdeu? Em que momento o que eu tinha por joia mais preciosa se quebrou? Foi algo que eu fiz ou deixei de fazer?

Não adiantava me perguntar.

Você apenas me desejou sorte e saiu pela porta com as suas coisas, que já eram minhas também, que já tinham espaço na minha casa como você tinha no meu coração.

Sorte?

Pff!

Eu ainda esperei que você fosse voltar e me dizer que tudo não passava de uma brincadeira de primeiro de abril, achei que, antes do fim da noite, ou mesmo no dia seguinte, você entraria por aquela porta e me diria isso, me pediria desculpas e me faria parar de chorar, você me faria rir como só você fazia, daquele jeito bobo.

Eu me forcei a acreditar nisso e eu esperei, esperei ali em frente à porta da minha casa, da nossa casa, esperei a noite toda, esperei até mais, mas você não veio, aquela porta continuou fechada.

"É mentira, não é, Shouto?!"

Aquela porta que você deixou fechada não me respondeu.

Já é maio.

Só agora, te vendo andar de mãos dadas com outra pessoa numa calçada qualquer — sem ao menos se dar conta de que por trás da vidraça de uma cafeteria, meus olhos úmidos acompanhavam sua imagem afastar-se do outro lado da rua —, é que parece que a ficha caiu.

Só agora, eu vejo que sua peça foi a mais bem elaborada de todas, afinal eu descobri que você passou mais de um ano atuando nela. Posso não ter sido o único espectador, mas o único bobo fui eu.

Às vezes eu acho que nem foi você e sim eu o culpado.

Talvez eu que tenha pregado a peça em mim mesmo.

É, talvez eu tenha.

Quando no último ano — o qual segundo você mesmo disse, já estava com outra pessoa — eu continuei lutando por você, quando te dei todo o apoio na conclusão do seu curso, quando enfrentei o seu pai até ele aceitar sua sexualidade e nos aceitar, quando dei minha cara a tapa para os nossos amigos, quando botei minha mão no fogo por você, talvez eu tenha me enganado e me feito de tolo. Não, eu certamente me fiz.

Eu pus minhas mãos no fogo e o que queimou foi minha confiança.

O que se feriu foi o meu coração.

Mas, independentemente disso, tenho que aplaudir seu talento de ator. Seus beijos e carinhos eram bem reais para mim; quando voltava estressado ou triste buscando refúgio e amparo nos meus braços, totalmente verossímil; quando dizia que só tinha a mim, que eu era único para você, que precisava de mim, parabéns pela performance; quando me sorriu dizendo que me amava e que ficaríamos juntos para sempre, oh, aquilo foi digno de um Óscar!

Incrível como só no dia da mentira você foi verdadeiro comigo.

Levanto, pago pelo meu café, pego meu guarda-chuva, saio dali e sigo na direção oposta à que você foi com ele.

O gosto amargo permanece na minha boca.

Tem vezes que ainda dói, outras vezes eu sinto raiva, outras que quero esquecer tudo e tem aquelas vezes em que eu simplesmente gostaria te perguntar uma última coisa: Os sorrisos que você dá para ele são reais, Shouto, ou também são só uma peça de primeiro de abril?

Hoje não é nenhuma dessas, hoje apenas está frio e eu estou cansado.

Notas finais
É isso meus amores
É triste, mas espero que tenham gostado
Até a próxima o/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!