Notas iniciais
Sim, dois caps seguidos! Esse final estive trabalhando por um bom tempo, espero que agrade. Boa leitura.

Naquele dia choveu.

O barulho da água caindo sobre o asfalto só não era mais alto do que os meus passos pesados, enquanto meu coração se perdia em batimentos confusos. O choque de descobrir uma traição não deve ser nada comparado ao que eu estava sentindo. Uma pessoa como eu que não tem mais em quem confiar os problemas. Alguém cujos pais mal vê, alguém cujo irmão mais velho não se importa, alguém cuja irmã está presa num laboratório. O único à quem eu podia confiar algo nesse mundo eram Wolf, pois ele sempre esteve ali desde que eu fui liberado para trabalhar novamente.

— Por quê? – sussurrei.

Todos os anos desde que comecei a trabalhar com ele, nós acabávamos tendo que lidar uma ou duas vezes com a Kagutsuchi. Era divertido, pois nós sempre estragávamos os planos deles, porém todo ano eles voltavam, cada vez mais chatos e mais problemáticos. Só que desde quando ele estava trabalhando com eles?

— Por quê? – falei.

“Você sacrificou sua humanidade pela sua irmãzinha, você é um grande herói, Shiro.”

Aquelas palavras nunca me fizeram feliz. Eu apenas queria manter Akame viva, vendi minha alma para um demônio para que ela pudesse viver, mas por algum motivo ele não veio busca-la.

“Eu me imagino um dia sendo o responsável pela salvação da humanidade. Um sonho grande demais para uma pessoa apenas, mas mesmo que eu não esteja vivo para ver a salvação do mundo, eu quero que meus passos influenciem os outros.”

Um sonho fraco e fútil. O mundo não está pronto para ter um herói. O mundo não precisa de um herói. Os seres humanos têm que sofrer muito ainda para perceberem o quão na merda estão, só ai alguém vai aparecer e mostrar a salvação que eles merecem. Porém, Wolf mesmo sabendo disso ainda deseja encontrar a salvação do mundo, então por que diabos ele está com aqueles caras?!

— Por quê?! – gritei.

Sempre que me enfureço, meus olhos escarlates se ascendem sem meu comando, mas naquele momento foi como se eu os tivesse ativado. Com toda minha força, eu salto de onde estava até a parede de um prédio, cujo as vidraças eram enormes e acabaram se quebrando quando pousei de forma violenta e usei um feitiço de magnetismo para que conseguisse correr livremente pelas paredes.

...

— Oh? Eu me lembro desse dia. – disse o Ceifador. — Algumas pessoas foram pegas por cacos de vidro que caíram de um prédio.

— Imaginei que se lembraria. – digo.

— Devo te agradecer, aquilo contou como uma cota extra e por isso eu recebi mais dias de folga. – ele sorri de forma boba. — Porém, uma certa alma fujona ainda me dá dor de cabeça.

— Vai se ferrar.

— Já estou. – eu odeio esse cara. — Continue, eu quero escutar a parte em que apareço.

— Mas você estava lá, sabe o que ocorreu a partir desse ponto.

— Relembrar é viver, meu caro.

...

Graças as informações de Mahiro. Eu soube muito bem onde encontrar Wolf. Ele havia ido para o heliporto de um cassino local. Resolvi entrar pelos fundos, porém de forma alguma eu pude passar despercebido, foi questão de minutos até que funcionários e seguranças tentassem me barrar, mas humanos comuns não tem como lidar comigo, mas que eu fiz uma chacina ali, não posso negar. Subi as escadas até que cheguei em um corredor com apenas a porta de onde sai e uma outra no final, e lá estava, na frente da porta bloqueando meu caminho, o demônio cujo eu devia minha alma.

— Olá, Shiro. – dizia o ceifador. — Já faz um bom tempo?

— O que faz aqui? – pergunto, enquanto continuo a me aproximar.

— Meu trabalho, o que mais seria? – ele diz num tom sarcástico. — Muitas almas para guiar hoje, tive que chamar dois colegas para que me ajudassem.

— Suas almas estão lá embaixo. – digo. — Se está aqui é porque veio me buscar, certo?

— Isso vai depender de você. – ele pega um envelope preto e tira um papel. — Aqui apenas indica que alguém irá morrer daqui a pouco lá em cima. Pode ser você ou a pessoa que busca.

— Por que nunca é meu nome que aparece nessa lista? – pergunto irritado. — Já faz anos que me encontro com você, mas nunca é para me buscar.

— Isso não é algo que escolho. – ele me responde. — Você deve ter algum tipo de benção que te protege da morte ou seu subconsciente te impede de cometer erros que te levariam até mim, a coisa é: Você é um fardo que eu tive de carregar por todos esses anos, não pense que desejo que viva.

— Então se prepare, daqui a pouco é minha que vai buscar. – paro em frente a ele. — Saia.

— Fique à vontade. – ele abre passagem. — Caso sobreviva e precisar conversar, pode vir até mim.

— Heh, como se eu quisesse conversar com você.

