Estávamos em uma lanchonete bem na entrada de Columbus, onde a cidade grande ainda não estava evidente, comendo um pouco depois da longa viagem de trem. Eu mordiscava meu hambúrguer, porque não estava com fome, assim como Hellen, que ainda estava com dores na parte abdominal. Anne comia uma maçã que fizera brotar de um canudo, e Lucas não tinha pedido nada.

— E então? — perguntou Anne.

Eu estava com os pensamentos longe, e não a ouvi na primeira vez. Foi quando ela me deu um empurrão que eu me ressaltei, deixando o hambúrguer cair, que percebi que ela estava me chamando.

— O que foi? — indaguei.

— Já fizemos o que o Capuz pediu. Estamos aqui. E agora?

Hellen pigarreou.

— Ele disse que a chave de fenda nos ajudaria, não?

Anne cruzou os braços.

— E como uma chave de fenda vai nos ajudar?

— Não faço a mínima ideia.

Anne apontou o dedo para ela e abriu a boca para falar algo, mas parou no ato, porque seu bolso tinha começado a tremer freneticamente. Ela pôs a mão lá e tirou a chave de fenda, que tremia com tanta força que fez Anne deixá-la cair no chão. Então, ela começou a girar. Girou tão rápido que seu cabo de acrílico vermelho deixou a impressão de um círculo vermelho no ar. Depois de um tempo, ela parou de girar, mas o rastro vermelho continou lá, e se concretizou, formando uma espécie de disco plano. Nesse disco, um holograma se formou, mostrando uma casa velha e desgastada, que parecia ser a única em uma estrada rural.

Depois de alguns segundos, o disco sumiu, levando a imagem da casa consigo. Hellen estava boquiaberta.

— Que tipo de tecnologia é essa? Não é dessa época. Quem quer que seja esse cara do capuz, é alguém muito avançado.

— Anne, acho que isso responde a você. — disse Lucas, pela primeira vez em um bom tempo.

Anne cruzou os braços de novo.

— Quem é o mais idiota daqui?

A chave de fenda foi para o ar de novo e apontou para mim. Anne riu, e eu fechei a cara para ela.

— Tem como fazer algo de útil, por favor? Estamos tentando seguir em uma missão.

Ela mostrou a língua para mim.

— Onde é essa casa?

A chave de fenda caiu no chão, imóvel, como se fosse uma normal. Anne tentou fazer mais perguntas, mas a chave continuou parada. Anne bufou.

— Esse treco não funciona mais!

Ela aproximou a mão para pegar, mas, quando chegou perto, um brilho amarelado saiu da chave, e entrou pela boca de Anne, que desmaiou na hora. Lucas deu um salto da cadeira para pegá-la antes de cair no chão.

— O que aconteceu? — perguntei.

— Bom, coisa boa não foi — ele respondeu, verificando os sinais vitais de Anne.

— Para o q…

Parei no meio na frase pois Anne acordou de repente e se levantou com um único salto, assustando a todos. Ela passou a mão no cabelo, olhando ao redor, como se tivesse dormido em algum outro lugar e acordado ali.

— Anne? — Lucas chamou.

Ela olhou para ele com uma expressão vazia. Mas não parecia Anne. Ela estava estranha, com um olhar mais vago e um sorriso despreocupado no rosto.

— Quem é Anne? — ela perguntou, e levantou as mãos e olhou para elas como se fossem algo novo.

Eu, Hellen e Lucas franzimos a testa.

— Espere um minuto… — Hellen disse. — Ela é…

— Não pode ser — exclamei.

— Mas é — Lucas confirmou. — É a chave de fenda.

— Chave de fenda? — ela passou a mão pelo corpo de Anne, como se estivesse lá pela primeira vez. E, pelo visto, estava. — Que negligente. Meu nome é Mina. E não sou uma chave de fenda, apenas travei nessa forma.

— O que quer dizer com “travou nessa forma”? — Hellen perguntou.

— Travei, ora bolas. Você não sabe o que eu sou?

— Não — respondeu Hellen, meio envergonhada por não saber a resposta.

— Eu sou um Machindola.

— E o que seria isso? — perguntei.

— Pelo amor dos deuses — ela tentou revirar os olhos, mas só conseguiu fazer um movimento vesgo.

Lucas, vendo que ela já conseguia ficar em pé por conta própria, a soltou. Depois, sentou na cadeira e pigarreou.

— É um espírito das formas. Eles podem adquirir a forma de qualquer tipo de matéria. Ela deveria estar se camuflando no meio urbano quando se transformou em chave de fenda, então os mecanismos travaram.

Os olhos de Mina brilharam.

— Eu gosto desse aí. Ele sabe das coisas. Sabe até demais.

Lucas retribuiu o olhar desconfiado de Mina, mas depois sorriu.

— Nada que uns bons livros não façam.

— Olhem pelo lado bom — sugeriu Hellen. — Pelo menos a Anne não vai nos incomodar, por enquanto.

— Ah! Então Anne é a minha dona? Bem que eu notei algo brigando com a minha consciência aqui dentro — ela apontou para a própria cabeça. — Espero que ela me perdoe, mas recebi ordens de entrar no corpo dela para guiar vocês. Ai! — ela pôs as mãos nas orelhas, como se quisesse tirar algo doloroso de dentro dos ouvidos.

Eu ainda estava estupefato. As pessoas na rua passavam e olhavam para Anne — ou Mina, não sei — como se ela fosse apenas uma simples adolescente perturbada.

— Certo… — gaguejei. — Quem enviou você?

— Desculpe, semideus. Receio não poder dar essa informação a vocês. A única coisa que posso revelar é que, na hora certa, a verdade será revelada. E essa hora está mais próxima do que vocês imaginam. E, ah! Eu devolverei a consciência de Anne quando chegarmos ao nosso destino, que, aliás, fica… — ela lambeu a ponta de um dedo e pôs no ar, como se quisesse descobrir a direção do vento. — Trinta e nove graus, cinquenta e sete minutos e quarenta segundos norte. — Lambeu um dedo da outra mão. — Oitenta e dois graus, cinquenta e nove minutos e cinquenta e seis segundos oeste. Fica...

Ela fechou os olhos por alguns segundos, fazendo cálculos mentais complexos, e murmurando números durante o processo. Depois, concluiu:

— Por ali. — Mina apontou para uma saída atrás da placa da cidade que dava para uma estrada rural. — Lucas e Hellen estavam de olhos arregalados. — O que foi? Vai dizer que vocês não sabem fazer isso? Que mortais idiotas. Venham, tenho que devolver esse corpo ainda hoje.

Nós pegamos as mochilas e seguimos por aquela estrada, um olhando para o outro, e Mina à frente, nos guiando, cantarolando uma música natalina.

Ψ