Notas iniciais
Um pequeno poeminha Sebaciel ♥
*Baseado no poema de Edgar Allan Poe, "O Corvo".
*Morfeu-Deus dos sonhos noturnos, filho de Hipnos (deus do sono) e Nix (deusa da noite); mitologia grega.

Os cabelos voando ao vento; era delicioso de sentir. O aroma de erva doce de seu sabonete líquido para banho também. Agora estava ali, cansado e sonolento.

Largado ao sabor da brisa;

A espera de seu visitante noturno.

Há algumas noites tinha notado que algo ou alguém o observava pela janela de seu quarto enquanto dormia; ou fingia dormir.

Ocultando-se;

A espreita.

Não conseguira sequer uma vez observar a pessoa. Mas se sentia observado. Aquela sensação o acompanhava durante todo o seu sono. Apenas pela noite.

Perseguindo-o;

Sufocante.

Era o seu dia de folga, tinha dormido pela metade do dia para poder ficar acordado pela noite e enfim descobrir quem era.

Angustiando-se;

Ansioso.

Suspirou ao ver que mais uma hora passava. Logo os primeiros raios de Sol surgiriam em breve no horizonte. Mais uma noite desperdiçada com a sua busca.

Incomodando-o;

Frustrado.

Bastava deitar e dormir. Esquecer a causa de sua agonia e curiosidade. Queria se entregar aos braços de Morfeu.

Hipnos;

Nix velava seu sono.

Mas o que ele não sabia, era que seu visitante estava ali. Bem mais próximo do que das outras vezes que estivera observando-o.

Meticuloso;

Estranho.

Fez correr com cuidado a porta de vidro da sacada em que se encontrava. O mais silencioso que pôde. Observou o espaço em que adentrava pela primeira vez.

Invadindo-o;

Excitante.

Em passos leves e silenciosos fez questão de aproximar-se da cama. Os olhos vermelhos captando cada mínimo traço do jovem ali deitado.

Maravilhando-se;

Perdido.

Mordeu o lábio inferior na tentativa de evitar que tocasse a bochecha rosada e de aparência extremamente macia.

Corroendo-se;

Queria-o.

Havia-o salvo de um atropelamento há um mês. Mas não diretamente. Apenas puxou o caminhão para trás pela traseira, impedindo que passasse por cima d’ele.

Herói?

Não se sentia um.

A rua estava escura. Largou o caminhão no meio da rua, o motorista desmaiou ao bater a cabeça no volante. Seguiu seu olhar para o corpo caído na faixa de pedestre.

Desesperou-se;

Intacto.

A lâmpada do único poste que iluminava o jovem começou a falhar com a aproximação d’ele. Queria ver o rosto de quem salvou. Sentia o cheiro de álcool.

Embriagado;

Desacordado.

Pegou o corpo nos braços e o levou para casa, sabia que morava ali por perto e costumava vê-lo passar pela sua residência quando se dirigia ao trabalho.

Vigiando-o;

Secretamente.

Desde então sempre aparecia na sacada do jovem para verificar se estava bem e fora de perigo. Nunca se mostrou para ele. Teve esse cuidado o tempo todo.

Apenas em sombra;

Uma única sombra.

Agora estava ali, com ele a sua frente, tão próximo. Mas sabia que não podia fazer isso. Sabia que seria rejeitado das mais diversas formas.

Entristeceu-se;

Desanimado.

Deixou-se sentar no tapete ao lado da cama, as mãos agarraram com força uma parte do fino lençol que escorregara da cama.

Temeroso;

Indigno.

Ele mesmo se perguntava como conseguira apaixonar-se por aquele ser humano. Afinal. Ele era um demônio. Um ser das trevas. Um ser sem sentimentos.

Encarou-se;

Maligno.

Preocupado em pensar em como o jovem reagiria ao se mostrar pela primeira vez, acabou por ser descuidado.

Espantou-se;

Petrificado.

Lá estava o jovem, sentado e o olhando tentando entender o que diabo estava fazendo um homem sentado no seu tapete e agarrado ao seu lençol.

Azul;

Azul era a cor de seus olhos.

Levantou as mãos com calma em posição de rendição. Fora pego sem perceber. Sabia que seriam feitas perguntas e alguma hora acabaria dizendo o que não queria.