Abro a porta e sinto um vento gelado, pois estava no heliporto já. A chuva já havia parado e a noite chegado. Retiro meu capuz, afinal de noite eu não preciso temer o sol. Subo alguns poucos degraus e então posso ver ele lá. Wolf, ele estava de costas para mim e com as mãos nos bolsos de sua jaqueta.

— Se chegou aqui é porque descobriu. – ele disse.

— Você mandou ele me contar. – responde. — Eu ia descobrir querendo ou não.

— O importante é, você não me deixou na mão... – assim que ele se vira para mim, um estaca de gelo passa raspando ao lado de seu rosto. — O que tá fazendo?

— O que você tá fazendo?! – grito. — Que história é essa de ser herói e salvador do mundo, mas no fim tava andando com os caras que devia destruir.

— É ai que se engana, Shiro! – ele grita de volta. — Por anos eu busquei uma forma de salvar esse mundo, mas a humanidade aos poucos foi piorando até que chegou em um ponto onde a única salvação estava nas mão de quem eu tentei impedir por anos.

— E que merda de salvação é essa que só a Kagutsuchi pode ter?!

— A ruína. – ele sorri confiante. — Quando o deus Hi no Kagutsuchi renascer, ele vai queimar boa parte da população desse planeta e então poderemos recomeçar tudo do zero! É o fim de tudo que trará a paz mundial!

— Você ousa dizer isso pra mim, depois de tudo que eu passei?! – com um passo, eu velozmente o alcanço e desfiro um soco em seu rosto. — Eu me tornei um monstro sem propósito algum, minha irmã perdeu qualquer coisa que a faria ser humana. Eu desejei a minha morte por anos e nesses últimos anos que estive com você, mesmo sabendo disso nunca aceitou lutar comigo até a morte. E agora, você deu que quer matar a humanidade para salvá-la?!

— Shiro, entenda. – chuto seu estomago. — Merda... Você é meu amigo, eu não posso fazer isso com você.

— Amigo? – meus olhos escarlates se ascendem, agarro sua cabeça e o encaro bem de perto. — Você era o único que eu tinha, com você eu tinha vontade de viver, com você eu sabia aproveitar meus dias.

— Então por que não aceita o que planejo?! – ele me agarra pelo moletom e começa a se levantar. — Entenda de uma vez, uma fruta podre não pode ser restaurada, devemos apenas nos livrar dela e plantar mais se quisermos uma fruta boa. Nosso planeta é igual, então temos que nos livrar agora dele e criar um totalmente novo!

— Então se quiser continuar com seu plano idiota... – largo ele, me afasto e abro os braços. — Me mate.

— Não diga besteiras! – ele reclama.

— Me mata, Wolf! – grito. — Eu não vou aceitar essa salvação tosca que você tem em mente! Kagutsuchi é minha inimiga, então se quiser continuar com eles, vai ter que me matar primeiro! Se vai bancar o herói desse jeito, eu vou ser o vilão! Vai Wolf, me mata!

— Shiro... Eu... Não posso...

— Já que é assim... – eu abaixo os braços. — Você não é mais meu amigo.

O ar frio começa a esfriar ainda mais. A espada de gelo se formou em minha mão direita e então eu avanço e direciono sua lâmina ao pescoço daquele que um dia foi meu professor, meu melhor amigo, meu confidente.

— Wolf! – grito.

— Desculpe, Shiro...

Quando minha lâmina ia acerta seu alvo, noto que ele não estava mais na minha frente e sim nas minhas costas. Ele havia usado sua magia de troca em mim, o que o fez desviar do meu golpe.

— Eu não posso morrer hoje. – ele jogas umas pedrinhas em minha direção e então usa sua magia para trocá-las por vigas de ferro de uma construção próxima. — Não vou te matar, mas vou te atrasar.

— Maldito! – consigo desviar de todas as vigas e então disparo cinco estacas de gelo na direção dele, mas ele novamente usa a magia dele para trocar de lugar com uma das estacas. — Já vi que não vai parar com essa merda.

— Eu já disse, não vou morrer hoje. – ele me estende a mão. — Vamos, Shiro. Um helicóptero logo vem me buscar e não vai demorar até que alguém chegue aqui para resolver a situação da chacina que fez lá embaixo.

— Eu consigo lidar com uma morte ou outra, Wolf. – respondo. — Tudo que fiz nesses anos que me tornei um monstro foi matar e nunca morrer. Não é como se fossem conseguir me matar com tiros.

— Eu realmente tô tentando te ajudar aqui! – ele grita.

— Se realmente quisesse me ajudar, teria me matado na primeira vez que pedi! – avanço.

Eu tento acertá-lo com socos e chutes, mas não importava o quanto eu me aproximava, pois ele sempre desviava usando sua magia de troca. Ele sempre teve um estoque de magia alto e troca dois corpos do mesmo tamanho não cansava ele. Porém, ele vacilou em certo momento. Ao usar magia, eu me virei rapidamente e disparei uma estaca em seu braço esquerdo.

