Aquele Rei De Olhos Azuis...
2 Coroar
Notas iniciais
Agora ele estava sobre um Reino completamente amedrontado pela antiga última Rainha que ali esteve. Um som de sangue fluindo pelo coração foi ensurdecendo a alma, um sopro sendo jogado na cara daquele jovem que deveria ser Príncipe; que era Rei, o Herdeiro; com os seus cabelos brancos e olhos azuis. O sangue em seu corpo favorecia o reinado a seu favor. O sopro sendo jogado em seu rosto o fez encarar o seu próprio reflexo no interior de sua alma. Sua pele, seu sangue, sua linhagem familiar até ali. E mesmo sendo considerado maldoso, cruel, maligno, perverso, ruim, ele ainda era um Rei de apenas 5 anos quando tudo se deu por finalizado.
Ele selou a Alma de Éfellya em um recipiente de vidro decorado em ouro finalizado com talismãs de marfim; já o seu Espírito ele selou em uma caixa de jade, adornado em marfim, com um cadeado de diamante; isso porque o Espírito era mais perigoso que a Alma. Perseu teve a sabedoria de entender que mantendo a Alma e o Espírito separados e selados, não a fazia deixar de existir; isso a faria viver para sempre, ele até poderia conversar com ela; porém, ela não poderia responder, já que precisaria de um corpo para isso.
E um corpo seria algo que ela não teria pelo resto da eternidade pela sua ordem. Ela deixou seu reino triturado e abandonado, de uma guerra que resultou em pó, chamas, destroços e ruínas. Era esse reino que ele iria governar, até o dia de sua morte; e ele tinha que aceitar, que o reino que foi destruído quando ainda estava no útero, tinha um significado. Ele era o significado. O significado de que o mal poderia ter um filho para assim continuar seu reinado de maldade. A vida estava sendo justa? Porque só ele e não a sua irmã também? Eles nasceram juntos, porque não filhos do mal? Porque gêmeos são seres únicos. Não são um.
Ele foi coroado aos três em uma grande cerimônia com todos os sobreviventes do país. A coroa era grande demais para Perseu, e quando a Conselheira disse:
“ Zeus aqui está seu Rei! Vida longa ao Rei Perseu! ”
Grande parte da multidão gritava para que a morte levasse o seu Rei, o pânico se instaurou na coroação e se prologou por todos os outros dias no Castelo, porque Perseu podia sentir todas as dores, com um sobro e uma respiração, e mesmo que não soubesse expressar-se com palavras elegantes o que sentia, ele sabia que sempre iam tentar matar ele. Desde então a sua expressão era indecifrável, ele guardava os sorrisos apenas para a princesa; ela sim, merecia a coroa, não ele.
Não era ele quem eles queriam reinando...
Quando Perseu tinha onze anos, ainda não sorria como sua irmã, ou demonstrava simpatia pelos cantos.
Ele era inquieto, pelas costas o chamavam de monstruoso, diziam que se, ele começasse a agir como a mãe dele, o matariam. Ele sentia como se muitas facadas atravessassem o seu tórax; como ele poderia entender que tipo de sensação aquilo lhe transmitia? Como ele podia explicar aquelas sensações? Era como se os seus pequenos ossos estivessem sendo triturados, ele estava tenso, e traumatizado; porém, sua expressão era de impaciência. Por vezes, era indecifrável, mas, naquele instante, estava pensativo.
Perseu estava olhando de cima de um precipício, que já tinha sido uma bela montanha na qual em um ataque de fúria da antiga Rainha havia destruído grande parte dela, fazendo surgir abaixo dela numeras rochas e mais profundo ainda, água, não se sabe se era doce ou salgada. Ele quase caiu dali quando tinha cerca de cinco anos.
Foi chamado de receptáculo maligno, já foi chamado de mal, de ser tão cruel quanto a mãe. Ouviu que queriam que ele caísse. Apostaram que ele torturaria e mataria seus Guardiões. Ouviu também que não existia Rei Safira.
Mas, ora, não foi ele quem selou Éfellya? E acabou com o pânico de todos? Aquilo ninguém conseguiu fazer aquilo, e ainda sim, queriam que a Rainha fosse Auterpe! Porém, uma coisa eles tinham razão naquela época;
“Ele entende muito bem o que faz. ”
Agora ele olhava a vasta vista que demoraria anos, décadas para toda aquela natureza se curar. Voltar a ser como era antes de sua mãe. Tanta coisa de ruim que ocorreu, sempre girava em torno daquele Espírito Maligno de coroa.
