Aquele Tritão.
1 Onde eu jamais morreria afogado...
Notas iniciais
Era o fim.
Meus pulmões se encheram com água salgada, eu me senti afundando, eu me debatia é claro, puro instinto de sobrevivência pois no fundo a vontade de viver era escassa.
Queria ter visto minha mãe uma última vez. Ela me xingaria com certeza, se estivesse viva, não havia como saber, estando preso naquela ilha por tanto tempo…
SOBREVIVER. Eu tinha escrito na pequena cabana que montei para mim, esculpi com uma pedra pontuda qualquer. Conforme o tempo passou eu passei a odiar aquela palavra mais que tudo. Onde estava o viver? Ser feliz? Onde estavam as outras pessoas? Eu sempre me considerei uma das pessoas mais antisociais do mundo, mas eu daria tudo para ver alguém.
Por isso que num ato desesperado, ao ver um navio passando ao longe, me joguei na água sabendo nadar quase nada. Puro delírio, mas a forma de uma navio encheu tanto meus olhos que tive que tentar.
Como seria o pós vida? Seria um preto eterno? Haveria um Deus ou algo que parecesse um céu? Nunca acreditei em Deus, mas a ideia de não ver ninguém nem sequer depois de morrer me fazia soluçar a noite.
Perdi os sentidos acho. Só me lembro de acordar na água, cuspindo água como um gêiser. Quando percebi que estava bem,comecei a chorar copiosamemte.
— Eu acabei de te salvar. — A voz veio de perto de mim, parecia irritada. — Você não devia estar chorando assim…
Abri os olhos incrédulo. Sentei num pulo. A figura ao meu lado tinha olhos grandes, joviais com iris maiores que o normal de uma cor não identificável. Rosto longo e nariz arrebitado, o cabelo castanho claro que ia até os ombros cintilava verde e sua pele bem morena tinha o mesmo efeito. Porém nada disso era o diferencial do rapaz e sim a sua parte de baixo do corpo similar a de um peixe.
— Sei o que está pensando e não, eu não sou uma sereia. — Ele sorriu, superior. — O termo correto é Tritão.
Meu choro ficou mais intenso. Não consegui evitar, era tão triste. Eu tinha chegado tão longe.
— Humanos são sempre assim? Nem agradecem quando se salva a bunda deles? — Ele soava tão real, até a irritação.
— Você pode parar de falar? — pedi, muito abalado. Reunindo forças para levantar — É muito triste.
Ainda choroso. Levantei e cai no mesmo instante, as pernas bambas.
— Eu sinto muito — pediu, abaixou o olhar como se estivesse um pouco envergonhado. — Deve ter sido traumático, se afogar é um dos medos humanos mais comuns, não é?
A alucinação então, relaxou o corpo sobre a areia. Não estávamos longe da água de forma que várias ondas batiam em sua cauda. A figura esguia e mas não muito grande dele era impossível de não ser notada, minha mente fabricara uma coisa linda.
— Você é uma alucinação — sussurrei para mim mesmo. — Não é real. Não é real. Não é real.
— Nossa, estou começando a me sentir um pouquinho ofendido — o sarcasmo em sua voz era refrescante, há quanto tempo eu não ouvia sarcasmo?
— Eu já tenho problemas suficientes, não preciso de autossabotagem… — continuei, falando exclusivamente comigo mesmo.
— Eu uso minhas forças pra salvar essas suas pernas imundas e é assim que sou reconhecido… — vi que ele fechava os olhos aproveitando o sol.
Me aproximei devagar, arrastando-me. As ondas envolviam a parte das nadadeiras e metade da cauda, mas ela estava lá. Os detalhes do rosto cintilante como uma cicatriz no lábio inferior, uma mancha de nascença no ombro direito e outros davam um ar tão realista…
— Você pode tocar — declarou sem abrir os olhos. — Eu sou bem real.
Aquele pedido foi mais do que eu podia aguentar. Não tocava nenhuma outra pessoa além de mim há 2 anos. Levei meus dedos ao seu rosto tão perfeito. A pele macia era quente. Sorri largo, acariciei suas bochechas e escondi minha mãos nas laterais quentes de seu pescoço, também molhado.
— Viu? — Ele sorriu, ainda de olhos fechados. Suas curvas no rosto tão harmoniosas que pareciam dignas de um poema — Tão real quanto você.
As palavras me atingiram com força. Eu era real? Alguém era real depois de não interagir tanto tempo com outro ser humano?
— Tudo bem? — questionou após me ver com um rosto fechado de dúvida.
— Sim. É só… Sereias não existem — dizia para mim mesmo. Eu sempre fui um grande cético então era difícil para mim engolir uma sereia.
— Bom… Tecnicamente eu sou um Tritão então você pode acreditar em mim. — Ele abriu um sorrisinho, seus dentes eram todos levemente pontuados como caninos.
Me levantei. Me sentia sem norte. Comecei a andar de volta para minha cabana, mas notei um problema. Meu novo conhecido não poderia vir comigo.
— Isso. Abandone o tritão que te salvou sem nem um agradecimento. — Ele tinha se virado, de barriga para baixo e estava com a cabeça apoiada numa das mãos.