Culpou-se;

Silencioso.

O olhar do outro se fixou nas suas pernas. Sabia que ele analisava curioso as suas enormes botas negras cheias de fivelas estranhas, e o fino salto.

Analisando-o;

Pacientemente.

Espantou-se ao ver os olhos cor de rubis brilharem de uma forma estranha. Os cabelos negros e levemente bagunçados. As vestes em preto piche eram feitas de trevas.

Assim como seu coração;

Assim como todo o seu ser.

Contrariando todo tipo de reação que pensara, o jovem desceu da cama e sentou-se junto dele, a sua frente. Mostrou-lhe seu melhor sorriso.

O sorriso da inocência;

O sorriso de um anjo.

Pensou na definição que dera em silêncio ao outro. “Anjo” seria algo deveras contraditório, não? Queria pergunta-lhe isso, mas não conseguiu.

As palavras sumiam em sua garganta;

E ele esperando paciente.

“Por que teus olhos são vermelhos” Perguntou curioso para o homem a sua frente. Ele não dissera nada desde que foi pego no quarto alheio.

Intrigado;

Curioso.

“Porque eu não sou humano” Não queria usar respostas que fizesse muito rodeio. Preferiu ser direito e simples. Bastava saber as suas próximas reações.

Acanhado;

Triste.

“E o que eres?” Pendeu a cabeça para o lado direito. Achava que era algum tipo de brincadeira. Analisava-o minuciosamente.

Divertido;

Perigoso.

“Sou um demônio” Fixou seu olhar nas próprias mãos. As luvas negras e encrustadas de escamas cintilantes pareciam mais interessantes que o rosto do jovem.

Repudiava-se;

Era um demônio.

O silêncio foi o bastante para entender que a frase do homem realmente fora levada a sério. E tomou um susto inicial. Olhou-o novamente.

Não parecia o que aparentava ser;

Um demônio.

“E o que um demônio está a fazer em meu quarto?” Levantou-se por impulso poderia ser pego facilmente e sabe se lá o que aquele ser poderia fazer ao seu corpo.

Assustado;

Poderia ser apenas um pesadelo.

“Por favor! Não me temas!” Levantou o braço na tentativa de impedir que o jovem se afastasse mais. “Eu apenas estava lhe observando”

Impulsivo;

Não queria ser rejeitado.

“Observando? Queres algo comigo ou algo assim?” Pegou o travesseiro macio e abraçou contra seu corpo. Como um escudo.

Protegendo-se;

Do demônio.

“Não! Eu não te quero mal. Apenas observo porque és importante para mim” Passou a mão pela gola da enorme capa e a retirou. Revelando o seu traje.

Um demônio que não quer o mal;

O quão contraditório isso poderia ser?

Relaxou um pouco na força contra o travesseiro. Sentia que o olhar rubro do outro lhe parecia verdadeiro para com a resposta dita.

Ele não o queria mal;

Queria-o bem.

Permitiu-se aproximar novamente dele e sorrir. Confiava nas palavras dele, algo em si sabia que podia permitir esse capricho àquele estranho.

Sorriu-lhe;

Confortável.

“E por que eu sou importante para ti?” Era divertido tentar desvendar o mistério do brilho dos olhos d’ele. Brilhavam como verdadeiras pedras preciosas.

Fascinando-o;

Esqueceu-se que era um demônio.

Temia que aquela frase fosse feita. Mas ele não procurou as palavras certas para se expressar primeiro. Era culpa sua. E mais uma vez sentia que ele se afastaria.

Indeciso;

Mas o faria.

“Amo-te apenas.” Suspirou. Sabia que era raro para os demônios amarem algo, quanto mais alguém, ainda por cima um ser humano.

Queria-o muito;

Tanto que não conseguia colocar em proporções.

Novamente o silêncio do jovem. Sabia que algo assim o faria ficar chocado. Sabia também que demônio eram seres malignos, sem sentimentos.

Ele era um ser maligno;

Mas tinha sentimentos.

“Isso é fora do comum” O ouviu sussurrar para si mesmo. Sim. Era fora do comum. Mas o que ele poderia fazer?

Cabisbaixo;

Derrotado.

