Notas iniciais
POV Lucas. Só para não confundir, itálico são os atos do presente, fonte normal são as lembranças.

— Hmm… Que delícia de passado. Tantos segredos, tantas mentiras e farsas… — Teon parecia se deliciar como se estivesse comendo uma bomba de chocolate.

— Saia da minha mente! — eu gritei.

Eu estava dentro da minha própria cabeça. Era um corredor enorme cheio de telas grandes, e, em cada tela, uma lembrança minha rodava como em um cinema. Teon andou para lá e para cá, com a mão no queixo, buscando a lembrança que o saciava mais.

— Qual devemos escolher, meu jovem? Geralmente amores passados e feitos trágicos afetam mais as pessoas. Mas, no seu caso, há algo ainda maior que o amor… — ele me lançou um olhar tão intenso que parecia estar olhando através de mim.

— Por que você está fazendo isso? Não fizemos nada a você!

— Não? Claro que fizeram. Vocês entraram no meu território. De onde eu vim, isso é uma ofensa das maiores.

— É? Que pena, porque aqui é diferente. Você não está mais na sua terra natal.

— Justo. Mas, além disso, fui designado por Atena para proteger essa caixa de qualquer criatura com vida. Acho que isso inclui vocês.

Dei um olhar de desafio.

— E como você pretende fazer isso?

Ele fechou os olhos e sorriu em deboche.

— Por que sempre tão céticos?

Depois, pôs a mão em uma tela. Ele entrou lá, fazendo parte da cena. Um segundo depois, eu também entrei, contra a minha vontade. Estávamos na floresta do Acampamento. Eu vi a mim mesmo, mais novo, ao lado de um garoto magricela e ruivo. Nesse dia, estávamos de guarda na fronteira norte.

— Lucas, atrás de você! — gritou Gilly, o garoto, morto há tempos.

Eu virei as costas e vi um ciclope enorme correndo na minha direção, segurando um bastão irregular feito com uma árvore quebrada.

— É todo seu — ele disse, apoiando-se na espada e esperando eu matar o ciclope. Mas deixei ele se aproximar, e continuei perplexo, sem movimentos. — Lucas? Lucas!

Gilly tentou entrar na frente antes do ciclope poder chegar mais perto, mas chegou tarde demais, e o ciclope o empurrou para o lado desferiu um golpe na minha perna. Eu ouvi o estalo e senti a dor lacinante, e soube que tinha quebrado minha perna. Gilly se recuperou do choque e cortou o pescoço do ciclope, que, segundos depois, virou pó.

— Lucas, o que foi isso?! — ele me ajudou a levantar, e fomos caminhando lentamente em direção à enfermaria.

A dor ainda estava lá, eu sabia, mas a onde de adrenalina impedia que eu a sentisse.

— Eu…

— Você o quê? Anos de treinamento para chegar aqui e fazer isso?

Olhei para baixo, frustrado e envergonhado.

— Foi ele.

— Ele quem?

— Aquele ciclope. Ele matou Elizabeth.

Gilly olhou para mim, com pena no rosto.

— Vamos. — depois disso, não falou mais nada.

O mundo ao meu redor se desfez aos poucos, e logo eu estava de volta ao grande corredor.

— Incrível como um acontecimento pode mudar sua vida, não é?

— Você tem razão. Mas é só isso?

Ele soltou uma risada, alta e com vontade.

— Só isso? Olhe bem para esse corredor! Está cheio de lembranças, e algumas tão saborosas que eu poderia ficar satisfeito por meses. Você é um pote de ouro, e planejo gastar cada moeda.

— Qual o sentido em me mostrar coisas que eu mesmo sei que já aconteceram?

Ele ponderou por alguns momentos.

— Boa pergunta. Não estou apenas te mostrando o que aconteceu, estou fazendo você reviver essas cenas.

— Isso é cruel.

— Não percebe? Estou te fazendo um favor. Você está tendo a chance de analisar seu passado de uma perspectiva diferente. Você pode ver os erros que cometeu, as escolhas que fez, as pessoas que magoou.

— Mas eu não vou poder mudar! Isso só vai pesar na minha consciência mais do que já pesa!

— Parabéns, você acabou de descobrir o meu segredo. Não uso armas, venenos ou feitiços. Uso apenas a mente das pessoas. Eu não faço nada, elas mesmo se destroem com as próprias lembranças.

Assim que disse isso, ele entrou na próxima lembrança.

— Como você aguenta ficar aí o dia todo? — perguntou Gilly, entendiado, sentado ao meu lado. Eu estava em uma poltrona na biblioteca, com o pé engessado apoiado em um banquinho, lendo um livro sobre as criaturas do Tártaro profundo. Abaixei o livro e olhei para ele.

— Eu não pedi para você vir me dar companhia, pedi?

