Notas iniciais
E para começar esse ano produtivamente, vamos já postar um capítulo, o desabafo.

— Quem você acha que poderia ter mandado isso? — Perguntou Colin, enquanto colhia morangos e os colocava em uma cesta.

— Certamente eu estaria falando com você se soubesse.

Ele fez uma careta para mim e voltou à sua tarefa.

— Mas aconteceu algo ontem à noite — falei, chamando a atenção dele novamente.

— Durante o Caça à Bandeira? E o que foi?

— Quando eu fui pegar a bandeira principal deles, Lucas veio comigo. Eu a tirei do solo, e um rosto encapuzado apareceu, assim, do nada.

— Quem mais sabe sobre esse rosto?

— No momento, só Lucas e você.

— E sobre essa carta?

— Só você.

— Dylan, não esquenta, cara. Deve ser só algum filho de Hermes querendo te pregar uma peça.

Bufei, com raiva por que ele não acreditava em mim.

— Você ouviu direito o que tem nessa carta? “Você ainda pode”...

Ele me interrompeu no meio da frase.

— Você não pode salvá-las. Dylan, caia na real, já se passaram mais de dois anos. Elas estão mortas, entendeu? — Ele suspirou. — E, aliás, você nem sabe se “elas” são elas mesmo.

Ele olhou para mim por um tempo, depois voltou a colher os morangos.

— Certo… — Falei baixinho, depois saí, deixando que ele terminasse o que tinha que fazer.

Mas ele não tinha tirado essa carta da minha mente. Esse pedaço de papel trouxe de volta à minha mente o pouco que esses dois anos tinham me feito esquecer. Se isso era sério, eu iria até o fim, mesmo que eu tivesse que ir sozinho. Mas Colin tinha razão, por um lado. Eu não tinha como provar que eram elas, eu não convenceria ninguém com tão pouco, então eu fiz o que eu podia fazer: esperei.

Ψ

— Cinco… Quatro… Três… Dois… Um…

O barulho dos fogos e o grito dos campistas encheram meus ouvidos como uma explosão. Um brinde a mais um horrível ano que chega.

— Feliz ano novo, Dylan! — Gritou Lucas de algum lugar na multidão com um copo de vinho na mão.

— É… Obrigado, eu acho — mas ele não podia mais me ouvir, estava muito ocupado celebrando. Eu fui obrigado a vir para o píer com todos os outros campistas assistir à queima de fogos de ano novo. Tudo que eu queria era estar no meu chalé. Que chatice.

Mas tinha uma pessoa que eu não vi nessa “festa”. A que prefere ler a socializar-se. Só faltava descobrir onde ela estava.

— Colin, você está bêbado? — Perguntei, quando ele passou por mim.

— Ainda não, mas vou estar já, já. Então aproveite e pergunte o que tem que perguntar.

— Você viu a Hellen?

— Não sei, acho que sim, ela estava indo para a floresta, por quê?

— Nada demais.

— Sei. Até mais.

Se tinha uma coisa que eu sabia sobre os filhos de Atena, é que eles odiavam perder. Então claro que Hellen ficou pra baixo quando perdemos o Caça à Bandeira. Fui até o local do riacho onde ficou a nossa bandeira principal, e localizei ela lendo, com os pés sendo molhados pela correnteza. Eu não fazia ideia de como ela conseguia ler em uma floresta sem luz à meia-noite.

— Como sabia que eu estaria aqui? — ela perguntou, tirando os olhos do livro quando me viu chegar.

— Filhos de Atena não gostam de perder.

— Entendo. E o que há com você?

— Como assim? — perguntei, me sentando.

— Eu sei que você gosta de ficar no cemitério. Você iria direito para lá, mas tem algo te incomodando, algo que você precisa falar para alguém, por isso veio me procurar. Sou toda ouvidos. Isso se quiser falar, claro.

Suspirei. Peguei uma pedra e joguei no riacho.

— Aconteceu há dois anos atrás. Você não estava aqui, por que seu colar só tem uma conta de argila.

Ela assentiu, eu continuei.

— Foi quando eu descobri que era semideus. Mas não foi um sátiro que veio me resgatar, como normalmente aconteceria. Foram três meninas. Eu não sei qual era a urgência, só sei que aconteceu assim. Louise, Mirina e Julieta.

— A namorada do Colin?