— Merda! – ele arranca rapidamente a estaca, mas já era tarde.

— Esqueça Wolf. – aponto minha mão para ele e então o braço esquerdo dele começa a congelar. — Devia saber que se meu gelo entra em seu corpo é game over.

— Não vou morrer aqui! – antes que o gelo chegasse a seu peito, ele pega sua faca e com ajuda de feitiços de reforço material e físico ele consegue cortar o braço fora. — Ah!

Seu berro de dor era agoniante, mas eu não podia ceder só porque ele já foi meu amigo.

— Agora desiste? – pergunto, enquanto o vejo desesperadamente usando feitiços de cura para diminuir o sangramento e amenizar a dor. Só que acabo desviando minha atenção quando vejo um helicóptero se aproximar de onde estávamos. — Quem são?

— Minha escolta. – Wolf aproveita minha distração para pegar sua faca e me perfurar com ela. — Desculpe Shiro, não é nada pessoal.

— Filho da... – antes que pudesse terminar de xingar, ele me chuta na nuca e eu caio atordoado no chão.

...

— A última coisa que vi, foi um sectário ajudar ele a subir no helicóptero. – termino de contar minha história. — Depois disso eu dei uma desmaiada devido ao chute e a perda de sangue.

— E como desapareceu? – ele me pergunta confuso. — Minha lista se apagou naquela hora, quando fui verificar não tinha mais ninguém lá.

— Por incrível que pareça, meu irmão mais velho apareceu lá e me levou para um hospital. – respondo. — Depois disso eu fiquei incapaz de trabalhar, pois meu tipo de sangue é raro e o ferimento não se curava, pois a adaga de Wolf tinha propriedades mágicas anti-demônio e como sou mestiço, acabei levando mais tempo para me recuperar.

— Entendo... – ele parecia feliz. — Obrigado pela história fascinante, Shiro. Quando houver outra oportunidade, me conte mais.

— Nem se eu quisesse. — me levanto e deixo algumas notas na mesa. — Se sobrar troca, pode ficar.

— Obrigado. – ele pega o dinheiro e começa a contar.

— Aliás, se surgir de nos vermos de novo, o que eu espero que não aconteça. – digo. — Queira ter que parar de te chamar de você ou de Ceifador, então tem como me dizer seu nome?

— Achei que nunca iria perguntar. – ele sorri e seus olhos escarlates brilhavam como nunca. — Meu nome quando vivo era... Nobunaga Oda.

Fico surpreso ao escutar o que ele disse. Não sei se é verdade, mas ligando os pontos das coisas que ele me contou pude perceber que fazia sentido. Um espadachim fascinado com o mundo fora do dele, foi traído por seu amigo mais próximo e se tornou um ceifador, pois esse é destino daqueles que tiram a própria vida, guiar a alma dos mortos para a próxima vida, coisa que eles não puderam fazer.

— Heh... – me viro e vou em direção a saída. — Até mais, Nobunaga.

...

Teve uma coisa que não contei ao Nobunaga naquele dia. Não contei o que eu fiz assim que me liberaram do hospital após me recuperar da ferida feita por Wolf. Se você está pensando em “Foi ao bar” você está correto, assim que sai do hospital, fui até o Lady Noh na esperança de que ele ainda estivesse aberto e para minha sorte, ele estava.

— Chefe? – digo ao entrar no local.

— Há quanto tempo, senhor! – ele esboça um sorriso. — Achei que tivesse viajado sem me avisar.

— Eu só fiquei doente por um tempo. – minto e então me sento. — Meu favorito, por favor.

— É pra já! – ele abre o freezer e pega a garrafa do meu whisky favorito. — Aqui senhor.

— Obrigado. – ele nem me ofereceu um copo, pois sabia que a primeira garrafa eu sempre bebia toda num gole só. — Ah! Esse é o sabor da felicidade! Outra, por favor.

— Aqui senhor. – dessa vez ele me serve num copo com um grande cubo de gelo. — Se me permite perguntar, por onde anda aquele seu amigo? Faz tempo que ele também vem aqui.

— Ah... – interrompo minha bebida por um momento. — Ele teve de se mudar, não vai poder mais por aqui.

— Entendo. – era óbvio que ele sabia que estava mentindo. — Senhor, se precisar desabafar...

— Obrigado, chefe... – faço um sorriso bobo e então, aos poucos começo a chorar.

Nem mesmo no dia em que quase morri tentando salvar minha irmã eu chorei daquela forma. Nem mesmo quando estava no laboratório ou no meu quarto depois do incidente. Eu segurei todas as minhas lágrimas por longos 6 anos e as liberei naquele dia. Ter a confiança em alguém traída por algo tão banal foi o ápice da minha melancolia, foi depois desse dia que passei mais a agir como um vilão do que como um anti-herói.

Notas finais
E então, o que acharam? A partir daqui eu vou começar uma grande saga que vai seguir tanto os eventos dessa fic, como a de Dragonize. Espero que tenha gostado. Até mais ver.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!