“O quanto me amas?” Perguntou de repente, assustando o outro de seus pensamentos. Estava testando-o. Queria ver até onde ele iria.

Avaliando-o;

Com cuidado.

“O suficiente para eu não conseguir compreender-me. O suficiente para eu entender que posso fazer mal a ti. Por isso tento manter-me longe” Respondeu com o olhar perdido.

Surpreso;

As palavras se perderam antes de vocalizar.

“Qual teu nome?” Tentava entender como um ser como aquele pudesse sentir algo do tipo. Mas nada vinha em sua mente. Só ele poderia entender.

Era estranho;

Era incomum.

“Chamam-me de Sebastian” As mãos alisavam a capa feita de trevas. De certa forma sentia-se bem mais a vontade a dizer o que pensava. “E o seu?”

Aqueles olhos azuis;

Aquele tom de azul.

Riu-se o jovem. “Como assim não sabe o nome de quem amas?” Esticou as pernas, deixou o travesseiro por cima das coxas.

Era engraçado vê-lo atrapalhado;

Era interessante o seu olhar misterioso.

“Eu nunca entrei em contato com quaisquer dados pessoais teus. Apenas o admiro de longe”Disse ao desviar o olhar daqueles azuis penetrantes.

Enigmáticos;

Encantadores.

“Chamo-me Ciel.” Sorriu-lhe gracioso. “Então Sebastian, moras pelos arredores?” Deitou-se no tapete. A janela estava aberta, podia ver a lua.

Despontava por trás dos prédios;

Majestosa.

“Moro nas trevas, nas sombras.” Divagou. “Mas desde que lhe vi eu venho residindo em uma casa abandonada no fim da esquina”

Contando-lhe;

Aos poucos.

Ciel observava a lua e ouvia atentamente ao relato de Sebastian. Desde a sua chegada à cidade, o seu quase atropelamento e as vindas noturnas até a sacada para ver-lhe.

Quieto;

Ouvindo.

Ao terminar de narrar tudo, voltou os seus olhos para o jovem. Os cabelos caíam-lhe pela testa. A pele com o brilho perolado da lua.

Singelo;

Belo.

“E agora? O que farás?” Os olhos azuis se viraram para ele. “Como?” Sobressaltou-se. “O que farás agora que eu sei de tudo?”

Pensou;

Aqueles olhos azuis.

“Talvez eu continue a observar-lhe de noite” Respondeu sério, puxou a sua capa para mais perto e a largou espalhada pelo abdômen.

Era uma boa pergunta;

Mas o que responder realmente?

“Talvez eu possa fazer-lhe companhia” Sabia que Ciel morava sozinho e tinha momentos solitários demais.

Ofereceu-se;

Mesmo que seja apenas para uma amizade.

Não esperava muito do outro, apenas estava contente por não ser rejeitado por ser um demônio. Ao menos isso para deixa-lo feliz.

Contentou-se;

Aliviado.

Com o passar dos minutos, percebeu que ele dormia. Inocente. Um demônio não podia fazer muito por aquela alma. Mas faria o suficiente para protegê-la.

Do mundo;

De si mesmo.

Pegou-o no colo e o elevou do tapete. Com cuidado o deixou na cama, embrulhando-o com seu lençol. A capa feita de trevas foi deixada ao seu lado. Dormia.

Gracioso;

Sereno.

Sem se preocupar com o futuro. Precisavam apenas do presente. “Boa noite, jovem Ciel”Saiu sem muito ruído, logo amanheceria e ele estaria na casa abandonada.

Nas sombras;

Nas trevas;

Como um demônio que era;

Um ser maligno;

Porém, com sentimentos;

Sebastian era seu nome;

Ciel o recordaria;

Aquele que o ama;

Aquele demônio.

E suas noites frias e solitárias, nunca mais seriam as mesmas. Pois tinha alguém a confiar seus segredos, segredos noturnos. Aquele ser, filho das trevas, estaria ali, a espreita, apenas esperando pela hora do anoitecer.

Os olhos cor de rubi estariam sempre a lhe causar uma vertigem deliciosa.

Afinal;

Demônios são seres malignos;

Porém, “aquele demônio” possui sentimentos.

Notas finais
Até o
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!