Voltei alguns passos.
— Só vou te agradecer se puder me levar para casa — disse, mistura de desconfiança e esperança. — Posso ir nas suas costas ou…
Ele pareceu triste pela primeira vez desde o início da conversa.
— Na verdade… — ele levantou a cauda, mostrando as nadadeira que até agora estavam encobertas pela água, pareciam ter sido corroídas por algo, não era bonito de olhar. — Estou tão preso aqui quanto você.
Me aproximei mais ainda, curioso.
— Dói?
— Não mais.
— Eu sinto muito…
— Eu também. Quer dizer… Aqui é o fim do mundo.
Eu não perguntei o que acontecera com ele. E ele não me perguntou. E assim começarmos. Não é bem uma história comum de amor. Nós só demos muito azar antes de dar a sorte de nos encontrar.
É engraçado como as coisas são. Num momento você suspeita que a pessoa é uma alucinação e no outro você acorda chorando por ela não estar perto de você.
Nosso primeiro beijo foi numa noite de lua cheia. Estávamos na praia, metade na água, metade em terra, ele estava deitado no meu ombro. Eu ensinava como os humanos chamavam certas constelações e ele me ensinava como seu povo chamava as mesma.
— Gêmeos? — perguntou, transtornado. — Aqueles são Os amantes. Temos até uma linda história de como eles morreram por amor e ninguém teve coragem de separá-los nem na morte.
— Mas eles estão apenas segurando as mãos — contra argumentei, meu coração estava tão em paz naquele momento.
— Para nós segurar as mãos é um gesto que significa puro amor — continuou sorrindo triste.
Em um movimento impulsivo segurei sua mão, entrelaçamos nossos dedos. Ele levantou a cabeça sorrindo tão lindamente que meu coração quase saiu pela boca.
— Por que demorou tanto? — indagou juntando seus lábios aos meus num movimento terno.
A partir daí tudo ficou um pouco mais mágico e colorido. Em uma noite em específico, ele puxou um assunto estranho.
— Se um barco chegasse aqui agora, você iria? — Ele enrolava alguns cachos do meu cabelo enquanto perguntava, evitando contando visual.
— Jamais flor do dia — respondi, eu mesmo mexendo no cabelo tão cheiroso e macio dele.
Costumava chamar ele de flor do dia, sem motivo, pra mim ele era a flor do dia, tinha um frescor, era gracioso, lindo…
— Pois eu acho que você devia ir — sussurou com os olhos nos meus.
— Como assim? — questionei ultrajado. — Quer me ver longe assim?
Ele se aproximou e iniciou o que viria a ser nosso último beijo. Se afastou um pouco e sentou na areia, as nadadeiras remexiam, ele estava nervoso.
— Se eu pudesse nadar normalmente, se zangaria de eu ir embora? — olhava para a o horizonte.
Não tive que pensar muito.
— Claro que não. Sei o quanto amaria nadar novamente — Ty era um grande explorador quando nadava normalmente, ele tinha me contado inúmeras histórias sobre isso.
Ele sorriu triste.
— Eu te amo tanto. — lágrimas caíram dos olhos dele como se tivesse um cano quebrado dentro de si. — Eu sinto muito.
Não sei bem o que aconteceu depois, mas eu acordei com uma luz forte na cara. Barulhos de hospital. Minha mãe.
Ela dormia ao meu lado. Tentei falar mas minha voz falhou e foi abafada por uma máscara. Meus braços não responderam bem quando quis mexê-los, estavam magros e fracos.
Alguém entrou no quarto nessa hora. Tocou uma campainha ao lado da minha cama. Minha mãe percebeu a movimentação. Abriu os olhos castanhos e acolhedores dela. Eu não consegui me mexer com a prontidão que desejei, mas o abraço dela fez com que eu chorasse sem parar.
As horas seguinte são vagas lembranças. Médicos me parabenizando. Minha mãe chorando e ligando para os parentes. Não demorou para eu entender o que tinha acontecido… Nenhuma ilha, nenhum barco, nenhuma sobrevivência… Eu estava em coma.
Todo aquele tempo na ilha e especialmente com Ty eram apenas minha imaginação, como eu suspeitava no início. Foi bastante doloroso, fingir sorrisos aos parentes que visitavam e ter que comer quando eu nem sequer sentia o gosto da comida. Toda felicidade de estar novamente no mundo era muito curta, durava até que meus pensamentos se desviassem para Ty.
Alguns meses passaram. Eu ganhei alta. Agora eu tinha que começar minha fisioterapia. Reclamei um pouco, era sedentário, sempre tinha sido, minha mãe não aliviou e no dia seguinte a minha volta para casa o sujeito apareceu.
A figura a porta tinha olhos grandes, joviais com íris de uma cor não identificável. Rosto longo e nariz arrebitado, o cabelo castanho claro que ia até os ombros tinha as pontas verde e sua pele era bem morena.
— Sei o que está pensando e não, eu não sou um massagista. — Ele sorriu, brincalhão — O termo correto é fisioterapeuta.
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