—O que você está vendo? – Auterpe segurou em sua mão como sempre fazia, do nada, sem fazer barulho, apenas surgia, segurava e apertava sua mão, o acalmava. Os olhos verdes da princesa se apertavam para enxergar o que ele estava vendo. Ela parou de tentar enxergar depois de um tempo. – Você sabe que não tem nada pra lá não é? – Perseu se virou para a irmã, observou seu semblante mais animado que o dele, e notou que os cabelos brancos estavam bagunçados. Era incomum.
—Por ali, — ele apontou para uma cratera enorme, montanhas rodeavam o buraco. De vista parecia que uma enorme bola de fogo foi jogada ali. – deveria ser um campo, ou um rio. Mas, não importa, não dá para saber o que é. – Ele encarou a irmã.
—Está tentando adivinhar o que era? – Ele deu um sorriso de canto.
—Não fará diferença se eu adivinhar.
—Claro. – Auterpe concordou. – Peça para alguém experimentar a sua comida antes de comer. – O outro ergueu a sobrancelha. – Ouvi coisas na cozinha. – Ela se virou para onde Perseu olhava inicialmente.
—Alguma coisa nova? – Ele acompanhou seu olhar.
—“Filho do fogo; fogo da maldição espalhado durante um reinado de destruições. ”- Ela afinou a voz tentando imitar alguém, os lábios de Perseu se curvaram como se fosse um sorriso, Auterpe percebeu. – Já ouviu esse?
—Já! Esse já está me enjoando.
—Porque simplesmente não prende eles ou. – Ela puxou o irmão para olhar para ela, que estava animada com a simples e repentina ideia. – Apenas os manda embora? Para o Glíceo? Ou para o Zaryhalo? – Ela apertou as mãos dele.
—Porque seria isso que eles esperam que eu faça! – Ele jogou a cabeça para trás. Auterpe olhou sem entender. – Não quero me livrar deles!
—Bem, eles querem se livrar de você. Não é justo. – Ela passou a ponta de seu dedo pela bochecha dele. – Você é o Rei.
—O único menino, depois de várias outras meninas! Sou o único menino de uma Rainha; depois de sete outras Rainhas! Um menino! – Perseu deu ombros. – Eles não aceitam muito bem isso. Até porque tem você.
—Não seria uma Rainha tão boa quanto você é Rei. – Perseu passou a mão na testa suspirando fundo.
—Eu acredito que eles não querem nós dois como Governantes de Saphiral, apenas por sermos filhos do espirito que amedrontou eles por uma Geração inteira. – Ele fez uma pausa. – Vamos levar esse nome para sempre, eternamente enquanto vivermos e até mesmo depois disso.
Auterpe fez um bico.
—Hunf. – Ela fungou. – Eu não vou levar esse nome comigo! – Perseu acenou. – Porque não dá para decifrar o que você está pensando?
—Eu não sei. – Ele hesitou. – Mas, pensando bem, você também devia mandar experimentarem a sua comida. – Auterpe sorriu e se aproximando do irmão assoprou em sua testa.
—Quem é Perseu além da cria de uma coisa maligna?
—Quem é você Auterpe Archi? – Ele retrucou, e para sua surpresa sua irmã sorriu.
—Sou Auterpe, a Rainha dos Rubis. A Rainha mais inteligente e ágil que existe, e claro a melhor que existiu. – Perseu paralisou, e deu dois passos para trás.
—Rainha dos Rubis?
—A própria. – Perseu arfou.
—Que brincadeira é essa?
—Não é brincadeira.
—Você não pode ser um Rubi. – Ele apertava os pulsos da irmã. – Você é uma Safira!
—Segundo a deusa Atlacoya; eu sou meio Rubi. Então eu estou indo para Ruphira. – Ele a soltou. – Mas, não agora, não agora...
—Mas, vai.
—Eu não ia ser princesa para sempre não é? – Houve uma pausa.
—Não. Apenas até eles conseguirem me matar.
—Perseu! – Ela exclamou.
