— Anne, seu braço não dói? — eu perguntei enquanto corríamos, e o toco de Anne balançava para lá e para cá.

— Dói. Mas ninguém precisa saber, certo?

Um gigante disparou um rugido de cortar os ouvidos, o que nos fez correr mais rápido. Atravessamos a floresta em apenas alguns segundos, mas não achamos o caminho pelo qual viemos anteriormente. No horizonte, a cidade tinha sumido, e o castelo também. Pelo visto, era tudo um truque da névoa.

— Tem que ter uma saída, certo? — eu disse. — Não é como se tivéssemos que morrer aqui. Ainda tem o terceiro conde.

— Tem, claro que tem. O negócio é achá-la — Anne respondeu.

— Alguma sugestão? — Lucas perguntou, pensativo.

— Tem uma porta, não é? Por onde entramos aqui. Deve ser a saída também.

Ele assentiu.

— Mas como vamos achá-la? A cidade sumiu, não temos referência… — Anne disse, indo para lá e para cá. — Ah, que se dane. Com a idiota era tudo mais fácil — pela primeira vez, ela parecia triste com a palavra “idiota”.

Hellen.

Morta.

Outro rugido.

— Onde está o mapa? — perguntei.

— Na mochila da Hellen — Lucas respondeu.

Olhei para Lucas. Ele olhou para Anne. Ela olhou para mim. Eu olhei para ela.

— Fala sério. Idiotas. Vou arrancar a cabeça de vocês no Mundo Inferior.

Os gigantes já estavam perto o suficiente para que seus passos fizessem a terra tremer. Logo em seguida, já podíamos vê-los.

— OK. Como vamos passar por eles?

— Você assiste futebol? — Lucas perguntou.

— Está planejando bater de frente com eles? Acho que não vai dar muito certo.

— Não o americano. Futebol de campo.

— Não.

— Então vou te ensinar a dar uma caneta.

Anne franziu a testa e encolheu os ombros.

— O quê?

— Preste atenção.

Lucas soltou a mão de Anne e correu em direção ao gigantes.

— Ei! Está louco? — gritei, mas ele continuou correndo mesmo assim.

Não tínhamos outra escolha. Fomos atrás dele.

Os gigantes pareciam confusos com a decisão de Lucas de não fugir deles. Mas, assim que aceitaram a situação, começaram o ataque. Vinte e quatro mãos gigantes tentando pegá-lo e vinte e quatro pés gigantes tentando esmagá-lo, mas ele não parecia abalado. Quando algum tentava agarrá-lo, ele ficava parado e esperava o momento certo para sair. Então, passava por entre as pernas quando a criatura tentava pisar nele. Com a confusão, o gigante perdia o equilíbrio e caía no chão. Ele literalmente estava driblando.

— Uma ajudinha aqui seria bem legal! — ele gritou.

— É disso que estou falando! — Anne gritou, e correu de encontro a Peribeia.

— Meu deuses — resmunguei, e também corri para participar.

Logo, estávamos passando por entre as pernas de todos, até que estavam um sobre os outros, sem condições de se levantarem. Éramos ágeis o bastante para desviarmos de mãos de dois metros sem nos machucarmos. Impressionante.

— Venham rápido. Eles não vão ficar assim para sempre.

Voltamos para a caverna. Lá, achamos a mochila, mas nem sinal do corpo do Hellen.

— Ela merecia um funeral decente — eu disse.

— É, vai ter um na barriga de Polibotes — Anne rebateu.

Olhei para ela com raiva.

— O que foi? Eu disse a verdade.

— Nem sempre é conveniente dizer a verdade.

— Conveniente ou não, eu digo.

— As duas criancinhas poderiam vir aqui um instante? Olhem só isso.

Lucas nos mostrou o mapa. Hellen tinha desenhado uma nova rota onde não precisávamos atravessar a floresta. Basicamente, pegaríamos uma trilha ao lado da caverna que daria para uma ponte. Ao passar pela ponte, estaríamos na cidade que tinha sumido.

— Como ela sabe de tudo isso? Tem até anotações avisando sobre armadilhas e caminhos falsos — exclamei, surpreso.

— Acha que ela passava o tempo todo só olhando para você?

Anne riu.

— Mas o curioso... — Lucas continuou. — É que ela sabia que precisaríamos disso. Ela sabia que ficaríamos sem ela...

— Ela sabia que teria que se sacrificar.

Lucas estalou os dedos.

— É. Provavelmente.

Um pedaço do teto caiu ao lado de Anne. Pelo buracos, pudemos ver a cara feia de um dos gigantes nos olhando com fúria.

— Hora de correr de novo.

Saímos da caverna no exato momento em que o teto implodiu com um soco enfurecido. A maior parte da caverna tinha sido transformada em pó. A maioria dos gigantes já estava de pé, nos perseguindo novamente.

— Por ali — Anne gritou, apontando para a trilha indicada no desenho de Hellen.

Quando chegamos na ponte, meu coração batia tanto que doía. Meus pés pareciam se fundir ao meu tênis, e minha roupa estava encharcada de suor.

A ponte era feita de pedaços de tábua amarrados em cordas. Era firme, mas balançava, o que causava vertigem, já que a queda era de um precipício. Chegamos ao outro lado em segurança.

Mas, em contrapartida, os gigantes também estavam atravessando. Eles voltaram aos seus tamanhos de NPCs, suficientemente pequenos e leves para passar pela ponte sem que ela se partisse.

Lucas pegou duas adagas do bolso.

— Vocês…

Atirou uma adaga em uma das cordas que sustentavam a ponte.

— Não vão…

Atirou outra adaga na outra corda.

— PASSAR!

Ele deu um chute na primeira tábua, fazendo a ponte balançar incontrolavelmente. Já que não tinha sustento, as outras cordas se partiram, levando as tábuas consigo. Logo, os gigantes estavam em queda livre em direção ao rio que corria um quilômetro abaixo.

— Uau — Anne disse. — Pode me ensinar depois, mestre? — ela disse, com sarcasmo.

— Se você for uma boa garota, talvez. Mas olhe ali — ele apontou para algo que brilhava no chão, alguns metros à nossa frente.

Era o frasco da poção que Anne tomou quando o lobo arrancou a mão dela. Estávamos perto da provável saída.

— Tem mais alguma coisa brilhando ali — eu disse, apontando para um retângulo de luz em forma de porta.

Parecia que alguém tinha feito uma porta com fósforos e depois posto fogo em todos de uma vez. Ela estava literalmente pegando fogo.

— E agora?

— Você é filho de Poseidon, não?

— Ah, é claro.

Eu me concentrei, pensando no rio que corria pelo precipício. Algum tempo depois, um jato de água veio de lá e apagou o fogo, molhando, também, Anne e Lucas.

— Realmente engraçado. Quer outro soco? — Anne perguntou.

Toquei no meu nariz. Ainda estava doendo muito.

— Não, obrigado.

Abri a maçaneta e entramos na porta de fogo.

Mas não voltamos ao aquário.

Ψ