— Não, mas você vai ficar louco de tanto ler. Você até dorme aqui!

— Eu gosto disso. E, além do mais, o que poderia fazer? — apontei para o meu pé quebrado.

— Você gosta? — ele olhou para mim desconfiado. Eu mantive meu olhar firme.

— Gosto.

— Qual é, Lucas. Quem você tá querendo enganar? Todo mundo sabe que você vive na biblioteca por causa da Elizabeth. Eu entendo, cara, você a perdeu. Eu sei que dói. Mas a vida continua.

— A sua vida continua. Você não vê? Ela era tudo que eu tinha. E agora, eu não posso lutar esgrima ou ir no caça à bandeira para passar o tempo. Você acha que eu ficaria no meu chalé, deitado na cama, dormindo o dia todo? Eu tenho que fazer algo de útil.

— Estudar? Não existe faculdade de semideus, parceiro. Você tá estudando para nada.

— E se você um dia sair em uma missão e der de cara com um monstro sobre o qual nunca ouviu falar, o que você vai fazer? Acha que os perigos lá fora são só ciclopes, harpias e minotauros? Existem centenas de monstros, e esses são só os que foram descobertos.

— E o que você pretende fazer?

— Eu vou ser pesquisador.

Ele riu, eu olhei com raiva para ele.

— Estou falando sério. Um dia, eu vou viajar por aí e conhecer cada criatura desse mundo, e vou registrar todas em uma enciclopédia.

Gilly pôs a mão no meu ombro.

— Tenho fé em você. Mas, para isso, você tem que curar sua perna. E a enfermeira não vai vir até a biblioteca ver como você está.

— Não me importo.

Ele deu alguns tapinhas nas minhas costas, levantou-se e saiu. Eu fechei o livro, frustrado.

— Eu preciso de mais conhecimento. Não é suficiente.

Voltamos ao corredor das minhas lembranças.

— O que seria suficiente, Lucas? — Teon perguntou, balançando a cabeça.

— Nada. Não se pode saber de tudo.

— Mas você achou um jeito, não foi?

— Não sei do que você está falando.

— Ah, não? Eu sei. Não se faça de bobo. Eu já vi todo o seu passado. Eu conheço cada sentimento seu. Eu sei os motivos de você ser o que é hoje. Mas conte-me, Lucas. Se Elizabeth morreu porque o Acampamento não tinha proteção, então Thalia ainda não existia. Como você pode estar aqui, Lucas? Como você tem as mesmas feições de antes de Thalia proteger o Acampamento? Como você não envelheceu? O que é suficiente?

— Pare! Pare com isso!

Ele estava conseguindo o que queria, e estava ficando satisfeito.

— Mostre-me, Lucas.

Ele entrou em outra lembrança. Essa era a mais sombria de todas.

— Você tem certeza? — disse ele.

— Acho que sim. — respondi.

— Isso pode custar muito mais do que você imagina. O que está me pedindo não é dado de uma forma fácil. Você irá sofrer.

— Não quero saber, eu aceito.

Ele usou minha faca para cortar meu pulso. O sangue quente e rubro caiu na pedra, fervendo de imediato. Um vapor vermelho subiu, entrando na minha boca e na dele abaixo do capuz. Nunca cheguei a ver o rosto dele. Assim que todo o vapor tinha sido consumido, minhas mãos ficaram douradas, depois meus braços, e, por fim, todo meu corpo, como se eu fosse feito de ouro puro. Até meus olhos se encheram de luz, não me permitindo ver nada.

Quando acabou, só restou eu, uma faca e uma tatuagem no ombro esquerdo.

Voltamos ao corredor. Assim que eu cheguei, caí no chão, tremendo.

— Sua cobiça acabou com você, Lucas. Ele te alertou das consequências, e, mesmo assim, você seguiu em frente. Agora você não passa de um mero escravo. Você tem tanto na cabeça, mas não pode compartilhar. Isso deve acabar com você. Como você se sente sabendo que vai ficar assim para sempre? Para toda a eternidade? — a voz dele deixou de ser em um tom calmo, e ele começou a gritar, aproximando-se a cada palavra, até me comprimir em uma das paredes imaginárias. — DIGA-ME! O QUE ESSE TRATO FEZ COM VOCÊ? POR QUE VOCÊ SEGUE O DYLAN? POR QUE VOCÊ NÃO O IMPEDE DE UMA VEZ? QUAL SERÁ A SUA VINGANÇA? RESPONDA!

— PARE! — eu gritei de volta. Lágrimas rastejaram sobre o meu rosto. — Eu não aguento mais! Deixe-me sair. Eu vou embora. Eu não quero a caixa. Eu só quero ir embora, para bem longe.

Teon começou a desaparecer, assim como o corredor e as lembranças.

— Corra, Lucas, corra!

Logo, eu estava sozinho, cercado por escuridão.

Ψ