— Essa aí mesmo. Enfim, eu vim para cá, para o Acampamento. Mais ou menos uma semana depois, fui convocado para uma missão. Percy, o outro filho de Poseidon, tinha sido sequestrado por alguém que se denominava “o ciclope mais forte”. Tinha uma profecia, que basicamente dizia que deveria ir o Sol, a Guerra, o Mar e a Morte. Um filho de Poseidon, no caso eu, que era o único; e filhos de Apolo, Ares e Tânatos. A decisão coube a minha, já que a missão viera para mim, então eu escolhi Julieta, Louise e Mirina. E nós fomos atravessar os Estados Unidos usando uma cadela infernal como transporte. Minha relação com elas era só amizade, exceto por Louise. Eu não sei, desde a primeira vez que a vi, achei ela linda. Quase morri para um ciclope por isso, do qual ela me salvou, a propósito. Mas, durante as duas semanas de missão, esse sentimento foi ficando mais forte, e de repente eu amava ela. Você pode achar que foi prematuro, mas foi mesmo, porém foi verdadeiro. Enfim, na nossa primeira parada, fomos atacados por três harpias malignas disfarçadas de garotas, que escondiam Colin na casa delas, e pretendiam usá-lo como comida, nós matamos elas e salvamos Colin, então começou aquele clima Louise/Colin, porque eles se conheciam, Colin tinha quase morrido pra salvar a vida dela e de Mirina uma vez, e eu admito, fiquei com ciúmes. Na segunda, nós fomos parar no meio da floresta de Raleigh, onde nos abrigamos em uma caverna que quase desabou sobre nossas cabeças, esse tipo de coisa. Então chegamos em Columbus, e tomamos abrigo em uma prisão. Lá, conhecemos uma filha de Hécate chamada Luna, que nos disse que havia uma “mestra” por trás de tudo isso. Foi lá onde Mirina morreu. Ela… morreu para nos salvar.

— Ela merece ser honrada, pelo visto.

— E foi. Em Columbus, nós conhecemos Edward, Gabriel e Anastasius. Eles estavam presos por um feitiço lançado por outra filha de Hécate. Não podiam ir além da rua deles. Mais tarde, nos encontramos com essa tal bruxa. O nome dela é Talassa. Os meninos foram só um artifício para ela se encontrar conosco. Ela sequestrou Louise, tentou nos enganar, mas Colin foi inteligente, a derrotou, obrigou ela a libertar os meninos. Ela fugiu. Então nós fomos parar bem na frete de um internato em Albuquerque, a cidade onde eu nasci. O internato era ao que eu pertencia. Eu perdi minha mãe quando tinha oito anos, então vivi de internato em internato. Lá, eu descobri que o diretor do internato era, na verdade, Poseidon, meu pai. Foi um choque e tanto. Dormimos no aquário onde Louise me salvou do ciclope, e um bando de zebras tentou me matar. Depois, a Sra. O’Leary, a cadela infernal, foi enfeitiçada, e fomos parar cada um em uma cidade da Califórnia. Eu parei em Los Angeles, onde fui salvo de alguns monstros por Edward, Gabriel e Anastasius, já livres. Eu encontrei Mason lá em Los Angeles também, no chão, todo machucado e sem memória. Até hoje ele não lembra quem é ou de onde veio. E foi lá também onde conhecemos a “mestra”. Ela era… minha mãe.

— O quê? — Hellen ficou esbugalhada.

— Não exatamente. Era um espírito antigo que se autodenominava “a deusa fantasma” que roubou o corpo da minha mãe e o usou. Eu estava cansado de ser salvo. Eu sempre era salvo, nunca salvava, eu queria fazer a diferença. Mas quando ela matou Louise... meu mundo caiu. Desde aquele dia eu me sinto impotente. Julieta “exorcisou” o espírito do corpo da minha mãe, mas a vontade dela era muito maligna, muito forte. Só funcionou por alguns minutos. Eu tive que…

— Não.

— É.

— Certamente não.

— Eu tive que matá-la. Eu a perdi de novo.

— Deuses. Eu sinto muito mesmo.

— Eu também…

— Mas já faz dois anos.

— Eu sei, obrigado.

— Não, digo, já faz dois anos, você poderia ter desabafado assim com qualquer um. Por que agora? Por que eu?

— Bem, agora porque me enviaram uma carta. Você porque o resto das pessoas está se divertindo como loucos lá na praia.

Ela riu.

— Bom argumento, mas que carta foi essa?

Tirei a carta do bolso e entreguei a ela.

— Eu nem sei se “elas” são realmente elas, mas eu sinto que são.

— Cara… Se for só uma brincadeira de muito mau gosto?

— Foi o que o Colin disse.

Ela pegou minha mão com as duas mãos dela.

— Ei, se for verdade, eu vou te ajudar, Dylan. Eu vou te ajudar a salvá-las.

— Só nos resta esperar.

Ficamos em silêncio por um tempo, olhando para o rio.

— Bom, eu tenho um lugar para ir — falei.

— E eu tenho um livro para terminar.

— Até mais. Feliz ano novo.

— Para você também.

Dei uma risada sarcástica. Ela sorriu, acenou com a cabeça e mergulhou no livro, eu fui para o cemitério. E lá, em pé defronte à lápide de Louise, eu fiz uma promessa.

— Vou trazer você de volta. Eu prometo.

Ψ