—Quer ser a Rainha? Eu te dou a coroa! – Ele ia tirar a coroa da sua cabeça quando Auterpe deu um tapa em sua mão. – Auterpe!? – Ele começou a sentir o gosto de sangue na boca, assim como o ar que vinha no rosto o forçava a fechar os olhos. Tudo girava ao seu redor, tudo gritava em sua mente.
—Perseu! – Auterpe segurou em nas bochechas dele e fixou-se em seus olhos. – Todos temem a sua existência, por isso não vão te matar. – Ele começou a se afastar dela. – Perseu! Eu ainda estou aqui! Está tudo bem! – Ela exclamava afoita.
—Como se estivesse tudo bem. Não está nada bem. – Ao dizer a última frase seu pé deslizou sobre o precipício o fazendo deslizar e quase cair.
Auterpe fez um esforço quase impossível para agarra-lo pelo pulso e puxa-lo sem deslizar e cair também, ela estava desesperada em manter seu irmão a salvo, usou as unhas para agarrar o braço dele e puxar para cima.
—Vamos Rei Perseu! Se ajude a subir! – Perseu na verdade fechou os olhos. Ele estava se entregando à morte porque não saberia viver sozinho com seus próprios súditos. – Rei Perseu! – Auterpe berrou.
Imediatamente ele abriu os olhos, respirou fundo e olhou para cima; em seguida olhou para baixo. – REI PERSEU! – Ela voltou a berrar. Vendo que sua irmã iria se desequilibrar junto com ele. Perseu se apoiou em uma pedra e com ajuda de Auterpe escalou o precipício.
Ambos caíram com o impulso. Perseu colocou as mãos na própria garganta e murmurou algo bem baixinho, enquanto Auterpe segurava a cabeça que havia batido contra a terra. Ela ficou imóvel por alguns segundos olhando para o céu. O Rei se aproximou da Princesa que o encarava com seus olhos verdes; ela não parecia muito feliz.
—Uma vez, eu quase caí aqui. – Auterpe encarou os olhos seus azuis; indecifráveis. – Sugeriram que era fácil terem me empurrado. Eu tinha cinco anos.
—E isso quase aconteceu. – Ela resmungou se levantando. – Por Ares!
—Então, sugeriram que coroassem você como Rainha. – Auterpe não parecia se importa com o que ele contava, estava desesperada.
—Eu não posso ficar com você todo o momento do dia!
—Então, talvez não fosse uma péssima ideia. Afinal, eles deram o quarto das Rainhas para você. – Auterpe interrompeu Perseu segurando em seu queixo.
—Você quase morreu! Eu não quero a sua coroa, o seu Reino, nem seus súditos. Eu sou sangue do seu sangue. Só preciso saber se você está bem! Perseu, você está bem?
Ele suspirou e no mesmo instante, sua irmã assoprou novamente no seu rosto, o fazendo sua garganta queimar, seus pulmões arderem e por fim, o fazendo respirar aliviado.
—Me desculpe Auterpe.
—Pelos deuses... – Ela o abraçou com força. – Eu achei que você fosse morrer.
—Talvez. – Seu olhar se perdeu no nada.
—Não ouse morrer antes de mim! – Perseu ergueu os braços curvando os lábios novamente. – É como uma ordem.
—Você não pode dar ordem para um Rei. – Dizendo isso, ele a abraçou com força.
—Você não é o meu Rei. É o meu irmão.
—Eu acho que eu ouvi você me chamando de Rei algumas vezes hoje. – O dom na sua fala foi leve e divertido.
—Claro! Eu não queria que você morresse! – Perseu contraiu os lábios. – Eu não vou te deixar, assim, eu não sou cruel, eu apenas... Ficarei ao seu lado até tudo se estabelecer, até seus Guardiões aparecerem. – Ela viu um sorriso no rosto de Perseu. – Quase um sorriso! Podemos mudar isso! (...) Não irei te decepcionar assim.
—Apenas me diga a verdade. – Auterpe passou a mão em seus cabelos e sorriu.
—Não irei te abandonar de repente. – E por fim segurou em sua mão. Então Perseu apertou a de sua irmã. Auterpe riu. – Somos os Herdeiros Envenenados. Ele acenou.
—Parece cruel.
—É porque é verdade!
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